sábado, 24 de outubro de 2026

O peixe não sabe que está na água (Ou, Porque o PT se distanciou de mim e não eu dele)

 

O ano de 2002 foi excepcional em minha vida. Não foi o ano que mudou tudo; sempre há algo, em diferentes momentos, que se apresenta como especial. Mas digo que foi assim porque, após quatro anos sem estudar o que se considera uma “educação formal”, iniciei minha graduação em Letras.

Eu me sentia o maior homem do mundo. Em outro momento, falarei da época anterior à minha primeira graduação. Faria outras duas depois dessa, além das especializações. Cursar Letras foi um sonho de infância, o único curso que quis fazer quando descobri que existiam universidades.

Muita água passou por baixo da ponte, muita areia caiu da ampulheta, mas aquela primeira faculdade foi especial.

Totalmente presencial com campus e tudo, verdadeira velha guarda.

Eu era jovem, inexperiente, tinha amigos de infância ainda por perto, e todos lutávamos por ideais e uma colocação profissional.

Muita coisa aconteceu e mudou minhas relações com meus amigos, mas falando do sentimento que tinha à época: me sentia parte de um grupo, uma pessoa estúpida próxima a pessoas geniais. Era o mais ignorante de todos. Aprendia, aprendia, aprendia, aprendia muito. Escutava todas as conversas, quase não falava. Aprendia. Sim, vou repetir: aprendia muito.

Se um livro era indicado por qualquer um dos meus amigos, eu corria a à biblioteca para ler, elas ainda existiam. A leitura puxava outros autores e, assim, consegui ler, não vou dizer tudo, mas li muito Dostoiévski, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Eça de Queirós, Balzac, Dickens, muitos mais e livros cultuados como A Revolução dos Bichos, Admirável mundo novo, 1984, Em Busca do Tempo Perdido, As vinhas da ira, Esperando Godot. Aos poucos, fui me tornando a pessoa que sou, à medida que buscava ler mais e mais.

Não me envergonho em dizer que invejava meus amigos. Era uma inveja das coisas boas. Nunca pensei que não merecessem o que tinham; eu apenas queria ter também. Um deles sabia inglês e foi morar na Europa. Outro sabia se comunicar grandiosamente e foi trabalhar como vendedor em uma loja de artigos musicais, fez carreira. Um terceiro tinha dons de liderança e organizou, junto ao Movimento Negro, representado por uma entidade não governamental, um cursinho comunitário voltado para afrodescendentes e pessoas carentes sem condições de pagar por um cursinho pré-vestibular.

O caso é que esse cursinho chegou tarde para mim, que era mais do que carente. Eu já havia iniciado minha graduação em uma universidade particular e, como era fã dos meus amigos, aceitei dar voluntariamente aula no cursinho comunitário. A minha ideia era dividir um pouco do que eu estava aprendendo, ajudar as pessoas a conseguir o que eu não tive – uma graduação em universidade pública – e ganhar experiência como professor, o que me ajudaria quando, enfim, começasse a dar aulas para ganhar a vida.

O eu de hoje veria com estranheza o fato de meu amigo, dirigente do cursinho comunitário para pessoas negras e carentes, não ser nem negro nem carente. Era japonês e conseguiria pagar pelo cursinho se quisesse.

Não queria.

Depois de tantos anos, relembro tudo com nostalgia. Tinha muito da inocência da máxima: aos vinte, todo mundo é comunista porque tem coração; aos trinta, só é comunista quem não tem cérebro. Aos trinta, eu já não era comunista. Nunca me declarei como tal, mas era aquilo: de tanto ler, tudo o que nos cercava — e o que me cercava eram os escritores de esquerda —, eu nem sabia que era possível ler outra coisa.

O peixe não sabe que está na água. Eu era um peixe num aquário de livros vermelhos. (Não me refiro à grande literatura citada parágrafos acima, me refiro a textos políticos e acadêmicos que chegavam a mim).

E foi assim que tomei contato com o Partido dos Trabalhadores.

Eu, que fui trabalhador de fábrica por mais de sete anos, me inseri no universo da política partidária ainda na época da fábrica, mas longe dela, em um cursinho para afrodescendentes e pobres.

Um dos professores do cursinho comunitário era filiado ao partido e reunia, em sua casa, a maior biblioteca particular com a qual eu já tivera contato. Hoje, depois de velho, vejo com estranheza e desconfiança um adulto quarentão cercado de adolescentes. Mas, naquele tempo, ainda jovem, eu o admirava e via nele um tutor. Ele era professor, e eu estava estudando para ser professor.

E funcionou.

Aprendi a dar aulas sendo professor de cursinho, experiência que me ajudou muito depois que assumi minhas turmas em uma escola pública estadual. Não teria conseguido sem o serviço voluntário que me predispus a fazer.

Foi então que chegou até mim um livreto com o estatuto do Partido dos Trabalhadores. Apaixonei-me pela ideia. Até aquele momento, eu pensava no PT como uma experiência sindical. Havia lido muito sobre a figura de Lula e as greves do ABC, mas, ao entrar em contato com aquele livreto, percebi que se tratava de uma organização preparada para acolher pessoas e muito bem-organizada. Havia a previsão de grupos de estudo, grupos de minorias e decisões tomadas em assembleias. Nenhum candidato iria a um pleito sem antes ser aprovado em prévias realizadas após assembleias, por exemplo.

Estava tudo lá.

Não havia, aos meus olhos, indícios de corrupção. Era um partido com um estrito código de ética. Qualquer indício de irregularidade deveria ser investigado; os responsáveis, punidos, expulsos e denunciados. Era o ano da eleição vitoriosa de Lula, e lembro bem da primeira reunião de que participei após minha filiação, reunião de organização da futura campanha.

Um dos companheiros falou sobre financiamento e disse que começariam a pagar os filiados e a contratar pessoas para panfletar. Um dos presentes se revoltou, argumentando que aquilo não era bom. Lembro-me da discussão como se fosse hoje:

— Nós nunca pagamos. É errado.

— Mas agora temos dinheiro, podemos pagar.

— Isso é errado.

— Vai ter o dinheiro do fundo de campanha. Vamos pra cima e, desta vez, vamos ganhar a eleição.

E ganharam.

O resto é história.

Sem perceber, eu acabava de presenciar o fim do Partido dos Trabalhadores como o conhecíamos.

Pagar para panfletar significava que o PT — um partido diferente, que tinha em seus quadros figuras históricas e só filiava por indicação — começava a mudar. Pagar para fazer campanha, em termos superficiais, significava dizer que, no mínimo, era um partido igual aos outros. No fundo, se mostrou pior.

O partido ideológico deixava de ser ideológico para seus filiados mais humildes. Digo isso porque sei hoje, após mais de vinte anos, que talvez nunca tenha sido puramente ideológico para aqueles que compunham sua cúpula: pessoas que fumavam charutos cubanos, passavam férias na Europa, bebiam cerveja importada e andavam de carro do ano — às vezes alugado em nome do partido, para não dar muito na cara —, até que, em determinado momento, perderam toda a vergonha e a decência. Falo porque vi e quem estava comigo viu também.

Minhas críticas nem tinham chegado tão longe. Em uma conversa com o professor amigo que me motivara a filiação, comecei a criticar o governo. Sequer tocara no assunto corrupção; questionava apenas o rumo que as coisas estavam tomando. Podia criticar. Estava no estatuto.

O amigo disse que eu não podia criticar porque precisávamos mostrar unidade.

Mais tarde, ao elaborar uma crítica mais forte e usar uma expressão de que já não me lembro, fui alertado de que havia sido ‘politicamente incorreto’. Foi a primeira vez que me acusaram de sê-lo. Não seria a última.

Um caldo de moralismo e perseguição de ideias começou a se espalhar pelo debate político de então. Lula venceu. Eu me tornara professor. Cada um dos meus amigos seguiu seu caminho, e eu tinha minhas turmas. Continuava sendo alertado pelo meu, agora colega professor, de que precisava tomar cuidado com o debate.

— Não podemos enfraquecer a luta.

Que luta?

A minha?

De quem?

E fui observando que havia cada vez menos trabalhadores nas decisões dos trabalhadores.

Quando Lula se autodeclarou candidato à reeleição, perguntei se não haveria prévias.

— Como assim, prévias? Lula é nosso líder.

Quatro anos depois, ele indicou Dilma Rousseff como sua candidata, sem prévias, unilateralmente. Eu havia lido o estatuto. Estava lá: a indicação de candidatos a cargos deveria passar pelo crivo das assembleias. A escolha unilateral, a meu ver, era uma decisão equivocada, para dizer o mínimo. Feria o estatuto. Havia a questão de que dois terços do diretório nacional poderiam indicar o candidato sem a necessidade de prévias para o cargo de presidente da República, mas todos sabiam que não era uma indicação do diretório nacional, mas do líder máximo do partido.

E foi assim que o PT foi se transformando no que é hoje: um partido que não conversa com as pessoas. Sem assembleias, sem debates.

E sem debates dificilmente surgem novas lideranças. Como, de fato, não surgiram.

Desde a ágora grega, as pessoas se reúnem em espaços públicos para decidir o que há de melhor e de pior entre as escolhas. Ideias surgem, pessoas surgem.

O debate afina e desafina as pessoas, como nunca disse Guimarães Rosa.

E sabe quem propõe debate? Acho que vocês sabem.

É impressionante que, após a inserção de mais disciplinas de humanas no currículo escolar, o nível do debate entre os jovens tenha ido ao chão.

