Há alguns anos, talvez muitos, ensinar era uma atividade relativamente simples de compreender. O professor estudava, preparava suas aulas, entrava na sala, explicava a matéria, passava exercícios, corrigia as provas e, se tudo desse certo, os alunos aprendiam. Se não aprendessem, bem, havia a recuperação, a segunda chamada, a reunião com os pais e, em último caso, a velha e conhecida reprovação. O mundo girava, a escola funcionava e ninguém perguntava ao professor se ele estava sendo suficientemente interessante.
Não que fosse fácil. Nunca foi. Mas havia uma espécie de acordo silencioso entre a sociedade, a família e a escola: o professor sabia alguma coisa que o aluno ainda não sabia, e era por isso que estava ali.
Hoje, coitado do professor.
O menino entra na sala depois de passar horas diante de uma tela, assistindo a vídeos curtos, ouvindo opiniões de desconhecidos, recebendo informações de toda espécie, algumas excelentes, outras absolutamente estúpidas. Sabe nomes de influenciadores que o professor jamais ouviu mencionar, conhece detalhes da vida de celebridades, aprende truques, acompanha guerras, descobre teorias científicas e, entre um vídeo de astronomia e outro de um sujeito ensinando a ganhar dinheiro sem trabalhar, recebe uma propaganda de um curso que promete torná-lo milionário antes dos vinte anos.
Então chega o professor de Ciências e começa a falar sobre as células.
O que fazer?
Competir com o celular? Disputar a atenção com um sujeito que grita, faz caretas e promete revelar os segredos que os poderosos escondem de nós? Transformar a mitocôndria em um espetáculo, colocar música, distribuir pirulitos e fazer uma dancinha para explicar a respiração celular?
Talvez funcione. Não sei. Mas, francamente, tenho minhas dúvidas.
O problema é que estamos confundindo ensinar com apresentar informações. E, nesse particular, o professor já perdeu faz tempo. Não porque saiba pouco, mas porque existem outras maneiras de obter informações, muitas delas mais rápidas, mais acessíveis e, convenhamos, às vezes até mais interessantes do que uma aula expositiva de cinquenta minutos numa manhã de calor.
É possível aprender inglês com um aplicativo, estudar matemática com um vídeo, conhecer a Revolução Francesa assistindo a uma animação e consultar uma inteligência artificial para compreender a diferença entre uma metáfora e uma metonímia. É possível aprender quase tudo sem sair de casa, sem abrir um caderno e sem precisar pedir licença para ir ao banheiro.
O que não significa que se possa aprender tudo sozinho. Muito menos que todas essas fontes sejam confiáveis.
É aí que entra o professor.
O grande professor de hoje talvez precise ensinar menos no sentido tradicional da palavra e motivar mais. Não estou dizendo que deva abandonar o conteúdo, transformar a escola num parque de diversões ou trocar o conhecimento por abraços e palavras de incentivo. Seria um desastre. O conhecimento continua sendo necessário, a disciplina intelectual continua sendo necessária, e ninguém se torna matemático apenas porque alguém lhe disse que ele é capaz de realizar seus sonhos.
Mas é preciso despertar o desejo de aprender. E isso é muito diferente de despejar informações sobre alguém que não pediu para recebê-las.
Um bom professor faz o aluno perceber que há alguma coisa esperando por ele do outro lado da ignorância. Um livro, uma ideia, uma descoberta, uma pergunta que não o deixará dormir direito. O professor apresenta uma porta, às vezes abre uma fresta, e o aluno precisa descobrir que vale a pena atravessá-la.
Nem sempre consegue. Nem sempre quer. Há dias em que o aluno está cansado, há outros em que a vida doméstica lhe ocupa a cabeça, e há aqueles em que simplesmente não está interessado em nada do que a escola tem a oferecer. Faz parte. Ensinar seres humanos é uma atividade ingrata justamente porque seres humanos não são máquinas que respondem de maneira previsível aos estímulos que recebem.
Ainda assim, o professor precisa tentar.
E precisa compreender que motivar não significa agradar. Um professor pode ser admirado sem ser popular, respeitado sem ser temido e exigente sem ser cruel. Aliás, desconfio de professores que precisam ser amados por todos os alunos. A necessidade de aprovação é uma péssima conselheira para quem precisa, de vez em quando, dizer não.
O professor também precisa ser uma referência.
E aqui temos um problema dos grandes. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil para muita gente distinguir aquilo que merece confiança daquilo que apenas parece convincente. A mentira ganhou boa iluminação, edição profissional, música de fundo e um sujeito sorridente explicando tudo com a segurança de quem acabou de descobrir o sentido da existência.
O erro também se sofisticou. Antigamente, para espalhar uma bobagem, era preciso encontrar alguém disposto a ouvi-la. Hoje, basta um aparelho conectado à internet e um pouco de disposição para apertar o botão de compartilhar.
