quarta-feira, 18 de março de 2026

Sonhos de trem e o Óscar impossível.

 Dizem que o trem é uma metáfora fácil — dessas que cabem em redação de vestibular e em discurso de político —, mas em Sonhos de Trem a coisa não é tão simples assim, porque ali o trem não leva apenas corpos de um ponto a outro, ele arrasta memórias, culpas e aquela sensação incômoda de que a vida, no fundo, é uma sucessão de estações em que ninguém desce no momento certo.

E talvez seja exatamente por isso que o filme incomode tanto: não há redenção fácil, não há trilha sonora inflando emoções como um coach de Instagram, não há aquele didatismo quase religioso que transforma sofrimento em lição de moral pronta para consumo. Há, no lugar disso, silêncio — e o silêncio, como já desconfiava Friedrich Nietzsche, costuma ser mais honesto do que qualquer discurso.

O protagonista (cujo nome pouco importa, como pouco importam os nomes quando o que está em jogo é o que resta de alguém depois que tudo passa) segue viagem não porque quer, mas porque parar exigiria um tipo de coragem que o cinema contemporâneo desaprendeu a filmar. É mais fácil mostrar heróis salvando o mundo do que homens comuns tentando não desmoronar dentro de si mesmos.

E então chegamos ao ponto inevitável: o Oscar 2026.

Como sempre, a academia prefere premiar aquilo que parece importante em vez daquilo que é, de fato, importante — uma diferença sutil, mas decisiva, como a que separa um abraço sincero de um protocolo social. O filme vencedor (que daqui a alguns anos será lembrado apenas em listas nostálgicas e em provas de trivia) cumpria todos os requisitos do bom comportamento cinematográfico: tema relevante, personagens exemplares, conflitos embalados para digestão fácil. Era, por assim dizer, um sermão elegante. Era um Paul Thomas Anderson, como dizer outra coisa?

Sonhos de Trem não queria ensinar nada. E talvez por isso ensinasse tanto.

Há algo de profundamente desconfortável em uma obra que não se presta a nos absolver — que não diz “vai ficar tudo bem” nem oferece um horizonte iluminado ao final da linha. Em tempos em que até a tristeza precisa ter propósito pedagógico, um filme que apenas observa a falência silenciosa das esperanças soa quase como uma afronta.

Mas o problema nunca foi o cinema. O problema é que a gente desaprendeu a admirar o que não nos consola.

Talvez Nelson Rodrigues diria que toda unanimidade é burra, e o Oscar, ano após ano, insiste em provar isso com uma disciplina quase comovente. Premia-se o consenso, ignora-se o incômodo, celebra-se o que pode ser aplaudido sem culpa.

E assim o trem passa.

Leva consigo um dos melhores filmes do ano, talvez da década, enquanto na plataforma da Netflix ele segue disponível — silencioso, paciente, como quem sabe que o tempo, esse crítico menos apressado, costuma corrigir certas injustiças com uma ironia que nenhuma estatueta dourada é capaz de alcançar.

No fim, o Oscar perdeu.

Mas isso, convenhamos, não chega a ser novidade.

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