domingo, 14 de janeiro de 2018

Parnasianismo

Resultado de imagem para torre eiffel                Quando alguém me diz que foi a um restaurante francês tenho a impressão imediata de que essa pessoa tem um gosto refinado, é inteligente, sofisticada e acima de tudo, tem algum dinheiro sobrando.
                Há muito a França nos interessa, uma espécie de fetiche da nossa sociedade, almejando pelos prazeres parisienses. Aqui em São Paulo tem um bairro chamado Campos Elíseos, tradução livre de Champs-Élysées, famosa avenida francesa. Mas nem precisa ir tão longe pra sentir o encanto que a turma de Napoleão nos exerce, batom, sutiã, fondue, lingerie. Algumas palavras nem disfarçam a origem, e pra ser sincero, por que deveriam?
                O Brasil desde sempre foi uma cultura de mistura de povos, assim como na Europa, que se orgulha da “pureza cultural” mas que leva em seu DNA um caldeirão despejado de misturas e mais misturas: mouros, francos, bretões, latinos, nórdicos. Assim como nosso tupi, com europeu, africanos e mais e mais e mais. Até alemães e japoneses apareceram por aqui.
                Nosso encanto pela cultura francesa foi, ao longo do século XX, trocado pelo apreço pela dos norte-americanos, o que me leva a crer que nós não gostamos da França, mas sim daqueles que impõem sua cultura com mais poder ao longo da história, gostamos do que está em evidência. Então se a França tem influência em minha avaliação quanto a alguém ter gosto refinado ou não, os Estados Unidos da América o têm quando minha avaliação vale para o que é descolado, divertido, moderno.
                Logo, eu prefiro usar o verbo deletar mesmo tendo a palavra em língua portuguesa apagar exercendo papel idêntico e com uma letra a menos, o que derruba o discurso da velocidade da comunicação. E outras, afinal, qual vocábulo você encontra em português que substitua vídeo game, console, e algumas patuscadas como pen drive que não se chama assim em inglês, mas flashdrive, ou outdoor que não diz nada a quem conversa na língua da rainha.
Resultado de imagem para escargot                É neste debate que gosto de pensar o Parnasianismo. Um movimento que se desenvolveu na França, no Brasil e só. Simples assim: filhos de fazendeiros brasileiros viajavam para a França a estudos entrando em contado com o que havia de melhor sendo desenvolvido em termos de arte, cultura, literatura, pensamento enfim. Pois bem, com o que havia de ruim também, mesmo não pensando que tudo o que há de parnasiano seja mau, na verdade não é, o que peca neste estilo literário é a cópia farsesca que se faz dele no Brasil.
                A tentativa de um parnasianismo brasileiro, mas sem nenhuma identificação com a nossa cultura, jeito de pensar, falar e agir. Apropriação cultural? Não é disso que estou falando. Não acredito que seja ruim desenvolver o conceito de poesia como uma joia a ser lapidada e também me admiro com algumas belas composições de Olavo Bilac e dos demais parnasianos. O problema foi que em certo momento da nossa história literária esta passou a ser a literatura oficial. Isto sim o problema. Vou tentar ser mais claro.
                O Parnasianismo consiste em valorizar a forma do poema e não seu conteúdo, daí surgem textos racionais, pois são pensados para serem belos. A melhor metáfora vem do mais famoso poema parnasiano “Profissão de fé”, nele o eu lírico afirma que inveja o produtor de joias quando escreve e tem nele sua inspiração na composição de seus versos. O ourives escolhe entre as pedras as mais preciosas, lima o ouro, safiras, diamantes. Troque ourives por poeta e todo o material de ourivesaria por vocábulos literários, temos o objetivo do poeta parnasiano. O poeta usa a pena, o ourives o cinzel. O poeta palavras, o ourives, bom, acho que já deu pra entender. Mas vou além.
                Por que alguém usa um brinco? Uma joia no pescoço? Uma pulseira? A resposta óbvia: para enfeitar o corpo. Isso mesmo. Da mesma forma que uma joia enfeita o corpo um poema parnasiano enfeita o livro, as festas, as relações amorosas da provinciana classe média emergente paulista e carioca.
                Olavo Bilac ficou famoso em seu tempo e junto com Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formou o que foi chamado de a Tríade parnasiana. Seria como juntar os Três tenores, ou sei lá, Batman, Super Homem e Mulher Maravilha.
Resultado de imagem para caviar                Os poetas escolhiam palavras para gerar uma sensação estética no leitor, mas uma sensação vazia, como um jogador fazendo embaixadinhas acrobáticas e nunca entrar numa partida de verdade.
Bater bola é legal, mas ganhar um título é melhor.
E o que a Tríade Parnasiana fez foi muita embaixadinha: palavras vazias, lindas, mas vazias. Poemas que não se comunicam, mas que eram o sumo da beleza. Tão belo que beirava a cafonice.
                Exemplos não faltam para tal como o caso do soneto de Alberto de Oliveira, o “Vaso chinês:

