quarta-feira, 22 de abril de 2026

Luz, cultura e cadeiras

 Vivemos convictos de que vemos. É uma fé curiosa: não precisa de prova, não exige argumento, nasce pronta — como o choro do recém-nascido e a certeza de que o chão não vai desaparecer sob os pés. Olhamos uma mesa e dizemos “mesa”, como se tivéssemos capturado a essência do universo naquele retângulo de madeira. Mas talvez tenhamos capturado apenas… luz.

Porque é disso que se trata: vibrações. O mundo não bate à nossa porta; ele vibra discretamente, como um vizinho educado demais para incomodar. E nós, com nossos olhos, ouvidos e pele, funcionamos como tradutores precários desse idioma invisível. Tradutores confiantes, é verdade — o que é sempre perigoso. Afinal, nada mais arrogante do que um intérprete que acredita ser o próprio autor.

Vemos, dizem, porque a luz entra, atravessa, projeta, inverte, envia sinais, e o cérebro — esse burocrata incansável — carimba tudo como “realidade”. E nós aceitamos. Não questionamos o carimbo. Não perguntamos ao cérebro se ele dormiu bem, se está sóbrio, se não está, quem sabe, interpretando tudo com um leve filtro azulado. Basta colocar uma lente qualquer diante dos olhos e pronto: o mundo muda de cor, enquanto continua sendo, teimosamente, o mesmo. O problema nunca foi o mundo. Sempre fomos nós — e nossos filtros.

Curioso é perceber que nem precisamos de lentes para distorcer as coisas. A cultura já faz esse trabalho com eficiência admirável. Chamamos cadeiras de cadeiras porque alguém, em algum momento, decidiu que seria assim — e nós obedecemos, como bons herdeiros de uma tradição que não lembramos ter escolhido. Se tivessem nos ensinado o contrário, sentaríamos em “mesas” com a mesma naturalidade. O objeto não se ofenderia. A realidade, indiferente como sempre, seguiria intacta.

Há algo de profundamente desconcertante nisso: o mundo não precisa da nossa concordância para existir. A árvore continua sendo árvore mesmo para o cego. O som insiste em vibrar no silêncio do surdo. O quarto permanece no escuro enquanto dormimos, aguardando pacientemente que voltemos a percebê-lo, como um palco que não depende da plateia para sustentar o cenário. A realidade é obstinada. Nós é que somos intermitentes.

E, no entanto, insistimos em confundir percepção com verdade. Talvez porque seja confortável. A criança acredita que os pais podem tudo — e há uma beleza quase trágica nisso. Crescer é, em grande parte, assistir à lenta falência dessas certezas. Descobrimos que os pais não eram deuses, que o mundo não é justo, que o bem não venceu — e, em algum ponto, começamos a desconfiar que nem mesmo aquilo que vemos é exatamente aquilo que é.

Mas não nos desanimemos: em troca da ilusão perdida, ganhamos algo mais sofisticado — a dúvida. E a dúvida, apesar de incômoda, tem um charme filosófico que a certeza jamais alcança.

No fim, talvez vivamos nesse território ambíguo, meio real, meio interpretado. Um mundo que existe, sim, mas que só nos é acessível através de traduções imperfeitas, filtros culturais, crenças herdadas e sentidos limitados. Um mundo que se apresenta sólido, tangível, quase convincente — e que, ainda assim, escapa.

Vemos, mas não sabemos exatamente o quê.

E talvez seja justamente isso que nos mantém olhando.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ideias mortas, memórias póstumas...

 Dizem que a cultura woke está morrendo. Não morreu ainda, é verdade — mas já apresenta aquele cheiro de velório de interior: café requentado, gente cochichando nos cantos e um corpo que ninguém tem coragem de declarar oficialmente morto. No mundo, já começaram a fechar o caixão. No Brasil, como sempre, estamos discutindo a cor das flores.

Há algo de profundamente nacional nesse apego ao cadáver. Não enterramos ideias — nós as embalsamamos. Damos CPF, título de eleitor e, se bobear, cargo público. Aqui, até defunto tem opinião política. E fala alto.

Talvez seja porque somos o país das memórias póstumas. Não no sentido literário elegante, mas no sentido burocrático mesmo: tudo continua existindo depois que já devia ter acabado. Leis que ninguém cumpre, costumes que ninguém acredita, discursos que ninguém suporta — mas todos repetem, como se a repetição fosse uma forma de ressuscitação.

A cultura woke, esse fenômeno que nasceu com a promessa de justiça e terminou como um tribunal de pequenas vaidades morais, já começou a perder força em boa parte do mundo. Foi ficando cansativa, previsível, quase caricata. Virou um espelho onde ninguém mais queria se olhar — exceto os mais devotos, que ainda enxergam ali alguma espécie de santidade.

No Brasil, porém, a coisa é diferente. Aqui, ideias não precisam fazer sentido para sobreviver — basta que elas tenham um público disposto a performá-las. E performance, convenhamos, é uma das nossas maiores especialidades. O problema é que, quando a encenação continua depois que o roteiro acabou, o que era teatro vira constrangimento.

E há um detalhe menos poético, mas infinitamente mais poderoso: há gente que ganha dinheiro com isso. Sempre há. Ideias mortas, no Brasil, raramente estão desamparadas — costumam ter patrocinadores, carreiras, editais, cargos, nichos de mercado. Há quem viva de manter o cadáver maquiado, bem iluminado, discursando como se ainda tivesse pulso. E quando uma ideia vira sustento, ela deixa de ser convicção e passa a ser investimento. Não se enterra o que paga as contas.

É curioso observar como certas narrativas persistem mesmo quando já não explicam mais nada. Continuam sendo repetidas como mantras, talvez por medo do silêncio — ou, pior, por medo do prejuízo. Porque o silêncio exige pensamento, e o pensamento pode desmontar estruturas que sustentam não apenas identidades, mas também rendas, posições e relevâncias. É mais seguro repetir o que já vem pronto, ainda que esteja claramente vencido.

Nós temos dificuldade em matar ideias porque, no fundo, temos dificuldade em assumir que estivemos errados. Mas também porque há quem não possa — ou não queira — perder o lugar que construiu em cima delas. Enterrar uma ideia é reconhecer que ela já não serve; e, para alguns, isso significaria começar de novo. Então preferimos mantê-la viva artificialmente, como um paciente ligado a aparelhos — aparelhos caros, aliás — enquanto fingimos que ainda há pulso.

Mas não há.

O que há é o eco. E o eco, como se sabe, não é voz — é repetição de algo que já foi dito. O Brasil, nesse sentido, é uma caverna barulhenta: tudo reverbera, nada realmente nasce ou morre no tempo certo.

Talvez por isso a cultura woke ainda “respire” por aqui. Não porque esteja viva, mas porque ainda movimenta interesses. E interesses, diferentemente das ideias, não morrem — apenas mudam de discurso quando necessário. Enquanto houver quem lucre com o fantasma, haverá quem jure que ele está mais vivo do que nunca.

No fundo, não é sobre a cultura woke. Nunca foi. É sobre nós — essa estranha vocação nacional para conviver com fantasmas e chamá-los de futuro.