Há uma curiosa moda que se instalou no cinema contemporâneo, uma espécie de truque narrativo que parece elegante à primeira vista, mas que no fundo lembra aqueles móveis tortos que insistimos em equilibrar com pedaços de papel dobrado. Refiro-me às cinebiografias que, em vez de contar a história de quem está no cartaz, resolvem transformá-lo em figurante de si mesmo, enquanto a câmera, com certa pressa pedagógica, desloca o foco para outra personagem — quase sempre uma mulher — que passa a ocupar o centro dramático daquilo que deveria ser, teoricamente, a biografia de outra pessoa.
Não me entendam mal — e aqui faço questão de colocar a vírgula moral antes que algum tribunal das redes sociais levante a sobrancelha —, sou absolutamente favorável a que mais mulheres tenham suas histórias contadas. O mundo está cheio de biografias masculinas repetidas como reprises de novela das três, enquanto mulheres extraordinárias continuam esperando alguém abrir o caderno de roteiro. O que me parece estranho não é a presença feminina, mas a gambiarra narrativa: pegar a biografia de alguém e deslocar o protagonismo para outra pessoa, como se o roteiro tivesse sido escrito com duas histórias brigando pelo mesmo microfone.
O resultado costuma ser um filme que parece sofrer de dupla personalidade. Uma história grita ao fundo, pedindo para existir, enquanto outra, meio improvisada, tenta ocupar o palco.
Vejamos alguns casos curiosos dessa tendência cinematográfica. A cinebiografia de Cazuza acabou orbitando fortemente em torno de sua relação com a mãe, Lucinha Araújo. A de Renato Russo decide contar a importância de uma melhor amiga que não aparece em momento algum de sua vida real, apenas para impôr ao espectador uma forte presença feminina com a desculpa de inspirar uma de suas dezenas de canções de sucesso.
O mesmo expediente apareceu no filme sobre Freddie Mercury, em que o drama pessoal do cantor frequentemente divide o protagonismo com a de uma grande amiga que, segundo o filme, o direciona e salva.
Até o irreverente Mussum ganhou uma cinebiografia que desloca o foco para a histópria de sua mãe, preferia ver exclusivamente a história, poderosa hitória de uma mulher preta vencendo em meio aos entraves da vida no Brasil dos anos 1940, ficaria melhor.
E quando pensei que a tendência já tivesse ido longe demais, descubro que fizeram algo semelhante até na cinebiografia criminoso conhecido como Maníaco do Parque — um caso em que, convenhamos, já havia material dramático suficiente sem precisar mudar o eixo narrativo, alterado para contar as agruiras de uma repórter lutando por informações e para denunciar o caso em meio ao mundo machista e opressor. Como se matar mulheres, estuprá-las e abandoná-las no parque (nessa órdem), já não fosse denúncia suficiente para um filme.
Mais recentemente, até o mito televisivo Silvio Santos recebeu uma versão cinematográfica estrelada por Leandro Hassum como o Silveio, mas protagonizada por uma marketeira em busca da luta pela verdade histórica do Silvio.
Resultado de tanta lama? Filmes péssimos!
A pergunta que fica é simples e, ao mesmo tempo, constrangedora: se a intenção era contar a história de uma mulher, por que não fazê-lo diretamente?
O Brasil está cheio de biografias femininas que dariam filmes extraordinários. A trajetória política de Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea sob pressões históricas monumentais; a vida quase mística de Irmã Dulce, que transformou caridade em sistema de saúde; o trabalho humanitário incansável de Zilda Arns; ou a rebeldia criativa de Rita Lee, que sozinha renderia um roteiro mais elétrico que metade das cinebiografias produzidas nos últimos anos.
Histórias não faltam. Personagens também não. O que parece faltar, às vezes, é coragem narrativa.
Porque quando se tenta contar duas histórias ao mesmo tempo — uma sussurrando e outra gritando — o resultado raramente é equilíbrio. O roteiro entorta, a estrutura perde o eixo, e o espectador sai do cinema com a sensação de que assistiu a um filme que não decidiu o que queria ser.
E cinema, como a vida, costuma punir duramente quem não sabe qual história está contando.
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