domingo, 15 de março de 2026

Ninguém mais lê blogs...

 Houve um tempo — não muito distante, embora a internet tenha a curiosa habilidade de transformar cinco anos em uma era geológica — em que os blogs eram pequenas repúblicas literárias espalhadas pela rede. Cada um tinha seu território, suas obsessões, seus leitores fiéis, que apareciam religiosamente como quem bate ponto numa cafeteria imaginária. Era ali que se escrevia sem algoritmo, sem patrocinador, sem aquela ansiedade de performar para um público invisível que mede a relevância de um texto pela velocidade com que ele desaparece na linha do tempo.

Hoje, quando alguém diz que tem um blog, a reação costuma ser parecida com a de quem confessa que ainda usa máquina de escrever. Há um silêncio respeitoso, seguido de um sorriso educado, como se estivéssemos diante de uma relíquia arqueológica. Blogs, dizem, são coisas de outro tempo. Agora o mundo é feito de vídeos curtos, frases instantâneas e opiniões comprimidas em cápsulas de quinze segundos. Pensar virou uma atividade suspeita, quase subversiva.

Ninguém mais lê blogs.

Não digo isso com amargura — digo com a serenidade de quem observa a paisagem cultural como quem olha um prédio abandonado. Houve festa ali dentro, música alta, gente entrando e saindo pela madrugada. Agora restam apenas as paredes grafitadas e um eco distante de conversas que já não interessam a ninguém.

O curioso é que os blogs desapareceram não porque eram ruins, mas porque exigiam uma coisa que se tornou rara: tempo. Tempo para escrever e tempo para ler. Duas atividades que a internet contemporânea trata com certa desconfiança, como se fossem hábitos antiquados, semelhantes a usar chapéu ou escrever cartas.

O leitor moderno não lê: ele passa os olhos. Não mergulha no texto: ele o atravessa correndo, como quem atravessa uma rua movimentada. O objetivo não é compreender, é sobreviver ao excesso de informação sem perder o próximo estímulo luminoso.

E assim os blogs foram ficando para trás, como cafés literários de uma cidade que decidiu trocar mesas por esteiras rolantes.

Mesmo assim, teimosamente, ainda existem pessoas que escrevem em blogs. Talvez por nostalgia. Talvez por vício. Talvez porque escrever seja uma dessas manias incuráveis, como colecionar livros ou conversar com cães. Escrevem textos longos, reflexivos, cheios de parágrafos que não caberiam em nenhuma rede social moderna sem provocar crises de ansiedade nos algoritmos.

Escrevem como quem deixa uma garrafa no mar.

No fundo, todos sabem que ninguém mais lê blogs.

Mas há um detalhe ainda mais constrangedor nessa história — um detalhe que só se revela depois que o texto já foi escrito, revisado e publicado com aquela esperança discreta de quem ainda acredita em leitores invisíveis.

A verdade, se formos honestos até o fim, é ainda mais cruel.

Porque ninguém mais lê blogs.

E, para piorar um pouco a situação, ninguém mais lê crônicas também.

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