quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Silêncio, camisa pingando e senso crítico.

 Conheci o silêncio quando ele ainda não precisava ser agendado.

Sim, houve um tempo em que o silêncio não era retiro espiritual pago em doze vezes. Ele morava na sala depois do jantar, sentado na cadeira vazia do avô. Atravessava a rua deserta às três da tarde. Dormia no quintal, debaixo do varal, entre uma camisa pingando e outra.

O mundo transformou-se numa feira permanente — e ninguém desmonta as barracas.

O barulho não se resume a som: é uma neblina elétrica. Uma camada de pó fino que se deposita sobre o cérebro e o impede de respirar. As cidades vibram como transformadores prestes a explodir. 

Em São Paulo, por exemplo, o silêncio jaz atropelado e ninguém registrou boletim de ocorrência.

A buzina virou vírgula, a notificação, ponto final. O grito um argumento.

O silêncio, coitado, acusado de improdutivo. 

Num mundo que transforma a respiração em performance, calar-se é um ato subversivo. 

Ficar sozinho sem música ou tela, sem ruído de fundo é como atravessar um deserto sem garrafa d’água: cedo ou tarde você encontra a própria sede.

E talvez seja isso que tememos.

O silêncio é um espelho de corpo inteiro. Não usa filtro. Não suaviza imperfeições. Ele amplia. Você senta numa cadeira sem celular e, de repente, começa a ouvir coisas que estavam soterradas: a culpa antiga, o medo que é prudência, o ressentimento batizado de senso crítico.

O mundo está barulhento porque o silêncio denuncia! (e escrevo esta frase com o sinal ortográfico mais barulhento que existe: o ponto de exclamação!!!)

Antigamente — lá vou eu de novo — as bibliotecas eram catedrais laicas. Lembro dos corredores da Biblioteca Monteiro Lobato, onde o silêncio tinha cheiro de papel envelhecido. Cheiro de livro manuseado. Não era vazio; era concentração condensada. Cada pessoa naquele lugar segurava uma lâmpada acesa dentro da própria cabeça, e o pacto era simples: não soprar a chama do outro.

Hoje a chama precisa virar show pirotécnico. Pensar não basta; é preciso transmitir ao vivo o pensamento ainda cru,  imaturo, indecente.

Vivemos numa época em que até o luto tem trilha sonora e legenda. Até a indignação vem com efeitos especiais. O barulho virou anestesia coletiva. Se o mundo cala por dois minutos, alguém entra em pânico e liga qualquer coisa — uma playlist, uma live, um escândalo.

O silêncio virou sinônimo de fracasso social. Quem se recolhe é estranho. Quem não opina é suspeito. Quem não reage é conivente. A histeria como estatuto de virtude. As pessoas gritam e se assutando com o próprio grito, o que as faz gritar novamente e se assustar novamente...

Onde estão os lugares de silêncio?

Talvez tenham sido convertidos em estacionamentos. Talvez estejam escondidos entre as páginas de um livro fechado. Talvez existam apenas na coragem de desligar o aparelho e suportar o próprio eco.

Porque o silêncio não é ausência de som. É presença de si.

E isso dói.

Dói perceber que não somos tão interessantes quanto nossa persona digital. Dói descobrir que nossas convicções fazem mais barulho do que sentido. Dói admitir que precisamos de ruído constante para não encarar a mediocridade de certos sonhos.

O silêncio é uma sala escura onde a verdade acende a luz sem pedir licença.

Por isso o evitamos.

O mundo está barulhento porque fizemos do barulho um escudo que nos protege da introspecção, da responsabilidade, da necessidade de amadurecer. Ele transforma qualquer reflexão profunda numa distração rasa.

Talvez os últimos lugares de silêncio não estejam geograficamente localizados. Não são mosteiros nem montanhas. São decisões. A decisão de não comentar. De não reagir. De não preencher cada intervalo com alguma coisa.

Mas isso exige uma coragem que o nosso tempo não ensina.

O mundo grita porque tem medo de sussurrar.

E nós, como crianças que não suportam o escuro, mantemos todas as luzes acesas — não para enxergar melhor, mas para não ver o que realmente importa.

Circuito fechado de intimidades limitadas - Mauro Marcel

 Capacete ainda morno de suor alheio, calcinha rendada esquecida no box, cueca de elástico frouxo, meia com cheiro confessional, escova de dentes mastigada até o talo, fio dental com restos de jantar, palito de unha, toalha úmida embolorada no gancho, desodorante roll-on fazendo turismo de axila em axila, lâmina de barbear com pele estrangeira, sabonete gasto com impressões digitais indecifráveis, esponja de banho saturada de intimidades microscópicas, bucha vegetal em decomposição filosófica, chinelo moldado ao formato exclusivo do pé, palmilha ortopédica personalizada, protetor bucal com arcada registrada, aparelho dentário removível, prótese dentária repousando em copo suspeito, colírio pingado em conjuntivas democráticas, lente de contato boiando em solução duvidosa, óculos de grau calibrados para miopias particulares, cotonete reincidente, alicate de unha com vestígios, pinça de sobrancelha conspiratória, batom mordido, gloss compartilhado, base oxidada, corretivo estratégico, pincel seboso, esponja de maquiagem úmida de segredos dérmicos, creme antiacne, pomada para micose, remédio controlado, cartela pela metade, exame clínico dobrado na bolsa, histórico médico confidencial, receita psiquiátrica, absorvente íntimo, coletor menstrual, fralda geriátrica, preservativo no bolso errado, vibrador silenciado na gaveta, pilhas gastas, manual escondido, pijama amarrotado, travesseiro com mapa de baba seca, cobertor com cheiro de insônia, copo de uso contínuo com marca de batom persistente, garrafa térmica com saliva reciclada, marmita requentada, talher lambido, protetor labial rachado, toalha de rosto comunitária por descuido, escova de cabelo carregada de fios, elástico arrebentado, aparelho auditivo, molde de ouvido, fone intra-auricular engordurado, aparelho CPAP noturno, máscara de dormir impregnada de sonhos, senha do celular anotada em papel amassado, cartão do banco plastificado, token de segurança, biometria digital, reconhecimento facial, diário com cadeado frágil, carta nunca enviada, foto íntima arquivada, pen drive rotulado “trabalho”, pen drive real, anotações de terapia, print constrangedor, conversa arquivada, rascunho de demissão, rascunho de amor, aliança empenada, contrato pré-nupcial, testamento improvisado, segredo de família, dívida oculta, trauma de infância, apelido humilhante, apelido carinhoso, fantasia guardada, fantasia descartada, silêncio espesso, silêncio comprado, silêncio cúmplice — tudo exposto, tudo antes privativo, tudo misturado e vazio, sem luto, sem indecisão, tudo finito, tudo coisa a desvendar e desvendada em hábitos que não podemos sustentar, tudo reduzido a objeto circulante, etiqueta arrancada, manual ignorado, fronteira apagada, corpo em comodato, intimidade em consignação, segredo em liquidação, desejo em vitrine, vergonha em estoque, nojo em promoção, identidade terceirizada, individualidade reciclável, afeto higienizado, memória compartilhável, senha replicável, pele permutável, saliva socializada, medo diluído, trauma comentado, gaveta arrombada, diário fotocopiado, travesseiro coletivo, consciência de uso comum — tudo tão disponível que já não pertence, tudo tão tocado que já não toca, tudo tão aberto que já não é nosso, circuito fechado de empréstimos impossíveis, devoluções impraticáveis, perdas sem protocolo, devoluções sem recibo, e no fim apenas isso: um amontoado de intimidades transformadas em coisa alguma.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Leia os clássicos!

 Conheci muitos jovens inteligentes que sabem tudo sobre o algoritmo do momento e nada sobre o homem. Sabem editar vídeos em quinze segundos, mas não suportam uma página inteira de um romance do século XIX. Têm opinião sobre geopolítica porque viram um corte de trinta segundos, mas jamais sentaram para ouvir, em silêncio, um morto que escreveu há duzentos anos. E é por isso que, se me fosse permitido dar apenas um conselho — um único, seco, impopular, antipático — eu diria: leiam os clássicos.

Sim, eu sei. Parece coisa de velho ranzinza que começa frase com “no meu tempo”. Talvez eu seja esse velho. Mas há uma diferença entre o saudosismo e a constatação amarga: tudo o que é permanente se transforma em clássico. E tudo o que é provisório apodrece antes de terminar a estação.

O jovem de hoje — e não o culpo inteiramente — foi convencido de que vive o auge da humanidade. Acredita que a história começou com a internet e que o mundo nunca foi tão complexo quanto agora. Se tivesse lido Guerra e Paz entenderia que a complexidade humana já era indecifrável quando Napoleão ainda respirava. Se tivesse atravessado Os Irmãos Karamázov perceberia que as crises de fé, de moral e de sentido não nasceram no Twitter. Se abrisse Dom Casmurro descobriria que a dúvida corrói mais que a traição — e que o narrador nunca é inocente, sobretudo quando parece sincero demais.

Mas não. Preferimos o comentário sobre o comentário do comentário. Preferimos a reação à reação. A vida virou rodapé de si mesma.

Outro dia ouvi um adolescente dizer que não vê sentido em ler coisa “antiga”. Antiga. Como se o amor tivesse sido atualizado na versão 3.0. Como se a inveja tivesse recebido patch de segurança. Como se a morte tivesse deixado de funcionar. Bastaria ler Hamlet para entender que a indecisão já matou mais do que qualquer espada. Bastaria folhear A Ilíada para perceber que a ira continua sendo o motor secreto das guerras — pessoais e coletivas.

O clássico não é clássico porque é velho. É clássico porque continua verdadeiro quando tudo ao redor envelhece. Ele resiste às modas, às hashtags, às teorias pedagógicas da estação. Ele atravessa regimes, revoluções, reformas curriculares e planos nacionais de educação. Ele fica. O resto é espuma.

E aqui vai a parte pessimista que ninguém gosta de ouvir: perder tempo com o provisório é matar a vida um pouquinho todo dia. Não de forma dramática, não com sirenes ou tragédias gregas. É uma morte silenciosa, por distração. Você troca uma hora de Crime e Castigo por uma hora de vídeos aleatórios. Parece pouco. Mas faça isso por cinco anos. Depois me diga o que sobrou.

Não se trata de elitismo. Não é uma defesa esnobe de estantes empoeiradas. É uma questão de densidade existencial. O clássico ensina a sofrer melhor, a amar com menos ingenuidade, a desconfiar de si mesmo. Ele não oferece atalhos. Ele exige esforço. E é justamente por isso que forma.

Eu aprendi mais sobre o Brasil lendo Os Sertões do que em qualquer debate apressado. Entendi mais sobre miséria humana em Vidas Secas do que em relatórios estatísticos. Descobri mais sobre hipocrisia familiar em Vestido de Noiva do que em tratados de sociologia.

Tudo está neles. A política, a vaidade, o ressentimento, a esperança, o fracasso, a redenção possível — e, sobretudo, a consciência de que o homem não melhora na mesma velocidade em que melhora a tecnologia.

O jovem que não lê os clássicos acredita que está inventando a roda emocional todos os dias. O que lê descobre que pisa no mesmo chão de gerações inteiras. Isso não o torna mais feliz. Talvez o torne até mais melancólico. Mas o torna menos ingênuo — e a ingenuidade, no mundo adulto, custa caro.

Sei que é um conselho impopular. Sei que serei acusado de ultrapassado, conservador, antiquado, talvez até ressentido. Aceito o rótulo com serenidade. Prefiro ser antigo com profundidade do que moderno com vazio.

Porque no fim — e este é o ponto que dói — a vida passa. E quando ela passar, não será o vídeo viral que fará companhia à sua memória. Serão as frases que resistiram ao tempo. Serão as vozes dos mortos que, paradoxalmente, estavam mais vivas do que os vivos apressados.

Leia os clássicos.

O resto é intervalo comercial.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Laranja mecânica, Ulysses e Francis Ford Copolla

 Há uma pergunta que paira nos cafés cult e nas timelines inflamadas: por que a arte de hoje parece tão domesticada? Tão higienizada? Tão… inofensiva?

Talvez porque o artista contemporâneo tenha aprendido a pedir licença antes de criar.

Houve um tempo em que a arte era um risco. Quando Madame Bovary levou Gustave Flaubert aos tribunais. Quando Ulysses fez de James Joyce sinônimo de obscenidade. Quando Laranja Mecânica transformou Stanley Kubrick em ameaça moral. A censura vinha de fora — do Estado, da Igreja, da moral pública. E, paradoxalmente, isso fortalecia a obra. O artista criava apesar da interdição, não por causa dela.

Hoje está dentro dentro do ateliê. Não usa farda nem carimbo oficial. Usa algoritmo e edital. Usa o medo difuso de desagradar. 

O artista começa a obra imaginando o tribunal virtual, a manchete distorcida, o boicote organizado. E então lima as arestas. Amacia o verbo. Corta a cena. Dilui o conflito. A criação nasce já negociada.

Quando esta besta quadrada se preocupa com quem pode se ofender,  deixa de tensionar o mundo para administrar susceptibilidades. Troca a angústia pela aprovação. E a arte, que deveria ser ferida aberta, vira comunicado institucional.

