A gente aprende na marra: pagar boleto, atravessar a rua olhando pros dois lados, desconfiar de promessa em ano eleitoral. Mas há o que ninguém ensina — e, ainda assim, estão lá, firmes, como uma dívida que você nunca lembra de ter feito, mas continua pagando.
Chamam isso de verdade. Chamam isso de justiça. Nomes pomposos para coisas que não cabem no bolso nem no currículo Lattes.
O sujeito pode passar a vida inteira tentando ser esperto — e normalmente passa. Aprende cedo que o mundo recompensa o atalho, o jeitinho, a cara de pau bem ensaiada. Aprende que o erro, quando bem vestido, vira estratégia. E ainda assim, lá no fundo, num canto mofado da consciência que nem o cinismo conseguiu reformar, há uma espécie de incômodo. Um desconforto sem nome. Uma coceira metafísica.
É curioso: ninguém nunca viu a verdade. Nunca encostou nela, nunca tirou uma foto, nunca postou nos stories. E, no entanto, todo mundo sabe quando ela falta. Como se fosse um móvel invisível na sala — você não vê, mas tropeça.
O mesmo vale para a tal da justiça. Essa entidade que não mora em fórum nenhum, mas insiste em aparecer quando alguém tenta justificar o injustificável. Até o mais canalha dos homens, quando pego no flagra, apela para ela. Não para cumpri-la, claro — mas para torcê-la ao seu favor. Porque, no fundo, até ele sabe que existe alguma coisa ali. Uma régua invisível que mede o mundo, ainda que ninguém saiba quem a fabricou.
E então vêm os filósofos, com seus livros pesados e suas certezas leves, tentando explicar de onde brota essa estranha intuição. Uns dizem que é da experiência, outros da razão, outros ainda inventam palavras complicadas para disfarçar o fato mais simples de todos: ninguém faz a menor ideia.
Porque, veja bem, se fosse só experiência, bastaria viver muito para entender tudo — e a gente sabe que não é assim. Há velhos que morrem sem nunca ter entendido o básico, e crianças que, do nada, fazem perguntas que desmontam qualquer adulto.
Se fosse só razão, bastaria pensar direito — mas pensar direito é justamente o que mais falta.
Talvez — e aqui começa o terreno perigoso — essas ideias não venham de lugar nenhum que a gente consiga apontar no mapa. Talvez estejam aí desde sempre, como essas músicas irritantes que você nunca lembra onde ouviu, mas sabe cantar até o refrão.
A consciência, nesse caso, não seria uma construção. Seria uma revelação mal explicada.
E é aí que mora o problema: a gente gosta de acreditar que está no controle. Que pensa porque quer, que sente porque decide, que entende porque estudou. Mas, no fundo, há coisas que simplesmente se impõem. Você não escolhe perceber. Você percebe. Não escolhe se incomodar. O incômodo chega — e senta.
No fim das contas, talvez sejamos menos autores da própria história do que imaginamos. Mais leitores confusos de um livro que já veio escrito em partes — com capítulos sobre o tempo, a eternidade e essa estranha mania humana de buscar o absoluto mesmo vivendo no provisório.
E, como todo leitor brasileiro, seguimos: pulando páginas, fingindo que entendemos, marcando trechos que não sabemos explicar — e chamando isso, com uma certa dignidade desesperada, de consciência.
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