Há uma pergunta que paira nos cafés cult e nas timelines inflamadas: por que a arte de hoje parece tão domesticada? Tão higienizada? Tão… inofensiva?
Talvez porque o artista contemporâneo tenha aprendido a pedir licença antes de criar.
Houve um tempo em que a arte era um risco. Quando Madame Bovary levou Gustave Flaubert aos tribunais. Quando Ulysses fez de James Joyce sinônimo de obscenidade. Quando Laranja Mecânica transformou Stanley Kubrick em ameaça moral. A censura vinha de fora — do Estado, da Igreja, da moral pública. E, paradoxalmente, isso fortalecia a obra. O artista criava apesar da interdição, não por causa dela.
Hoje está dentro dentro do ateliê. Não usa farda nem carimbo oficial. Usa algoritmo e edital. Usa o medo difuso de desagradar.
O artista começa a obra imaginando o tribunal virtual, a manchete distorcida, o boicote organizado. E então lima as arestas. Amacia o verbo. Corta a cena. Dilui o conflito. A criação nasce já negociada.
Quando esta besta quadrada se preocupa com quem pode se ofender, deixa de tensionar o mundo para administrar susceptibilidades. Troca a angústia pela aprovação. E a arte, que deveria ser ferida aberta, vira comunicado institucional.
O resultado é um cinema que parece feito por comitê. Roteiros que não erram — e por isso mesmo não acertam. Personagens que representam causas antes de representar contradições humanas. Filmes que parecem cartilhas ilustradas, cuidadosamente equilibradas para não desagradar patrocinador, plataforma ou público segmentado.
O risco deixou de ser parte do processo e passou a ser simples inconveniência. A ousadia virou passivo reputacional. A provocação um problema de marketing.
A arte grande sempre foi incômoda porque expunha o que preferimos esconder. Não perguntava se podia entrar; arrombava a porta.
Quando Nelson Rodrigues colocou a hipocrisia da família brasileira no palco, ele não abriu enquete no foyer para saber se a plateia se sentia representada. Ele expôs. E quem se reconheceu que tratasse de engolir seco. Quando Plínio Marcos fez cafetões e miseráveis falarem a língua que realmente falavam, não chamou consultor de imagem para aparar palavrão. Quando Lars von Trier lançou Antichrist, não anexou manual de instruções emocionais. Quando Francis Ford Coppola afundou na selva moral de Apocalypse Now, não pediu que a guerra fosse compreendida sob a ótica do conforto doméstico.
Quando Clarice Lispector escreveu o desconforto feminino sem maquiagem, não se preocupou se seria “didática”. Quando Charles Bukowski transformou o fracasso em literatura, não frequentou oficina de boas maneiras. Quando Pablo Picasso pintou Guernica, não tentou equilibrar os lados para parecer sensato — escolheu a deformação, o grito, o incômodo.
Nenhum deles produziu conteúdo. Produziram conflito.
A arte não nasceu para ser simpática. Nasceu para ser necessária. O problema é que hoje o artista parece mais preocupado em ser aceito no coquetel do que em ser lembrado na História. Prefere o aplauso imediato ao escândalo duradouro. Quer trending topic, não quer tribunal. Quer aprovação, não quer tensão.
E assim vamos fabricando obras que não ofendem ninguém — e, por isso mesmo, não marcam ninguém. Filmes cuidadosamente calibrados para não ferir suscetibilidades, peças que parecem relatórios, romances que soam como campanhas institucionais. Tudo muito responsável. Tudo muito consciente. Tudo muito esquecível.
Talvez a diferença esteja aí: antes, o artista corria o risco de ser proibido. Hoje, corre o risco de ser cancelado — e treme. E quando a mão treme a obra nasce tímida.
A grande arte sempre foi um pouco indecente. A arte excessivamente preocupada em ser correta termina apenas correta. E correção nunca foi sinônimo de grandeza.
Nenhum comentário:
Postar um comentário