Conheci muitos jovens inteligentes que sabem tudo sobre o algoritmo do momento e nada sobre o homem. Sabem editar vídeos em quinze segundos, mas não suportam uma página inteira de um romance do século XIX. Têm opinião sobre geopolítica porque viram um corte de trinta segundos, mas jamais sentaram para ouvir, em silêncio, um morto que escreveu há duzentos anos. E é por isso que, se me fosse permitido dar apenas um conselho — um único, seco, impopular, antipático — eu diria: leiam os clássicos.
Sim, eu sei. Parece coisa de velho ranzinza que começa frase com “no meu tempo”. Talvez eu seja esse velho. Mas há uma diferença entre o saudosismo e a constatação amarga: tudo o que é permanente se transforma em clássico. E tudo o que é provisório apodrece antes de terminar a estação.
O jovem de hoje — e não o culpo inteiramente — foi convencido de que vive o auge da humanidade. Acredita que a história começou com a internet e que o mundo nunca foi tão complexo quanto agora. Se tivesse lido Guerra e Paz entenderia que a complexidade humana já era indecifrável quando Napoleão ainda respirava. Se tivesse atravessado Os Irmãos Karamázov perceberia que as crises de fé, de moral e de sentido não nasceram no Twitter. Se abrisse Dom Casmurro descobriria que a dúvida corrói mais que a traição — e que o narrador nunca é inocente, sobretudo quando parece sincero demais.
Mas não. Preferimos o comentário sobre o comentário do comentário. Preferimos a reação à reação. A vida virou rodapé de si mesma.
Outro dia ouvi um adolescente dizer que não vê sentido em ler coisa “antiga”. Antiga. Como se o amor tivesse sido atualizado na versão 3.0. Como se a inveja tivesse recebido patch de segurança. Como se a morte tivesse deixado de funcionar. Bastaria ler Hamlet para entender que a indecisão já matou mais do que qualquer espada. Bastaria folhear A Ilíada para perceber que a ira continua sendo o motor secreto das guerras — pessoais e coletivas.
O clássico não é clássico porque é velho. É clássico porque continua verdadeiro quando tudo ao redor envelhece. Ele resiste às modas, às hashtags, às teorias pedagógicas da estação. Ele atravessa regimes, revoluções, reformas curriculares e planos nacionais de educação. Ele fica. O resto é espuma.
E aqui vai a parte pessimista que ninguém gosta de ouvir: perder tempo com o provisório é matar a vida um pouquinho todo dia. Não de forma dramática, não com sirenes ou tragédias gregas. É uma morte silenciosa, por distração. Você troca uma hora de Crime e Castigo por uma hora de vídeos aleatórios. Parece pouco. Mas faça isso por cinco anos. Depois me diga o que sobrou.
Não se trata de elitismo. Não é uma defesa esnobe de estantes empoeiradas. É uma questão de densidade existencial. O clássico ensina a sofrer melhor, a amar com menos ingenuidade, a desconfiar de si mesmo. Ele não oferece atalhos. Ele exige esforço. E é justamente por isso que forma.
Eu aprendi mais sobre o Brasil lendo Os Sertões do que em qualquer debate apressado. Entendi mais sobre miséria humana em Vidas Secas do que em relatórios estatísticos. Descobri mais sobre hipocrisia familiar em Vestido de Noiva do que em tratados de sociologia.
Tudo está neles. A política, a vaidade, o ressentimento, a esperança, o fracasso, a redenção possível — e, sobretudo, a consciência de que o homem não melhora na mesma velocidade em que melhora a tecnologia.
O jovem que não lê os clássicos acredita que está inventando a roda emocional todos os dias. O que lê descobre que pisa no mesmo chão de gerações inteiras. Isso não o torna mais feliz. Talvez o torne até mais melancólico. Mas o torna menos ingênuo — e a ingenuidade, no mundo adulto, custa caro.
Sei que é um conselho impopular. Sei que serei acusado de ultrapassado, conservador, antiquado, talvez até ressentido. Aceito o rótulo com serenidade. Prefiro ser antigo com profundidade do que moderno com vazio.
Porque no fim — e este é o ponto que dói — a vida passa. E quando ela passar, não será o vídeo viral que fará companhia à sua memória. Serão as frases que resistiram ao tempo. Serão as vozes dos mortos que, paradoxalmente, estavam mais vivas do que os vivos apressados.
Leia os clássicos.
O resto é intervalo comercial.
Nenhum comentário:
Postar um comentário