Opinião, conto, fotografia, poesia, vídeos, humor, crítica e, principalmente, mas não unicamente, crônicas. Autor: Mauro Marcel - escritor, poeta, historiador, professor, psicopedagogo e fã de trivialidades...
sábado, 12 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O labirinto dos teus lábios
quando olho
teus lábios
teus lábios
labirinto
labirinto
teus lábios
quando olho
quando minha
língua
toca teus
lábios
perdido me
apavoro
se teus
lábios
meus olhos
tocam
percebo o
frio da vida
o frio da
morte
o frio de
estar
nu
estar em tu
perdido na
imensidão
do labirinto
dos teus lábios
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Gordura, wireless e Drummond
Não
há porque engordurar o texto.”
É uma forma que um professor meu de
há muito dizia quando se enchia linguiça, assim como estou fazendo agora, ele
dizia que estava engordurando o texto, era necessário um regime, cortes, hoje
uma lipoaspiração gramatical, algo assim.
Mas não é sobre isso que quero
falar, talvez até corte o que escrevi neste início porque “escrever é retirar
palavras”, Drummond assaltando minha mente. Quero falar do governo do estado de
São Paulo, da Folha de São Paulo, do Estado de São Paulo, da Fox News, etc etc
etc...
Nos Estados Unidos a imprensa é
partidária e isso faz parte do jogo, todos sabemos que a Fox é um canal ligado
ao partido republicano e não espere dele algum elogio ou apoio a opiniões
democratas.
A
Fox é o que é e está livre pra ser assim, inclusive há parentes dos Bush
controlando-a. A vida lá é assim, não que eu elogie Democratas, são todos
sujeiras da mesma bunda, Republicanos, Independentes ou Democratas. A questão é que lá as informações são
partidárias e sabemos disso, todos sabem disso e assim buscam outra emissora que
eles chamam de “liberal” ou o que for.
A própria Fox tem programas voltados
para liberais, lá é a casa dos Simpsons, do Family Guy e diversos programas que
têm a liberdade institucional de criticar a própria Fox. Isso se chama
liberdade de imprensa e é bom quando praticada com liberdade...
Sim, a liberdade de imprensa tem que
ser praticada com liberdade, senão ficamos dando voltas em torno de opiniões
bizarras, debates eleitorais engessados, espaço publicitário gratuito para
Tiriricas, Enéas, Soninhas de bicicleta.
Não estou falando de podar a
participação de quem quer que seja no processo eleitoral, acredito que as
eleições tanto aqui no Brasil como em qualquer outro lugar do mundo é um
processo imbecil e malfadado.
A
vitória numa eleição não é do melhor candidato, mas do mais votado, por vezes
do que tem a máquina pública nas mãos. Mas é o povo participando.
Podemos
dizer que é o povo participando sabendo que há manipuladores da opinião pública
rodando jornais, imprimindo livros, transmitindo novelas com valores da classe dominante?
Falei classe? Escrevi. E escrevo quantas vezes forem necessárias.
Se você tem um açougue e vende mil
quilos carne para o João, você tem no João o seu maior cliente e não vai deixar
que nada aconteça a ele. Se o João perder o emprego, for preso, tiver problemas
sérios de saúde, você perderá mil vezes vinte reais que é o preço do quilo da
carne. De uma só vez você perde vinte mil reais e, provavelmente, terá que
diminuir sua margem de lucro, demitir, fechar a filial do outro lado da cidade,
viajar menos, essas coisas de quem tem menos dinheiro.
O Governo do Estado de São Paulo compra
para cada escola do estado um exemplar do Jornal Folha de São Paulo e outro do
Estado de São Paulo, são 15.027 estabelecimentos de Ensino Fundamental,
12.539 unidades Pré-escolares e 5.923 escolas de Nível Médio, cada um
recebendo um jornal de cada.
Imagine que cada exemplar
custe cinquenta reais por mês. Então é cinquenta vezes mais de trinta mil. Este
é, mais ou menos, o que o governo dá em dinheiro para os maiores veículos de
opinião pública do estado.
Será
que recebendo tanta grana, alguém se atreveria a falar mal de Mário Covas, José
Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e Cia limitada?