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Resultado de imagem para estátua da liberdade                Divertido pensar que este tipo de poesia teve um bum literário no começo do século XX. Não havia festa sofisticada sem canapés, escargots, caviar e poesia parnasiana recitada pela filha mais velha do dono da recepção acompanhada pelo piano de calda.
                O texto parnasiano mais conhecido não foi composto por nenhum poeta da Tríade, foi escrito por Joaquim Osório Duque Estrada e cantado em forma de hino acompanhado pela música de Francisco Manuel da Silva. Sim, o nosso hino nacional é um poema parnasiano.
                Inversões sintáticas: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante” por que não “Às margens plácidas do rio Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo”, ou ainda “Ouviram o grito retumbante de um povo as margens plácidas do rio Ipiranga. Talvez se comunique mais.
Vocábulos raros: lábaro e flâmula no lugar de bandeira, brado em vez de grito, por garrida entenda brilhante e por clava dá uma consultada em algum bom dicionário.
Enquanto os hinos, em geral, servem para motivar e unir a nação em meio a algum evento, uma guerra, um terremoto, a abertura de um evento oficial, o amanhecer da tropa no quartel, uma partida de basquete. O hino brasileiro nasceu com o objetivo de enfeitar, ser bonito, assim como todo texto parnasiano. E é sim muito bonito, mesmo tendo problemas de construção que não caberia aqui desenvolver.
Resultado de imagem para mcdonald'sRecomendo o livro “O Xangô de Baker Street” de Jô Soares para uma visão interessante sobre o período histórico retratado aqui. A narrativa acompanha uma aventura do famoso detetive Sherlock Holmes convidado por sua majestade Dom Pedro II para resolver um crime ocorrido no Rio de Janeiro. O crime envolve um violino Estradivários, pelos pubianos, personagens fictícios como o próprio Sherlock e seu inseparável Watson com personagens reais como Dom Pedro II, Olavo Bilac, José do Patrocínio e outros. Porém o que chama a atenção é o choque cultural que o detetive tem com a terra brasileira, não por ser tudo muito diferente, mas porque aqui as pessoas se espelham na Europa em todos os aspectos da vida: roupas, hábitos, comida, móveis. Vale a leitura.
No mais, é interessante conhecer muito sobre o Parnasianismo porque nos leva a entender como em nosso DNA está a admiração pelo estrangeiro, o que em certa medida nos torna tolerantes, mas que em outra nos leva a ignorar as coisas boas que temos ao alcance das mãos.
É este debate que envolve identidade, noções de brasilidade e, é claro, poder, que unirá vários artistas, poetas, músicos, pintores, buscando entender o que havia de Brasil no Brasil e tentando encontrar a nossa própria voz. Nossas próprias letras.
Resultado de imagem para virado à paulistaNão há nada de errado de errado em pegar um modelo europeu e aplicá-lo por aqui, inclusive hoje. O grande ponto é fazê-lo em detrimento da própria cultura esquecendo que na literatura, como em todas as demais formas de arte, não basta ter um molde e repeti-lo crendo que assim estará com lugar garantido entre os grandes mestres. Isso valia para Bilac, Correia e Oliveira e também hoje para as novelas da Globo, distopias adolescentes, livros de auto ajudo ou o que for de livro da moda quando da ocasião em que você estiver tendo contato com este ensaio.
Para ser criativo é preciso criar. Para ser arte é necessária muita subjetividade. Os modernistas brasileiros estavam errados sobre muita coisa, mas sobre os parnasianos eles estavam muito mais do que certos.
O Parnasianismo teve o mérito de nos fazer olhar para o espelho e enxergar que poderíamos ser o que fosse, mas continuaremos sendo, acima de tudo, nós mesmos.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Realismo/Naturalismo