O resultado é um cinema que parece feito por comitê. Roteiros que não erram — e por isso mesmo não acertam. Personagens que representam causas antes de representar contradições humanas. Filmes que parecem cartilhas ilustradas, cuidadosamente equilibradas para não desagradar patrocinador, plataforma ou público segmentado.

O risco deixou de ser parte do processo e passou a ser simples inconveniência.  A ousadia virou passivo reputacional. A provocação um problema de marketing.

A arte grande sempre foi incômoda porque expunha o que preferimos esconder. Não perguntava se podia entrar; arrombava a porta. 

Quando Nelson Rodrigues colocou a hipocrisia da família brasileira no palco, ele não abriu enquete no foyer para saber se a plateia se sentia representada. Ele expôs. E quem se reconheceu que tratasse de engolir seco. Quando Plínio Marcos fez cafetões e miseráveis falarem a língua que realmente falavam, não chamou consultor de imagem para aparar palavrão. Quando Lars von Trier lançou Antichrist, não anexou manual de instruções emocionais. Quando Francis Ford Coppola afundou na selva moral de Apocalypse Now, não pediu que a guerra fosse compreendida sob a ótica do conforto doméstico.

Quando Clarice Lispector escreveu o desconforto feminino sem maquiagem, não se preocupou se seria “didática”. Quando Charles Bukowski transformou o fracasso em literatura, não frequentou oficina de boas maneiras. Quando Pablo Picasso pintou Guernica, não tentou equilibrar os lados para parecer sensato — escolheu a deformação, o grito, o incômodo.

Nenhum deles produziu conteúdo. Produziram conflito.

A arte não nasceu para ser simpática. Nasceu para ser necessária. O problema é que hoje o artista parece mais preocupado em ser aceito no coquetel do que em ser lembrado na História. Prefere o aplauso imediato ao escândalo duradouro. Quer trending topic, não quer tribunal. Quer aprovação, não quer tensão.

E assim vamos fabricando obras que não ofendem ninguém — e, por isso mesmo, não marcam ninguém. Filmes cuidadosamente calibrados para não ferir suscetibilidades, peças que parecem relatórios, romances que soam como campanhas institucionais. Tudo muito responsável. Tudo muito consciente. Tudo muito esquecível.

Talvez a diferença esteja aí: antes, o artista corria o risco de ser proibido. Hoje, corre o risco de ser cancelado — e treme. E quando a mão treme a obra nasce tímida.

A grande arte sempre foi um pouco indecente. A arte excessivamente preocupada em ser correta termina apenas correta. E correção nunca foi sinônimo de grandeza.

Etimologia, favela e improviso

 Estudar História é um exercício de desilusão. A gente começa acreditando que vai encontrar heróis e termina encontrando escombros. Estudar etimologia, então, é quase um ato de crueldade intelectual: as palavras denunciam aquilo que a política tenta maquiar.

“Favela” não nasceu poética. Não foi invenção lírica de sambista nem metáfora de resistência urbana. O termo vem da Guerra de Canudos, quando soldados, ao retornarem do massacre, ocuparam um morro no Rio de Janeiro e o batizaram com o nome do morro baiano coberto pela planta favela. Ou seja: a palavra já nasce ferida. Surge do improviso, da ausência de Estado, do resto que sobra depois da guerra. Favela é, etimologicamente, moradia improvisada. Improviso que virou política pública permanente.

E como toda palavra que começa provisória, acabou se tornando definitiva — mas só para os pobres.

Há quem romantize. Há quem veja na precariedade uma estética, uma potência cultural, uma espécie de autenticidade bruta. Como se o esgoto a céu aberto fosse um manifesto artístico. Como se a laje sem reboco fosse uma escolha arquitetônica. A miséria ganhou filtros conceituais. Virou pauta acadêmica, virou documentário premiado, virou cenário exótico para estrangeiro fotografar do alto, preferencialmente depois de visitar o Cristo Redentor.

Mas ninguém deveria ser feliz por morar numa favela. Pode ser feliz apesar dela. Apesar do barranco que desliza. Apesar do ônibus que não sobe. Apesar da escola que falta. Apesar da polícia que entra atirando e do Estado que entra prometendo. Felicidade não pode ser confundida com resignação.

Aceitar a favela como destino é aceitar a precariedade como projeto de país. É admitir que existe uma geografia oficial e outra tolerada. É normalizar o improviso como política habitacional. É dizer, com elegância sociológica, que há vidas que podem continuar sendo provisórias.

Urbanização não é maquiagem. Não é pintar muro e instalar Wi-Fi para produzir manchete. Urbanização é moradia digna, é saneamento, é rua asfaltada, é endereço que chega correspondência sem pedir favor. É transformar o improviso em estrutura. É substituir a gambiarra por planejamento. É fazer com que a palavra “favela” volte a ser apenas botânica — e não social.

Talvez seja pessimista dizer isso. Talvez soe duro afirmar que celebrar a favela como identidade permanente é celebrar o fracasso coletivo. Mas a História ensina — e a etimologia confirma — que as palavras carregam cicatrizes. E “favela” carrega a cicatriz do abandono.

Estudar História faz bem porque impede a anestesia. Estudar etimologia faz melhor ainda: mostra que o que hoje parece natural começou como emergência. E emergência que dura mais de um século deixa de ser acidente. Vira escolha.

E ninguém deveria aceitar como escolha aquilo que nasceu como improviso.

Mauro Marcel explica o Parnasianismo.


 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Carnaval, São Paulo e moralismo burguês

 São Paulo descobriu o Carnaval como quem descobre um espelho novo — e passa a se admirar numa imagem que não reconhece, mas insiste em amar.

Durante décadas repetimos, com um certo provincianismo, que aqui não havia Carnaval. Havia trânsito. Concreto. Pressa. Havia uma ética quase protestante do trabalho que transformava fevereiro num mês  um pouco mais quente, inundado e igualmente produtivo. O samba, diziam, morava em outro CEP. São Paulo era o seu túmulo, e ainda é.

O curioso é que agora as pessoas sambam por cima desta cova.

E a imagem é triste.

Não me entendam mal: não é a alegria que me incomoda. É o patrocínio da alegria com hora e data marcada. Blocos gigantescos financiados por indústrias do entretenimento, bebidas, aplicativos, artistas que pousam como messias elétricos sobre trios importados de uma baianidade pasteurizada. Um pastiche estranho. Uma fantasia comprada em doze vezes sem juros. São Paulo brincando de ser o que nunca foi — e talvez nem precise ser.

