Capacete ainda morno de suor alheio, calcinha rendada esquecida no box, cueca de elástico frouxo, meia com cheiro confessional, escova de dentes mastigada até o talo, fio dental com restos de jantar, palito de unha, toalha úmida embolorada no gancho, desodorante roll-on fazendo turismo de axila em axila, lâmina de barbear com pele estrangeira, sabonete gasto com impressões digitais indecifráveis, esponja de banho saturada de intimidades microscópicas, bucha vegetal em decomposição filosófica, chinelo moldado ao formato exclusivo do pé, palmilha ortopédica personalizada, protetor bucal com arcada registrada, aparelho dentário removível, prótese dentária repousando em copo suspeito, colírio pingado em conjuntivas democráticas, lente de contato boiando em solução duvidosa, óculos de grau calibrados para miopias particulares, cotonete reincidente, alicate de unha com vestígios, pinça de sobrancelha conspiratória, batom mordido, gloss compartilhado, base oxidada, corretivo estratégico, pincel seboso, esponja de maquiagem úmida de segredos dérmicos, creme antiacne, pomada para micose, remédio controlado, cartela pela metade, exame clínico dobrado na bolsa, histórico médico confidencial, receita psiquiátrica, absorvente íntimo, coletor menstrual, fralda geriátrica, preservativo no bolso errado, vibrador silenciado na gaveta, pilhas gastas, manual escondido, pijama amarrotado, travesseiro com mapa de baba seca, cobertor com cheiro de insônia, copo de uso contínuo com marca de batom persistente, garrafa térmica com saliva reciclada, marmita requentada, talher lambido, protetor labial rachado, toalha de rosto comunitária por descuido, escova de cabelo carregada de fios, elástico arrebentado, aparelho auditivo, molde de ouvido, fone intra-auricular engordurado, aparelho CPAP noturno, máscara de dormir impregnada de sonhos, senha do celular anotada em papel amassado, cartão do banco plastificado, token de segurança, biometria digital, reconhecimento facial, diário com cadeado frágil, carta nunca enviada, foto íntima arquivada, pen drive rotulado “trabalho”, pen drive real, anotações de terapia, print constrangedor, conversa arquivada, rascunho de demissão, rascunho de amor, aliança empenada, contrato pré-nupcial, testamento improvisado, segredo de família, dívida oculta, trauma de infância, apelido humilhante, apelido carinhoso, fantasia guardada, fantasia descartada, silêncio espesso, silêncio comprado, silêncio cúmplice — tudo exposto, tudo antes privativo, tudo misturado e vazio, sem luto, sem indecisão, tudo finito, tudo coisa a desvendar e desvendada em hábitos que não podemos sustentar, tudo reduzido a objeto circulante, etiqueta arrancada, manual ignorado, fronteira apagada, corpo em comodato, intimidade em consignação, segredo em liquidação, desejo em vitrine, vergonha em estoque, nojo em promoção, identidade terceirizada, individualidade reciclável, afeto higienizado, memória compartilhável, senha replicável, pele permutável, saliva socializada, medo diluído, trauma comentado, gaveta arrombada, diário fotocopiado, travesseiro coletivo, consciência de uso comum — tudo tão disponível que já não pertence, tudo tão tocado que já não toca, tudo tão aberto que já não é nosso, circuito fechado de empréstimos impossíveis, devoluções impraticáveis, perdas sem protocolo, devoluções sem recibo, e no fim apenas isso: um amontoado de intimidades transformadas em coisa alguma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário