Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha oito anos. A primeira lembrança que tenho da vida é anterior à separação: ele no dia do nascimento da minha irmã, sorrindo como se o mundo tivesse dado certo. Essa é a moldura inaugural da minha memória — meu pai feliz. Depois, as fotografias internas ficaram embaçadas.
Ele nunca foi um homem sensível. Foi um bruto. Mas aprendi, tarde demais talvez, que brutalidade também é um idioma. Ele nasceu em 1947, foi criado sob disciplina quase militar, cresceu proletário, com pouca escola e muita necessidade. Homem daquele tempo não era autorizado a ser delicado. Homem daquele tempo tinha de ser pedra — e pedra não abraça, sustenta.
Imagino o que significava ser pai de três filhos na década de 1980. O salário curto, a inflação longa, o cansaço como companheiro fixo. Enquanto isso, a televisão ensinava às mulheres que havia vida fora da cozinha, que liberdade não era pecado, que divórcio não era o fim do mundo. O mundo mudava pela tela da sala, mas meu pai não tinha vocabulário para acompanhar a mudança. Ele sabia trabalhar. Sentir era outro ofício.
Cresci vendo-o pouco. Quando aparecia, errava nos presentes. Nunca acertou. Talvez porque nunca tenha me conhecido. E não se conhece um filho apenas pagando contas; conhece-se sentando ao lado, ouvindo, errando conversa, tentando de novo. Ele não tentou. Ou tentou do jeito que sabia — que, para mim, parecia ausência.
Anos se passaram. Mais de dez sem que eu o visse. Até que soube que estava doente. Fiz a viagem como quem caminha para uma despedida anunciada. Fomos eu, minha irmã, meu sobrinho, alguns primos e um irmão dele. Uma pequena caravana tardia rumo a um homem que sempre foi distante mesmo quando estava perto.
Quase não o reconheci. O tempo havia feito nele o que faz em todos: dobrado a carne, enfraquecido a voz, desarmado as certezas. Conversamos pouco. As palavras entre nós sempre foram econômicas, e naquele dia não se tornaram generosas.
Em certo momento, ele me apresentou a um vizinho. Disse: “Aquela é minha filha, aquele meu neto, meu irmão é aquele… esse aí? Ah, é meu filho também.”
Eu entendi.
Não houve escândalo dentro de mim. Não houve surpresa. Sempre soube que eu ocupava um lugar lateral em seu coração — se é que ocupava. Naquele dia apenas confirmei a intuição antiga. Eu era o “também”. O acréscimo. O adendo biográfico.
Olhei ao redor da sala. Fotografias de todos os filhos e netos. Até da ex-nora. A casa era um mural de afetos enquadrados. Não havia nenhuma fotografia minha. Nenhuma prova material de que eu existira na narrativa daquele homem.
Curiosamente, fui eu quem levou toda a família para vê-lo antes de seu passamento. Organizei a viagem, articulei agendas, fiz o que filhos fazem quando ainda desejam, em algum canto secreto da alma, serem reconhecidos. Ainda assim, eu não estava lá — nem na parede, nem, talvez, no peito.
Quando nos despedimos, eu soube que seria a última vez. Não por profecia, mas por cansaço do destino. Abracei-o. No instante do abraço, senti seus ombros encolherem levemente, como quem se protege do frio ou da proximidade excessiva. Um abraço deveria aproximar corações. O nosso produziu um pequeno afastamento físico que simbolizou todos os outros.
Foi o último. O único. De toda minha vida o único abraço que trocamos.
Meses depois, ele estava concluído. A palavra é essa: concluído. Como um livro que se fecha sem que o leitor tenha entendido o enredo. Não fui ao velório. Não chorei. Mas fiquei triste — de uma tristeza limpa, sem espetáculo. A tristeza de quem não perdeu o que nunca teve, mas lamenta a possibilidade que morreu.
Eu, que nunca tive pai, recebi pêsames pela sua morte. As pessoas diziam “meus sentimentos” como se eu tivesse sido órfão naquele dia. Estranho é que a orfandade não começou ali; ela apenas foi oficializada.
Ainda assim, não escrevo esta crônica para acusá-lo. Escrevo para compreendê-lo. Meu pai foi um homem do seu tempo, prisioneiro de uma educação rígida, esmagado pela responsabilidade, analfabeto emocional. Talvez tenha amado do jeito que sabia — um amor silencioso, duro, mal traduzido.
O último abraço que dei em meu pai não me aqueceu. Mas me ensinou algo: posso interromper a herança da frieza. Posso aprender outra língua afetiva. Posso abraçar minha esposa, amigos, irmãos, minha mãe, posso mesmo me abraçar sem encolher os ombros.
Talvez seja essa a única redenção possível.
Meu pai me deu a vida. O resto, estou aprendendo sozinho.
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