Vivemos convictos de que vemos. É uma fé curiosa: não precisa de prova, não exige argumento, nasce pronta — como o choro do recém-nascido e a certeza de que o chão não vai desaparecer sob os pés. Olhamos uma mesa e dizemos “mesa”, como se tivéssemos capturado a essência do universo naquele retângulo de madeira. Mas talvez tenhamos capturado apenas… luz.
Porque é disso que se trata: vibrações. O mundo não bate à nossa porta; ele vibra discretamente, como um vizinho educado demais para incomodar. E nós, com nossos olhos, ouvidos e pele, funcionamos como tradutores precários desse idioma invisível. Tradutores confiantes, é verdade — o que é sempre perigoso. Afinal, nada mais arrogante do que um intérprete que acredita ser o próprio autor.
Vemos, dizem, porque a luz entra, atravessa, projeta, inverte, envia sinais, e o cérebro — esse burocrata incansável — carimba tudo como “realidade”. E nós aceitamos. Não questionamos o carimbo. Não perguntamos ao cérebro se ele dormiu bem, se está sóbrio, se não está, quem sabe, interpretando tudo com um leve filtro azulado. Basta colocar uma lente qualquer diante dos olhos e pronto: o mundo muda de cor, enquanto continua sendo, teimosamente, o mesmo. O problema nunca foi o mundo. Sempre fomos nós — e nossos filtros.
Curioso é perceber que nem precisamos de lentes para distorcer as coisas. A cultura já faz esse trabalho com eficiência admirável. Chamamos cadeiras de cadeiras porque alguém, em algum momento, decidiu que seria assim — e nós obedecemos, como bons herdeiros de uma tradição que não lembramos ter escolhido. Se tivessem nos ensinado o contrário, sentaríamos em “mesas” com a mesma naturalidade. O objeto não se ofenderia. A realidade, indiferente como sempre, seguiria intacta.
Há algo de profundamente desconcertante nisso: o mundo não precisa da nossa concordância para existir. A árvore continua sendo árvore mesmo para o cego. O som insiste em vibrar no silêncio do surdo. O quarto permanece no escuro enquanto dormimos, aguardando pacientemente que voltemos a percebê-lo, como um palco que não depende da plateia para sustentar o cenário. A realidade é obstinada. Nós é que somos intermitentes.
E, no entanto, insistimos em confundir percepção com verdade. Talvez porque seja confortável. A criança acredita que os pais podem tudo — e há uma beleza quase trágica nisso. Crescer é, em grande parte, assistir à lenta falência dessas certezas. Descobrimos que os pais não eram deuses, que o mundo não é justo, que o bem não venceu — e, em algum ponto, começamos a desconfiar que nem mesmo aquilo que vemos é exatamente aquilo que é.
Mas não nos desanimemos: em troca da ilusão perdida, ganhamos algo mais sofisticado — a dúvida. E a dúvida, apesar de incômoda, tem um charme filosófico que a certeza jamais alcança.
No fim, talvez vivamos nesse território ambíguo, meio real, meio interpretado. Um mundo que existe, sim, mas que só nos é acessível através de traduções imperfeitas, filtros culturais, crenças herdadas e sentidos limitados. Um mundo que se apresenta sólido, tangível, quase convincente — e que, ainda assim, escapa.
Vemos, mas não sabemos exatamente o quê.
E talvez seja justamente isso que nos mantém olhando.