Esta é uma crônica para os que se esqueceram das aulas de língua portuguesa. Ou, pior, para aqueles que passaram por elas como quem passa por um corredor escuro: andando, tropeçando, mas sem jamais acender a luz.
Para o bem da verdade, quando falamos de educação brasileira existe ainda uma terceira categoria, mais honesta e mais trágica: os que passaram pelas aulas sem jamais tê-las tido de verdade.
Eu me enquadro nesta última.
Fui estudante de escola pública. Não daquela escola pública idealizada nos discursos oficiais, nos relatórios coloridos ou nos seminários pedagógicos patrocinados por alguma fundação estrangeira. Falo da escola pública real: uma péssima escola pública, com péssimos professores, uma péssima gestão e situada numa época igualmente horrorosa.
Era uma escola onde o giz era curto, o quadro era quebrado e a esperança era mais curta ainda.
Mas isso passou.
Ou não.
Quer dizer, passaram-se os anos, terminaram-se os estudos, e aquilo que na minha época se chamava Colegial passou a se chamar Ensino Médio. Vieram siglas novas, reformas novas, discursos novos. Surgiram leis com nomes que parecem fórmulas químicas: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Plano Nacional de Educação, os Parâmetros Curriculares Nacionais, a Base Nacional Comum Curricular.
A Educação — agora com E maiúsculo, gráficos em PowerPoint e seminários em hotéis — mudou muito.
O que não mudou foi o baixo nível educacional do brasileiro.
Não digo isso como cientista social, estatístico ou especialista em avaliação de larga escala. Minhas crônicas não têm essa pretensão. Elas preferem a velha tradição de apontar culpados — hábito que, aliás, herdamos com grande competência nacional.
E o culpado da vez é o Sistema de Ensino.
Antes que algum tecnocrata educacional desmaie sobre um relatório do MEC, explico: não me refiro apenas à escola, mas ao conjunto de forças invisíveis que passaram a governá-la.
Vou ser mais objetivo. Acabei de reler os primeiros parágrafos desta crônica e percebo que, para um texto que pretende falar de coesão, algo que ele claramente não está sendo é… coeso.
Mas talvez isso seja justamente o ponto.
A escola deveria conduzir o processo formativo. Porém, hoje ela parece mais um ônibus lotado dirigido por passageiros histéricos que gritam instruções ao motorista.
Se ficou confuso, explico.
Mas explico ilustrando — porque o Brasil, como sabemos, aprende melhor por analogia televisiva.
Antigamente havia um programa dominical chamado Domingão do Faustão, apresentado pelo inconfundível Fausto Silva. Era um ritual nacional de domingo: famílias reunidas, frango assado na mesa e um homem suando sob luzes de estúdio gritando bordões para o país inteiro.
No programa, frequentemente apareciam atores das novelas da TV Globo para serem entrevistados e homenageados. Tudo muito festivo, muita música, muita plateia batendo palma no tempo errado.
Então vinha o momento curioso.
Para arrancar aplausos da plateia, Faustão fazia perguntas profundas ao ator convidado:
Perguntas complexas, dignas de um seminário em Harvard.
Dirigidas a um ator que, até cinco minutos antes, estava interpretando um médico psicopata numa novela das oito.
Nunca vi Faustão perguntar:
Não.
O que interessava era a opinião aleatória.
O ator respondia qualquer coisa. A plateia aplaudia. E o Brasil seguia seu domingo.
Pois bem.
A escola brasileira virou um grande Domingão do Faustão pedagógico.
Professores são questionados sobre temas que não dominam. Escolas são pressionadas por agendas externas. Especialistas de ocasião opinam sobre currículo, metodologia, avaliação, inclusão, tecnologia, felicidade, empatia, cidadania planetária e provavelmente sobre a vida em Marte.
Todo mundo tem uma opinião sobre educação.
Menos quem está dentro da sala de aula.
A coesão desapareceu.
E coesão, como qualquer aluno razoavelmente alfabetizado deveria saber, é aquilo que faz as partes de um texto se conectarem. É o fio invisível que dá sentido à narrativa.
Sem coesão, um texto vira um amontoado de frases.
Sem coesão, um sistema educacional vira um amontoado de reformas.
Talvez seja por isso que o Brasil escreve tão mal sua própria história.
Não falta conteúdo.
Falta ligação entre as frases.