Os
jornais estão falindo ao redor do mundo inteiro, enfrentando crises pela baixa
tiragem, falta de anunciantes. A internet mudou a forma de comunicação entre
cidadão e notícia, se uma notícia do Jornal Nacional já está velha, imagine a
do jornal impresso do dia seguinte!
É
muito interessante o caso de que os jornais chegam às escolas inclusive aos
sábados e domingos, dias em que a maioria das escolas se encontra fechada e sem
ninguém para ler as notícias velhas de sexta e quinta. Estas mesmas escolas não
tem um acesso de qualidade à internet, na realidade não tem acesso algum.
Seria
muito mais proveitoso disponibilizar acesso sem fio a internet de alta
velocidade, que atenderia às exigências de formação do indivíduo enquanto cidadão,
acesso à informação livre da internet (espaço que não ficaria limitado às
páginas da Folha ou do Estado), utilização de sites com conteúdo voltado para o
saber e a infinidade do conhecimento humano acumulado através dos séculos. Não
um jornal antiquado, ultrapassado e com informação dirigida para não perder o
dinheiro de seu maior cliente.
Sem
falar que esta rede wireless poderia se estender pela vizinhança e servir para
populações carentes sem acesso.
Até
parece que os governantes nos querem ignorantes e desinformados!!!!
Será?
É
claro que isso não resolveria os problemas do mundo, nem os de São Paulo, mas,
ao menos, eu pararia de pagar (através de meus impostos) uma assinatura de um
jornal que não é notícia, é panfleto eleitoral, máquina de lavagem cerebral,
qualquer coisa que não informação.
O
jornal impresso morreu. Ponto. Apenas sobrevivem as empresas que recorrem a
mecanismos como os acima citados pra continuar vendendo papel ultrapassado.
Se
mora na cidade Tiradentes no extremo leste da capital paulista, não. Você
recebe informação via Jornal Nacional, Facebook e novela. Quando há algum
jornal perto de você ele não noticia críticas ao governo porque está atrelado a
este por laços financeiros, sua própria sobrevivência depende do Estado.
Nunca
haverá escândalos envolvendo o governador, se houver será parcial, se não houver
jeito morrerão abraçados, para que outro veículo apoie outro imperador e assim
vai, porque assim foi, e assim é.
Até
o dia de nossa primavera, que não será árabe, e nem precisa ser em setembro, e
que não será televisionada e nem sairá no jornal do dia seguinte...
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
A divina tragicomédia humana
O que fazer
depois das leituras obrigatórias?
Depois de
discutir filosofia e escutar todas as músicas?
Foi às festas
Compareceu às
reuniões sociais
Alegrou-se ao
pôr-do-sol
E
embebedou-se de todas as formas de felicidade.
O que você
faz depois que o paraíso resulta inútil?
Quando não há
mais lugares inéditos
Pessoas
inéditas
Poemas e
poetas.
Quando os
navios naufragam sem partir
E não precisa
mais voltar ou se iludir.
O que fazer
quando o amor não é mais Amor?
Sua cidade
não é a mesma?
Sua casa não
é a mesma,
Você não é o
mesmo.
O que você
faz quando todos os lados da cama são o mesmo lado
E todas as
camas a mesma cama.
O que fazer
depois que a calma e a pressa resultam inúteis?
Como agir
quando os ídolos se quebram,
Os mitos
descobrem-se mitos,
E não há
religião alguma em que confiar?
Quando a arte
não os abre mais.
Quando tudo é
ópio ou dor,
Quando nem se
é espinho nem flor.
Quando é
tempo de pedras, musgo, atrofiação.
O que você
faz depois de tudo isso?
Depois de
olhar no espelho e descobrir outra pessoa.
De ir ao
jardim e não ver flores.
Ler seus
poemas e não ver poesia.
Encarar sua
vida e não ver vida.
Depois de
pular e não encontrar o teto.
Procurar e
não ter ninguém por perto.
Fazer o
errado sabendo o que é certo.
Depois de ir
torto num caminho reto.
Todas as
janelas estão fechadas
E não há
portas por onde passar.
Você procura
a claustrofobia, mas ela o abandonou.
Você jogou e
perdeu
Perdeu, mas
jogou.
O que fazer
depois do desespero?
Da esperança
– que é o desespero sem nenhuma esperança.
O que você
faz depois do parto?
