quinta-feira, 12 de março de 2026

O olhar do Totó...

Há muitas maneiras de olhar o mundo.

A maioria delas é cansada.

Os adultos olham com pressa. Olham calculando contas, compromissos, frustrações acumuladas em gavetas invisíveis. É um olhar que mede, pesa, desconfia. Olhar adulto raramente é inocente.

O olhar do Totó não.

Totó é um pug — um desses cães que parecem ter sido desenhados por um caricaturista sentimental. Cara amassada, olhos grandes demais para o próprio rosto, um corpo compacto que se move pela casa como uma pequena locomotiva de afeto, anda um pouco torto e sempre esteve acima do peso.

Mas o que realmente o define não é a cara amassada.

São os olhos.

Há momentos em que estou sentado no sofá, perdido em algum pensamento inútil, desses que os humanos produzem em grande quantidade, e percebo que ele está me olhando.

Não um olhar qualquer.

É um olhar paciente.

Totó não pede nada naquele momento: não quer comida, não quer passeio, não quer brinquedo. Apenas me olha como quem contempla alguma coisa importante. Como se eu fosse, naquele instante, o acontecimento mais relevante do universo.

É desconcertante.

Passei a vida cercado de olhares humanos: curiosos, críticos, indiferentes. Olhares que julgam, comparam, que procuram defeitos escondidos.

O olhar do Totó não faz nada disso.

Ele apenas gosta de mim.

E gosta com uma simplicidade constrangedora.

Penso que os cachorros são filósofos silenciosos. Eles descobriram algo que nós, humanos excessivamente inteligentes, esquecemos: o valor da presença.

Totó não está interessado no que eu fiz ontem nem no que farei amanhã. Não pergunta sobre conquistas, fracassos, currículo ou reputação. Ele não quer saber se fui um bom filho, um bom profissional ou um cidadão razoável.

Para ele, basta que eu esteja ali.

Respirando.

Existindo.

E talvez seja por isso que seu olhar tenha essa qualidade rara de ternura: ele não vem carregado de expectativas.

Vem carregado de aceitação.

Quando chego em casa, ele corre em minha direção como se eu tivesse voltado de uma guerra longa e heroica, mesmo que eu tenha apenas ido ao mercado comprar pão. Quando me sento, ele se acomoda perto. Quando estou quieto, ele me observa.

E, naquele olhar, existe algo que poucos humanos conseguem oferecer: uma forma de carinho que não precisa de palavras.

Às vezes penso que Totó enxerga em mim uma versão melhor de quem eu realmente sou. Talvez os cachorros tenham esse dom — ver o que ainda não conseguimos ser.

Se isso for verdade, então o olhar do Totó não é apenas carinho.

É esperança.

A esperança silenciosa de que eu ainda consiga merecer o amor que ele já decidiu me dar.

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