Resultado de imagem para cidade de deus-Realismo
                Há um livro chamado “Dom Casmurro”, você já deve ter lido ou ouvido falar, que conta uma história de amor impossível. Bento Santiago é apaixonado desde a adolescência por Maria Capitolina, sua jovem vizinha de “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” na fala de um dos personagens.
                Mas ainda falta algo a este enredo, na verdade alguma complicação, coisa que impeça o amor grandioso das duas criaturas que seriam, no ideário romântico, fadados a sofrer. E a complicação é que Bento tem que seguir as ordens de sua mãe que o prometeu a padre.
                Eis aí o clássico romântico: Bentinho ama Capitu, Capitu ama-o, mas não podem fazer para ficar juntos por conta de uma promessa materna. Bentinho tem de ser padre. E se repito ad nauseam é com o intuito de frisar bem que este é um problema repetido e repetitivo na história da literatura mundial. No Brasil mesmo há um livro chamado “O seminarista” de Bernardo Guimarães, o mesmo autor de “A escrava Isaura” que conta a história do amor impossível entre uma singela moça e um padre.
                Mas o que Machado de Assis fez de diferente nesta narrativa para ser considerado por muitos, e quando digo muitos, digo muitos mesmo; o que Machado de Assis fez de tão excepcional nesta obra para ser considerada um dos melhores livros da história da literatura?
                Respondo:
Em “Dom Casmurro” a história extrapola o final feliz. Uma narrativa romântica se inicia com o casal se apaixonando, segue com o impedimento amoroso e termina com casamento ou morte.
Machado não se satisfaz com isto e continua o enredo após o felizes para sempre nos brindando com a verdade nua e crua de um jovem inseguro, neurótico, ciumento, que chega a tentar o assassinato do próprio filho ainda criança, com a desculpa de que o filho pode não ser seu (tudo bem matar um menino desde que ele não seja seu filho, ok?).
Resultado de imagem para amarelo mangaTambém a presença quase viva de uma personagem feminina que domina o enredo na primeira e mais longa parte da obra, apontando caminhos, mostrando-se capaz de tudo para conseguir o grande amor de sua vida, mas que pode tê-lo traído após o casamento, na segunda parte da obra, e o pior, com o melhor amigo do marido, Escobar.
                (O livro não é apenas um simples caso de adultério, pra ser sincero existem camadas e camadas nesta obra que vale a pena ser revisitada ao longo da vida, mas como a proposta deste texto é voltada para o Ensino Médio e de explicação sobre o Realismo, deixo a oportunidade para a discussão sobre o “traiu ou não traiu” e outros tantos para um outro momento”)
                Enfim, o Realismo é muito mais que apenas realidade, uma das principais chaves para compreendê-lo é pensar em um casal separado lutando para ficar junto – romantismo, quando o casal está junto eis o movimento literário de Machado de Assis – a realidade batendo à porta.
E por que comecei esta explicação com “Dom Casmurro”? Porque neste livro fica explicita a desconstrução do caráter romântico do relacionamento amoroso.
Por exemplo, há um livro português de um escritor chamado Eça de Queiroz, “O primo Basílio”, nele Amélia já começa casada com Pedro e vai traí-lo com seu primo, o tal Basílio do título. Outro do mesmo autor “O crime do padre Amaro” conta que quando um padre quer ter um relacionamento amoroso nada o impedirá, nem igreja, nem sociedade, nem a promessa da mamãe e muito menos a própria consciência.
E na palavra consciência chegamos ao ponto central da proposta realista. Aqui o personagem é mais vivo, e é assim porque jura amor eterno à pessoa amada e não cumpre, assim como na vida real, e fica com um remorso de dois dias, talvez uma semana e aquele amor eterno passa, porque outro amor eterno aparece e assim por diante porque assim é a vida.
Resultado de imagem para filme estômagoO que o realismo faz é apresentar os conflitos humanos de nós todos, apontar que não somos rasos como o Robin Hood, nem tão poderosos como o Rei Arthur. Acreditamos e desacreditamos, amamos a pessoa e causamos muito mal a sua vida, à nossa própria.
O que temos a nossa frente são os maiores clássicos da literatura universal, escritores do mundo inteiro desvendando as profundezas da alma humana: Charles Dickens, Dostoievski, Tolstói, Eça de Queiroz, Flaubert, Machado de Assis e muitos outros.
Há um conto de Machado de Assis (mais um) chama-se “Noite de almirante”. Na história o marinheiro Deolindo e sua namorada Genoveva trocam juras de amor eterno antes do rapaz sair numa missão de seis meses no mar. Pois bem, ao voltar todos os seus companheiros de embarcação conhecem a história de seu amor, de suas juras, e o felicitam pela maravilhosa noite de almirante que terá com Genoveva. O óbvio da situação real é que após seis meses sem notícia do namorado Genoveva não apenas não o esperou como casou-se com outro homem. E o óbvio mais que óbvio é que Deolindo volta ao seu posto no navio e quando questionado por seus amigos sobre a noite de almirante, mente a todos envergonhado por ter sido trocado, pelas promessas descumpridas por ela e cumprida por ele, aprende que a realidade não é um livro romântico com personagens de valores éticos elevados que cumprem as promessas porque são, simplesmente, pessoas melhores, mas melhores por serem simples objeto de ficção, personagens rasos para utilizar uma classificação quase do senso comum.
O ser humano de verdade é capaz de alimentar as crianças carentes embaixo de um viaduto, doar milhões à caridade e esbofetear a esposa ao chegar em casa.
Resultado de imagem para filme estômagoOs livros realistas apontam um lado obscuro da mente humana. Em “Dom casmurro” Bentinho expulsa a esposa de casa porque ela o traiu, mas não tem nenhuma evidência, apenas o olhar da moça para o finado amante no caixão e o filho que imita a todos, mas imita muito melhor a Escobar, o eventual pai. O mesmo Bentinho pelo qual torcemos pela felicidade eterna na primeira parte da obra senta seu filho no colo nas páginas finais forçando-o a tomar veneno, ato falho disse “seu” filho. Será que era mesmo seu? Será que Maria Capitolina traiu seu marido com seu melhor amigo?
