Na primeira parte desta crônica falei sobre coesão. Aquela velha palavra das aulas de língua portuguesa que deveria unir ideias como costura invisível, impedindo que o texto se transforme num monte de frases soltas.
Pois bem.
O problema é que a falta de coesão não ficou apenas nos textos escolares. Ela escapou da gramática e foi morar no debate público.
Hoje em dia há uma multidão opinando sobre língua portuguesa com a mesma segurança com que um bêbado opina sobre física nuclear no balcão de um bar.
A diferença é que o bêbado, ao menos, tem a decência de admitir que está bêbado.
Vivemos uma época curiosa: pessoas que não dominam o alfabeto querem reformar a gramática. Gente que nunca abriu um livro de linguística decide, em assembleia moral, como a língua deve funcionar.
É mais ou menos como se alguém que não sabe dirigir resolvesse redesenhar o código de trânsito.
Ou como se um sujeito que nunca viu um microscópio resolvesse discutir biologia molecular.
Mas há algo importante que parece ter sido esquecido: gramática é ciência.
Não é opinião.
Não é ativismo.
Não é votação em rede social.
A gramática é o estudo sistemático da estrutura da língua — algo que linguistas, filólogos e gramáticos analisam há séculos. É fruto de observação, descrição, método e tradição intelectual.
Quando alguém decide ignorar completamente essa estrutura para inventar uma nova forma de funcionamento da língua, não está fazendo ciência.
Está fazendo crença.
E aqui entramos numa ironia deliciosa.
Vivemos numa era que se orgulha de combater o negacionismo científico. Ridicularizamos — com razão — quem rejeita vacinas, quem acredita que a Terra é plana, quem acha que astronautas da NASA foram atores de Hollywood.
Mas curiosamente surgiu um tipo novo de negacionismo: o negacionismo gramatical.
Ele funciona assim: a pessoa ignora toda a estrutura histórica e científica da língua e decide que, a partir daquele momento, certas regras simplesmente não existem mais.
É como se alguém dissesse:
— A gravidade me parece meio opressiva. Acho que vou parar de acreditar nela.
O resultado é previsível.
A língua deixa de ser um sistema e vira uma espécie de parque de diversões sem mapa.
Entre as várias ideias que surgem nesse cenário está a tentativa de introduzir pronomes neutros na estrutura do português como se bastasse desejar que a língua mudasse para que ela mudasse.
Mas língua não funciona assim.
Língua não é decreto.
Língua é sistema.
Ela evolui lentamente, organicamente, através do uso coletivo ao longo de décadas ou séculos. Não por decisão súbita de um grupo que resolveu que a gramática estava moralmente ultrapassada.
Dizer isso não é intolerância.
É simplesmente reconhecer que existe uma estrutura científica por trás da língua.
Negar essa estrutura é, no fundo, fazer com a gramática o mesmo que os terraplanistas fazem com a geografia.
Eles olham para séculos de estudo, mapas, satélites, observações astronômicas e dizem:
— Acho que não é bem assim.
Da mesma forma, há quem olhe para séculos de estudo linguístico e diga:
— Acho que a gramática deveria funcionar de outro jeito.
A diferença é que o terraplanista costuma provocar risadas.
Já o negacionista gramatical às vezes é convidado para palestras.
Talvez este seja o sintoma mais curioso do nosso tempo.
Nunca houve tanta informação disponível.
E nunca houve tanta gente falando com tanta segurança sobre aquilo que não estudou.
No fundo, a coesão continua perdida.
Não apenas nos textos.
Mas também no raciocínio.
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