Há uma espécie de silêncio constrangedor pairando sobre os meninos que cresceram ouvindo que bastava “ser legal” — como se a moral fosse moeda corrente num mercado que, no fundo, sempre operou em outra lógica. Não a lógica da virtude, mas a do desejo, que é mais antiga que qualquer manual pedagógico e, portanto, menos educável. E é nesse descompasso entre o que ensinaram e o que se vive que nasce essa figura meio trágica, meio patética, que convencionaram chamar de incel — um sujeito que, em vez de perceber que o jogo mudou, insiste em jogar com as regras de um campeonato que já acabou.
Porque, veja, durante muito tempo — e aqui não cabe nostalgia, mas constatação — havia uma espécie de arranjo tácito, quase feudal, entre homens e mulheres: você garantia algum tipo de estabilidade, ainda que medíocre, e em troca vinha o acesso afetivo e sexual. Era um contrato implícito, sustentado por uma sociedade que limitava drasticamente as escolhas femininas. Não era exatamente justo, nem exatamente bonito, mas funcionava como funcionam as coisas imperfeitas: mais por falta de alternativa do que por virtude.
Acontece que o mundo girou — como ele sempre faz, para desespero dos que preferem a imobilidade — e as mulheres, enfim, passaram a escolher. E escolher, como se sabe desde Arthur Schopenhauer, é um ato cruel: ao escolher, exclui-se. Ao desejar, rejeita-se. O que antes era distribuído por escassez institucional passou a ser regulado por desejo individual. E o desejo, meu caro, não tem compromisso com a justiça social.
É aqui que o ressentimento brota, como erva daninha em terreno mal cuidado. Alguns desses jovens percebem — ainda que de maneira confusa — que não basta mais existir. Que não há mais garantias mínimas. Que ninguém lhes deve nada. E isso, que poderia ser o ponto de partida para uma transformação pessoal, vira, paradoxalmente, o argumento para a paralisia. Em vez de se tornarem alguém, preferem denunciar o mundo por não lhes conceder o direito de permanecer ninguém.
Mas também seria ingênuo, quase pueril, imaginar que o outro lado dessa equação é simples ou idílico. A ideia de que as mulheres agora “podem tudo” é uma caricatura confortável — e, como toda caricatura, falsa. Podem mais, sem dúvida. Mas esse “mais” vem carregado de outras pressões, outras violências, outras expectativas que não desapareceram, apenas se sofisticaram. A liberdade nunca vem desacompanhada de custo — e, às vezes, o preço é pago em parcelas invisíveis.
No fundo, o problema — como você bem intuiu — é que o mundo não é tão simples assim. Não é uma equação de soma zero onde o ganho de um é necessariamente a perda do outro. É mais próximo de um romance mal escrito, cheio de personagens que não se entendem, cada um narrando a própria dor como se fosse a única legítima.
Talvez o erro esteja justamente aí: nessa obsessão contemporânea de transformar o desejo em direito, o afeto em política pública e a frustração em tese sociológica. Nem tudo é estrutural. Nem tudo é culpa de alguém. Às vezes — e isso é insuportável de admitir — a vida simplesmente não nos escolhe.
E contra isso não há revolução possível. Só resta a dignidade de sofrer sem plateia — o que, convenhamos, é um luxo que poucos estão dispostos a bancar.