Há algo de profundamente paulistano nessa tentativa de imitar o espontâneo. Organizamos a desordem. Regulamentamos o improviso. Transformamos a catarse em planilha. O bloco vira evento. O evento um produto. O produto engajamento.

A multidão vira público-alvo.

Sou de uma época — e não faz tanto tempo assim — em que Carnaval era coisa de alienado. “Gente burra mesmo”, dizíamos, com a arrogância juvenil de quem acredita que ler duas páginas de Marx nos tornava superiores ao batuque da esquina. Havia um certo orgulho em não gostar. Em ficar em casa. Em assistir ao noticiário com ar de quem compreende a decadência do mundo.

Hoje, ironicamente, vejo intelectuais improvisados sobre trios elétricos patrocinados, discursando entre um gole e outro, transformando a festa em palanque líquido. Existe um termo antigo entre os socialistas históricos para essa fauna: “esquerda festiva”. Aqueles que fazem da política uma senha para circular em festas, beber e animar as multidões. Em São Paulo, "a festiva" e alienada parece ter encontrado seu habitat natural: o bloco com abadá conceitual.

Mas talvez, e apenas talvez, eu esteja sendo injusto. 

Talvez toda festa carregue em si uma tentativa de esquecer — e esquecer seja uma forma legítima de sobrevivência. A cidade que trabalha até morrer agora tenta morrer dançando. O problema é que a dança soa ensaiada demais.

Olho as avenidas tomadas por uma alegria ruidosa e penso se nos perdemos ou quiçá nos encontramos. Quem sabe sempre tenhamos sido isso: uma cidade envergonhada de si, querendo ser outra. Um corpo de concreto tentando gingar. Um cemitério tentando florescer.

Há algo de profundamente solitário naquela euforia coletiva. Milhões de pessoas juntas, cada uma filmando a própria alegria para provar que ela existiu. A fantasia é compartilhada; a experiência é individual. O bloco é enorme; o sujeito é minúsculo.

No fundo, muito no fundo, o samba continua enterrado.

E com a música alta, há também um silêncio curioso — imposto pelo Unidos do Moralismo Burguês às avessas — que vigia e constrange qualquer voz dissonante. Não se pode mais chamar o Carnaval pelo que ele é: um delírio coletivo com data marcada, uma catarse programada num país que ainda não resolveu o básico e transforma a própria precariedade em espetáculo exportável. 

Questionar virou heresia. Apontar o exagero um pecado social. 

E assim seguimos, celebrando com fervor aquilo que, no fundo, é apenas a nossa dificuldade crônica de encarar a própria feiúra sem glitter.



Anexo à crônica:
Etmologia da palavra "folião"

A palavra folião vem de folia, que por sua vez tem origem no francês antigo folie, derivado de fol, que significava “louco”, “insensato”.

O francês folie vem do latim vulgar follia, relacionado a follis, palavra latina que significava “fole” (o instrumento que sopra ar) e, por extensão metafórica, algo “vazio”, “inchado de ar”. Daí surgiu a associação com alguém “cheio de vento na cabeça” — ou seja, tolo, insensato.

O percurso etimológico é mais ou menos assim:

follis (latim: fole, saco de ar) → ideia de vazio / cabeça cheia de ar → fol (francês antigo: louco) → folie (loucura) → folia (português: festa ruidosa, alegria exagerada) → folião (aquele que participa da folia)

Aula com o tema: Geração canguru.


 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Doutorados, shopping centers e carimbos.

         Há algo de curioso nesses doutores de vinte e poucos anos que desfilam pelos corredores da universidade como quem acabou de zerar um videogame em modo fácil. Carregam diplomas recém-impressos, ainda com cheiro de tinta fresca, e uma pressa que parece ter sido fabricada em série. A academia, coitada, virou uma espécie de startup epistemológica, onde o pensamento precisa caber num pitch de cinco minutos e a tese é tratada como produto mínimo viável.

        Olho para esses jovens doutores e sinto uma pontada de espanto. Não pela inteligência, que às vezes até sobra, mas por essa ingenuidade altiva que só os que não tiveram tempo de errar o bastante conseguem ostentar. Doutorar aos 28 é como envelhecer sem ter passado pela adolescência: uma barba postiça encaixada às pressas no rosto.

        O problema é essa pressa institucionalizada, essa obsessão em transformar formação intelectual em linha de montagem. A universidade, que já foi monastério secular para os devotos do pensamento, agora opera como fábrica de neurônios prontos para consumo, embalados a vácuo. O saber virou fast-food: nutritivo na aparência, indigesto na prática. 

        Porque ninguém, absolutamente ninguém, leu o suficiente aos 29 para sustentar o peso olímpico de uma tese que se pretende adulta. O conhecimento é um organismo lento, desses que crescem como árvores teimosas em quintais abandonados. Requer silêncio, tropeço, reversão de opiniões, o tipo de experiência que o tempo deposita em camadas invisíveis. E tempo, nesse mercado acadêmico apressado, virou artigo contrabandeado.

        Quando alguém termina o doutorado tão cedo, o que mais me intriga não é o feito, mas o contexto que o produz. Há um culto estranho à produtividade, uma liturgia burocrática que confunde currículo com caráter intelectual. A vida acadêmica, antes balbucio, rumor e labirinto, tornou-se corredor polido de shopping center, cheio de promoções imperdíveis: “Publique agora e ganhe pontos na avaliação institucional.”

        No fundo, o que estamos testemunhando é a industrialização da mente. Cada doutor precoce é uma peça de vitrine que confirma o catálogo da eficiência. Só que conhecimento não é esteira, não é carimbo, não é contagem de páginas. É uma demora paciente, quase um vício melancólico, que exige o tipo de cansaço que só chega depois dos trinta.

        Mas vá explicar isso para quem coleciona títulos como figurinhas. Muitos ainda te olharão como quem escuta um velho reclamar da modernidade, enquanto desfilam com seus jalecos impecáveis e suas certezas recém-saídas do forno.

        E talvez seja exatamente isso que a academia perdeu: a dúvida antiga, desgastada, cheia de poeira e profundidade. A dúvida que não cabe num Lattes, mas sustenta o peso do mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Novos beatos...

     Há épocas em que o mundo parece girar não pelo eixo da Terra, mas pelo eixo moral de quem acha que sabe como devemos viver. Dias Gomes entendia isso melhor do que ninguém: suas irmãs carolas, com véu na cabeça e dedo em riste, patrulhavam a vida alheia com a convicção de quem acredita ter linha direta com o Altíssimo. Eram guardiãs dos bons costumes — ou do que restava deles.