Depois de
estar farto de falsas lembranças.
Depois de
beber os artificiais
Provar dos
corantes, no seu paladar os acidulantes
Esvaziar os
instantes.
Decorar sua
casa com duendes,
Bruxos,
pirâmides.
Queimar
velas, incensos,
Untar-se com
unguentos,
Beber água
benta.
E ainda ser o
mesmo
Depois de
descobrir as mentiras das verdades
As verdades
nas mentiras
E de desistir
de entender o mundo nessas condições.
Depois de ver
discos voadores falsificados
O Walt Disney
congelado
Tocar em
sangue alheio coagulado
Ouvir tiros
no quarto ao lado
Um filho
abortado
Ser abduzido
E logo após
esquecido
Ser lembrado.
O que você
faz depois de cessarem os abraços?
Romperem-se
os laços
Secarem os
lagos,
E naufragarem
os barcos?
Você leu
Goethe
E entre
Fausto e Mefistófeles se viu neste.
Em
Shakespeare foi Iago.
Em Jó o
Diabo.
Suas asas
estão mortas para a vida
Como voará
agora?
Com os dentes
espalhados já não pode morder
Seu dedo
amputado já não acusa.
¿O coração
ainda pulsa?
O que fazer
depois de beijar viúvas?
Constituir
família
Educar os
filhos
Resumir-se
Prostituir-se.
Agora que
sabe ser
O resumo do
resumo do resumo de uma frase.
O que fazer
depois daquele porre?
Sempre estará
vivo?
Um dia morre?
Vê a chuva
cair
O avião
passar
O filme
entreter
E ainda é
você.
Acreditando
em anjos
Entrevistando
espíritos
E sem casa só
quer onde encostar.
Depois de
dormir...
Sonha?
Acorda?
Desperta.
E ainda é o
mesmo.
Morrendo
pelas ruas em um dia chuvoso
Marcando o
tempo no pulso.
No seu
coração bate o mundo
Aos olhos:
tudo.
O que fazer
agora que sabe e é impossível esquecer?
Busca um
sentido
Um amigo
Num peito
aberto em flor.
Procura um
mundo em tudo
E em tudo o
encontro com a dor.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Um mundo como o nosso
Com pessoas como as nossas
De hábitos como os nossos
De vícios e jeitos como os nossos
Que certa feita conseguiram dar a determinados
animais
A consciência da morte.
Em pouco tempo estes animais construíram totens e
fundaram uma religião.
É que a primeira coisa que o ser faz
Quando descobre que vai morrer
É matar a morte.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
A cadeira de balanço
Lembrava
do Carlos, do Zeca e do Chupeta. Lembrava da Guta, da Márcia, da Zefa e da
Suzana. Lembrava-se muito de tudo e, sobretudo, dos rostos, lembrava-se das
palavras e dos gritos. Lembrava da Maria, do Joca, do Gerson, do Pedro, da
Darci, da Karla e do Carlos, da Renata, do Sílvio, da Leonilda, do Michael.
Lembrava-se da Constantina e do bolo
que fazia para recebê-los em sua casa.
A D. Gertra e seus beijos nojentamente
molhados. Quantos dias passados naquela casa. Férias. Fins de semana
prolongados.
Lembrava dos porres da D. Augustina e
de como a mulher vivia repetindo: “duas doses de cachaça”. A filha de D.
Augustina com seu decote, qual era mesmo o nome da filha da D. Augustina?
Teve um dia que a flagrou trocando de
roupa no quarto dos fundos de sua casa. Foi a primeira vez que viu uma mulher
nua. Uma linda e maravilhosa mulher de doze anos de idade. Sentiu-se o homem
mais realizado do mundo.
Não conseguia lembrar o nome da
menina. Devia estar totalmente diferente por estas horas. Muito tempo se passa
depois que as coisas acontecem.
Lembrava-se do primeiro livro que
lera: “O menino do dedo verde”. Não conseguia precisar a história, mas sabe que
o lera por espontânea vontade. O menino do livro era um anjo. Lembrava que
também desejara tornar-se um anjo. Uma espécie de ser imortal, sei lá. A idade
trás estas coisas.
Sentado em sua cadeira de balanço
lembrava-se que havia um apelido que tinham lhe imposto e que odiava ser
chamado, mas que agora não fazia a menor diferença. Nem lembrava mais qual era
o apelido.
