É tempo de limpeza. Não se trata de varrer a sujeira para debaixo do tapete — isso seria, convenhamos, honesto dentro de sua desonestidade clássica. O que se vê agora é mais sofisticado: uma assepsia moral da linguagem. Um álcool em gel semântico. Um desinfetante de palavras.
Tudo muito esterilizado.
Palavras são perigosas, dizem. Ferem, machucam, desencadeiam. Como facas — e não pontes. Como se o problema estivesse na lâmina da palavra, e não na mão que a empunha ou na realidade que ela tenta, desajeitadamente, nomear.
E então começa o ritual: substitui-se, suaviza-se, contorna-se. Não se diz; sugere-se. Não se afirma; sinaliza-se. O mundo torna-se um grande manual de instruções invisível, onde cada frase carrega o peso de um possível tribunal.
Mas não se engane: não se trata de delicadeza. É controle.
Não fosse o incômodo, aliás, ainda estaríamos ajoelhados diante de verdades impostas. Sócrates foi condenado por fazer perguntas demais — veja que perigo: perguntar. Galileu Galilei ousou dizer que a Terra não era o centro do universo e quase foi apagado por isso. Jesus Cristo, que hoje estampa medalhinhas e discursos mansos, foi morto por incomodar estruturas morais e religiosas de sua época. Nenhum deles passou pelo crivo da linguagem segura. Nenhum deles pediu licença para existir em frases aceitáveis.
Há algo de profundamente autoritário nesse zelo pela linguagem “correta”. Porque, ao contrário do que parece, não se trata de ampliar o respeito, trata-se de restringir o pensamento. Afinal, só se pensa com palavras. E quando você poda as palavras, você não está apenas limpando o discurso… está limitando o próprio campo do possível.
George Orwell já havia avisado, mas parece que a distopia hoje vem com filtro pastel e boas intenções declaradas em bio de rede social.
O curioso é que a história nunca teve paciência para os educados demais. Martin Luther King Jr. não escreveu um sonho para ser confortável, mas para confrontar. Malcolm X ainda menos palatável, e talvez por isso mesmo mais honesto em sua fúria. A "queridinha" Simone de Beauvoir disse o que não se dizia sobre mulheres — e pagou com rejeição antes de virar citação de camiseta. Todos, sem exceção, seriam hoje convidados a “rever o tom”.
O moralismo, como sempre, veste uma máscara de virtude. E como todo moralismo, é seletivo, performático e profundamente confortável para quem o pratica. Não exige coragem, apenas vigilância. Não sobre si mesmo, claro, mas sobre o outro.
É curioso: as novas gerações, tão orgulhosas de sua consciência social, parecem ter herdado o velho vício de substituir o debate pela censura, mas com vocabulário atualizado. Onde antes havia proibição explícita, hoje há constrangimento moral. Onde antes havia silêncio imposto, hoje há silêncio induzido.
Mais elegante. Mais eficiente.
Porque toda época tem seus fiscais da palavra — e seus hereges. Friedrich Nietzsche escreveu com um martelo, não com luvas, e até hoje há quem prefira ignorá-lo a enfrentá-lo. Sigmund Freud escancarou o que havia de menos higiênico na mente humana, e por isso mesmo foi tratado como indecente. Até o apóstolo dos canalhas Karl Marx nomeou conflitos que muitos preferiam manter invisíveis. Nenhum deles caberia num guia contemporâneo de boas maneiras linguísticas.
O resultado é um empobrecimento progressivo do pensamento. Porque ideias complexas exigem linguagem imperfeita, arriscada, às vezes incômoda. O pensamento crítico não nasce em ambientes esterilizados, precisa de atrito, de choque, de palavras que não pedem licença.
Mas quem ousa hoje?
Talvez a pergunta mais honesta fosse outra: quem suportaria? Porque dizer o que precisa ser dito sempre teve um custo. Nelson Rodrigues foi chamado de imoral por expor a hipocrisia nacional com uma precisão quase clínica. Clarice Lispector desorganizou a linguagem para alcançar o indizível — e desconcertou gerações inteiras no processo. Pensar, quando é de verdade, nunca foi uma atividade limpa.
O medo de dizer algo “errado” se tornou maior do que o desejo de dizer algo verdadeiro. E assim, aos poucos, vamos formando uma geração que fala muito… e pensa pouco. Ou melhor: pensa dentro de um cercadinho semântico cuidadosamente delimitado, assépico e seguro.
No fundo, talvez seja isso que mais assuste.
Não é que estejam proibindo o pensamento. Isso seria escandaloso demais. Estão apenas tornando-o desconfortável. Socialmente arriscado. Publicamente punível.
E o ser humano, esse velho covarde sofisticado, adapta-se.
E ainda chama isso de evolução.
No fim das contas, a linguagem limpa demais começa a cheirar mal. Porque não há nada mais suspeito do que um mundo onde todas as palavras são corretas — e nenhuma é livre.
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