    Hoje, trocamos o véu pelo avatar no Instagram, o rosário pelos threads indignados, mas o espírito é o mesmo: estamos cercados de novas irmãs cajazeiras. Só que agora, em vez de água benta, elas carregam emojis, hashtags e uma chuva de links que prometem salvar a humanidade de si mesma. O diabo, coitado, virou figurante; quem faz o inferno são os próprios fiéis.

    Curioso é que não se reconhecem como religiosas. Rejeitam a palavra com o fervor dos fanáticos de outrora. Mas o ritual… ah, o ritual é impecável.
    Cada erro alheio vira um pecado mortal.
    Cada opinião divergente, um motim contra as tábuas da nova Lei.
    Cada deslize histórico, um processo sumário em praça pública — sem direito a confissão, absolvição ou arquivamento.

    A cultura woke nasceu anunciando liberdade, justiça, equidade. E, veja bem, não é que esses desejos sejam ruins. Pelo contrário, quem, em sã consciência, votaria contra a ideia de um mundo mais justo? O problema é que algo se perdeu no caminho — como aquele bilhete amassado no fundo do bolso que a gente só acha quando já não serve pra nada. O sonho virou dogma. A causa, catecismo. E os fiéis, sem perceber, transformaram-se em sacerdotes improvisados dessa nova religião sem nome , mas agindo como a única digna de existir.

    Há quem diga que vivemos um período de caça às bruxas. Discordo: as bruxas sabiam quem eram. Os jovens de hoje caçam fantasmas — sombras projetadas por medos, culpas e narrativas que eles próprios inventam. Vasculham o passado à procura de monstros e, quando os encontram, sentem-se heróis de uma cruzada moral que jamais terminará. Em 1620 queimavam mulheres; em 2025 queimam reputações. A fogueira continua acesa — apenas mudou de combustível.

    E como são modernos, os novos beatos. Moderníssimos.
    Acreditam-se iluminados, progressistas, evoluídos — versões beta da humanidade. 
    Mas basta olhar com mais carinho para perceber que se comportam como as velhas senhoras de saia preta na porta da igreja batendo o relógio da moral comunitária. Só que agora  usam roupas coloridas, citam filósofos franceses e juram que tudo o que fazem é para o bem comum. (Citam os filósofos sem nunca os terem lido, digo de passagem).

    São carolas sem perceber. Beatas ateias. Pregadores que acham que sermão não é sermão quando começa com “eu só queria problematizar”. Querem orientar o que devemos comer, vestir, falar, desejar, consumir e — por que não? — até o que devemos sentir diante de um filme. Porque opinião própria virou um item suspeito, quase contrabandeado. Somos obrigados a nos indignar, a odiar, a amar, a desmonetizar, somos obrigados a deixar de seguir o humorista sem graça, não por não ser engraçado, mas por ele não pregar a mesma fé que os donos da palavra. 

    E o mais trágico?
    Não percebem que fazem exatamente aquilo que criticam.

    Dias Gomes morreria rindo — ou talvez chorando — ao ver que, no fim das contas, o moralismo é como mofo: muda de canto, mas não desaparece. Hoje ele brota nas entrelinhas de uma postagem sobre inclusão; amanhã aparece travestido de indignação contra um personagem de 1973. Moralismo é uma erva daninha: basta a chuva certa e o terreno fértil, e lá está ele, se multiplicando como se o mundo dependesse disso.

    Enquanto isso, nós, os espectadores dessa comédia de erros, seguimos caminhando entre dogmas que não escolhemos. Antigamente, errar era humano; hoje é imperdoável. E quem tenta viver sem se converter a essa nova religião — comunista, woke, espiritual ou seja lá qual for — passa o dia pulando fogueiras invisíveis, desviando de sermões que voam pela internet como mosquitos no verão.

    No fundo, tudo o que eu queria era um pouco do antigo silêncio das tardes de domingo. Mas até isso parece proibido: sempre há alguém pronto para nos ensinar — com a bondade de um inquisidor — a maneira correta de existir.

    E assim seguimos, entre carolas modernas e sermões progressistas, tentando encontrar o milagre: o milagre de viver sem precisar ser santo de nenhuma fé.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Vírgula, urgência e talento.

     Hoje, juro, pensei em desistir. Pensei seriamente em jogar fora minhas cadernetas, apagar arquivos, fechar a conta de e-mail literária e me refugiar no silêncio de quem não escreve mais. Porque, convenhamos, que sentido tem continuar a vomitar palavras, quando lá fora existem IAs que escrevem melhor do que eu jamais sonhei? Elas constroem frases sem hesitação, costuram metáforas que eu passaria horas tentando tecer e, de quebra, entregam personagens mais humanos que muito humano que conheço.

    Fiquei pensando, então, que talvez meu destino fosse o sofá, a televisão e os livros alheios. Talvez fosse me tornar apenas leitor, espectador passivo, alguém que se contenta com a perfeição digital enquanto sua própria voz se perde no eco do nada. Imaginei: uma IA escrevendo sobre amores impossíveis, perdas irreparáveis, noites em que a alma sangra sem razão, e eu ali, me sentindo como um pintor diante de uma tela vazia, sem cor, sem pincel, sem mão.

    Passei a manhã inteira contemplando minhas tentativas falhas, aquelas frases que soam como gemidos de uma máquina quebrada. A caneta parecia pesar na minha mão, como se fosse feita de chumbo, e cada palavra que saía era um lamento tímido diante da genialidade fria de um algoritmo. Pensei em entregar-me à mediocridade confortável: ler clássicos, repetir fórmulas prontas, evitar a dor de escrever mal. Afinal, a literatura sempre exige dor, e as IAs não conhecem dor. Elas não dormem em noites inquietas, não têm café frio, não choram sozinhas no banheiro ao perceberem que algo precioso escapa pelas mãos.

    Mas então algo estranho aconteceu. Um vento passou pela janela, trazendo cheiro de terra molhada e de livros antigos. Fechei os olhos e lembrei da primeira vez que escrevi: palavras rabiscadas em uma folha de caderno, frases tortas, com erros que fariam qualquer corretor digital rir. Eu tinha apenas dez anos, mas já sentia a urgência de dizer algo que ninguém me ensinou a dizer. Era minha voz, bruta e cheia de falhas, mas minha.

    E foi aí que percebi: a escrita não é apenas talento. Talento pode ser capturado, medido, replicado. Mas o que ninguém, jamais, poderá capturar, é o que escapa do controle, o que pulsa dentro de cada letra que escrevo. É a minha alma, meu caos, minha dúvida que se recusa a ser organizada em parágrafos perfeitos. É a minha risada nervosa diante do papel em branco, a minha ansiedade ao escolher uma vírgula, o meu prazer mórbido em ver a frase torta funcionar, de algum modo, como música.