O aluno recebe estímulos de todos os lados. Alguns o ajudam a crescer; outros alimentam o preconceito, a intolerância, a vaidade, a violência e a crença de que o mundo inteiro pode ser compreendido em quinze segundos. E não me refiro apenas à política. Há conselhos sobre saúde, dinheiro, relacionamentos, comportamento, educação e toda sorte de assuntos nos quais alguém, sem nenhuma formação ou experiência, se apresenta como autoridade.
Não podemos exigir que crianças e adolescentes reconheçam sozinhos todas essas armadilhas. Se pudessem, talvez não precisassem tanto de nós.
O professor, portanto, precisa ser uma fonte segura. Não porque saiba tudo, mas porque sabe reconhecer o que sabe, o que não sabe e aquilo que ainda precisa investigar. Essa distinção, tão simples, anda fazendo uma falta danada no mundo.
Um professor que admite desconhecer determinado assunto ensina alguma coisa mesmo quando não dá a resposta. Ensina que a honestidade intelectual vale mais do que a pose de sábio. Ensina que mudar de ideia diante de uma evidência não é fraqueza, mas sinal de inteligência. Ensina, sobretudo, que a verdade não precisa ser nossa para merecer respeito.
E isso nos leva a outro ponto: o professor precisa ser uma reserva moral.
Sei que a expressão pode parecer antiquada, talvez até desagradável para quem acredita que a escola deva se limitar à transmissão de conteúdos. Mas educar nunca foi apenas ensinar a calcular áreas, identificar orações subordinadas ou localizar o rio Amazonas num mapa. A escola é também um lugar onde se aprende a conviver, a esperar, a ouvir, a discordar, a reconhecer limites e a compreender que o outro existe independentemente da nossa vontade.
O professor não precisa ser santo. Ainda bem, porque, se fosse, a categoria profissional ficaria reduzida a meia dúzia de pessoas e olhe lá. Professores se irritam, cometem injustiças, perdem a paciência, fazem julgamentos precipitados e, às vezes, chegam à sala de aula tão cansados que mal conseguem disfarçar o desejo de que o sinal toque logo.
São humanos. É justamente por isso que precisam estar atentos à própria conduta.
Uma reserva moral não é alguém que nunca erra. É alguém que reconhece a responsabilidade de seus atos, procura corrigir os próprios erros e não exige dos outros aquilo que não está disposto a oferecer. É alguém que não humilha um aluno para demonstrar autoridade, não usa o conhecimento como instrumento de vaidade e não transforma a sala de aula num palanque para suas convicções pessoais.
Mas há uma armadilha nessa história. Ser uma referência moral não significa viver preso ao passado, repetindo fórmulas que já não respondem às necessidades do presente. O professor que deseja educar precisa compreender o mundo em que seus alunos vivem, mesmo quando não gosta dele.
A sociedade muda. As famílias mudam. As relações de trabalho mudam. A tecnologia muda. A linguagem muda. Os problemas que chegam à escola também mudam. E não adianta ao professor cruzar os braços, resmungar que antigamente tudo era melhor e esperar que o mundo volte a funcionar como funcionava quando ele tinha vinte anos.
Talvez algumas coisas fossem melhores. Outras, certamente, não eram.
O respeito não precisa desaparecer para que a escola se modernize. A autoridade não precisa ser abolida para que o aluno seja ouvido. A disciplina não precisa ser confundida com obediência cega, assim como a liberdade não pode servir de desculpa para que ninguém assuma responsabilidade por coisa alguma.
É preciso encontrar o equilíbrio, essa palavra que parece tão simples até que alguém precise colocá-la em prática.
E o professor precisa estudar. Não apenas a matéria que ensina, mas o próprio mundo. Precisa ler, ouvir, observar, desconfiar das certezas fáceis e compreender que sua experiência, por mais valiosa que seja, não lhe dá o direito de considerar irrelevante tudo aquilo que veio depois dela.
É curioso: passamos anos estudando para exercer uma profissão e, depois de algum tempo, imaginamos que já sabemos o suficiente. O médico precisa acompanhar novas pesquisas, o engenheiro precisa conhecer novas técnicas, o jornalista precisa compreender novas linguagens. Mas, quando se trata de educação, ainda há quem pense que basta recordar as aulas que teve na infância e reproduzi-las até a aposentadoria.
Não basta.
O professor que não aprende acaba ensinando apenas o que aprendeu, e não há garantia de que aquilo continue sendo suficiente.
E chegamos à inteligência artificial, essa senhora que apareceu na sala sem pedir licença e parece disposta a fazer de tudo um pouco. Escreve textos, resolve equações, traduz idiomas, resume livros, cria imagens, prepara exercícios e responde a perguntas que, até pouco tempo atrás, exigiam uma visita à biblioteca ou uma conversa com alguém que entendesse do assunto.
