Eu acredito na memória. Ou melhor: eu desconfio profundamente de quem vive sem ela.
Dito isso, posso começar — ou fingir que começo — esta crônica sobre sonâmbulos. Não os que andam pela casa de madrugada, tropeçando nos móveis e assustando a família. Falo dos outros. Dos que caminham acordados pelas ruas, mas não sabem de onde vieram. Dos que nasceram ontem, todos os dias.
No romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, a guerra civil arranca dos personagens algo mais cruel que o teto ou o pão: arranca a continuidade. Mata os mais velhos e, com eles, mata as histórias. Restam crianças vagando por estradas poeirentas, acompanhadas de cadernos queimados e memórias emprestadas. Restam corpos vivos e passados mortos.
Uma sociedade pode sobreviver sem prédios. Pode sobreviver sem estátuas. Pode até sobreviver sem governo — embora não recomendem os manuais.
Mas não sobrevive sem narrativa.
Sem antepassados, o homem se torna turista de si mesmo. Mora onde não pertence. Canta músicas que não sabe de onde vieram. Defende bandeiras cujo tecido desconhece. Adota uma cultura como quem compra um casaco na vitrine: veste, posta, descarta.
É curioso. A modernidade nos prometeu liberdade e entregou amnésia. Cortamos as raízes em nome do progresso e depois nos espantamos com a queda das árvores. Queremos frutos, mas temos alergia ao solo.
“Ah, mas tradição oprime”, dirá alguém.
Sim, às vezes oprime. Também às vezes sustenta. Depende do que se faz com ela. Memória não é altar; é espelho. Não serve para idolatrar os mortos, mas para confrontar os vivos. O problema não é lembrar. O problema é não saber o que fazer com o que se lembra.
Em Moçambique, a guerra produziu órfãos históricos. No Brasil — e em tantos outros lugares — produzimos órfãos voluntários. Não precisamos de conflito armado para esquecer. Basta um pouco de distração, algum algoritmo eficiente e uma boa dose de preguiça intelectual.
Trocam-se os clássicos por resumos, os resumos por cortes de quinze segundos, os quinze segundos por uma frase de efeito. E assim se constrói uma geração que opina sobre tudo e conhece nada. Uma geração que confunde novidade com verdade e ruído com pensamento.
Sem memória, a cultura vira fantasia. Sem passado, o presente é um eterno improviso. E improviso permanente não é criatividade — é desorientação.
Em Terra Sonâmbula, os personagens precisam literalmente ler os cadernos de um morto para entender quem são. Precisam herdar palavras para reconstruir identidade. A memória ali é sobrevivência. Aqui, parece ser incômodo.
Há quem ache bonito “romper com tudo”. Como se o novo nascesse do nada, como se a história fosse um peso morto. Mas quem não dialoga com seus mortos repete seus erros com entusiasmo juvenil. A ignorância tem a energia da juventude e a profundidade de um pires.
Sem memória coletiva, cada geração acredita ser a primeira a descobrir a injustiça, o amor, a corrupção, a esperança. Reinventamos indignações, reciclamos utopias fracassadas e chamamos isso de avanço.
É a humanidade em looping.
Talvez o verdadeiro sonambulismo não seja caminhar dormindo, mas viver sem consciência histórica. É andar por uma terra que já foi pisada por milhares e agir como se o chão fosse inédito. É falar em identidade sem nunca ter aberto um álbum de família — seja ele doméstico ou nacional.
Não saber de onde se veio é um risco. Não saber para onde se vai é uma consequência.
E assim seguimos: conectados com o mundo inteiro e desconectados dos avós. Capazes de localizar qualquer cidade no mapa digital, mas incapazes de localizar a própria origem.
A guerra de Moçambique produziu um país ferido. A nossa pressa produz um país distraído.
Entre o trauma e o descaso, o resultado é semelhante: gente andando, falando, votando, consumindo — mas sem memória.
Sonâmbulos.
E o problema do sonâmbulo não é que ele anda. É que ele não sabe para onde.
