Outro dia me perguntaram qual era o meu CID, não o endereço onde moro nem o CEP que orienta os carteiros a encontrarem minha casa no meio da cidade, mas aquele outro, frio e clínico, composto de letras e números que, segundo a fé contemporânea na medicina e na classificação das almas, deveria explicar por que alguém é como é, por que pensa o que pensa, por que sente esse leve desalinho diante da realidade que para muitos parece perfeitamente normal.
Vivemos, afinal, na era dos códigos, uma época em que quase tudo precisa ser reduzido a uma sequência de caracteres que organize o caos humano em pequenas gavetas científicas, como se fosse possível numerar a tristeza, catalogar a ansiedade ou registrar oficialmente aquela estranha sensação de deslocamento que às vezes nos visita no meio da tarde, quando olhamos pela janela e temos a impressão incômoda de que o mundo inteiro está participando de uma peça cuja lógica nós simplesmente não conseguimos compreender.
Pediram meu CID com a naturalidade de quem solicita um documento na portaria da existência, como se cada um de nós carregasse no bolso um pequeno prontuário da alma, pronto para ser apresentado sempre que alguém quisesse confirmar que nossas manias, nossas ironias ou nossos silêncios estão devidamente registrados em algum manual técnico que pretende explicar o ser humano com a mesma serenidade com que se descreve o funcionamento de um motor.
Fiquei pensando nisso enquanto voltava para casa, caminhando por uma cidade que parecia excessivamente normal para um mundo tão evidentemente desajustado, onde as pessoas atravessavam a rua com pressa para chegar a lugares que provavelmente não as fariam mais felizes, onde vendedores anunciavam promoções urgentes de coisas desnecessárias e onde, em algum lugar da calçada, um cachorro latia para o vazio com uma honestidade emocional que raramente encontramos entre os próprios seres humanos.
Quando finalmente cheguei em casa, sentei diante do computador e comecei a escrever, como faço sempre que alguma pergunta dessas fica girando na cabeça com a insistência de um pensamento que se recusa a ir embora, e foi então que percebi algo que talvez explique muito mais sobre mim do que qualquer código médico poderia explicar.
Cada crônica que escrevo é, de certa forma, um sintoma.
Há textos que revelam uma melancolia discreta que insiste em se acomodar comigo nas primeiras horas do dia, quando o café ainda está quente e o mundo ainda não decidiu completamente qual será sua dose diária de absurdo; há outros em que aparece um cansaço antigo diante do espetáculo humano, como se eu estivesse assistindo há tempo demais à mesma peça mal ensaiada, cujos personagens continuam repetindo falas previsíveis enquanto fingem acreditar que tudo aquilo é novidade.
Existem também aquelas crônicas em que a ironia surge quase involuntariamente, não como um recurso literário cuidadosamente planejado, mas como um mecanismo natural de defesa contra a estupidez cotidiana, porque quem observa demais o comportamento humano acaba descobrindo que o riso, quando vem misturado a um pouco de amargura, é muitas vezes a única forma razoável de atravessar certas cenas da vida.
Imagino que, se um psiquiatra lesse todas essas páginas com o olhar técnico de quem procura padrões e sintomas, talvez conseguisse redigir um laudo bastante detalhado; se um filósofo se debruçasse sobre os mesmos textos, provavelmente escreveria um ensaio sobre a inquietação moderna; e se um editor examinasse tudo com pragmatismo profissional, talvez apenas pedisse mais capítulos.
Mas nenhuma dessas leituras resolveria o mistério por completo.
Porque a verdade, que às vezes aparece de forma quase constrangedoramente simples, é que meu CID não está em um prontuário médico nem em um relatório clínico cuidadosamente arquivado em alguma gaveta institucional.
Meu CID está nas minhas crônicas.
Está no incômodo persistente diante da banalidade com que o mundo costuma tratar aquilo que deveria nos espantar; está na nostalgia inexplicável por coisas que talvez nunca tenham existido exatamente da forma como imaginamos; está, sobretudo, nesse espanto permanente diante daquilo que a maioria das pessoas insiste em chamar de normalidade, como se o simples fato de algo acontecer todos os dias fosse suficiente para torná-lo plenamente compreensível.
Escrever, no fundo, acaba sendo uma espécie de exame clínico da alma, um procedimento silencioso através do qual tentamos entender o que nos atravessa enquanto atravessamos o mundo.
Alguns procuram terapia, outros confiam nos remédios, outros ainda se ocupam em colecionar distrações que tornem a vida mais suportável; eu, talvez por falta de opções mais eficientes, coleciono parágrafos.
Cada texto acaba se transformando em um pequeno prontuário sentimental, no qual as metáforas funcionam como tentativas provisórias de diagnosticar a vida, mesmo sabendo que certos sintomas da existência humana resistem teimosamente a qualquer classificação definitiva.
Talvez seja por isso que eu sempre desconfie um pouco das pessoas perfeitamente equilibradas, dessas que parecem caminhar pela vida com a serenidade impecável de quem jamais precisou fazer perguntas incômodas sobre o sentido das coisas.
Elas me parecem saudáveis demais para serem verdadeiras.
As conversas realmente interessantes, aquelas que nos fazem perceber que não estamos sozinhos nesse leve desalinho com o mundo, quase sempre acontecem entre pessoas que carregam alguma rachadura invisível, algum desalinho discreto que as impede de aceitar a realidade exatamente como ela se apresenta.
No fundo, suspeito que todo cronista seja apenas um paciente que resolveu abrir um consultório de palavras, onde recebe diariamente as pequenas inquietações da vida, examina cada uma delas com a curiosidade de quem procura entender o funcionamento secreto da existência e, depois de algumas páginas, devolve ao mundo um diagnóstico provisório.
Se algum dia alguém insistir novamente em saber qual é o meu CID, acho que finalmente terei uma resposta adequada.
Não é um número.
São algumas páginas.
E, como todo bom diagnóstico humano, continuam em observação.
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