Fato curioso, na vida real nem sempre temos todas as respostas, assim como nos livros realistas, não raros somos enganados por pessoas boas, e pessoas ruins fazem gestos nobres e ações horrorosas são praticadas por aqueles que temos na mais alta consideração. Nascemos no meio da vida dos nossos pais e, se tudo ocorrer bem, partiremos no meio da vida dos nossos netos, quem sabe bisnetos. Mas a verdade é uma apenas: nem todas as pessoas nos veem com os mesmos olhos. Somos eternos meninos fofinhos para a nossa mãe, mas o moleque endemoninhado que quebrou a vidraça do vizinho, não foi por mal ele apenas estava brincando, deixa ele ser criança, todos conhecem histórias assim. No trabalho para alguns o exemplo de seriedade que se transforma, na visão de outros tantos, o maior puxa sacos baba ovo de todos os tempos. Lutar pelo sonho de ser ator sendo exemplo para muitos, ou de vadiagem na visão pessimista (realista?) de seu pai.
O Realismo se assemelha a um jogo de futebol enquanto o Romantismo a um de basquete. No futebol nada grandioso acontece, às vezes empatam, um feio zero a zero sem nenhuma emoção. No basquete o jogador é obrigado a lançar a bola a cada ataque e no tempo devido, não existe empate, não existe zero a zero.  A vida não é um jogo de basquete.
O exagero dos românticos abriu margem à busca por uma visão mais real do indivíduo, aquela que assegure a percepção de que não somos movidos apenas por impulsos externos e paixões frívolas; não somos tão éticos como gostaríamos de ser.
Em “Hamlet” de Shakespeare há a famosa frase “ser ou não ser, eis a questão”, minha interpretação favorita para esta frase é a de que podemos agir ou não agir, fazer algo ou não fazer. Podemos viver ou optar pela passividade, a ociosidade. O caso é que o personagem do realismo é muito humano justamente por optar pelo não ser, opta por não matar, por não fazer, não se vingar, então o que resta aos escritores é a descrição de seus pensamentos, o que deu origem ao que no futuro foi chamado de “fluxo de consciência” – assunto para outro momento.
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Não apenas o contraponto ao Romantismo serviu de pretexto para o Realismo, seria muito pouco, também o desenvolvimento científico, conhecimentos não aceitos até hoje como verdadeiros, mesmo com todas as comprovações necessárias dadas pela ciência, como a teoria da evolução das espécies desenvolvida por Charles Darwin em seu maravilhoso livro “A origem das espécies”.
Você vai precisar de algumas aulas com seu professor de biologia para se aprofundar um pouquinho nesse assunto, mas grosso modo posso dizer que todas as espécies se desenvolveram a partir de seres mais simples e foram, ao longo de milhões de anos, repito: ao longo de milhões de anos, se modificando, adaptando-se ao ambiente, buscando sobrevivência. Ou seja, tanto um camaleão mudando de cor, ou uma girafa com seu longo pescoço, não são assim desde a criação por pura vontade divina, mas foram se adaptando ao meio e como tinham vantagens frente aos demais indivíduos, chegaram até o período atual. E isso coloca o homem em meio a esta estrutura gigantesca de adaptações, classificando-nos como pertencentes à família dos primatas, o que vale dizer que nos adaptamos ao mundo de forma adversa de nossos parentes chipanzés, orangotangos, micos leões dourados e afins.
Muito para um simples cidadão do século XIX digerir, na verdade muita gente não engole isso até hoje, rebatendo Darwin com os mais não científicos dos absurdos, como: se eu vim do macaco como é que uma mulher nunca deu à luz a um chimpanzé?
Escrevi acima que você precisa de aulas de biologia para se aprofundar no tema, portanto foco este ensaio no Realismo e não em Darwin, mas digo uma das frases que mais escuto quando se trata deste assunto porque dá para sentir como o debate sobre evolucionismo é raso no Brasil. Também escrevi, linhas acima, que as adaptações levaram milhões de anos, portanto não é possível ver o caminho percorrido senão por indícios e muita pesquisa, muita pesquisa mesmo.
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Entro neste assunto porque houve os que nunca aceitaram as descobertas de Darwin como verdadeiras e os que a leram muito mal. Daí o surgimento de uma pseudociência totalmente escrota conhecida como eugenia, que propunha a limpeza das raças buscando purificar e melhorar o ser humano. Décadas depois Adolf Hitler fez o que fez, mas décadas antes de Hitler outros fizeram tanto e conseguiram na leitura mal lida de Darwin um pretexto para sua imbecilidade.
Isto e outras tantas correntes de pensamento como o determinismo que pressupõe que todos os seres nasceram determinados, mesmo que fosse jogado num ambiente de miséria uma criança rica se sobressairia por ser determinada a tal, caso não prosperasse o problema não era de ninguém. Justificam-se as misérias do mundo. 
O determinismo foi inteligentemente criticado por Machado de Assis em duas de suas obras primas: “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”. O determinismo e o positivismo. Esta última uma corrente de pensamento que consiste em ver um lado positivo em tudo, mesmo nas piores tragédias da humanidade, parafraseando um dos personagens: “a única tragédia seria não ter nascido”.
Assim o pensamento positivista crê que é necessário que pessoas passem fome para que outras possam se alimentar, “ao vencedor as batatas”. Aliás, cabe lembrar que o positivismo ficou tão popular entre os aristocratas brasileiros que seu maior lema foi parar na bandeira nacional. Isso mesmo, o “Ordem e progresso” quer dizer: que cada um fique no seu lugar para que tudo progrida (progredir seria sinônimo de evoluir?).
Pois bem: Darwinismo, muita ciência, evolucionismo no meio, eugenia, determinismo, positivismo; deu-se o caldo de cultura para o ser humano não ser tido como a maior das maravilhas. Daí o Realismo, também se formos um pouco mais a fundo e pensarmos o homem apenas como mais um dos habitantes deste ecossistema, cá estamos nós meros animais em meio a outros bichos.
E foi por esse caminho que os escritores realistas se afundaram até desenvolverem um realismo tão pesado, tão violento, tão realista (sic) que deixou de ser conhecido como realismo. Tratamos esta vertente com o nome de Naturalismo.

