sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por que Harry Potter não é literatura?

Resultado de imagem para harry potterSou professor de língua portuguesa, especialista em literatura, já leciono há mais de quinze anos e se apresento minhas credenciais, o dito selo de erudição, antes de iniciar esta exposição é porque sei que vou mexer em assunto complicado. Pois bem, sou o professor de literatura tradicional e conservador opinando sobre o Harry Potter.
                Mas vou com calma, não quero que este ensaio seja lido apenas por leitores de Machado de Assis e Shakespeare, disse apenas, pois direciono meu foco para todos os lados, inclusive aos leitores das famosas sagas vampirescas que foram moda há algum tempo e podem voltar a sê-lo quando da época da leitura desta análise. O mundo tão caricaturalmente dinâmico, sei lá. Por hora dou voltas, vou direto ao assunto:
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                Harry Potter não é literatura e ponto final. Nem ele nem Percy Jackson, ou Crepúsculo,  Eragon e outras criações do gênero. Calma leitor, também não é literatura escritores vigorosos como Sidney Sheldon, Stephen King, Agatha Christie e similares. O nosso Paulo Coelho, por exemplo. Zíbia Gaspareto.
                Mas quando for desenvolver meu raciocínio ao longo deste texto utilizarei sempre que possível a figura do jovem bruxo de Hagwarts.
                Começo: há muito tempo me deparo com alunos pedindo que eu peça para análise nas aulas de literatura do Ensino Médio livros mais modernos e que falem de sua realidade imediata. Não vou cair aqui na fácil tentação de argumentar sobre o que há de realidade em bruxo estudando magia para lutar com um mago das trevas, não farei isso. Meus argumentos há tempos eram os de todos os professores preguiçosos como eu que ouviam tanto as mesmas reclamações de estudantes preguiçosos em ler um livro de fôlego como “O cortiço” ou “Dom Casmurro”, verdadeira Literatura, esta sim com L maiúsculo.
                Quando tinha um pouco mais de paciência ainda explicava que Aluízio Azevedo é um clássico experimentado pelo tempo, assim como todas as obras pedidas na escola. Explicava também que estes livros foram, alguns, marginalizados em seu tempo. Os do Lima Barreto, por exemplo. Raul Pompéia se vingando da escola pondo fogo ao ateneu no apoteótico clímax de seu livro. Meus alunos foram sempre muito educados, ouviam, entendiam... e discordavam. E eu ficava sem entender o porquê de tanta resistência.
Resultado de imagem para o abc da literatura                Alguns professores conhecidos meus caiam nessa conversa mole e aceitavam pedir livros da moda como conteúdo escolar, um inclusive pediu que sua turma lesse “O código Da Vinci”, obra que também li como entretenimento, mas que não recomendo a ninguém como leitura séria, muito menos em sala de aula. Pois bem, por que a minha resistência?
                Resisto porque sou pago para ensinar literatura e Harry Potter não é literatura. Aliás, vou mais longe, não há literatura em Harry Potter a ser ensinada. Serei mais explícito no próximo parágrafo:
                A distância entre Harry Potter e uma obra literária é a mesma que a distância entre a arte e o artesanato.
                Assim, deixa eu explicar.
                Ezra Pound, grande poeta e teórico da literatura, do qual sou fã e discípulo, em um de seus livros mais famosos “O ABC da literatura” dá uma definição muito própria do que diferencia o texto literário dos demais: a condensação.
                Deste modo: na literatura a palavra é metonímica, o que significa dizer que nela (a literatura) a palavra está carregada de significados, é polissêmica. Como no poema da “pedra no meio do caminho” de Carlos Drummond, que seus professores te fizeram ler e te falaram que ali a pedra significava mais que uma pedra, poderia ser um problema, as intempéries da vida, tudo aquilo que passa. Se fosse só uma pedra a pedra, e só um caminho o caminho, jamais este seria o poema mais reproduzido e traduzido da literatura em língua portuguesa.