Não é o principal motivo, mas é um dos que aponto: quando todos se sentam ao redor de uma mesa para concordar entre si, ninguém aprende nada. Ninguém melhora, ninguém evolui.

E pasmem! É exatamente o oposto do que era proposto — ou é, nem sei mais, faz tempo que não leio nada ligado ao Partido dos Trabalhadores —, exatamente o oposto do que propõe o estatuto. O material que li era um convite ao debate, à inclusão a todos. Debater pressupõe o embate de ideias diferentes.

Quando entrava nos debates dos grupos de que participava, era execrado por questionar ideias tidas como dogmas; quando apontava esse pensamento dogmático, diziam que eu precisava ter cuidado com a minha forma de pensar.

Pois bem, sou professor de Língua Portuguesa e, portanto, também ensino redação. Do meu “local de fala” digo que não é possível redigir um texto de qualidade sem se abrir a novas ideias, sem o embate, sem questionamentos.

Existem lugares onde o debate não é fomentado, ambientes pouco democráticos, pautados pela obediência. Jamais imaginei que seria tão oprimido por levantar divergências em universidades, núcleos de debates políticos, companhias de teatro e fóruns de internet.

Fui difamado e ofendido dentro da Universidade Federal de São Paulo pelo simples fato de não concordar com algumas ideias de colegas de turma — e nem eram ideias políticas. Eu era um ex-trabalhador de chão de fábrica agora professor e tinha de ouvir de um menino de 20 anos de idade que nunca tinha comprado o próprio papel higiênico, o que ansiava a classe trabalhadora. Segundo pessoas assim, eu não sei o que quero; quem sabe são eles.

Aprendi com meus amigos o quão gostoso é um debate em que todo mundo levanta a voz e sai depois pra tomar uma cerveja, ou bebe ainda durante a prosa. Em uma greve na universidade houve mesmo agressão a “dissidentes”.

E olha que nem estou falando de corrupção, que se tornou endêmica e de impossível defesa. Seria assunto para outra crônica, já escrita por milhares de pessoas.

Estou dando voltas em meu texto, como é comum ao meu estilo, para dizer algo simples: hoje, há debate em todo lugar, mas não nos núcleos de debate do Partido dos Trabalhadores. Não com ideias diferentes, antagonicamente diferentes.

Vão dizer que estou mentindo, que estou sendo raso, incompleto, impreciso, direitista, fascista, preconceituoso, aliado da direita, traidor, pobre de direita. Quando, na verdade, o que faço, com a maior humildade do mundo, é questionar. Posso estar errado, me mostrem onde estou. Debatam comigo, debatam minhas ideias, não me chamem de fascista apenas por questionar o que se apresenta como alternativa única. Ensinem-me o que não sei, mas valorizem a minha história, porque não foi lendo gibi do Recruta Zero que cheguei até aqui.

É o que os professores fazem: estudam, aprendem e, por aprender, ensinam.

Nunca parei de estudar e, por conseguinte, tornei-me o homem que admiro. Nem sei mais por onde andam alguns dos personagens do início desta crônica. Outros, trouxe comigo pela vida, e tenho muito orgulho disso.

Acontece que, ao longo da minha história, fui mudando e me aprimorando, mas continuei com o mesmo ideal da juventude: o ideal de justiça social. Política, para mim, tem a ver com tornar a vida das pessoas melhor, aliar-se a boas ideias e combater comportamentos prejudiciais. Tem a ver com ler o mundo nos livros, escutá-lo nas canções, assisti-lo nas telas, comparar, mudar e transformá-lo para melhor.

Mas, francamente, como defender um partido dos trabalhadores composto por pessoas que nunca tiveram um dia de trabalho na vida, sem um único registro em carteira?

Recorri ao meu partido e, depois de algum tempo, já não me identificava com ele. Não era mais dos trabalhadores. E tudo bem. Só não digam que estou errado em procurar os meus pares: trabalhadores das fábricas, como eu fui; gente que acorda às quatro da manhã, pega o ônibus lotado e, na hora do almoço, vai comer e descobre que a marmita azedou. Este é um local de fala legítimo e deve ser valorizado.

 Temos então o PEUBPPQCSGPSPP. O partido dos estudantes universitários bancados pelos pais, que criticam seus genitores por suas posições políticas, prova de que não há diálogo também em casa. (Estou exagerando, mas vá lá, só um aforismo, permitam-me!)

O próprio PT sofreu seus cismas, dando origem aos caricatos PCO, PSTU e Psol.

Pelo visto, não fui apenas eu que não fui acolhido.

Mano Brown disse que o PT se afastou da base. À minha maneira, digo a mesma coisa. E culpar Bolsonaro ou o papa pelos próprios erros não construirá um país melhor.

É preciso coerência.

(Oi, Rui Pimenta, como você está?)

É preciso modernizar. Não recorrer a velhos expedientes. Ninguém mais acredita que o fim do capitalismo seja a solução para o fim da pobreza. É possível declarar isso em palestras, escrever em livros, falar a respeito e defender esse ponto de vista em debates.

Ainda há pessoas defendendo o fim do capital, a queda do sistema, o colapso da antiga ordem. E sabe por quê? Porque é bonito. Porque é fácil de entender. Porque fala ao coração. Porque empolga.

Em um livro, em um filme ou em uma canção, falar mal do livre mercado é lindo. Serve como slogan. Mas é inegável, a meu ver, que os benefícios materiais que conquistamos vieram da ampliação do livre mercado. Quanto mais livre, melhor. Só não enxerga quem não quer, quem não consegue ver ou quem ganha alguma coisa com isso.

Tanto que milhões de pessoas se arriscam todos os anos ao fugir de países de economias planificadas, buscando um futuro melhor em países com economias de livre mercado, como os Estados Unidos e a Austrália. Não há fuga de cérebros pra Cuba e Coreia do Norte.

Os movimentos sindicais foram e são essenciais para o mundo. Sem eles, ainda haveria crianças limpando chaminés, agarradas pelos pés; jornadas de trabalho de mais de doze horas diárias, sem fins de semana, sem férias. Mas convenhamos: o sonho de um jovem do meu tempo não era derrubar o capital. Era conseguir um emprego na Ford, na Scania, em algum laboratório farmacêutico famoso. E sabe por quê? Porque, quando temos um bom emprego, a vida melhora.

Quando temos um bom emprego, compramos mais. Buscamos um bairro melhor para viver ou reformamos a casa em que moramos. Podemos pagar aluguel em um lugar mais caro, comprar doces, um carro, contratar serviços, viajar. Um emprego melhor nos permite guardar dinheiro e, depois de algum tempo, investir e gerar empregos proporcionando a outras pessoas o mesmo que nos foi proporcionado.

A parca industrialização brasileira nos deu um pequeno vislumbre disso no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, em um contexto favorecido pelos efeitos do Plano Real e pelo boom das commodities.

É por isso que os tiozinhos votam em Bolsonaro e as tiazinhas se dizem de direita. São pessoas que viveram numa época em que as escolas ainda tinham certa organização e autoridade e que relacionam essas características à prosperidade. Colocam tudo no mesmo balaio porque assim é mais fácil entender e explicar o mundo.

A isso se somam a utilização maciça da internet e das redes sociais, além da influência das igrejas evangélicas, pentecostais ou não.

O Brasil do PT ainda discute em diretórios acadêmicos sem convidar para o debate a menina de vestido longo, trança nos cabelos e Bíblia na bolsa. E deixa esses espaços tão pichados e sujos que acaba afastando a menina das tais más companhias que seu pai apontara: maconheiros, identitários etc.

Todos têm o direito de ser como são, mas muitos desses ambientes parecem não fazer a mínima questão de agregar diferentes formas de pensar.

E sabe onde essa menina vai socializar? Na igreja, sob a orientação do pastor. Às vezes, um cara bem-educado; na maioria das vezes, um total idiota, tão ou mais idiota quanto o maconheiro do diretório acadêmico.

Acontece que o sujeito do diretório não reconhece o prestígio social do pastor, e o pastor não reconhece o prestígio social do presidente maconheiro do diretório. E sabe o que acontece? Vinte anos depois, temos milhares de pastores com dezenas de milhares de seguidores, igrejas surgindo, desaparecendo, unindo-se e elegendo pessoas novas. Igrejas formando, pasmem, politicamente as pessoas.

E temos o diretório no mesmo lugar. Assim como o Partido dos Trabalhadores, permanece tomado pela pauta identitária, pauta na qual, a meu ver, nem mesmo seus líderes históricos acreditam. Defendem-na porque se apegam a ela como bastião de força e poder. Defendem-na porque não há ali trabalhadores, há muita juventude e idealismo adolescente direcionados à própria identidade.

Não venham me dizer que Lula acredita que uma pessoa trans e uma mulher sejam a mesma coisa. Ele vai dizer que sim. Vocês sabem, eu sei, todos sabem que ele pensa que não. E isso vale para esse e tantos outros temas.

Porque Lula é como nós, brasileiros: conservador.

Mas, como todo brasileiro, também gosta de dinheiro e poder. Você também, leitor brasileiro. Todos nesta terra tupiniquim gostam de ter um vereador amigo, conhecer o dono de uma fábrica, uma pessoa poderosa, encontrar alguém que tenha uma lancha e que nos leve para navegar em Ilhabela.

Já levou? Não. Mas o que importa é conhecer, ter influência, ficar próximo ao poder.

Criticamos Janja, mas somos iguais a ela. Quem de nós, tendo um cartão corporativo com saldo infinito, se hospedaria num albergue em nome da saúde do erário público?