    As IAs podem escrever melhor, podem impressionar, podem até enganar leitores incautos. Mas não podem sentir. Não podem tropeçar na vida e transformar esse tropeço em história. Não podem se apaixonar, se desesperar, se levantar no meio da noite para escrever sobre algo que dói demais para ser esquecido. Minha literatura é o lugar onde guardo minhas contradições, minhas falhas, meus excessos; é o meu laboratório secreto, minha resistência silenciosa.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Irã, Marx e um país tropical

 A Revolução Islâmica do Irã é uma daquelas histórias que provam que o diabo gosta de se vestir de santo. Em 1979, milhões foram às ruas para derrubar o xá Reza Pahlavi, convencidos de que estavam abrindo a porta da liberdade. Abriram, mas quem entrou não foi a liberdade — foi o aiatolá, trazendo na bagagem a censura, a polícia religiosa e um manual de como transformar o país numa prisão com tapete persa.

As mulheres, que antes podiam estudar, trabalhar e se vestir como bem entendessem, foram obrigadas a usar a burca — não como roupa, mas como uniforme de submissão. Não era tecido: era corrente. A opressão não ficou só na roupa. Veio junto a perseguição estatal, onde falar errado significava sumir da noite para o dia, e, pior, a delação partia muitas vezes do próprio vizinho. O regime conseguiu terceirizar a tirania: cidadãos denunciando cidadãos, irmãos traindo irmãos, tudo em nome da “verdade” oficial.

No Brasil, o roteiro foi menos dramático, mas igualmente perverso. Não tivemos clérigos, mas tivemos sindicalistas com vocação para papa vermelho. No lugar de mesquitas, sindicatos; no lugar de versículos, discursos de palanque. Luís Inácio não usa turbante, mas se comporta como aiatolá tropical: infalível, intocável, sempre cercado de discípulos prontos a beijar-lhe o anel — ou a mão que assina o próximo decreto.

Aqui, a burca não cobre o corpo, mas a mente. É a censura que se veste de “regulação da mídia”, é a autocensura ensinada nas salas de aula por professores que confundem educação com catequese ideológica. No Irã, o silêncio é imposto pela polícia moral; no Brasil, é imposto por influencers, jornalistas militantes e acadêmicos que transformaram a universidade num mosteiro marxista, onde heresia é pensar diferente.

O marxismo, como o islamismo radical, é uma religião disfarçada de política. Tem seus livros sagrados (O Capital é o Alcorão vermelho), seus profetas (Marx, Lenin, Gramsci) e sua própria versão de paraíso, sempre prometido e nunca entregue. Não promete céu, mas garante o inferno para quem ousar duvidar.

No Irã, as mulheres escondem o rosto para sobreviver; no Brasil, as pessoas escondem opiniões para não serem linchadas virtualmente, demitidas, processadas. Lá, a denúncia é feita ao mulá; aqui, ao tribunal das redes sociais, ao Ministério Público, ou a qualquer blogueiro com fome de like e fidelidade partidária.

No fim, o mecanismo é idêntico: criar medo. Medo de falar, de pensar, de respirar sem pedir permissão. E o medo é a ferramenta preferida de todo tirano — seja ele um clérigo com barba longa ou um ex-metalúrgico com fome de eternidade no poder.

O Irã dos aiatolás e o Brasil dos petistas parecem histórias diferentes, mas têm a mesma moral. Não importa se a cela é feita de pedra ou de hashtags; se a mordaça é de pano ou de medo. O final é sempre o mesmo: uma nação inteira ajoelhada, olhando para o chão, enquanto os donos do poder escrevem a última página — e assinam com sangue.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Machado de Assis, Machado de Assis e Machado de Assis

     Outro dia vi, num desses eventos literários promovidos com dinheiro público e pouco público, uma senhora emocionada falando de sua paixão por Machado de Assis. Tinha lágrimas nos olhos. Contava como sua mãe dizia que ele era o maior escritor do Brasil, como o considerava um exemplo de superação: "um homem negro, pobre, gago, epiléptico, que chegou ao topo". 

    A plateia aplaudia, eu inclusive. Mas, confesso, com uma dúvida entalada entre os dedos: será que ela leu alguma coisa do Machado? Ou era apenas uma emoção herdada, dessas que sentimos por tabela, como torcer por um time sem conhecer os jogadores, gostar de Elis Regina sem ouvir Águas de março?

    Não quero soar amargo, eu nunca quero (talvez queira, só um pouco). 

    É muito fácil gostar de escritores que a gente não lê. Machado, Clarice, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa... são como santos de devoção doméstica. Com retratos emoldurados em camisetas, murais de escolas e discursos de formatura. Todos dizem que são geniais. E são mesmo. Mas a maior parte das pessoas que os exaltam nunca passou da segunda página de Memórias Póstumas, ou da Paixão segundo GH, ou ainda algum conto perdido do Sagarana...

    É como dizer amar feijoada, mas tirar a orelha, o pé e o rabo antes de servir.

    Outro dia fui numa escola vi uma exposição sobre o Lobato, o Monteiro. 

    Os alunos fizeram cartazes com trechos de suas obras, bonecos da Emília com olhos de botão, inclusive uma maquete do Sítio do Pica-Pau Amarelo. 

    A professora me falou com orgulho que todo ano faz aquilo. Perguntei, curioso, qual livro do Lobato tinham lido. Ela desviou os olhos, coçou a cabeça e disse que "na verdade, esse ano não deu tempo de ler nenhum... Mas os alunos pesquisaram muito e aprenderam muito durante a pesquisa".

    E é isso. Homenageamos escritores como quem homenageia tios que morreram antes de a gente nascer. Fala-se bem, respeitosamente, mas sem intimidade. Sem aquela leitura que arde, que provoca, que faz você querer fechar o livro no meio de uma frase só pra respirar.

    Há quem diz amar Clarice, mas nunca entendeu a coisa do ovo caindo da sacola no meio da rua. (Você que diz amar, sabe do que estou falando?).

    Gente que fala do “Dom Casmurro” como história de traição e não de paranoia. 

    Gente que acha que Guimarães Rosa é difícil demais, e cita o “...que seja eterno enquanto dure” como se fosse frase de efeito pra qualquer hora ou lugar.

    E não é má fé. É hábito. 

    Nos especializamos em valorizar a embalagem e ignorar o conteúdo. Preferimos o vídeo de dois minutos explicando o livro a encarar meia página da obra. Preferimos saber onde o autor nasceu, com quem casou, se gostava de cigarro ou de café, a nos envolver de verdade com o texto.

    Uma geração de colecionadores de capas.

