Dizem que a cultura woke está morrendo. Não morreu ainda, é verdade — mas já apresenta aquele cheiro de velório de interior: café requentado, gente cochichando nos cantos e um corpo que ninguém tem coragem de declarar oficialmente morto. No mundo, já começaram a fechar o caixão. No Brasil, como sempre, estamos discutindo a cor das flores.
Há algo de profundamente nacional nesse apego ao cadáver. Não enterramos ideias — nós as embalsamamos. Damos CPF, título de eleitor e, se bobear, cargo público. Aqui, até defunto tem opinião política. E fala alto.
Talvez seja porque somos o país das memórias póstumas. Não no sentido literário elegante, mas no sentido burocrático mesmo: tudo continua existindo depois que já devia ter acabado. Leis que ninguém cumpre, costumes que ninguém acredita, discursos que ninguém suporta — mas todos repetem, como se a repetição fosse uma forma de ressuscitação.
A cultura woke, esse fenômeno que nasceu com a promessa de justiça e terminou como um tribunal de pequenas vaidades morais, já começou a perder força em boa parte do mundo. Foi ficando cansativa, previsível, quase caricata. Virou um espelho onde ninguém mais queria se olhar — exceto os mais devotos, que ainda enxergam ali alguma espécie de santidade.
No Brasil, porém, a coisa é diferente. Aqui, ideias não precisam fazer sentido para sobreviver — basta que elas tenham um público disposto a performá-las. E performance, convenhamos, é uma das nossas maiores especialidades. O problema é que, quando a encenação continua depois que o roteiro acabou, o que era teatro vira constrangimento.
E há um detalhe menos poético, mas infinitamente mais poderoso: há gente que ganha dinheiro com isso. Sempre há. Ideias mortas, no Brasil, raramente estão desamparadas — costumam ter patrocinadores, carreiras, editais, cargos, nichos de mercado. Há quem viva de manter o cadáver maquiado, bem iluminado, discursando como se ainda tivesse pulso. E quando uma ideia vira sustento, ela deixa de ser convicção e passa a ser investimento. Não se enterra o que paga as contas.
É curioso observar como certas narrativas persistem mesmo quando já não explicam mais nada. Continuam sendo repetidas como mantras, talvez por medo do silêncio — ou, pior, por medo do prejuízo. Porque o silêncio exige pensamento, e o pensamento pode desmontar estruturas que sustentam não apenas identidades, mas também rendas, posições e relevâncias. É mais seguro repetir o que já vem pronto, ainda que esteja claramente vencido.
Nós temos dificuldade em matar ideias porque, no fundo, temos dificuldade em assumir que estivemos errados. Mas também porque há quem não possa — ou não queira — perder o lugar que construiu em cima delas. Enterrar uma ideia é reconhecer que ela já não serve; e, para alguns, isso significaria começar de novo. Então preferimos mantê-la viva artificialmente, como um paciente ligado a aparelhos — aparelhos caros, aliás — enquanto fingimos que ainda há pulso.
Mas não há.
O que há é o eco. E o eco, como se sabe, não é voz — é repetição de algo que já foi dito. O Brasil, nesse sentido, é uma caverna barulhenta: tudo reverbera, nada realmente nasce ou morre no tempo certo.
Talvez por isso a cultura woke ainda “respire” por aqui. Não porque esteja viva, mas porque ainda movimenta interesses. E interesses, diferentemente das ideias, não morrem — apenas mudam de discurso quando necessário. Enquanto houver quem lucre com o fantasma, haverá quem jure que ele está mais vivo do que nunca.
No fundo, não é sobre a cultura woke. Nunca foi. É sobre nós — essa estranha vocação nacional para conviver com fantasmas e chamá-los de futuro.
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