A cadeira de balanço ia e vinha e a
cada nova ida um nome lhe saltava da memória: Lucas, Denis, Richard, Marcelo.
Diogo, Laércio, Walber, Lupércio.
Maysa, Estefânia, Raquel, Priscila.
A cada vinda da cadeira uma antiga
lembrança o distanciava da realidade imposta pelo tempo: primeiro beijo,
primeiro sexo, primeiro emprego, primeira namorada, primeiro amor, primeiro
casamento, primeiro...
Já não era o mesmo, já não era igual
nem diferente. Há muito tempo não se reconhecia no espelho, há muito tempo. Há
muito tempo deixara de contar os primeiros.
Meyre, Rodrigo, Giovane, Rodolfo.
O time de futebol. O clube de baralho.
A briga com o Ed Carlos. Onde será que está o Ed Carlos? A fome que passou na
excursão da escola porque seu lanche estragara e tivera vergonha de pedir aos amigos.
A vontade que sentia de dizer à
Danielle que a amava; mais, o medo de dizer à Danielle que a amava.
Tinha um sorriso em sua lembrança de
uma velha senhora que lhe dava doce quando ainda era criança. Adorava quando ia
esta senhora em sua casa porque sabia que teria suas vontades atendidas.
Lembrava da primeira vez que ficou nu
ante uma mulher, da primeira vez que ficou nu ante sua primeira mulher, da
primeira vez que ficou nu ante sua última mulher. Teve muitas mulheres. Será
que se lembraria dos nomes das oito?
Nenhum filho.
Nenhum filho vivo.
Roberto morreu num acidente de
automóvel. Ele adorava aquele fusca. Por que os filhos morriam antes dos pais?
A justiça divina é estranha. Existe justiça divina?
Estranha a vida. A morte chega aos
poucos para alguns: perde-se parte da visão, da audição, da locomoção, do
pensamento, da sanidade. As pessoas deixam de acreditar no que se diz. Então
pára-se de dizer qualquer coisa e as palavras amuam-se na boca. Resta então o
balançar e ranger da cadeira de balanço.
Souza, Cléber, Danilo, Leonilda.
Danielle, Rosa, Roberto.
Roberto.
Tinha um mercadinho no outro lado do
bairro aonde íamos todo dia de manhã comprar pão: eu, a Danielle e o Carlos.
Será que o mercado ainda está lá?
Tinha um campinho de futebol que meu
pai me levava para jogar bola com meus amigos, ficava na frente de uma
transportadora, onde vários caminhões entravam e saíam, entravam e saíam; ajudei
a fundar com o Hugo o Atlético Esportivo Rua 2. Fomos campeões do campeonato
inter-bairro. Vencemos nos pênaltis o time da rua 10.
De quanta coisa lembrava.
Luciana, Lílian, Ronaldo, Vera.
A Vera usava uns óculos horríveis e
sua mãe se recusava a deixá-la ir conosco ao parque da rua baixa. Muitas vezes
a Verinha chorou enquanto descíamos a ladeira.
Foi a primeira a casar, a primeira a
ter filhos, a primeira a ser avó. Onde andará Verinha? A última notícia que
recebi foi que havia se mudado para o Rio Grande do Sul e que o divórcio no
litigioso deixara um rastro de depressiva solidão. O que será que a mãe de
Verinha diria sobre isso? Boas notas, boas companhias, boas aulas de balé, bom
curso de inglês, boa dona de casa, avó, vizinha divorciada, suicida em
potencial.
Estou sendo cruel com as personagens
do meu passado. O que elas devem pensar sobre mim? Com certeza que acabei
drogado na sarjeta, não, talvez que tenha enriquecido e ido morar em algum
lugar paradisíaco. Ou, quem sabe, pensem que eu tenha me casado, tido filhos,
me tornado avô, me divorciado, mudado para o Rio grande do Sul, seja um suicida
em potencial vivendo numa solitária depressão.
Lembrava-se das noites de vídeo game
na casa do José Pedro. O Atari ligado até as quatro da manhã, sua mãe fingindo
que acreditava que estávamos dormindo, o suco de morango que somente ela sabia
fazer, ai! que saudade do suco de morango da mãe do José Pedro. Dá vontade de
voltar a ser criança somente para provar mais uma vez o doce sabor do suco de
morango da mãe do José Pedro.