Talvez um ou outro. Eu, quem sabe. Mas, com sinceridade: nenhum luxozinho? Em nenhum momento? Tanto poder e não poder utilizar?

Enfim, estou me estendendo demais. Sei que não serei lido por nenhum militante de esquerda; quiçá nem pelos de direita. Talvez nem pelos meus amigos. Com certeza, não serei lido pelo professor que foi meu tutor no início da docência.

Ele foi um grande norte para mim quando comecei a trabalhar com o saber. Segui suas orientações e me tornei um grande professor. Melhor que ele, ouso dizer sem nenhuma humildade. Tenho muito orgulho da história que construí na educação. E sobre essa história não quero escrever apenas uma crônica. Talvez um livro.

Em outro momento.

Ao PT, resta mais do que voltar à base, como disse Brown. É preciso seguir urgentemente o próprio estatuto, a cartilha de filiação que li em julho de 2002.

Se quiserem, e estiverem sem acesso à Internet, ainda tenho uma cópia. Como souvenir. Sou um saudosista.

domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de Facebook...

     Há muito tempo parei de postar qualquer coisa nas redes sociais. Muita gente imagina que foi por cansaço, falta de assunto ou desinteresse. Não. A culpa é, em boa parte, do Facebook e da sua estranha obsessão por desenterrar o passado.

    Todos os dias ele me cutuca com um sorriso eletrônico: "Veja sua lembrança de sete anos atrás". Como se estivesse prestando um favor. Como se eu ainda fosse aquele sujeito que escreveu aquelas linhas, que defendia aquelas certezas, que ria daquela piada, que fotografava aquele momento acreditando que ele precisava durar para sempre.

    Mas eu não sou mais aquele.

    E ainda bem.

    A vida, quando funciona, é justamente o contrário de um arquivo morto. É movimento. É revisão. É desapego. É descobrir que algumas convicções eram provisórias, que certos entusiasmos eram ingênuos, que algumas tristezas já não encontram lugar onde morar.

    O Facebook, porém, insiste em transformar a existência numa visita guiada a um museu de mim mesmo.

    As "memórias" nunca me pareceram memórias. Parecem um cemitério de pensamentos antigos. Fileiras de versões minhas que já cumpriram seu papel e deveriam descansar em paz. Não porque eu tenha vergonha delas, mas porque não preciso exumar diariamente quem deixei de ser.

    Tenho o direito de esquecer um pouco.

Tenho o direito de não revisitar cada frase escrita num domingo qualquer de 2013, cada opinião dada antes de aprender mais, cada fotografia feita antes de viver outras tantas.

    A memória, quando é boa, tem ritmo próprio. Ela sabe quando aparecer. Vem pelo cheiro de um café, pela música que toca sem querer, por uma rua, por um rosto encontrado ao acaso. Ela não precisa de um algoritmo para decidir o que devo sentir hoje.

    Quero ser eu quem escolhe quando abrir minhas gavetas.

    Quero encontrar minhas ideias antigas por curiosidade, não por notificação. Quero lembrar no meu tempo, não no tempo de uma plataforma que confunde permanência com relevância.

    Talvez seja por isso que eu tenha silenciado.

    Não foi falta de vontade de dizer. Foi excesso de vontade de continuar mudando sem a obrigação de prestar contas ao personagem que fui ontem.

    Porque viver olhando para trás pode ser um exercício bonito, mas morar no retrovisor é um jeito elegante de deixar de seguir viagem.

    E eu, sinceramente, ainda prefiro a estrada.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A morte da memória

Outro dia precisei telefonar para minha irmã.

Peguei o celular, procurei seu nome na agenda e apertei o botão verde. Enquanto o aparelho fazia todo o trabalho, ocorreu-me uma pergunta incômoda: eu não fazia a menor ideia de qual era o número dela.

Não apenas o dela. Também não sabia o de ninguém, dos amigos mais próximos, do trabalho ou da casa onde morei. Se alguém me roubasse o telefone, eu perderia muito mais do que um aparelho. Perderia as pessoas.

Houve um tempo em que a memória era uma forma de propriedade. Carregávamos dentro da cabeça o endereço da primeira namorada, a data de aniversário dos avós, o número do RG, do CPF, do telefone de casa, da padaria, do consultório médico. Não era um esforço heroico; era simplesmente viver.

Hoje terceirizamos a lembrança.

O celular recorda por nós. A nuvem guarda por nós. O algoritmo decide o que merece ser revisto. Quando queremos recordar uma viagem, não fechamos os olhos; abrimos uma galeria de fotos. Quando tentamos lembrar uma conversa, procuramos uma mensagem antiga. Quando esquecemos uma palavra, recorremos ao buscador antes mesmo de confiar na própria cabeça.

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca dependemos tanto de máquinas para nos lembrar de quem somos.

Curiosamente, quanto mais registramos, menos recordamos.

Fotografamos o jantar para não esquecer, mas já não sabemos descrever o sabor da comida. Filmamos o espetáculo inteiro, mas esquecemos de assisti-lo. Gravamos aniversários completos e, anos depois, lembramo-nos mais do vídeo do que do abraço.

Talvez porque a memória nunca tenha sido um arquivo. Ela sempre foi uma artista.

A memória escolhe, exagera, omite, colore, inventa. Apaga dores insuportáveis e ilumina pequenos instantes que, na época, pareciam insignificantes. É justamente por ser imperfeita que ela é humana.

Os computadores armazenam dados. Nós produzimos lembranças.

Há uma diferença imensa entre saber e recordar.

Saber é localizar um documento.

Recordar é reencontrar uma parte de si.

Tenho a impressão de que estamos assistindo, silenciosamente, à morte da memória. Não porque esquecemos mais do que nossos avós, mas porque desaprendemos a exercê-la. Cada informação entregue a um dispositivo é um pequeno músculo que deixamos de movimentar.

E toda capacidade que deixa de ser usada acaba atrofiando.

Talvez um dia os historiadores descubram que esta foi a época mais documentada da humanidade. Bilhões de fotografias, mensagens, vídeos e arquivos sobreviverão aos seus donos.

Mas suspeito que também dirão algo mais triste.

Nunca se produziu tanto registro.

E nunca se cultivou tão pouca lembrança.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Livros, música e religião

 Há quem conte a vida em anos. Eu prefiro contar em camadas de poeira.

Não é birra — embora pareça. É método. Um certo ceticismo arqueológico diante da pressa contemporânea de chamar de “clássico” aquilo que ainda nem teve tempo de falhar. Porque falhar, convenhamos, é o verdadeiro batismo das coisas duradouras. O que resiste ao erro, ao esquecimento, à indiferença — isso, sim, merece ser ouvido.

Não leio livros com menos de cinquenta anos porque desconfio daquilo que ainda não foi devidamente ignorado. O tempo é um crítico implacável: ele não escreve resenhas, ele elimina. E só fica o que aprendeu a respirar mesmo depois de esquecido nas prateleiras. Há uma honestidade brutal em um romance que sobreviveu ao mofo.

Não escuto música com menos de trinta porque o silêncio ainda não teve tempo de disputar espaço com ela. A música recente grita, implora, seduz. A antiga… ela permanece. Não precisa convencer — já foi julgada e, de algum modo misterioso, absolvida.

Não assisto a filmes com menos de vinte anos porque o olhar ainda está contaminado demais pelo próprio tempo. Um bom filme precisa envelhecer mal antes de envelhecer bem. Precisa parecer ultrapassado para, depois, revelar que nunca foi sobre a época — era sobre nós.

Debates com menos de cem anos? Ora, esses ainda estão em fase de adolescência. Inflamados, cheios de certezas, apaixonados por respostas que não sobreviverão à próxima geração. A maturidade, ao contrário, aprende a conviver com perguntas que não têm pressa.

E religião com menos de mil anos… bem, essa ainda está aprendendo a duvidar de si mesma — e isso é um estágio perigoso para quem se pretende absoluto.

No fundo, não se trata de elitismo temporal. Trata-se de desconfiança. Maturidade, descobri, não é acumular experiências — é aprender a desconfiar delas. É perceber que o novo, muitas vezes, é apenas o velho sem memória. E que o entusiasmo é um péssimo historiador.

Vivemos numa época que confunde novidade com relevância, urgência com importância, opinião com pensamento. Tudo nasce pronto, embalado, comentado — e morre antes de amadurecer. É um mundo que não tolera o intervalo entre ser e permanecer.

Talvez por isso eu me agarre ao que já teve tempo de apodrecer um pouco. Há dignidade no que envelhece. Há verdade no que sobrevive.

A maturidade, no fim das contas, não está na idade das coisas — mas na capacidade de esperar por elas. E, principalmente, na coragem de admitir que quase tudo que hoje parece essencial será, amanhã, apenas ruído de fundo.

O resto… o resto é só juventude fazendo barulho.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Luz, cultura e cadeiras

 Vivemos convictos de que vemos. É uma fé curiosa: não precisa de prova, não exige argumento, nasce pronta — como o choro do recém-nascido e a certeza de que o chão não vai desaparecer sob os pés. Olhamos uma mesa e dizemos “mesa”, como se tivéssemos capturado a essência do universo naquele retângulo de madeira. Mas talvez tenhamos capturado apenas… luz.

Porque é disso que se trata: vibrações. O mundo não bate à nossa porta; ele vibra discretamente, como um vizinho educado demais para incomodar. E nós, com nossos olhos, ouvidos e pele, funcionamos como tradutores precários desse idioma invisível. Tradutores confiantes, é verdade — o que é sempre perigoso. Afinal, nada mais arrogante do que um intérprete que acredita ser o próprio autor.