                Para que o texto seja literatura a palavra não basta informar, se fosse isso as histórias que minha finada avó contava estariam cheias da mais pura literatura, mas não são. Para que haja literatura numa narrativa é necessário o tratamento artístico dado ao texto e nisso volto no aforismo lançado algumas linhas acima: artístico. Diferente de artesanato.
Resultado de imagem para artesanato areia colorida                Artesanato é um ofício maravilhoso, existem artesãos que são verdadeiros artistas, mas o artesanato consiste em fazer várias peças repetidas e repetidas e repetidas de uma tal forma que seu ofício se assemelhe muito a uma linha de produção. Aquelas garrafas com areia colorida compradas em algumas localidades turísticas do Brasil, o porta-canetas feito com pedra sabão trazido por meu grande amigo de sua viagem a Ouro Preto. Talvez haja um artista dentro do artesão quando ele decide esculpir uma peça única, mesmo que de encomenda, assim como o Michelangelo fez com a Capela Sistina, sem dúvida o que diferencia o artista do artesão é a quantidade de subjetividade empregada em seu trabalho e nisso voltamos ao nosso bruxo:
                Quando Hamlet diz seu “ser ou não eis a questão” nos debruçamos sobre o que há de mais profundo na alma humana, quando este jovem príncipe da Dinamarca recebe a visita fantasmagórica de seu finado pai pedindo vingança por sua injusta morte tudo leva a uma visita ao que há de mais profundo na alma humana, cada palavra é uma pedra como em Drummond e em cada ser humano tem-se uma possível interpretação, ou nenhuma. Quando o jovem Harry Potter levanta voo com sua vassoura para vencer a partida de quadribol ele apenas está vencendo uma partida de quadribol.
                Quando seu amigo Ronald Weasley vai resgatá-lo do cativeiro em que seus tios o afligem é apenas um carro voador buscando uma criança. Não há camadas por baixo de camadas, há apenas entretenimento, de excelente nível, muito bem feito, devo admitir, mas apenas entretenimento.
                E antes que apareçam leitores apaixonados pelo menino do raio na testa, devo acrescentar que li todos os livros da série e gostei muito. Muito mesmo. Gostei mais do que pensava que poderia gostar de um livro feito para um público que não sou eu. Sim querido leitor, Harry Potter tem seus instantes de análise psicológica, há momentos de tratamento próximo ao literário, principalmente das questões políticas e raciais. Pode-se inclusive fazer uma análise muito profunda disso, mas ainda assim é muito pouco.
Resultado de imagem para homem de ferro                Neste sentido eu gosto de Potter como gosto de Homem de Ferro, Batman, Hulk. Há momentos nas histórias em quadrinhos que há um verdadeiro trabalho artístico em suas páginas, mas deve-se lembrar que existe uma enorme preocupação com os resultados comerciais que leva a decisões que por vezes mudam todo o percurso das narrativas. Como o fato de um herói ser mais popular que outro e ter de ser o vitorioso numa saga chamada “Guerra civil” por exemplo. Ou a decisão de não matar um personagem para que possa aparecer em outros e outros e outros filmes e livros.
                Como o caminho que o bruxo Potter seguia em seu trágico fim, pois era ele próprio uma das relíquias da morte que deveriam ser destruídas. É visível o malabarismo feito pela autora para desenrolar o novelo criado por ela a fim de atender ao que a veracidade da narrativa exigia e o que o mercado editorial impunha. Imagino a cena da reunião de fechamento do livro final da saga Potter: “Você não pode matar um bruxo que rende bilhões de dólares a você e a nós”, “Mas...” “Você não pode matar um bruxo que rende bilhões de dólares a você e a nós”... Vamos fazer assim então.
