quarta-feira, 11 de março de 2026

A coesão perdida (parte III)

 Antes que alguém me escreva um e-mail indignado ou me convide para um seminário pedagógico sobre tolerância discursiva, faço um aviso metodológico: esta crônica expressa apenas o meu ponto de vista.

Não é tese de doutorado.
Não é artigo científico.
Não é relatório do Ministério da Educação.

É apenas a opinião de um cronista que passou tempo demais dentro de escolas e tempo suficiente fora delas para perceber certas ironias.

Dito isso, retomemos o fio da meada — ou melhor, a falta dele.

Na primeira parte desta série falei sobre a perda da coesão na educação. Na segunda, sobre o curioso surgimento de um negacionismo gramatical praticado por gente que quer reformar a língua portuguesa sem sequer entender como ela funciona.

Agora chegamos ao ponto mais espinhoso da história.

Na minha modesta opinião, parte desse fenômeno tem origem numa figura muito comum no debate público brasileiro: o especialista em tudo.

Ele surge geralmente com um microfone na mão, um auditório universitário ao fundo e uma convicção inabalável de que pode explicar qualquer aspecto da realidade humana.

Educação.
Economia.
Política internacional.
Moral.
Linguagem.
Tecnologia.
Astrofísica, se o tempo permitir.

Curiosamente, esse especialista universal costuma ter formação em áreas muito respeitáveis, como sociologia ou filosofia.

Nada contra essas disciplinas, diga-se de passagem. São áreas intelectualmente importantes, antigas e profundamente relevantes para entender a sociedade.

O problema começa quando sociólogos passam a opinar sobre tudo o que não é sociologia.

Gramática?
Opinam.

Psicologia da aprendizagem?
Opinam.

Currículo escolar?
Opinam.

Fonologia da língua portuguesa?
Opinam também.

E assim vai.

É como se um cardiologista resolvesse opinar sobre engenharia aeronáutica apenas porque ambos lidam, em algum momento, com a palavra “estrutura”.

Repito: este é apenas o meu ponto de vista.

Mas observo algo curioso nas últimas décadas.

Durante muito tempo, certos setores acadêmicos acreditaram sinceramente que ocupavam uma posição de resistência intelectual — uma espécie de oposição permanente ao poder estabelecido.

A narrativa era bonita: professores críticos, estudantes engajados, pensamento revolucionário nas salas de aula.

Mas há um pequeno detalhe histórico que parece ter passado despercebido.

Esse discurso crítico virou o próprio discurso dominante dentro da escola.

Ele está nos currículos.
Nos materiais didáticos.
Nas formações pedagógicas.
Nas conferências educacionais.

Ou seja: aquilo que se imaginava oposição acabou se transformando, lentamente, em status quo.

É o óbvio começando a ulular.

Pois bem.

Se a escola se torna o espaço de um discurso dominante — qualquer que seja ele — a reação natural da juventude será ir contra esse discurso.

É a lógica mais antiga da adolescência.

Se o professor diz “A”, metade da sala imediatamente pensa “talvez B”.

Não por teoria política.

Por espírito de contrariedade.

Talvez isso explique um fenômeno curioso que venho observando: quanto mais certos discursos se tornam obrigatórios no ambiente escolar, mais alguns jovens passam a buscar ideias em direção oposta.

Não porque tenham lido tratados filosóficos complexos.

Mas porque ninguém gosta de sentir que está sendo conduzido intelectualmente como quem é levado pela mão.

A juventude tem uma tendência quase biológica à rebeldia.

E rebeldia, por definição, sempre procura o lado oposto da autoridade.

Talvez o grande erro de certos educadores tenha sido acreditar que continuam sendo rebeldes quando, na verdade, já ocupam o púlpito.

O rebelde raramente percebe o dia em que virou instituição.

E quando isso acontece, algo curioso surge no horizonte.

Uma nova geração de jovens, olhando para o professor que se considera revolucionário, começa a fazer o gesto mais antigo da história humana: discordar.

No fundo, voltamos ao problema da coesão.

Cada área deveria falar daquilo que conhece.

Cada disciplina deveria respeitar seus próprios métodos.

E a escola deveria formar pensamento, não fabricar unanimidades.

Porque unanimidade, como gostava de dizer Nelson Rodrigues, costuma ter algo de suspeito.

E suspeito, como sabemos, raramente é coeso.

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