Vemos, dizem, porque a luz entra, atravessa, projeta, inverte, envia sinais, e o cérebro — esse burocrata incansável — carimba tudo como “realidade”. E nós aceitamos. Não questionamos o carimbo. Não perguntamos ao cérebro se ele dormiu bem, se está sóbrio, se não está, quem sabe, interpretando tudo com um leve filtro azulado. Basta colocar uma lente qualquer diante dos olhos e pronto: o mundo muda de cor, enquanto continua sendo, teimosamente, o mesmo. O problema nunca foi o mundo. Sempre fomos nós — e nossos filtros.

Curioso é perceber que nem precisamos de lentes para distorcer as coisas. A cultura já faz esse trabalho com eficiência admirável. Chamamos cadeiras de cadeiras porque alguém, em algum momento, decidiu que seria assim — e nós obedecemos, como bons herdeiros de uma tradição que não lembramos ter escolhido. Se tivessem nos ensinado o contrário, sentaríamos em “mesas” com a mesma naturalidade. O objeto não se ofenderia. A realidade, indiferente como sempre, seguiria intacta.

Há algo de profundamente desconcertante nisso: o mundo não precisa da nossa concordância para existir. A árvore continua sendo árvore mesmo para o cego. O som insiste em vibrar no silêncio do surdo. O quarto permanece no escuro enquanto dormimos, aguardando pacientemente que voltemos a percebê-lo, como um palco que não depende da plateia para sustentar o cenário. A realidade é obstinada. Nós é que somos intermitentes.

E, no entanto, insistimos em confundir percepção com verdade. Talvez porque seja confortável. A criança acredita que os pais podem tudo — e há uma beleza quase trágica nisso. Crescer é, em grande parte, assistir à lenta falência dessas certezas. Descobrimos que os pais não eram deuses, que o mundo não é justo, que o bem não venceu — e, em algum ponto, começamos a desconfiar que nem mesmo aquilo que vemos é exatamente aquilo que é.

Mas não nos desanimemos: em troca da ilusão perdida, ganhamos algo mais sofisticado — a dúvida. E a dúvida, apesar de incômoda, tem um charme filosófico que a certeza jamais alcança.

No fim, talvez vivamos nesse território ambíguo, meio real, meio interpretado. Um mundo que existe, sim, mas que só nos é acessível através de traduções imperfeitas, filtros culturais, crenças herdadas e sentidos limitados. Um mundo que se apresenta sólido, tangível, quase convincente — e que, ainda assim, escapa.

Vemos, mas não sabemos exatamente o quê.

E talvez seja justamente isso que nos mantém olhando.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ideias mortas, memórias póstumas...

 Dizem que a cultura woke está morrendo. Não morreu ainda, é verdade — mas já apresenta aquele cheiro de velório de interior: café requentado, gente cochichando nos cantos e um corpo que ninguém tem coragem de declarar oficialmente morto. No mundo, já começaram a fechar o caixão. No Brasil, como sempre, estamos discutindo a cor das flores.

Há algo de profundamente nacional nesse apego ao cadáver. Não enterramos ideias — nós as embalsamamos. Damos CPF, título de eleitor e, se bobear, cargo público. Aqui, até defunto tem opinião política. E fala alto.

Talvez seja porque somos o país das memórias póstumas. Não no sentido literário elegante, mas no sentido burocrático mesmo: tudo continua existindo depois que já devia ter acabado. Leis que ninguém cumpre, costumes que ninguém acredita, discursos que ninguém suporta — mas todos repetem, como se a repetição fosse uma forma de ressuscitação.

A cultura woke, esse fenômeno que nasceu com a promessa de justiça e terminou como um tribunal de pequenas vaidades morais, já começou a perder força em boa parte do mundo. Foi ficando cansativa, previsível, quase caricata. Virou um espelho onde ninguém mais queria se olhar — exceto os mais devotos, que ainda enxergam ali alguma espécie de santidade.

No Brasil, porém, a coisa é diferente. Aqui, ideias não precisam fazer sentido para sobreviver — basta que elas tenham um público disposto a performá-las. E performance, convenhamos, é uma das nossas maiores especialidades. O problema é que, quando a encenação continua depois que o roteiro acabou, o que era teatro vira constrangimento.

E há um detalhe menos poético, mas infinitamente mais poderoso: há gente que ganha dinheiro com isso. Sempre há. Ideias mortas, no Brasil, raramente estão desamparadas — costumam ter patrocinadores, carreiras, editais, cargos, nichos de mercado. Há quem viva de manter o cadáver maquiado, bem iluminado, discursando como se ainda tivesse pulso. E quando uma ideia vira sustento, ela deixa de ser convicção e passa a ser investimento. Não se enterra o que paga as contas.

É curioso observar como certas narrativas persistem mesmo quando já não explicam mais nada. Continuam sendo repetidas como mantras, talvez por medo do silêncio — ou, pior, por medo do prejuízo. Porque o silêncio exige pensamento, e o pensamento pode desmontar estruturas que sustentam não apenas identidades, mas também rendas, posições e relevâncias. É mais seguro repetir o que já vem pronto, ainda que esteja claramente vencido.

Nós temos dificuldade em matar ideias porque, no fundo, temos dificuldade em assumir que estivemos errados. Mas também porque há quem não possa — ou não queira — perder o lugar que construiu em cima delas. Enterrar uma ideia é reconhecer que ela já não serve; e, para alguns, isso significaria começar de novo. Então preferimos mantê-la viva artificialmente, como um paciente ligado a aparelhos — aparelhos caros, aliás — enquanto fingimos que ainda há pulso.

Mas não há.

O que há é o eco. E o eco, como se sabe, não é voz — é repetição de algo que já foi dito. O Brasil, nesse sentido, é uma caverna barulhenta: tudo reverbera, nada realmente nasce ou morre no tempo certo.

Talvez por isso a cultura woke ainda “respire” por aqui. Não porque esteja viva, mas porque ainda movimenta interesses. E interesses, diferentemente das ideias, não morrem — apenas mudam de discurso quando necessário. Enquanto houver quem lucre com o fantasma, haverá quem jure que ele está mais vivo do que nunca.

No fundo, não é sobre a cultura woke. Nunca foi. É sobre nós — essa estranha vocação nacional para conviver com fantasmas e chamá-los de futuro.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Higienização

É tempo de limpeza. Não se trata de varrer a sujeira para debaixo do tapete — isso seria, convenhamos, honesto dentro de sua desonestidade clássica. O que se vê agora é mais sofisticado: uma assepsia moral da linguagem. Um álcool em gel semântico. Um desinfetante de palavras.

Tudo muito esterilizado.

Palavras são perigosas, dizem. Ferem, machucam, desencadeiam. Como facas — e não pontes. Como se o problema estivesse na lâmina da palavra, e não na mão que a empunha ou na realidade que ela tenta, desajeitadamente, nomear.

E então começa o ritual: substitui-se, suaviza-se, contorna-se. Não se diz; sugere-se. Não se afirma; sinaliza-se. O mundo torna-se um grande manual de instruções invisível, onde cada frase carrega o peso de um possível tribunal.

Mas não se engane: não se trata de delicadeza. É controle.

Não fosse o incômodo, aliás, ainda estaríamos ajoelhados diante de verdades impostas. Sócrates foi condenado por fazer perguntas demais — veja que perigo: perguntar. Galileu Galilei ousou dizer que a Terra não era o centro do universo e quase foi apagado por isso. Jesus Cristo, que hoje estampa medalhinhas e discursos mansos, foi morto por incomodar estruturas morais e religiosas de sua época. Nenhum deles passou pelo crivo da linguagem segura. Nenhum deles pediu licença para existir em frases aceitáveis.

Há algo de profundamente autoritário nesse zelo pela linguagem “correta”. Porque, ao contrário do que parece, não se trata de ampliar o respeito, trata-se de restringir o pensamento. Afinal, só se pensa com palavras. E quando você poda as palavras, você não está apenas limpando o discurso… está limitando o próprio campo do possível.

George Orwell já havia avisado, mas parece que a distopia hoje vem com filtro pastel e boas intenções declaradas em bio de rede social.

O curioso é que a história nunca teve paciência para os educados demais. Martin Luther King Jr. não escreveu um sonho para ser confortável, mas para confrontar. Malcolm X ainda menos palatável, e talvez por isso mesmo mais honesto em sua fúria. A "queridinha" Simone de Beauvoir disse o que não se dizia sobre mulheres — e pagou com rejeição antes de virar citação de camiseta. Todos, sem exceção, seriam hoje convidados a “rever o tom”.

O moralismo, como sempre, veste uma máscara de virtude. E como todo moralismo, é seletivo, performático e profundamente confortável para quem o pratica. Não exige coragem, apenas vigilância. Não sobre si mesmo, claro, mas sobre o outro.

É curioso: as novas gerações, tão orgulhosas de sua consciência social, parecem ter herdado o velho vício de substituir o debate pela censura, mas com vocabulário atualizado. Onde antes havia proibição explícita, hoje há constrangimento moral. Onde antes havia silêncio imposto, hoje há silêncio induzido.

Mais elegante. Mais eficiente.

