terça-feira, 5 de maio de 2026

Livros, música e religião

 Há quem conte a vida em anos. Eu prefiro contar em camadas de poeira.

Não é birra — embora pareça. É método. Um certo ceticismo arqueológico diante da pressa contemporânea de chamar de “clássico” aquilo que ainda nem teve tempo de falhar. Porque falhar, convenhamos, é o verdadeiro batismo das coisas duradouras. O que resiste ao erro, ao esquecimento, à indiferença — isso, sim, merece ser ouvido.

Não leio livros com menos de cinquenta anos porque desconfio daquilo que ainda não foi devidamente ignorado. O tempo é um crítico implacável: ele não escreve resenhas, ele elimina. E só fica o que aprendeu a respirar mesmo depois de esquecido nas prateleiras. Há uma honestidade brutal em um romance que sobreviveu ao mofo.

Não escuto música com menos de trinta porque o silêncio ainda não teve tempo de disputar espaço com ela. A música recente grita, implora, seduz. A antiga… ela permanece. Não precisa convencer — já foi julgada e, de algum modo misterioso, absolvida.

Não assisto a filmes com menos de vinte anos porque o olhar ainda está contaminado demais pelo próprio tempo. Um bom filme precisa envelhecer mal antes de envelhecer bem. Precisa parecer ultrapassado para, depois, revelar que nunca foi sobre a época — era sobre nós.

Debates com menos de cem anos? Ora, esses ainda estão em fase de adolescência. Inflamados, cheios de certezas, apaixonados por respostas que não sobreviverão à próxima geração. A maturidade, ao contrário, aprende a conviver com perguntas que não têm pressa.

E religião com menos de mil anos… bem, essa ainda está aprendendo a duvidar de si mesma — e isso é um estágio perigoso para quem se pretende absoluto.

No fundo, não se trata de elitismo temporal. Trata-se de desconfiança. Maturidade, descobri, não é acumular experiências — é aprender a desconfiar delas. É perceber que o novo, muitas vezes, é apenas o velho sem memória. E que o entusiasmo é um péssimo historiador.

Vivemos numa época que confunde novidade com relevância, urgência com importância, opinião com pensamento. Tudo nasce pronto, embalado, comentado — e morre antes de amadurecer. É um mundo que não tolera o intervalo entre ser e permanecer.

Talvez por isso eu me agarre ao que já teve tempo de apodrecer um pouco. Há dignidade no que envelhece. Há verdade no que sobrevive.

A maturidade, no fim das contas, não está na idade das coisas — mas na capacidade de esperar por elas. E, principalmente, na coragem de admitir que quase tudo que hoje parece essencial será, amanhã, apenas ruído de fundo.

O resto… o resto é só juventude fazendo barulho.

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