Chamaram de realidade aquilo que cabe nos olhos.
E eu, que sempre desconfiei dos olhos, comecei a suspeitar também da realidade.
Há algo de profundamente irônico no fato de que passamos a vida inteira confiando em cinco pequenos porteiros — visão, audição, tato, paladar e olfato — como se fossem funcionários exemplares. Não são. São distraídos, preguiçosos e, vez ou outra, francamente mentirosos. Deixam passar coisas demais e barram outras tantas sem qualquer critério aparente.
Enquanto isso, a vida — essa entidade indecorosa — acontece fora do alcance deles.
Dizem que não vemos certas luzes, não ouvimos certos sons, não sentimos certos movimentos. E ainda assim temos a ousadia de afirmar: “isso não existe”. É o tipo de arrogância que só o ignorante convicto consegue sustentar com dignidade.
O homem moderno, tão cheio de certezas, construiu sua fé em cima do que consegue tocar. É um tipo curioso de religiosidade: acredita no concreto como outros acreditam em deuses. Só que o concreto racha. E, quando racha, leva junto a fé de quem nunca aprendeu a olhar para dentro.
Porque dentro — eis o problema — não há garantias.
Há um coração que bate sem pedir licença, um pulmão que respira sem consultar opiniões, um corpo inteiro funcionando à revelia da nossa vontade. Há um subterrâneo silencioso operando tudo aquilo que julgamos controlar. E isso deveria nos inquietar mais do que inquieta.
Mas não inquieta.
Preferimos o barulho de fora. A multidão. A correria. O excesso de estímulos que nos convence de que estamos vivos, quando talvez estejamos apenas ocupados demais para perceber o contrário.
É curioso: no meio de uma multidão, cercado de vozes, corpos e pressa, ainda assim existe um ponto de silêncio que insiste em permanecer. Um núcleo duro, teimoso, que sussurra: “você não é isso tudo que está acontecendo”.
Mas quem escuta?
A maioria prefere continuar acreditando que é apenas aquilo que vê no espelho — essa matéria provisória, em constante decomposição elegante. Porque admitir que somos mais do que isso dá trabalho. Exige responsabilidade. Exige, sobretudo, coragem.
E coragem nunca foi exatamente a especialidade da nossa espécie.
Então seguimos assim: confiando nos sentidos que nos enganam, interpretando um mundo que muda a cada segundo como se fosse sólido, permanente, confiável. Chamamos isso de lucidez.
Enquanto isso, dentro de nós, alguma coisa observa em silêncio. Algo que não depende dos olhos, nem dos ouvidos, nem da pressa. Algo que não muda na mesma velocidade que o corpo apodrece.
Mas essa coisa — seja lá o nome que tenha — não grita.
E, no mundo em que vivemos, só é ouvido quem grita.
O resto, como sempre, é confundido com inexistência.
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