Porque toda época tem seus fiscais da palavra — e seus hereges. Friedrich Nietzsche escreveu com um martelo, não com luvas, e até hoje há quem prefira ignorá-lo a enfrentá-lo. Sigmund Freud escancarou o que havia de menos higiênico na mente humana, e por isso mesmo foi tratado como indecente. Até o apóstolo dos canalhas Karl Marx nomeou conflitos que muitos preferiam manter invisíveis. Nenhum deles caberia num guia contemporâneo de boas maneiras linguísticas.

O resultado é um empobrecimento progressivo do pensamento. Porque ideias complexas exigem linguagem imperfeita, arriscada, às vezes incômoda. O pensamento crítico não nasce em ambientes esterilizados, precisa de atrito, de choque, de palavras que não pedem licença.

Mas quem ousa hoje?

Talvez a pergunta mais honesta fosse outra: quem suportaria? Porque dizer o que precisa ser dito sempre teve um custo. Nelson Rodrigues foi chamado de imoral por expor a hipocrisia nacional com uma precisão quase clínica. Clarice Lispector desorganizou a linguagem para alcançar o indizível — e desconcertou gerações inteiras no processo. Pensar, quando é de verdade, nunca foi uma atividade limpa.

O medo de dizer algo “errado” se tornou maior do que o desejo de dizer algo verdadeiro. E assim, aos poucos, vamos formando uma geração que fala muito… e pensa pouco. Ou melhor: pensa dentro de um cercadinho semântico cuidadosamente delimitado, assépico e seguro.

No fundo, talvez seja isso que mais assuste.

Não é que estejam proibindo o pensamento. Isso seria escandaloso demais. Estão apenas tornando-o desconfortável. Socialmente arriscado. Publicamente punível.

E o ser humano, esse velho covarde sofisticado, adapta-se.

Troca a verdade pela aceitação.
Troca o argumento pelo silêncio.
Troca o pensamento pela aprovação.

E ainda chama isso de evolução.

No fim das contas, a linguagem limpa demais começa a cheirar mal. Porque não há nada mais suspeito do que um mundo onde todas as palavras são corretas — e nenhuma é livre.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Consciente e subconsciente

 Chamaram de realidade aquilo que cabe nos olhos.

E eu, que sempre desconfiei dos olhos, comecei a suspeitar também da realidade.

Há algo de profundamente irônico no fato de que passamos a vida inteira confiando em cinco pequenos porteiros — visão, audição, tato, paladar e olfato — como se fossem funcionários exemplares. Não são. São distraídos, preguiçosos e, vez ou outra, francamente mentirosos. Deixam passar coisas demais e barram outras tantas sem qualquer critério aparente.

Enquanto isso, a vida — essa entidade indecorosa — acontece fora do alcance deles.

Dizem que não vemos certas luzes, não ouvimos certos sons, não sentimos certos movimentos. E ainda assim temos a ousadia de afirmar: “isso não existe”. É o tipo de arrogância que só o ignorante convicto consegue sustentar com dignidade.

O homem moderno, tão cheio de certezas, construiu sua fé em cima do que consegue tocar. É um tipo curioso de religiosidade: acredita no concreto como outros acreditam em deuses. Só que o concreto racha. E, quando racha, leva junto a fé de quem nunca aprendeu a olhar para dentro.

Porque dentro — eis o problema — não há garantias.

Há um coração que bate sem pedir licença, um pulmão que respira sem consultar opiniões, um corpo inteiro funcionando à revelia da nossa vontade. Há um subterrâneo silencioso operando tudo aquilo que julgamos controlar. E isso deveria nos inquietar mais do que inquieta.

Mas não inquieta.

Preferimos o barulho de fora. A multidão. A correria. O excesso de estímulos que nos convence de que estamos vivos, quando talvez estejamos apenas ocupados demais para perceber o contrário.

É curioso: no meio de uma multidão, cercado de vozes, corpos e pressa, ainda assim existe um ponto de silêncio que insiste em permanecer. Um núcleo duro, teimoso, que sussurra: “você não é isso tudo que está acontecendo”.

Mas quem escuta?

A maioria prefere continuar acreditando que é apenas aquilo que vê no espelho — essa matéria provisória, em constante decomposição elegante. Porque admitir que somos mais do que isso dá trabalho. Exige responsabilidade. Exige, sobretudo, coragem.

E coragem nunca foi exatamente a especialidade da nossa espécie.

Então seguimos assim: confiando nos sentidos que nos enganam, interpretando um mundo que muda a cada segundo como se fosse sólido, permanente, confiável. Chamamos isso de lucidez.

Enquanto isso, dentro de nós, alguma coisa observa em silêncio. Algo que não depende dos olhos, nem dos ouvidos, nem da pressa. Algo que não muda na mesma velocidade que o corpo apodrece.

Mas essa coisa — seja lá o nome que tenha — não grita.

E, no mundo em que vivemos, só é ouvido quem grita.

O resto, como sempre, é confundido com inexistência.

terça-feira, 24 de março de 2026

Consciência

A gente aprende na marra: pagar boleto, atravessar a rua olhando pros dois lados, desconfiar de promessa em ano eleitoral. Mas há o que ninguém ensina — e, ainda assim, estão lá, firmes, como uma dívida que você nunca lembra de ter feito, mas continua pagando.

Chamam isso de verdade. Chamam isso de justiça. Nomes pomposos para coisas que não cabem no bolso nem no currículo Lattes.

O sujeito pode passar a vida inteira tentando ser esperto — e normalmente passa. Aprende cedo que o mundo recompensa o atalho, o jeitinho, a cara de pau bem ensaiada. Aprende que o erro, quando bem vestido, vira estratégia. E ainda assim, lá no fundo, num canto mofado da consciência que nem o cinismo conseguiu reformar, há uma espécie de incômodo. Um desconforto sem nome. Uma coceira metafísica.

É curioso: ninguém nunca viu a verdade. Nunca encostou nela, nunca tirou uma foto, nunca postou nos stories. E, no entanto, todo mundo sabe quando ela falta. Como se fosse um móvel invisível na sala — você não vê, mas tropeça.

O mesmo vale para a tal da justiça. Essa entidade que não mora em fórum nenhum, mas insiste em aparecer quando alguém tenta justificar o injustificável. Até o mais canalha dos homens, quando pego no flagra, apela para ela. Não para cumpri-la, claro — mas para torcê-la ao seu favor. Porque, no fundo, até ele sabe que existe alguma coisa ali. Uma régua invisível que mede o mundo, ainda que ninguém saiba quem a fabricou.

E então vêm os filósofos, com seus livros pesados e suas certezas leves, tentando explicar de onde brota essa estranha intuição. Uns dizem que é da experiência, outros da razão, outros ainda inventam palavras complicadas para disfarçar o fato mais simples de todos: ninguém faz a menor ideia.

Porque, veja bem, se fosse só experiência, bastaria viver muito para entender tudo — e a gente sabe que não é assim. Há velhos que morrem sem nunca ter entendido o básico, e crianças que, do nada, fazem perguntas que desmontam qualquer adulto.

Se fosse só razão, bastaria pensar direito — mas pensar direito é justamente o que mais falta.

Talvez — e aqui começa o terreno perigoso — essas ideias não venham de lugar nenhum que a gente consiga apontar no mapa. Talvez estejam aí desde sempre, como essas músicas irritantes que você nunca lembra onde ouviu, mas sabe cantar até o refrão.

A consciência, nesse caso, não seria uma construção. Seria uma revelação mal explicada.

E é aí que mora o problema: a gente gosta de acreditar que está no controle. Que pensa porque quer, que sente porque decide, que entende porque estudou. Mas, no fundo, há coisas que simplesmente se impõem. Você não escolhe perceber. Você percebe. Não escolhe se incomodar. O incômodo chega — e senta.

No fim das contas, talvez sejamos menos autores da própria história do que imaginamos. Mais leitores confusos de um livro que já veio escrito em partes — com capítulos sobre o tempo, a eternidade e essa estranha mania humana de buscar o absoluto mesmo vivendo no provisório.

E, como todo leitor brasileiro, seguimos: pulando páginas, fingindo que entendemos, marcando trechos que não sabemos explicar — e chamando isso, com uma certa dignidade desesperada, de consciência.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Relógios, Muros e Outras Mentiras Elegantes

Dizem que o homem inventou o relógio para não se perder no tempo.

Mas, olhando bem, foi o contrário: ele se perdeu justamente quando começou a medi-lo.

Antes disso, havia apenas o dia e a noite — essa alternância quase humilde, quase animal. Depois vieram os minutos, as horas, os prazos, os atrasos, as culpas. O tempo deixou de ser um fenômeno e virou um patrão. E nós, pontuais como bons funcionários da própria ansiedade, passamos a bater ponto na existência.

Curioso é que ninguém nunca viu o tempo.
Nunca esbarrou nele na esquina, nunca pediu licença para ele no corredor. Mas todos falam como se o conhecessem intimamente — “não tenho tempo”, “o tempo voa”, “o tempo cura”. Uma entidade invisível, implacável e, sobretudo, conveniente. Afinal, é mais fácil culpar o tempo do que admitir que a vida escorre por entre decisões adiadas.

O espaço, por sua vez, é outro desses acordos silenciosos que fingimos não perceber.
Há muros, paredes, fronteiras, mapas. Há CEP, matrícula, lote, território. Tudo muito bem delimitado — como se o mundo fosse uma grande planta arquitetônica assinada por algum deus burocrata.

Mas feche os olhos por um instante.

Você pode atravessar oceanos em um pensamento. Pode revisitar um constrangimento de dez anos atrás com a mesma nitidez de um espelho maldoso. Pode imaginar futuros que ainda não existem com uma convicção quase religiosa. O corpo fica. A consciência não pede autorização.