    Mas a verdade é simples e dura: não adianta montar exposição sobre Machado de Assis, fazer filme com ator famoso, botar seu em escola, se ninguém lê Machado. Se ninguém sua para entender sua ironia, o cinismo escondido na pontuação, a frase que não termina porque começa a nos devorar.

    Machado não precisa de placa. Precisa de tempo. De silêncio. De leitor que tope o desafio de entender um narrador que mente.

    Quer homenagear um escritor? Leia. Nem precisa gostar. Só leia. E se não gostar, tente de novo. Às vezes o problema não é o autor. Às vezes o problema é que estamos tão acostumados com legendas de Instagram e mensagens de WhatsApp que esquecemos como é entrar devagar num texto que não grita, mas sussurra.

    O maior elogio que você pode fazer a um escritor não é dizer que ele é gênio. É abrir seu livro. Acordar mais cedo pra ler três páginas. Deixar o celular de lado enquanto Bento Santiago enlouquece.

    O resto: as frases de efeito, os murais na escola, a foto com a estátua no centro do Rio, este resto, é só decoração. Literatura, de verdade, não precisa de altar. Precisa de alguém que, no meio da correria, ainda ache que vale a pena sentar, abrir um livro e se perder. Mesmo que não entenda tudo. Porque, no fundo, é disso que se trata: não entender tudo, mas seguir lendo.

    Machado agradece. Silencioso, claro. Como quem sorri com os olhos por trás de um bigode finíssimo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Diretas, Magnitsky e fogueira moral

     Antigamente, a censura usava uniforme e batia à porta de madrugada. Hoje, vem por e-mail, com despacho eletrônico assinado por ministro do Supremo. 

    Trocamos o porrete pela liminar, o pau de arara pela suspensão de contas, o exílio pelo cancelamento judicial. Mudaram as ferramentas, mas o projeto é o mesmo: silenciar.

    No Brasil de 2025, o que se pretende chamar de democracia tem dificuldade para sustentar o próprio nome. 

    O Estado de Direito foi reduzido a um palco onde um só ator improvisa falas e distribui papéis: o herói, o vilão, o inimigo da pátria. 

    Alexandre de Moraes, uma espécie de Rasputin de toga, encarna o paradoxo: combate o "autoritarismo" com medidas autoritárias, reprime "discursos de ódio" com decisões de ódio à divergência, protege a Constituição ignorando as suas cláusulas pétreas.

    É o velho truque das ditaduras em qualquer lugar do mundo em qualquer período histórico: prender em nome da liberdade, censurar em nome da verdade, calar em nome da paz. 

    A ironia é que, nesta nova encenação, os antigos perseguidos tornaram-se cúmplices. E quem cantou "alegria, alegria" se cala — ou aplaude — diante de ordens judiciais que fecham bocas e plataformas. Os filhos da Tropicália dançam agora a valsa do conformismo institucional.

    "Ditadura nunca mais", gritaram nas Diretas Já. Mas parece que esqueceram de acrescentar: “inclusive a de toga”.

    É verdade que os tempos mudaram. O golpe não precisa de tanques como outrora, mas de termos técnicos: "desinformação", "intervenção excepcional", "proteção institucional". O inimigo é vago, o risco imenso, o prazo indeterminado. 

    E a exceção se torna regra, a regra uma relíquia.

    A sanção americana pela Lei Magnitsky contra Moraes não é um capricho de um governo estrangeiro. É um aviso — desses que só escutam os que ainda não perderam o senso crítico. 

    Remoções de conteúdo, perseguições a jornalistas, bloqueios de plataformas como a Rumble, detenções sem julgamento prévio. 

    Não se trata mais de combater crimes, mas de controlar narrativas.

    E quem ousa dizer o contrário sofre processos, censuras, bloqueios ou difamação. A crítica virou crime; a dúvida, evidência de culpa.

    Dizia-se que o Brasil não era para amadores. Hoje, talvez nem para profissionais. A democracia, uma senhora cansada de ser traída, transformou-se em adereço — uma palavra para discursos pomposos, uma fantasia para tribunais com mais vaidade que limite.

    Velhos, novos e novíssimos baianos, assim como tantos outros que um dia desafinaram para provocar o sistema, se afinam ao coro oficial. Alguns por medo, talvez, outros por conveniência, e alguns — os piores — por acreditar mesmo que existe liberdade em se calar diante do arbítrio, desde que o arbítrio use gravata, fale bonito e pague o dízimo estatal em verba pública direcionada a filmes que ninguém vai assistir, livros que ninguém vai ler, peças teatrais que falam do próprio umbigo e outros tantos projetos que não interessam a ninguém, mas que mantem a classe artística domesticada porque, enfim, é preciso produzir cultura e também é preciso pagar a fatura do cartão.

    O que restou da liberdade de expressão é um campo minado: qualquer passo em falso pode ser “antidemocrático”, “golpista”, “extremista”. 

    O direito de errar, de ser tolo, de falar bobagem, de pensar diferente — tudo isso foi jogado na fogueira moral dos justos autoproclamados. E o povo? O povo continua no ônibus, na frente das adegas, no caminho do culto, no batuque dos tambores, perto demais das capitais, longe demais das decisões sobre suas próprias vidas.

    O Brasil nunca teve muito apreço por liberdade. Preferimos o jeitinho ao debate, a autoridade ao argumento, o medo à responsabilidade. Agora, fingimos que a censura é uma vacina — quando, na verdade, é o vírus que lentamente paralisa a democracia por dentro.

    O que vem depois? Talvez o silêncio absoluto. A ausência de debate, de contradição, de ruído. Um país ordenado, limpo, domesticado. 

    Uma paz de cemitério.

    Mas há quem insista. Quem escreva, cante ou grite. Quem seja preso por isso. 

    Ainda há?

    E talvez, num futuro qualquer, redescubramos que liberdade não se dá — se conquista. E que um país onde só um lado pode falar é, por definição, doente.

    Até lá, seguimos. Alguns gritam, outros calam. E muitos fingem que não veem. 

    É mais fácil pôr o rabo entre as pernas e calar que as pernas em marcha e seguir.

   E como um velho compositor baiano me dizia:  

"Enquanto os homens exercem

Seus podres poderes

Motos e fuscas avançam

Os sinais vermelhos

E perdem os verdes

Somos uns boçais


Queria querer gritar

Setecentas mil vezes

Como são lindos

Como são lindos os burgueses

E os japoneses

Mas tudo é muito mais


Será que nunca faremos senão confirmar

A incompetência da América católica

Que sempre precisará de ridículos tiranos

Será, será, que será?

Que será, que será?