Resultado de imagem para esta noite encarnarei no teu cadáver-Naturalismo               
                Antes de seguir pensando o Naturalismo temos que lembrar que naturalista e cientista são sinônimos para os habitantes do século XIX. Logo, quando dizemos que certo escritor é naturalista temos que ter em mente que ele se via como um cientista e como todo cientista tem que se propor a fazer experimentos e comprovar teses.
                As teses que os escritores naturalistas querem provar têm a ver com a percepção em voga na época de que o homem não é um ser isolado na criação, superior a todos os demais animais, mas somos eu, você, seus pais, seus professores e o Papa apenas organismos lutando pela sobrevivência.
                O homem é um animal coletivo, influenciado pelo meio, movido por impulsos (sexuais principalmente) e sem nenhum caráter elevado, permanecendo em si o simples desejo de elevar-se na sociedade; assim como você já deve ter visto naqueles documentários sobre chimpanzés ou leões marinhos lutando pelo privilégio em ser o macho alfa.
                Os livros naturalistas tratam seus personagens não para dentro, analisando seu psicológico, mas muito mais preocupados em suas relações sociais, porque entende o indivíduo enquanto fruto do meio, portanto aparecem livros como “A germinal” do Francês Émile Zola tratando da história dos mineradores de carvão e suas agruras tais quais doenças ocupacionais, miséria, velhice, riscos do próprio ofício, exploração do trabalho por outros homens assim como numa colmeia ou num formigueiro.
                E por falar em colmeia, o principal livro do Naturalismo brasileiro “O cortiço” de Aluízio Azevedo trata do tema da vida em coletividade tendo como foco principal o próprio cortiço, sinônimo de colmeia.
O escritor cientista/naturalista Aluízio Azevedo elabora sua narrativa contrapondo dois ambientes distintos: um cortiço e um sobrado. E à medida que o cortiço se desenvolve e cresce, vai ficando cada vez mais parecido com o sobrado. Os moradores de ambos antes tão distantes ao fim se assemelham, os donos de ambos os locais que não se suportavam começam a ter laços familiares, os ambientes se misturam e passam a ter um mesmo pensamento.
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Mas não foi sem nenhum esforço que tal acontece. Para obter o sucesso o dono do cortiço, João Romão, faz de todas as artimanhas legais e ilegais, o que acaba por ser um maravilhoso retrato do caráter do brasileiro (pra ninguém dizer que a corrupção é coisa de agora nem apenas de pessoas ricas). Rouba, trapaceia, engana, conspira casamento com a filha de seu vizinho o que leva ao suicídio de Bertoleza, sua esposa por merecimento, mas não por direito já que a mesma é negra num período de escravidão e escrava já que João Romão falsificara uma carta de alforria e a entregou a seus antigos donos após ter o casamento com a filha do vizinho resolvido.
Mas o livro tem de tudo o que é de maldade e perversão um pouco: prostituição, alcoolismo, pedofilia, traição, sexo, muito sexo, guerra de gangues (tal qual a do tráfico de hoje, não se esqueça que o filme se passa no Rio de Janeiro), papagaios gritando como seres humanos pedindo socorro em meio a um incêndio, seres humanos urrando como animais atropelando-se para fugir do mesmo perigo, assassinato, suicídios (sim, há mais de um na obra) e aquele papo de que o ser humano é influenciado pelo meio, justiçamentos, muito determinismo, darwinismo social, e por aí vai.
Há outros livros do autor que seguem a mesma linha, “O mulato” e “Casa de pensão” são os mais recorrentes nas aulas de literatura, mas um não tão citado  “O livro de uma sogra”, muito mais contido, mas com vários elementos de genialidade, próprios de Azevedo..
O naturalismo é uma corrente muito popular nas artes, você pode encontrá-lo em filmes, quadros, peças de teatro.
O filme “Cidade de Deus” de Fernando Meireles e o “Tropa de Elite” de José Padilha são excelentes exemplos de como o naturalismo continua rendendo bons frutos narrativos. A literatura da década de 1930 faz uso das técnicas naturalistas comparando homens a animais, zoomorfizando pessoas e antropomorfizando bichos, vide a cachorra baleia de “Vidas secas” de Graciliano Ramos; ou os filhos do Chico Bento em “O quinze” de Rachel de Queirós.
Resultado de imagem para ninfomaníacaLer um livro deste período, tanto naturalista como realista, é para muitos um desafio como seria para os contemporâneos de Machado de Assis ler a “Odisseia” de Homero: muita descrição, detalhes que passariam despercebidos aos olhos de um leitor pós-moderno, contato com um mundo sem internet, sem automóvel, sem telefone, sem shopping centers, sem aviões, sem antibióticos e tudo o que traz a velocidade à nossa vida.
 Mas assim como está entre os clássicos gregos muito do conhecimento humano e uma maravilhosa forma de nos conhecermos enquanto pessoas, indivíduos individuais e coletivos, também está entre estes clássicos não tão antigos, perspectivas de críticas ao ser humano e a busca por caminhos que podemos e temos de percorrer se quisermos dar um salto de qualidade nas relações humanas.
Nada tão frustrante quanto ler “O cortiço” e perceber que as favelas ainda existem tais quais as do livro, pasmem, com os mesmos incêndios, as mesmas lutas de quadrilhas armadas. Ler “A germinal” e ver que o ser humano continua escravizando outros seres humanos, tanto em confecções do Bom Retiro em São Paulo, quanto em pequenas províncias chinesas.
Sem contar tantos outros temas centrais para a agenda de um novo mundo que precisa aprender muito com os experimentos científicos realizados nas mentes desses escritores que souberam enxergar muito mais do que apenas verdades na sua realidade imediata. Talvez tenham enxergado dentro da verdadeira alma humana.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Romantismo