E ainda assim insistimos: “não posso”, “não dá”, “é impossível”.

Talvez não seja.

Talvez o problema não esteja no tempo que falta nem no espaço que limita. Talvez esteja na crença quase devocional de que somos menores do que aquilo que percebemos. Como se a consciência fosse um detalhe da existência — e não o palco inteiro onde ela acontece.

Há algo de profundamente confortável em acreditar nos próprios limites.
Eles organizam o caos, justificam o fracasso, acalmam a angústia de não tentar. São muros elegantes — não nos prendem à força, mas nos convencem a não sair.

Enquanto isso, seguimos acumulando conhecimento como quem coleciona livros que nunca serão lidos de verdade. Sabemos muito. Aplicamos pouco. Pensamos demais. Vivemos de menos. Uma biblioteca inteira para justificar a própria inércia.

Em algum ponto do passado — esse lugar que só existe porque insistimos em carregá-lo — alguém deve ter percebido que conhecer não bastava. Que era preciso fazer algo com isso. Unir pensamento e ação, como quem finalmente decide que a vida não é um ensaio.

Mas essa ideia dá trabalho.

É mais fácil continuar assim: consultando o relógio, respeitando os muros, aceitando o mapa. Fingindo que o mundo é fixo, sólido, inevitável — e não, em boa parte, uma interpretação persistente.

No fim, talvez a grande ironia seja esta:
o homem que quis dominar o tempo tornou-se refém dele;
o homem que traçou o espaço acabou confinado em seus próprios limites.

E a consciência — essa coisa inquieta, indisciplinada, quase insolente — continua ali, silenciosa, esperando que alguém finalmente desconfie de tudo isso.

Mas não hoje.
Hoje temos hora marcada.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Incels...

 Há uma espécie de silêncio constrangedor pairando sobre os meninos que cresceram ouvindo que bastava “ser legal” — como se a moral fosse moeda corrente num mercado que, no fundo, sempre operou em outra lógica. Não a lógica da virtude, mas a do desejo, que é mais antiga que qualquer manual pedagógico e, portanto, menos educável. E é nesse descompasso entre o que ensinaram e o que se vive que nasce essa figura meio trágica, meio patética, que convencionaram chamar de incel — um sujeito que, em vez de perceber que o jogo mudou, insiste em jogar com as regras de um campeonato que já acabou.

Porque, veja, durante muito tempo — e aqui não cabe nostalgia, mas constatação — havia uma espécie de arranjo tácito, quase feudal, entre homens e mulheres: você garantia algum tipo de estabilidade, ainda que medíocre, e em troca vinha o acesso afetivo e sexual. Era um contrato implícito, sustentado por uma sociedade que limitava drasticamente as escolhas femininas. Não era exatamente justo, nem exatamente bonito, mas funcionava como funcionam as coisas imperfeitas: mais por falta de alternativa do que por virtude.

Acontece que o mundo girou — como ele sempre faz, para desespero dos que preferem a imobilidade — e as mulheres, enfim, passaram a escolher. E escolher, como se sabe desde Arthur Schopenhauer, é um ato cruel: ao escolher, exclui-se. Ao desejar, rejeita-se. O que antes era distribuído por escassez institucional passou a ser regulado por desejo individual. E o desejo, meu caro, não tem compromisso com a justiça social.

É aqui que o ressentimento brota, como erva daninha em terreno mal cuidado. Alguns desses jovens percebem — ainda que de maneira confusa — que não basta mais existir. Que não há mais garantias mínimas. Que ninguém lhes deve nada. E isso, que poderia ser o ponto de partida para uma transformação pessoal, vira, paradoxalmente, o argumento para a paralisia. Em vez de se tornarem alguém, preferem denunciar o mundo por não lhes conceder o direito de permanecer ninguém.

Mas também seria ingênuo, quase pueril, imaginar que o outro lado dessa equação é simples ou idílico. A ideia de que as mulheres agora “podem tudo” é uma caricatura confortável — e, como toda caricatura, falsa. Podem mais, sem dúvida. Mas esse “mais” vem carregado de outras pressões, outras violências, outras expectativas que não desapareceram, apenas se sofisticaram. A liberdade nunca vem desacompanhada de custo — e, às vezes, o preço é pago em parcelas invisíveis.

No fundo, o problema — como você bem intuiu — é que o mundo não é tão simples assim. Não é uma equação de soma zero onde o ganho de um é necessariamente a perda do outro. É mais próximo de um romance mal escrito, cheio de personagens que não se entendem, cada um narrando a própria dor como se fosse a única legítima.

Talvez o erro esteja justamente aí: nessa obsessão contemporânea de transformar o desejo em direito, o afeto em política pública e a frustração em tese sociológica. Nem tudo é estrutural. Nem tudo é culpa de alguém. Às vezes — e isso é insuportável de admitir — a vida simplesmente não nos escolhe.

E contra isso não há revolução possível. Só resta a dignidade de sofrer sem plateia — o que, convenhamos, é um luxo que poucos estão dispostos a bancar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Sonhos de trem e o Óscar impossível.

 Dizem que o trem é uma metáfora fácil — dessas que cabem em redação de vestibular e em discurso de político —, mas em Sonhos de Trem a coisa não é tão simples assim, porque ali o trem não leva apenas corpos de um ponto a outro, ele arrasta memórias, culpas e aquela sensação incômoda de que a vida, no fundo, é uma sucessão de estações em que ninguém desce no momento certo.

E talvez seja exatamente por isso que o filme incomode tanto: não há redenção fácil, não há trilha sonora inflando emoções como um coach de Instagram, não há aquele didatismo quase religioso que transforma sofrimento em lição de moral pronta para consumo. Há, no lugar disso, silêncio — e o silêncio, como já desconfiava Friedrich Nietzsche, costuma ser mais honesto do que qualquer discurso.

O protagonista (cujo nome pouco importa, como pouco importam os nomes quando o que está em jogo é o que resta de alguém depois que tudo passa) segue viagem não porque quer, mas porque parar exigiria um tipo de coragem que o cinema contemporâneo desaprendeu a filmar. É mais fácil mostrar heróis salvando o mundo do que homens comuns tentando não desmoronar dentro de si mesmos.

E então chegamos ao ponto inevitável: o Oscar 2026.

Como sempre, a academia prefere premiar aquilo que parece importante em vez daquilo que é, de fato, importante — uma diferença sutil, mas decisiva, como a que separa um abraço sincero de um protocolo social. O filme vencedor (que daqui a alguns anos será lembrado apenas em listas nostálgicas e em provas de trivia) cumpria todos os requisitos do bom comportamento cinematográfico: tema relevante, personagens exemplares, conflitos embalados para digestão fácil. Era, por assim dizer, um sermão elegante. Era um Paul Thomas Anderson, como dizer outra coisa?

Já Sonhos de Trem não queria ensinar nada. E talvez por isso ensinasse tanto.

Há algo de profundamente desconfortável em uma obra que não se presta a nos absolver — que não diz “vai ficar tudo bem” nem oferece um horizonte iluminado ao final da linha. Em tempos em que até a tristeza precisa ter propósito pedagógico, um filme que apenas observa a falência silenciosa das esperanças soa quase como uma afronta.

Mas o problema nunca foi o cinema. O problema é que a gente desaprendeu a admirar o que não nos consola.

Talvez Nelson Rodrigues diria que toda unanimidade é burra, e o Oscar, ano após ano, insiste em provar isso com uma disciplina quase comovente. Premia-se o consenso, ignora-se o incômodo, celebra-se o que pode ser aplaudido sem culpa.

E assim o trem passa.

Leva consigo um dos melhores filmes do ano, talvez da década, enquanto na plataforma da Netflix ele segue disponível — silencioso, paciente, como quem sabe que o tempo, esse crítico menos apressado, costuma corrigir certas injustiças com uma ironia que nenhuma estatueta dourada é capaz de alcançar.

No fim, o Oscar perdeu.

Mas isso, convenhamos, não chega a ser novidade.

terça-feira, 17 de março de 2026

Catecismo

 Há algo curiosamente familiar na maneira como o chamado politicamente correto se instala no debate público. Não me refiro aqui à preocupação legítima com respeito ou civilidade — virtudes que qualquer sociedade minimamente decente deveria cultivar —, mas à estrutura moral que se forma em torno dele, uma estrutura que lembra, em certos momentos, menos um conjunto de recomendações éticas e mais um catecismo. Um catecismo laico, sem transcendência, mas com mandamentos claros, pecados catalogados e uma liturgia própria de expiação.

Como nos antigos manuais de conduta religiosa, há sempre uma lista implícita do que pode e do que não pode ser dito. Certas palavras tornam-se impuras, certos raciocínios são interditados, certas dúvidas são vistas como sinais de desvio moral. Não se trata apenas de discordar de uma ideia, o que seria perfeitamente normal na arena pública, mas de atribuir ao dissidente uma espécie de falha de caráter. O erro deixa de ser intelectual e passa a ser moral. E uma vez que o erro é moral, o objetivo já não é refutar, mas converter.

Essa lógica produz um curioso clima de vigilância ética difusa, na qual cada indivíduo se transforma simultaneamente em fiel e inquisidor. As redes sociais funcionam como pequenas paróquias digitais, onde os fiéis observam uns aos outros em busca de heresias verbais. Uma frase mal formulada, uma piada deslocada ou uma opinião fora do catecismo pode desencadear o equivalente moderno da confissão pública: o pedido de desculpas ritualizado, geralmente acompanhado da promessa de aprendizado e redenção.