Será que esta minha estúpida retórica

Terá que soar, terá que se ouvir

Por mais zil anos


Enquanto os homens exercem

Seus podres poderes

Índios e padres e bichas

Negros e mulheres

E adolescentes

Fazem o carnaval


Queria querer cantar afinado com eles

Silenciar em respeito ao seu transe num êxtase

Ser indecente

Mas tudo é muito mau


Ou então cada paisano e cada capataz

Com sua burrice fará jorrar sangue demais

Nos pantanais, nas cidades

Caatingas e nos gerais


Será que apenas os hermetismos pascoais

E os tons, os mil tons

Seus sons e seus dons geniais

Nos salvam, nos salvarão

Dessas trevas e nada mais


Enquanto os homens exercem

Seus podres poderes

Morrer e matar de fome

De raiva e de sede

São tantas vezes

Gestos naturais


Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo

Daqueles que velam pela alegria do mundo

Indo e mais fundo

Tins e bens e tais


Será que nunca faremos senão confirmar

Na incompetência da América católica

Que sempre precisará de ridículos tiranos

Será, será, que será?

Que será, que será?

Será que essa minha estúpida retórica

Terá que soar, terá que se ouvir

Por mais zil anos


Ou então cada paisano e cada capataz

Com sua burrice fará jorrar sangue demais

Nos pantanais, nas cidades

Caatingas e nos gerais


Será que apenas

Os hermetismos pascoais

E os tons, os mil tons

Seus sons e seus dons geniais

Nos salvam, nos salvarão

Dessas trevas e nada mais


Enquanto os homens

Exercem seus podres poderes

Morrer e matar de fome

De raiva e de sede

São tantas vezes

Gestos naturais


Eu quero aproximar

O meu cantar vagabundo

Daqueles que velam

Pela alegria do mundo

Indo mais fundo

Tins e bens e tais!

Indo mais fundo

Tins e bens e tais!

Indo mais fundo

Tins e bens e tais!"

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Não quero ser americano, quero ser americano

    Não quero ser americano. Essa frase repete-se em minha cabeça feito um mantra torto, um mantra que se engasga entre o orgulho ferido e a ironia sufocante. Não quero ser americano, porque ser americano virou um espelho trincado onde vejo refletidos os horrores e as utopias de um país que se autoeleva a modelo do mundo — e que, ao mesmo tempo, serve de laboratório para os piores experimentos da humanidade.

    Mas, também quero ser americano.

    Quero ser americano como quem quer ser ator em Hollywood, mas sem perder a alma na troca pelo roteiro raso e o clichê. Quero ser americano para beber o café preto da morning routine, enquanto o despertador toca o hino de uma rotina que não me pertence, mas que me fascina. Quero ser americano para entender aquela mistura louca de liberdade e consumo, para experimentar o sonho do carro na garagem, da casa com gramado, do iPhone na mão — e sentir o vazio que essa perfeição fabricada deixa nas entranhas.

    Não quero ser americano, pois seria admitir a colonização das ideias, a padronização dos desejos, a uniformização do mundo em fast food, reality shows e falsas promessas de felicidade em cápsulas vendidas no Walmart da vida. Não quero ser americano porque ser americano é, muitas vezes, ser uma marionete cujos fios se estendem até Wall Street, passando pela indústria cultural que vende ilusões em série. É ser engolido pelo monstro que chama a si mesmo de “excepcional”.

    Mas quero ser americano para sentir aquela febre da reinvenção constante, do recomeço na rua que nunca dorme, do melting pot onde tudo é misturado — às vezes com violência, outras com esperança. Quero ser americano para testemunhar a força brutal da diversidade, onde o horror do racismo convive com a poesia das periferias que dançam e protestam. Quero ser americano para tentar entender o paradoxo do país que derruba muros e constrói prisões, que exporta democracia enquanto internaliza segregação.

    Não quero ser americano porque a América, aquela América que explode na tela com seus símbolos de glória e decadência, também é um lembrete cruel daquilo que não quero ser: um cidadão anestesiado pelo medo, pelo consumo desenfreado, pela alienação travestida de entretenimento. Não quero ser americano para não esquecer das crianças que vivem sem esperança em guetos invisíveis, dos soldados que voltam sem alma, dos sonhos que morrem no trânsito da metrópole.

    Mas quero ser americano para viver a contradição de um lugar que é, ao mesmo tempo, berço e sepultura de tantas revoluções, o terreno fértil de tantas utopias e a cova rasa de tantos fracassos. Quero ser americano para tentar encontrar ali, entre as ruínas e os arranha-céus, um sentido para a própria humanidade — mesmo que esse sentido venha embrulhado em ironia, cinismo e desesperança.

    Não quero ser americano, porque isso implicaria desistir da minha identidade, das minhas raízes enraizadas no chão de outro continente, da minha língua que se embaraça nas palavras que nunca se traduzem por completo. Não quero ser americano porque seria trair o que há de mais genuíno em mim, aquela resistência silenciosa contra a homogeneização, contra o apagamento das diferenças.

    Mas quero ser americano para beber da fonte de um país que, mesmo em suas contradições, conseguiu criar músicas, filmes, literaturas que mexem com a alma, que dizem verdades dolorosas e que provocam mudanças — mesmo que essas mudanças sejam lentas e incompletas. Quero ser americano para aprender com os erros, para não repetir a estupidez dos que fecham os olhos para a própria história, para me inspirar na luta diária contra o que é injusto e opressor.

    Não quero ser americano, porque o sonho americano me parece hoje uma miragem fria, um truque barato de ilusionista, uma promessa vazia vendida em prédios de vidro. Não quero ser americano porque sei que o custo desse sonho é alto demais: vidas, dignidade, liberdade. Porque o sonho americano é também o pesadelo de muitos.

    Mas quero ser americano para sonhar um sonho que não seja só deles, para tomar emprestado um pouco da coragem de seus marginalizados, para me embrenhar nas ruas que gritam por justiça e, quem sabe, para reencontrar a humanidade perdida num mapa de consumismo e desesperança.

    Não quero ser americano, mas quero ser americano. Quero ser esse paradoxo ambulante, essa contradição ambulante, porque no fundo, ser americano — ou não ser — é antes de tudo ser humano. E ser humano hoje é navegar entre o que se rejeita e o que se deseja, entre a crítica ácida e o desejo inocente, entre o medo e a esperança.

    No fim, ser americano é querer ser algo que não existe, é buscar uma identidade em pedaços de um sonho que nunca se realizou por completo — e talvez essa busca desesperada seja o que nos une, nos diferencia e, ao mesmo tempo, nos condena.

    Não quero ser americano, quero ser americano. E nessa confusão toda, talvez eu me encontre — ou me perca para sempre.