                Ou não, sei lá, posso estar viajando, a questão é que para ser literatura um texto não precisa ser velho e o autor morto, o texto precisa ser polissêmico. Por isso que sua professora do Ensino Fundamental encheu seu saco com aquele negócio de saber o que é metáfora, metonímia, antítese, paradoxo, essas coisas que fazem você entender o texto conhecido como texto Conotativo, em oposição ao Denotativo. Quanto mais conotação mais significados tem o trabalho do escritor, quanto mais significados mais literatura na literatura.
                Não há nada de errado em ser apaixonado pelo gênero fantástico, ou seguir ao longo da vida lendo histórias escritas para o público infanto-juvenil. Também não sou tão quadrado a este ponto, quer chamar de literatura, que chame. Afinal sempre haverá os que dizem que futebol é uma arte, mesmo sendo um esporte, os que dizem que certo compositor de canções populares é um poeta, mesmo a música não sendo poesia. Estaremos entrando e permanecendo no universo do senso comum, e lá ficando eternamente. O que não é admissível é se ensinar na escola que certo texto é literatura, quando não é. Arte é arte e não preciso gostar de tudo em arte para compreender o que há de artístico em certo objeto criado de forma única e caindo na redundância: objeto único e artístico.
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                Há histórias em quadrinhos que são verdadeiras obras de arte; cito “Maos” de Art Spiegelman, ou “Watchmen” de Alan Moore e o fato de estarem encerrados no formato livro e serem vendidos em livrarias não faz deles literatura. São geniais dentro de sua própria linguagem, assim como Harry Potter é genial dentro da sua.
                E isto se estende para novelas de TV, por exemplo. Há casos de peças de ficção globais que são muito mais que simples novelas, “Vale Tudo”, “Roque Santeiro”, “Saramandaia” são alguns exemplos. Mas ainda assim o processo mental é o mesmo: são excelentes peças artísticas dentro de sua linguagem. Neste caso num processo quase industrial, assim como os quadrinhos citados no parágrafo anterior.
                Pois bem, estou certo de que não encerro a questão, mas também creio que é necessário, desde Aristóteles, classificar muito bem cada coisa, para que não se caia no discurso raso e vazio onde ninguém se entende e todo mundo é especialista. Num mundo onde quatro mais quatro é igual a nove pensar se torna algo muito perigoso.
Resultado de imagem para roque santeiro                E no mais, fala sério, o seu professor não pede que você leia os livros da moda ou os best sellers infanto-juvenis porque não é necessário, você já o lê por vontade própria. Percebo isso nas salas de aula que frequento diariamente. E nada impede do professor indicar um desses livros para fruição simples e constante, mas enquanto “ensinador” de literatura é nisto que deve estar seu foco, incorrendo no perigo do simples proselitismo.
                E mais, quando um aluno me pede um livro de qualidade pra ler, sou corajoso e indico a boa e eterna Literatura, com L maiúsculo: “A metamorfose” de Kafka ou “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde são os meus favoritos na hora de indicar uma iniciação literária.
Mas para entender o que seja literatura e ir mais a fundo no assunto que tratei por aqui indico o já citado Ezra Pound com seu “ABC da literatura”, o livro da coleção Primeiros Passos da Marisa Lajolo “O que é literatura” outro da mesma coleção “O que é leitura” de Maria Helena Martins. Também o livro desta safra “O que é indústria cultural” de Teixeira Coelho também pode auxiliar em alguma coisa. Há um episódio dos Simpsons em que o Homer e o Bart se reúnem para escrever um best seller que também auxilia visualmente na compreensão de como funciona a elaboração de um produto livro barra literário barra produto.

                Dito isto, aqui encerro desejando a você muitas visitas às bibliotecas, não importando a qual prateleira.

Um comentário:

  1. Verdade, Mauro! Assino embaixo! Exceto a parte das concessões, pois sou quadrado e não as admito! Chamem de literatura o que é literatura, chamem entretenimento de entretenimento e pronto!

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