O curioso é que, como em todo moralismo, a questão central não parece ser exatamente a melhoria concreta da vida das pessoas — tarefa lenta, complexa e frequentemente frustrante —, mas a manutenção de uma ortodoxia simbólica. A pureza da linguagem passa a valer mais que a transformação da realidade. Como se a correção das palavras pudesse, por si só, absolver a dureza dos fatos.

Esse fenômeno cria uma espécie de culpa preventiva. Antes mesmo de falar, o indivíduo já se pergunta se não estará cometendo algum pecado semântico. A espontaneidade, que sempre foi a matéria-prima da conversa humana, começa a ser substituída por uma autocensura cuidadosa, quase burocrática, como quem preenche um formulário moral antes de abrir a boca.

E, como acontece em todo sistema moral rígido, a consequência paradoxal pode ser justamente o contrário do pretendido. Em vez de promover empatia, muitas vezes produz ressentimento; em vez de estimular diálogo, provoca silêncio ou cinismo. Porque quando a conversa pública passa a funcionar como tribunal permanente, as pessoas não necessariamente se tornam melhores — tornam-se apenas mais cautelosas.

Talvez o problema não esteja no desejo de civilidade, que é legítimo, mas na tentação permanente de transformar normas de convivência em doutrina moral absoluta. Sempre que isso acontece, seja em igrejas, partidos ou movimentos culturais, a sociedade troca a difícil arte de conviver com diferenças pela confortável ilusão de separar os justos dos pecadores.

E a história, essa velha professora mal-humorada, costuma lembrar que toda vez que uma sociedade acredita ter finalmente encontrado a lista definitiva dos pecados — é apenas o começo de uma nova forma de intolerância.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Obra, tema e fragilidade estética

 Há uma crença muito confortável — e por isso mesmo bastante popular — de que basta escolher um tema importante para produzir automaticamente uma obra importante. Como se a gravidade do assunto fosse uma espécie de certificado de qualidade estética, um selo invisível que transforma qualquer texto, filme ou peça teatral em algo digno de reverência. É quase um milagre litúrgico: pega-se um tema socialmente relevante, mistura-se com algumas frases enfáticas, uma trilha sonora melancólica e pronto — nasce, dizem alguns, uma grande obra.

Mas a arte, infelizmente para os preguiçosos, não funciona assim.

Um tema pode ser fundamental, urgente, histórico, moralmente incontestável — e ainda assim resultar em uma obra ruim. Não apenas mediana: ruim mesmo. Mal escrita, mal dirigida, mal construída. Porque entre o assunto e a obra existe um abismo chamado forma. E forma exige talento, trabalho, domínio técnico, senso estético, ritmo, estrutura, linguagem. Coisas que não se resolvem apenas com boas intenções ou com um assunto que faça as pessoas concordarem antes mesmo de começar a leitura.

A história da arte está cheia de obras extraordinárias sobre temas aparentemente banais e de obras esquecíveis sobre temas nobilíssimos. Há romances brilhantes sobre adultério, filmes memoráveis sobre gângsteres e peças magníficas sobre gente que simplesmente conversa em uma sala. Ao mesmo tempo, há livros enfadonhos sobre injustiça social, filmes constrangedores sobre grandes tragédias humanas e pinturas panfletárias que parecem mais um cartaz de assembleia do que uma obra artística.

E isso acontece porque arte não é apenas sobre o que se diz, mas sobretudo como se diz.

No entanto, sempre que alguém aponta a fragilidade estética de uma obra cujo tema é considerado moralmente elevado, surge um pequeno tribunal indignado. Não se discute mais a qualidade da narrativa, da linguagem ou da construção dramática. O debate muda de natureza. A crítica estética vira, de repente, uma suspeita moral. “Você não gostou porque o tema te incomoda”, dizem. Como se toda avaliação crítica fosse apenas um teste de pureza ideológica.

É um truque retórico curioso: em vez de melhorar a obra, tenta-se constranger o leitor ou o espectador.

Também aparece a outra frase mágica, geralmente pronunciada com um suspiro cansado: “ah, mas arte é subjetiva, tudo é questão de gosto”. É uma espécie de botão de emergência argumentativo. Quando não se consegue defender a qualidade de uma obra, dissolve-se o próprio conceito de qualidade. Tudo vira gosto. Tudo vira opinião. E, nesse pântano relativista, um romance mal escrito passa a valer o mesmo que uma obra cuidadosamente construída.

É claro que gosto existe — e varia. Mas reduzir a crítica artística a gosto pessoal é o equivalente intelectual de dizer que qualquer cozinheiro é igual porque, no fim, alguém sempre gosta da comida. Técnica, estrutura, coerência, domínio da linguagem — tudo isso deixa de importar. Fica apenas a preferência individual, como se literatura fosse escolher sabor de sorvete.

A ironia é que esse tipo de defesa raramente aparece quando a obra criticada trata de temas considerados pouco nobres. Ninguém exige reverência automática a um romance ruim sobre um triângulo amoroso. Ninguém diz que um filme medíocre sobre um detetive alcoólatra deve ser respeitado por causa da importância social da ressaca. A indulgência estética costuma surgir apenas quando o tema carrega algum peso moral ou político.

E então acontece o fenômeno curioso: a obra passa a ser protegida não por sua qualidade artística, mas por seu assunto.

Mas arte não é catecismo, nem manifesto, nem panfleto obrigatório. Um grande tema não redime uma obra mal feita — assim como um tema trivial não impede o surgimento de uma obra genial. Entre o assunto e a arte existe um trabalho delicado, quase invisível, que transforma matéria bruta em forma estética. Sem esse trabalho, sobra apenas o tema. E tema, por mais importante que seja, não escreve romance, não dirige filme e não pinta quadro.

No máximo, escreve discurso.

E discurso, como se sabe, costuma ser mais barulhento do que bom.

domingo, 15 de março de 2026

Ninguém mais lê blogs...

 Houve um tempo — não muito distante, embora a internet tenha a curiosa habilidade de transformar cinco anos em uma era geológica — em que os blogs eram pequenas repúblicas literárias espalhadas pela rede. Cada um tinha seu território, suas obsessões, seus leitores fiéis, que apareciam religiosamente como quem bate ponto numa cafeteria imaginária. Era ali que se escrevia sem algoritmo, sem patrocinador, sem aquela ansiedade de performar para um público invisível que mede a relevância de um texto pela velocidade com que ele desaparece na linha do tempo.

Hoje, quando alguém diz que tem um blog, a reação costuma ser parecida com a de quem confessa que ainda usa máquina de escrever. Há um silêncio respeitoso, seguido de um sorriso educado, como se estivéssemos diante de uma relíquia arqueológica. Blogs, dizem, são coisas de outro tempo. Agora o mundo é feito de vídeos curtos, frases instantâneas e opiniões comprimidas em cápsulas de quinze segundos. Pensar virou uma atividade suspeita, quase subversiva.

Ninguém mais lê blogs.

Não digo isso com amargura — digo com a serenidade de quem observa a paisagem cultural como quem olha um prédio abandonado. Houve festa ali dentro, música alta, gente entrando e saindo pela madrugada. Agora restam apenas as paredes grafitadas e um eco distante de conversas que já não interessam a ninguém.

O curioso é que os blogs desapareceram não porque eram ruins, mas porque exigiam uma coisa que se tornou rara: tempo. Tempo para escrever e tempo para ler. Duas atividades que a internet contemporânea trata com certa desconfiança, como se fossem hábitos antiquados, semelhantes a usar chapéu ou escrever cartas.

O leitor moderno não lê: ele passa os olhos. Não mergulha no texto: ele o atravessa correndo, como quem atravessa uma rua movimentada. O objetivo não é compreender, é sobreviver ao excesso de informação sem perder o próximo estímulo luminoso.

E assim os blogs foram ficando para trás, como cafés literários de uma cidade que decidiu trocar mesas por esteiras rolantes.

Mesmo assim, teimosamente, ainda existem pessoas que escrevem em blogs. Talvez por nostalgia. Talvez por vício. Talvez porque escrever seja uma dessas manias incuráveis, como colecionar livros ou conversar com cães. Escrevem textos longos, reflexivos, cheios de parágrafos que não caberiam em nenhuma rede social moderna sem provocar crises de ansiedade nos algoritmos.

Escrevem como quem deixa uma garrafa no mar.

No fundo, todos sabem que ninguém mais lê blogs.

Mas há um detalhe ainda mais constrangedor nessa história — um detalhe que só se revela depois que o texto já foi escrito, revisado e publicado com aquela esperança discreta de quem ainda acredita em leitores invisíveis.

A verdade, se formos honestos até o fim, é ainda mais cruel.

Porque ninguém mais lê blogs.

E, para piorar um pouco a situação, ninguém mais lê crônicas também.

sábado, 14 de março de 2026

Biografias, mulheres e Silvio Santos

 Há uma curiosa moda que se instalou no cinema contemporâneo, uma espécie de truque narrativo que parece elegante à primeira vista, mas que no fundo lembra aqueles móveis tortos que insistimos em equilibrar com pedaços de papel dobrado. Refiro-me às cinebiografias que, em vez de contar a história de quem está no cartaz, resolvem transformá-lo em figurante de si mesmo, enquanto a câmera, com certa pressa pedagógica, desloca o foco para outra personagem — quase sempre uma mulher — que passa a ocupar o centro dramático daquilo que deveria ser, teoricamente, a biografia de outra pessoa.

