terça-feira, 17 de março de 2026

Catecismo

 Há algo curiosamente familiar na maneira como o chamado politicamente correto se instala no debate público. Não me refiro aqui à preocupação legítima com respeito ou civilidade — virtudes que qualquer sociedade minimamente decente deveria cultivar —, mas à estrutura moral que se forma em torno dele, uma estrutura que lembra, em certos momentos, menos um conjunto de recomendações éticas e mais um catecismo. Um catecismo laico, sem transcendência, mas com mandamentos claros, pecados catalogados e uma liturgia própria de expiação.

Como nos antigos manuais de conduta religiosa, há sempre uma lista implícita do que pode e do que não pode ser dito. Certas palavras tornam-se impuras, certos raciocínios são interditados, certas dúvidas são vistas como sinais de desvio moral. Não se trata apenas de discordar de uma ideia, o que seria perfeitamente normal na arena pública, mas de atribuir ao dissidente uma espécie de falha de caráter. O erro deixa de ser intelectual e passa a ser moral. E uma vez que o erro é moral, o objetivo já não é refutar, mas converter.

Essa lógica produz um curioso clima de vigilância ética difusa, na qual cada indivíduo se transforma simultaneamente em fiel e inquisidor. As redes sociais funcionam como pequenas paróquias digitais, onde os fiéis observam uns aos outros em busca de heresias verbais. Uma frase mal formulada, uma piada deslocada ou uma opinião fora do catecismo pode desencadear o equivalente moderno da confissão pública: o pedido de desculpas ritualizado, geralmente acompanhado da promessa de aprendizado e redenção.

O curioso é que, como em todo moralismo, a questão central não parece ser exatamente a melhoria concreta da vida das pessoas — tarefa lenta, complexa e frequentemente frustrante —, mas a manutenção de uma ortodoxia simbólica. A pureza da linguagem passa a valer mais que a transformação da realidade. Como se a correção das palavras pudesse, por si só, absolver a dureza dos fatos.

Esse fenômeno cria uma espécie de culpa preventiva. Antes mesmo de falar, o indivíduo já se pergunta se não estará cometendo algum pecado semântico. A espontaneidade, que sempre foi a matéria-prima da conversa humana, começa a ser substituída por uma autocensura cuidadosa, quase burocrática, como quem preenche um formulário moral antes de abrir a boca.

E, como acontece em todo sistema moral rígido, a consequência paradoxal pode ser justamente o contrário do pretendido. Em vez de promover empatia, muitas vezes produz ressentimento; em vez de estimular diálogo, provoca silêncio ou cinismo. Porque quando a conversa pública passa a funcionar como tribunal permanente, as pessoas não necessariamente se tornam melhores — tornam-se apenas mais cautelosas.

Talvez o problema não esteja no desejo de civilidade, que é legítimo, mas na tentação permanente de transformar normas de convivência em doutrina moral absoluta. Sempre que isso acontece, seja em igrejas, partidos ou movimentos culturais, a sociedade troca a difícil arte de conviver com diferenças pela confortável ilusão de separar os justos dos pecadores.

E a história, essa velha professora mal-humorada, costuma lembrar que toda vez que uma sociedade acredita ter finalmente encontrado a lista definitiva dos pecados — é apenas o começo de uma nova forma de intolerância.

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