Conheci o silêncio quando ele ainda não precisava ser agendado.
Sim, houve um tempo em que o silêncio não era retiro espiritual pago em doze vezes. Ele morava na sala depois do jantar, sentado na cadeira vazia do avô. Atravessava a rua deserta às três da tarde. Dormia no quintal, debaixo do varal, entre uma camisa pingando e outra.
O mundo transformou-se numa feira permanente — e ninguém desmonta as barracas.
O barulho não se resume a som: é uma neblina elétrica. Uma camada de pó fino que se deposita sobre o cérebro e o impede de respirar. As cidades vibram como transformadores prestes a explodir.
Em São Paulo, por exemplo, o silêncio jaz atropelado e ninguém registrou boletim de ocorrência.
A buzina virou vírgula, a notificação, ponto final. O grito um argumento.
O silêncio, coitado, acusado de improdutivo.
Num mundo que transforma a respiração em performance, calar-se é um ato subversivo.
Ficar sozinho sem música ou tela, sem ruído de fundo é como atravessar um deserto sem garrafa d’água: cedo ou tarde você encontra a própria sede.
E talvez seja isso que tememos.
O silêncio é um espelho de corpo inteiro. Não usa filtro. Não suaviza imperfeições. Ele amplia. Você senta numa cadeira sem celular e, de repente, começa a ouvir coisas que estavam soterradas: a culpa antiga, o medo que é prudência, o ressentimento batizado de senso crítico.
O mundo está barulhento porque o silêncio denuncia! (e escrevo esta frase com o sinal ortográfico mais barulhento que existe: o ponto de exclamação!!!)
Antigamente — lá vou eu de novo — as bibliotecas eram catedrais laicas. Lembro dos corredores da Biblioteca Monteiro Lobato, onde o silêncio tinha cheiro de papel envelhecido. Cheiro de livro manuseado. Não era vazio; era concentração condensada. Cada pessoa naquele lugar segurava uma lâmpada acesa dentro da própria cabeça, e o pacto era simples: não soprar a chama do outro.
Hoje a chama precisa virar show pirotécnico. Pensar não basta; é preciso transmitir ao vivo o pensamento ainda cru, imaturo, indecente.
Vivemos numa época em que até o luto tem trilha sonora e legenda. Até a indignação vem com efeitos especiais. O barulho virou anestesia coletiva. Se o mundo cala por dois minutos, alguém entra em pânico e liga qualquer coisa — uma playlist, uma live, um escândalo.
O silêncio virou sinônimo de fracasso social. Quem se recolhe é estranho. Quem não opina é suspeito. Quem não reage é conivente. A histeria como estatuto de virtude. As pessoas gritam e se assutando com o próprio grito, o que as faz gritar novamente e se assustar novamente...
Onde estão os lugares de silêncio?
Talvez tenham sido convertidos em estacionamentos. Talvez estejam escondidos entre as páginas de um livro fechado. Talvez existam apenas na coragem de desligar o aparelho e suportar o próprio eco.
Porque o silêncio não é ausência de som. É presença de si.
E isso dói.
Dói perceber que não somos tão interessantes quanto nossa persona digital. Dói descobrir que nossas convicções fazem mais barulho do que sentido. Dói admitir que precisamos de ruído constante para não encarar a mediocridade de certos sonhos.
O silêncio é uma sala escura onde a verdade acende a luz sem pedir licença.
Por isso o evitamos.
O mundo está barulhento porque fizemos do barulho um escudo que nos protege da introspecção, da responsabilidade, da necessidade de amadurecer. Ele transforma qualquer reflexão profunda numa distração rasa.
Talvez os últimos lugares de silêncio não estejam geograficamente localizados. Não são mosteiros nem montanhas. São decisões. A decisão de não comentar. De não reagir. De não preencher cada intervalo com alguma coisa.
Mas isso exige uma coragem que o nosso tempo não ensina.
O mundo grita porque tem medo de sussurrar.
E nós, como crianças que não suportam o escuro, mantemos todas as luzes acesas — não para enxergar melhor, mas para não ver o que realmente importa.