Resultado de imagem para vampirosQuando assistia às aulas sobre Romantismo no antigo Segundo Grau ficava um tanto confuso com as professoras explicando o movimento literário de José de Alencar, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias e outros tantos escritores, poetas artistas que ajudaram a compor um cenário marcante da história da escrita nacional. Mas vamos com calma...
                Concordo com o exposto acima (estes escritores ajudaram mesmo a compor o cenário da escrita nacional), mas a abordagem, esta sim, estava um tanto equivocada.
Lembro-me das professoras apaixonadas cantando de cor os poemas de Álvares de Azevedo morrendo por amor e achava tudo aquilo muito ridículo.
Fui a fundo na leitura desses autores todos e nem precisei tanto, no próprio livro “Lira dos vinte anos” de Azevedo em sua segunda parte o próprio poeta satiriza seu comportamento excessivamente, como direi..., romântico. No poema “É ela, é ela, é ela”, por exemplo. Vale a pena dar uma lida.
E como é este comportamento?
                Pois bem. Você é romântico? Romântica? Gostaria de alguém assim ao seu lado?
                Imagine uma pessoa que morre por você, vive por você, manda flores, poemas, doces...  
                Esta figura o telefona diuturnamente e no meio da manhã você escuta um carro de som gritando seu nome “SÔNIA!!! SAIA SÔNIA!!!”  Ao fundo tocando Celine Dion no último volume acordando os vizinhos, sem você saber onde pôr a cara.
                Aí termina. Não tem mais relacionamento. Mas o seu namorado romântico não entende. Ele morreria por você. Ele mataria por você. Se não é para ficar com ele então não ficará com mais ninguém.
Muito perigoso, porque na vida real isso acontece, pessoas românticas matam, pessoas românticas morrem e, não sei qual a informação que você tem a respeito, mas o nome disso é crime passional, assassinato, suicídio, e não é uma coisa bonitinha.
                O romantismo é basicamente a estética da paixão. Paixão pela pátria, paixão por si, pela pessoa amada, por uma causa.
                A própria palavra paixão tem uma origem pouco afeita ao amor. O Romantismo não tem muito a ver com coraçõezinhos e beijo na boca. Na verdade, o romântico não se interessa muito por beijos. Mas estou sendo pouco didático, deixa eu ser mais claro:
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                Pesquisando a palavra “paixão” se percebe que sua origem vem da palavra grega “pathos”, que deu origem à palavra paixão, mas também à “patologia”, isto é, enfermidade, doença. Estar apaixonado é estar, de certa forma, doente. E você sabe disso, no período pascoal usa-se o termo “Paixão de Cristo” para se referir ao martírio infringido a Jesus.
Conclui-se que estar apaixonado é estar doente.
Conhece alguém que ao terminar um relacionamento parou de comer, deixou a barba crescer, parou de tomar banho, não queria falar com ninguém, se isolou no quarto debaixo das cobertas?
Gripe?
O romântico é o apaixonado nesse sentido, pois algo fora do normal acontece na cabeça de alguém que diz morrer e de fato morre, como nos livros e cito o maravilhoso “Amor de perdição” de Camilo Castelo Branco, ou Lucíola do já citado Alencar. A paixão que leva à morte.
Nesses enredos o que se exalta é um comportamento nada saudável. Note bem, o romântico não tem interesse na amada em questão, o que lhe interessa é o próprio sentimento, daí a professora do Segundo Grau me ensinando que o romântico é um egocêntrico.
Este comportamento tem mais a ver com o prazer que se extrai da dor que da afeição que se tem à pessoa amada. Então o desejo por amores impossíveis: a mulher casada, a prostituta, uma promessa feita no leito de morte de alguém, uma viagem, uma guerra, tudo o que impede o amor de acontecer.
Resultado de imagem para carrie a estranhaEm suma, imagine uma linha reta separando o ser amado da pessoa que a ama. O nome dessa linha é Romantismo. E neste espaço tudo o que couber de sofrimento, dor, autoflagelos, suicídio, tragédia.
Neste interim o casamento é o fim da fantasia, o beijo na boca o fim do sofrimento, o happy ending, o casal pulando juntos no abismo. Nada saudável, por certo.
Muita gente inteligente traça diversos caminhos de origem para o movimento romântico, eu prefiro pensar que o Romantismo é uma resposta humana demasiado humana ao processo de mecanização e industrialização da mão de obra.
Vou tentar ser mais claro: não havia como um jovem do século XVI pensar em sofrimento amoroso pois estava buscando água no poço para regar as plantações, muito ocupado em não morrer de fome. Quando o descendente deste jovem, três séculos depois, foi desobrigado disso por seu pai que o enviou à escola para assumir o controle da fábrica que lhe possibilitava passar horas e horas no ócio em frente às prateleiras da biblioteca, tendo contato com escritores, sonhos, desejos e mais ócio. Sim, na minha opinião a vagabundagem deu origem ao Romantismo e não há mal nenhum nisso.
A mocinha em casa, analfabeta séculos antes, agora poderia ler e, para não ter contato com o jornal direcionado aos homens, tinham uma folha apenas para elas, o folhetim, avô das novelas mexicanas e globais.
Havia a necessidade um texto menos prolixo, acessível. A linguagem romântica é coloquial, quase informal. Aberta aos não iniciados, mesmo cheia de vocativos, pontos de exclamações. Poemas para serem declamados em alto som, recitados à noite aos pés do túmulo da mulher amada, no leito de morte de um moribundo quase morto de paixão.
O Romantismo para alguns estudiosos da filosofia é a fundação do indivíduo, quando o homem se interessa mais por ele que pelo mundo que o cerca, mais ou menos isso.
Tendo a concordar, no Romantismo os livros passam a ter trajetórias mais pessoais que a das grandes histórias da antiguidade. Não é mais a história de Vasco da Gama cruzando o Cabo das Tormentas, mas a de Simão que se apaixonou por Teresa ao primeiro olhar, não mais Dante sendo levado ao inferno guiado por Virgílio, mas o inferno pessoal de Jorge e Carolina em A Viuvinha.
Resultado de imagem para amor doentioInfernos pessoais que abundam ainda no horário nobre dos diversos canais da TV aberta no Brasil, em telonas de cinema, revistas em quadrinhos.
Chegando a esse ponto é necessário separar duas ideias bem distintas. De um lado o comportamento romântico: sinônimo que superficialidade, egocentrismo, paixão doentia. E do outro o ideário romântico dos personagens: um homem que está abaixo dos deuses, mas acima dos homens comuns, de elevada ética e moral, pregador do bem e fiel à mulher amada.
Pois uma coisa é Berta: protagonista, personagem feminina do livro Til de Alencar. Outra muito diferente são as mulheres reais, alvos de comportamento passional.
O homem romântico da vida real é impulsivo, apaixonado, egocêntrico, pensa em seus sentimentos mais do que na mulher amada, como já dito aqui, se preocupa mais com a paixão que com o objeto de seu afeto, tanto que ao conseguir essa conquista perde o interesse. O romântico deseja o sofrimento.

Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
[Almeida Garrett]

                Sofrer por amor é sinônimo de uma vida plena para o homem do Romantismo. O que minhas professoras viam com muito bons olhos eu não consigo entender com a mesma simpatia.
                Já a mulher do Romantismo tem de ser impalpável. Longe, distante. Quase morta. Quanto mais perdido o sentimento mais ardoroso o amor.

                Pálida à Luz
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Resultado de imagem para pálida luz da lâmpada sombria 
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
[Álvares de Azevedo]

                Quase um cadáver. Na verdade, o ideal seria que ela morresse de fato, assim o sofrimento seria sem fim, o amor impossibilitado completamente e o desejo por dor seria atendido na mente doentia do romântico.
                Algumas informações sobre esses poetas causam espanto, alguns dormiam em caixões, frequentavam cemitérios, saiam no meio da noite fria enrolados em lençóis molhados com o objetivo de contrair tuberculose. Mais dor, mais satisfação dos sentidos.
                Alguns personagens claramente românticos: vampiros (o Conde Drácula), lobisomens, zumbis, corcundas (o de Notredame de Paris), monstros (o de Frankenstein).
                Fagundes Varela, poeta brasileiro deste período, chegou bêbado em casa e dormiu sobre seu filho recém-nascido, matando-o. O que lhe rendeu muito remorso, sofrimento e um lindo poema chamado “Cântico do calvário”.
Álvares de Azevedo morreu tuberculoso aos vinte anos de idade.
Castro Alves também morreu jovem dando um tiro no próprio pé em um acidente de caça.
Todos esses mortos jovens quase me lembram os roqueiros Jimmy Hendrix, Kurt Cobain, Sid Vicious, Janis Joplin, Cazuza, Renato Russo, Amy Winehouse (não tão roqueira assim) e outros tantos.
Resultado de imagem para homem aranha filme octopus                Já a construção dos personagens dos romances românticos são variações do mesmo tema: homem e mulher apaixonados e algo que os impede de realizar seu amor. Ao fim casamento ou morte.
                O homem sempre o herói que luta para levar seu amor à mocinha indefesa que o espera passivamente, às vezes um pouco menos passiva, mas sempre esperando seu amado com a boa nova do casamento. Ou com as ilusões destruídas, depressiva até o suicídio.
                Morrendo de amor. Romanticamente.
                Esta mesma estrutura se percebe ainda hoje no cinema, em filmes de heróis com super poderes (mais poderosos que os homens comuns, menos poderosos que os deuses). O Peter Parker com olhos desde a infância para a sua Mary Jane, o Clark Kent e Lois Lane e apenas ela, sem nunca olhar para o lado, sem nenhum conflito moral. O herói romântico sabe o que quer, tanto O guarani e Ubirajara quanto Flash Gordon e Bruce Wayne.
                Também uma outra característica romântica muito interessante é o fato de o espaço refletir, numa narrativa, os sentimentos interiores de um personagem. Como naquela cena de “A Branca de neve e os sete anões” em que a mocinha começa a cantar com os pássaros e todo o cenário se ilumina harmonizando sua felicidade de ar bucólico, ao morder a maçã o fundo escuro, sombras, a tristeza se aproxima, morte, luto, beijo na boca, suspense, luzes, justiça feita à mocinha, final feliz com a tela iluminada.
Resultado de imagem para mariana amor de perdição                Nas cenas finais dos filmes “Homem aranha”, os da primeira trilogia, em que o herói tem que resgatar a mocinha, sempre à noite, muita tensão, isto é, o cenário externo ajuda a compor o quadro de sentimentos e dor por que passam os personagens.
                A segunda metade do filme “Titanic” por exemplo.
                O Romantismo é diverso no mundo. Há um jeito alemão de ser romântico com Fausto entregando sua alma ao demônio Mefistófeles em troca do amor de sua vida, Werther e sua  propensão ao suicídio; um modo francês hugoano lutando por igualdade, liberdade e fraternidade em livros como “Os miseráveis” e no Brasil divido didaticamente em três fases: Nacionalista, Ultrarromântica e Condoreira.

-Fase Nacionalista
                Imagine o Galvão Bueno narrando os gols da seleção brasileira, mesmo levando de sete a um da Alemanha a culpa nunca é do Brasil, que é um país perfeito. Nos poemas dessa fase o que existe é uma exaltação sem par dos elementos nacionais, ou assim percebidos: os índios, a natureza, a própria malandragem brasileira (vide “Memórias de um sargento de milícias” de Manuel Antônio de Almeida).
                Isso se explica pela proximidade do Romantismo com o processo de afirmação da independência do Brasil. O maior expoente foi o talentoso poeta Gonçalves Dias, com o famosíssimo e popular “Canção do exílio” que de tão ufanista chega ser citado em nosso hino nacional.

                Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
[Gonçalves Dias]

-Ultrarromantismo
                É o estereótipo do Romântico. O movimento das paixões agindo de forma absurda direcionado a um objeto feminino impossível de ser alcançado.
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                Além do óbvio exagero no uso de bebidas alcoólicas, drogas, também a busca pela automutilação não apenas metafórica.
                O maior expoente brasileiro desse período é Alvares de Azevedo, autor de dois livros, um de poesia: A Lira dos vinte anos. E outro de contos: Noite na taverna. Este segundo conta com cenas esplendorosamente românticas com assassinato e necrofilia. Exclui totalmente do imaginário de senso comum que percebe o Romantismo como um estética ligada a coisas bonitas e delicadas.

                LEMBRANÇAS DE MORRER
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
[Álvares de Azevedo]

-Fase Condoreira
                Inspirada em Victor Hugo, escritor francês autor de “Os miseráveis”, os poetas desta fase se preocupam com os problemas sociais do mundo e que sempre abundaram em nosso país.
Resultado de imagem para os miseráveis                O maior problema social do período era, obviamente, a escravidão. Mas ainda assim o caráter romântico se apresenta, por exemplo quando o autor põe sua crítica num momento muito anterior ao seu período histórico. Como descrever uma cena do navio negreiro quando não havia mais este tipo de tráfico. Seria mais real e incisiva a crítica retratando uma senzala e criticando a sociedade construída a partir de tal premissa, não o fez, era romântico.
                Ainda nesta fase o amor acontece, porém, um amor já realizado. O sofrimento acontece pela ausência da amada depois de a já ter possuído.

Navio negreiro (Exemplo de crítica atemporal)
Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
[Castro Alves]

Boa-noite (Exemplo de amor realizado, o eu-lírico sofre por ter de se afastar da amada após uma noite de amor)

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio...
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Imagem relacionadaBoa noite!... E tu dizes – Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não me digas descobrindo o peito,
– Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve.. a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
– Desmanchado o roupão, a espádua nua –
o globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
– São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
– Boa noite! –, formosa Consuelo...

Por que estudar o Romantismo?

                No dia 13 de outubro de 2008 um rejeitado Lindemberg invadiu a casa de sua ex-namorada Eloá Cristina fazendo-a refém junto com seus amigos que haviam se reunido para fazer um trabalho escolar.
O sequestro durou várias horas e terminou com a morte da moça.
Se você voltar ao início deste texto e notar a explicação sobre o comportamento romântico, verá que o sequestrador segue todo  o modus operandi romântico e o fim trágico foi devido ao comportamento também romântico de polícia, família e mídia.
Resultado de imagem para pintura românticaPesquise no wikipedia sobre a tragédia e veja como uma solução mais racional vai ficando cada vez mais distante a medida que todos os envolvidos vão se deixando levar por seus sentimentos. (Há o absurdo de autorizarem uma das reféns, que havia sido libertada pelo sequestrador, a retornar ao cativeiro. Tudo sob os refletores dos canais de TV, internet e segurança pública).
Todas as pessoas precisam de alguma forma de afeto. O amor romântico é apenas uma das faces em que ele se apresenta.
Estudos apontam que a paixão é uma espécie de vírus que invade o corpo humano e tem o prazo de validade pré-estabelecido em, no máximo, três anos.  Uma visão um pouco fria a respeito dos sentimentos.
Vinícius de Moraes, grande poeta brasileiro, casou-se oito vezes, dizia querer viver eternamente apaixonado. Um caso quase patológico, assim como o do cantor Fábio Júnior e da dançarina Gretchen.
O que estou querendo dizer é que não se pode tomar decisões definitivas na vida tendo como ponto de partida um sentimento que embaça nosso raciocínio e que se transforma com o tempo. Não se pode basear o casamento em paixão. Não é saudável.
Resultado de imagem para narutoAssim como não é saudável querer controlar a vida da pessoa com quem se está relacionando, ou aceitar-se controlar. Cada ser humano tem seus desejos e aspirações independentes do parceiro ou parceira. Ciúmes, desejo, sexo, sonhos, e tudo o que faz parte de uma relação deve ser vivido intensamente, mas não pode ofuscar o brilho cada ser, o impedindo de cumprir de forma plena sua jornada humana.
Estudar o Romantismo deve servir como uma oportunidade para professores e alunos discutirem o modo como se estruturam os relacionamentos no mundo contemporâneo, debatendo o papel da mulher e o do homem na sociedade. Assim como os relacionamentos abusivos, compromissos prematuros, tribos urbanas nocivas, vícios, comportamentos românticos repetitivos na sociedade contemporânea que mostra uma tendência em querer acreditar em fantasias, própria de uma época de pessoas que se fantasiam de Naruto, sonham ser astronautas e nunca leem um livro até o fim. Mas que acreditam que “tudo pode ser, se quiser será, sonhos sempre vêm pra quem sonhar”, porém não conectam seus fracassos às suas ações ou inações.

No mais, fora da escola, o movimento Romântico deve ser compreendido como o desejo do ser humano pelo impossível. A eterna busca da felicidade e uma janela aberta para o sol entrar iluminando fundo o nosso coração. Ou quem sabe, muito inspiração para alguns apaixonados beijos na boca.