Há quem anuncie o fim da profissão docente. Outros afirmam que nada mudará, que a tecnologia é apenas uma ferramenta e que tudo continuará como sempre foi. Tenho minhas dúvidas quanto às duas posições.
A inteligência artificial vai mudar muita coisa. Já está mudando. Fingir o contrário é uma maneira bastante eficiente de ficar para trás.
Mas substituir o professor? Não acredito.
E não digo isso porque a máquina seja incapaz de explicar conteúdos. Ela explica, e às vezes muito bem. Pode adaptar uma explicação ao nível de conhecimento de um aluno, propor exercícios, apontar dificuldades e oferecer caminhos diferentes para a compreensão de um assunto. Seria tolice desprezar essas possibilidades.
O que ela não substitui é a experiência humana de educar. Não substitui o professor que percebe que aquele silêncio não significa desinteresse, mas dificuldade. Não substitui o olhar de quem conhece a história de um aluno, sabe de onde ele veio e compreende que uma nota baixa pode significar muito mais do que falta de estudo. Não substitui a responsabilidade de alguém que precisa decidir, diante de uma situação concreta, o que fazer, como agir e quais consequências assumir.
Uma inteligência artificial pode produzir uma resposta. O professor precisa ajudar o aluno a compreender o que fazer com ela.
E há outra coisa: o conhecimento não é apenas uma coleção de respostas corretas. É também a capacidade de formular perguntas melhores, de perceber contradições, de reconhecer limites e de conviver com aquilo que ainda não compreendemos. Um bom professor não elimina o mistério do mundo. Torna o aluno curioso o suficiente para querer investigá-lo.
Talvez seja esse o grande desafio da profissão. Não competir com as máquinas naquilo que elas fazem bem, mas ensinar os alunos a pensar num mundo em que as máquinas fazem cada vez mais coisas por eles.
O professor do futuro precisará conhecer tecnologia, mas não será grande por dominar o último aplicativo. Será grande se conseguir ensinar seus alunos a desconfiar de uma resposta fácil, a verificar uma informação, a reconhecer uma manipulação e a não confundir popularidade com conhecimento.
E, principalmente, se conseguir fazê-los compreender que aprender não é uma obrigação que termina com o sinal da escola. É uma maneira de estar no mundo.
Penso nos professores que tive, nos bons e nos ruins, nos que me ensinaram conteúdos e nos que me ensinaram a olhar para as coisas de outra maneira. Alguns talvez nem saibam o que deixaram em mim. Outros provavelmente se surpreenderiam ao descobrir que determinadas frases, ditas há tantos anos, continuam aparecendo na minha cabeça quando preciso tomar uma decisão.
Não me lembro de todas as aulas. Não saberia reproduzir boa parte do que foi escrito na lousa. Mas me lembro de quem me despertou curiosidade, de quem me tratou com respeito, de quem me fez sentir que eu poderia ir além do lugar em que estava.
É por isso que desconfio de quem reduz a qualidade de um professor aos resultados de uma avaliação, às notas de uma turma ou à quantidade de conteúdo vencido durante o ano. Tudo isso importa, naturalmente. A escola precisa ensinar, e não há boa intenção que substitua a aprendizagem efetiva. Mas os resultados nem sempre aparecem na hora em que esperamos. Às vezes, uma semente demora anos para germinar. Às vezes, o aluno só compreende o valor de uma aula quando a vida lhe apresenta uma pergunta para a qual aquela aula, afinal, tinha uma resposta.
Ser um grande professor hoje talvez seja isso: ensinar o que precisa ser ensinado, despertar a vontade de aprender, servir de referência sem se julgar infalível e compreender o presente sem se tornar escravo das novidades.
É uma tarefa enorme para quem recebe um salário que nem sempre corresponde à responsabilidade que carrega, trabalha em condições que muitas vezes estão longe das ideais e ainda precisa explicar a cada nova geração por que estudar vale a pena.
Mas alguém precisa fazer isso.
Não porque o professor seja um herói, essa palavra que usamos com frequência para elogiar profissionais aos quais não oferecemos condições adequadas de trabalho. Heróis não deveriam ser necessários para que uma escola funcione. O professor precisa de formação, tempo, recursos, reconhecimento e condições dignas para exercer sua profissão.
Precisa, sobretudo, compreender que não está ali apenas para transmitir aquilo que sabe, mas para ajudar alguém a descobrir o que ainda pode vir a saber.
E isso, por mais que a tecnologia avance, continua sendo uma das tarefas mais bonitas que um ser humano pode assumir.
O grande professor não é aquele de quem o aluno depende para sempre. É aquele que consegue despertar nele a vontade e a coragem de seguir aprendendo quando já não houver ninguém diante da lousa.
Se conseguir fazer isso, terá cumprido uma tarefa que nenhuma máquina, por mais inteligente que seja, poderá realizar sozinha.