Não me entendam mal — e aqui faço questão de colocar a vírgula moral antes que algum tribunal das redes sociais levante a sobrancelha —, sou absolutamente favorável a que mais mulheres tenham suas histórias contadas. O mundo está cheio de biografias masculinas repetidas como reprises de novela das três, enquanto mulheres extraordinárias continuam esperando alguém abrir o caderno de roteiro. O que me parece estranho não é a presença feminina, mas a gambiarra narrativa: pegar a biografia de alguém e deslocar o protagonismo para outra pessoa, como se o roteiro tivesse sido escrito com duas histórias brigando pelo mesmo microfone.

O resultado costuma ser um filme que parece sofrer de dupla personalidade. Uma história grita ao fundo, pedindo para existir, enquanto outra, meio improvisada, tenta ocupar o palco.

Vejamos alguns casos curiosos dessa tendência cinematográfica. A cinebiografia de Cazuza acabou orbitando fortemente em torno de sua relação com a mãe, Lucinha Araújo. A de Renato Russo decide contar a importância de uma melhor amiga que não aparece em momento algum de sua vida real, apenas para impôr ao espectador uma forte presença feminina com a desculpa de inspirar uma de suas dezenas de canções de sucesso. 

O mesmo expediente apareceu no filme sobre Freddie Mercury, em que o drama pessoal do cantor frequentemente divide o protagonismo com a de uma grande amiga que, segundo o filme, o direciona e salva. 

Até o irreverente Mussum ganhou uma cinebiografia que desloca o foco para a histópria de sua mãe, preferia ver exclusivamente a história, poderosa hitória de uma mulher preta vencendo em meio aos entraves da vida no Brasil dos anos 1940, ficaria melhor.

E quando pensei que a tendência já tivesse ido longe demais, descubro que fizeram algo semelhante até na cinebiografia criminoso conhecido como Maníaco do Parque — um caso em que, convenhamos, já havia material dramático suficiente sem precisar mudar o eixo narrativo, alterado para contar as agruiras de uma repórter lutando por informações e para denunciar o caso em meio ao mundo machista e opressor. Como se matar mulheres, estuprá-las e abandoná-las no parque (nessa órdem), já não fosse denúncia suficiente para um filme.

Mais recentemente, até o mito televisivo Silvio Santos recebeu uma versão cinematográfica estrelada por Leandro Hassum como o Silveio, mas protagonizada por uma marketeira em busca da luta pela verdade histórica do Silvio.

Resultado de tanta lama? Filmes péssimos!

A pergunta que fica é simples e, ao mesmo tempo, constrangedora: se a intenção era contar a história de uma mulher, por que não fazê-lo diretamente?

O Brasil está cheio de biografias femininas que dariam filmes extraordinários. A trajetória política de Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea sob pressões históricas monumentais; a vida quase mística de Irmã Dulce, que transformou caridade em sistema de saúde; o trabalho humanitário incansável de Zilda Arns; ou a rebeldia criativa de Rita Lee, que sozinha renderia um roteiro mais elétrico que metade das cinebiografias produzidas nos últimos anos.

Histórias não faltam. Personagens também não. O que parece faltar, às vezes, é coragem narrativa.

Porque quando se tenta contar duas histórias ao mesmo tempo — uma sussurrando e outra gritando — o resultado raramente é equilíbrio. O roteiro entorta, a estrutura perde o eixo, e o espectador sai do cinema com a sensação de que assistiu a um filme que não decidiu o que queria ser.

E cinema, como a vida, costuma punir duramente quem não sabe qual história está contando.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Meu CID está nas minhas crônicas.

 Outro dia me perguntaram qual era o meu CID, não o endereço onde moro nem o CEP que orienta os carteiros a encontrarem minha casa no meio da cidade, mas aquele outro, frio e clínico, composto de letras e números que, segundo a fé contemporânea na medicina e na classificação das almas, deveria explicar por que alguém é como é, por que pensa o que pensa, por que sente esse leve desalinho diante da realidade que para muitos parece perfeitamente normal.

Vivemos, afinal, na era dos códigos, uma época em que quase tudo precisa ser reduzido a uma sequência de caracteres que organize o caos humano em pequenas gavetas científicas, como se fosse possível numerar a tristeza, catalogar a ansiedade ou registrar oficialmente aquela estranha sensação de deslocamento que às vezes nos visita no meio da tarde, quando olhamos pela janela e temos a impressão incômoda de que o mundo inteiro está participando de uma peça cuja lógica nós simplesmente não conseguimos compreender.

Pediram meu CID com a naturalidade de quem solicita um documento na portaria da existência, como se cada um de nós carregasse no bolso um pequeno prontuário da alma, pronto para ser apresentado sempre que alguém quisesse confirmar que nossas manias, nossas ironias ou nossos silêncios estão devidamente registrados em algum manual técnico que pretende explicar o ser humano com a mesma serenidade com que se descreve o funcionamento de um motor.

Fiquei pensando nisso enquanto voltava para casa, caminhando por uma cidade que parecia excessivamente normal para um mundo tão evidentemente desajustado, onde as pessoas atravessavam a rua com pressa para chegar a lugares que provavelmente não as fariam mais felizes, onde vendedores anunciavam promoções urgentes de coisas desnecessárias e onde, em algum lugar da calçada, um cachorro latia para o vazio com uma honestidade emocional que raramente encontramos entre os próprios seres humanos.

Quando finalmente cheguei em casa, sentei diante do computador e comecei a escrever, como faço sempre que alguma pergunta dessas fica girando na cabeça com a insistência de um pensamento que se recusa a ir embora, e foi então que percebi algo que talvez explique muito mais sobre mim do que qualquer código médico poderia explicar.

Cada crônica que escrevo é, de certa forma, um sintoma.

Há textos que revelam uma melancolia discreta que insiste em se acomodar comigo nas primeiras horas do dia, quando o café ainda está quente e o mundo ainda não decidiu completamente qual será sua dose diária de absurdo; há outros em que aparece um cansaço antigo diante do espetáculo humano, como se eu estivesse assistindo há tempo demais à mesma peça mal ensaiada, cujos personagens continuam repetindo falas previsíveis enquanto fingem acreditar que tudo aquilo é novidade.

Existem também aquelas crônicas em que a ironia surge quase involuntariamente, não como um recurso literário cuidadosamente planejado, mas como um mecanismo natural de defesa contra a estupidez cotidiana, porque quem observa demais o comportamento humano acaba descobrindo que o riso, quando vem misturado a um pouco de amargura, é muitas vezes a única forma razoável de atravessar certas cenas da vida.

Imagino que, se um psiquiatra lesse todas essas páginas com o olhar técnico de quem procura padrões e sintomas, talvez conseguisse redigir um laudo bastante detalhado; se um filósofo se debruçasse sobre os mesmos textos, provavelmente escreveria um ensaio sobre a inquietação moderna; e se um editor examinasse tudo com pragmatismo profissional, talvez apenas pedisse mais capítulos.

Mas nenhuma dessas leituras resolveria o mistério por completo.

Porque a verdade, que às vezes aparece de forma quase constrangedoramente simples, é que meu CID não está em um prontuário médico nem em um relatório clínico cuidadosamente arquivado em alguma gaveta institucional.

Meu CID está nas minhas crônicas.

Está no incômodo persistente diante da banalidade com que o mundo costuma tratar aquilo que deveria nos espantar; está na nostalgia inexplicável por coisas que talvez nunca tenham existido exatamente da forma como imaginamos; está, sobretudo, nesse espanto permanente diante daquilo que a maioria das pessoas insiste em chamar de normalidade, como se o simples fato de algo acontecer todos os dias fosse suficiente para torná-lo plenamente compreensível.

Escrever, no fundo, acaba sendo uma espécie de exame clínico da alma, um procedimento silencioso através do qual tentamos entender o que nos atravessa enquanto atravessamos o mundo.

Alguns procuram terapia, outros confiam nos remédios, outros ainda se ocupam em colecionar distrações que tornem a vida mais suportável; eu, talvez por falta de opções mais eficientes, coleciono parágrafos.

Cada texto acaba se transformando em um pequeno prontuário sentimental, no qual as metáforas funcionam como tentativas provisórias de diagnosticar a vida, mesmo sabendo que certos sintomas da existência humana resistem teimosamente a qualquer classificação definitiva.

Talvez seja por isso que eu sempre desconfie um pouco das pessoas perfeitamente equilibradas, dessas que parecem caminhar pela vida com a serenidade impecável de quem jamais precisou fazer perguntas incômodas sobre o sentido das coisas.

Elas me parecem saudáveis demais para serem verdadeiras.

As conversas realmente interessantes, aquelas que nos fazem perceber que não estamos sozinhos nesse leve desalinho com o mundo, quase sempre acontecem entre pessoas que carregam alguma rachadura invisível, algum desalinho discreto que as impede de aceitar a realidade exatamente como ela se apresenta.

No fundo, suspeito que todo cronista seja apenas um paciente que resolveu abrir um consultório de palavras, onde recebe diariamente as pequenas inquietações da vida, examina cada uma delas com a curiosidade de quem procura entender o funcionamento secreto da existência e, depois de algumas páginas, devolve ao mundo um diagnóstico provisório.

Se algum dia alguém insistir novamente em saber qual é o meu CID, acho que finalmente terei uma resposta adequada.

Não é um número.

São algumas páginas.

E, como todo bom diagnóstico humano, continuam em observação.