A cadeira de balanço vai. A cadeira de
balanço vem.
Silmara, Heide, Suzana, Rosineide.
Alessandra, Gislene, Marcela, Solange.
Renato.
O Renato foi a sua cruz no seu
primeiro emprego. Trapaceava, enganava e conseguiu que o demitissem antes de
completar um ano de empresa. Teve ódio, mas hoje pensa no que teria sido a vida
sem a presença destas trapaças.
Não estou grato àquele desgraçado, mas
ficam as dúvidas sobre o que teria acontecido se tivesse passado trinta anos da
minha vida dentro daquele inferno. Não sei o que aconteceu a ele. Será que foi
mais feliz que eu?
Eu fui feliz?
Fábio, Alice, Fernando, Patrícia,
Reginaldo, Marcos, Felipe, Andréia, Hélio, Cínthia, Creuza, Irineu, Carlos.
Quais caminhos me trouxeram a este
lugar e agora me distanciam da vida que poderia ter levado. As coisas são cada
vez mais difíceis. O mundo da minha infância está morto. O mundo da minha
juventude está morto. O mundo está totalmente diferente daquele que me recebia
de braços abertos, ou de punhos cerrados, de facas erguidas.
O mundo que eu habitava está defuntado
de maneira incondicional. A primeira menina que eu vi nua, as brincadeiras no
campinho de futebol, o campo não existe mais, os seios daquela menina que eu,
com certeza, fui o primeiro a ver, não devem mais existir também. Toda a beleza
do mundo que eu habitava passou. Os jogos de videogame, os jogos de futebol, os
doces daquela velha senhora, os beijos nojentos da D. Gertra, o suco de morango
da mãe do José Pedro.
Muito tempo passa depois que as coisas
acontecem.
Depois que isso passa você morre.
As pessoas têm que morrer.
É necessário que ninguém escute mais o
balançar rangente desta cadeira de balanço.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
A cicatriz
Ela subiu a escada pouco confiante, pediu para olhar algumas figuras assim que chegou, um pouco insegura escolheu o desenho de um golfinho e não sem segurança escolheu o lugar do corpo onde ficaria cravada aquela marca de sua juventude, de sua personalidade: a sua tatuagem.
Nada a impediria. Tinha em si a segurança dos generais, a coragem dos capitães e a convicção que só ela possuía.
Acordou, sorriu para o teto e passou a mão pelo corpo. Não sentiu no seio dor alguma, não sentiu no lugar a tatuagem, de fato o golfinho sumiu do seio e após algumas investigações foi descoberto em sua perna esquerda.
Acordou em sua nuca certa feita, estampado em seu rosto numa quinta-feira, neste dia faltou ao trabalho, não teria como explicar um golfinho na face, preferiu o recolhimento e sozinha em casa ocorreu algo sublime e mágico, a tatuagem moveu-se à luz de seus olhos.
Era infinita a dor que sentia, seu corpo povoado por centenas, milhares, milhões de tatuagens, bilhões. Variadas formas de vida marinha: golfinhos, tubarões, baleias, peixes simples, ornamentais, peixes-espinhos lhe furavam o corpo, cavalos marinhos cavalgam-na, um maremoto formou-se em seu baixo ventre, uma tormenta matou dois surfistas que buscavam domar as ondas de seus seios, em suas sobrancelhas oito barcos naufragados, em seus olhos um arquipélago inexplorado, em seu sexo todo um ecossistema revelador da criação do universo. Sereias hipnotizavam marinheiros nas curvas de suas nádegas, um suicida se atirava em uma das baías de seu braço, um náufrago numa jangada alcançava as portas de seu coração. Caminhava por seu cérebro o primeiro dos golfinhos: origem daquela história, navegava feliz por todo o corpo: dos cabelos à raiz dos pés, dos dedos das mãos ao gosto de sua língua.
Dor, medo, preconceito, insegurança.
Seria um golfinho e seria no seio. No direito. Somente ela e quem ela escolhesse poderia ver ou tocar seu desenho, sua imagem, sua tatuagem.
Ser surpreendente: olhos de recato, coração aos pulos, prenhe de vontade e volúpia, um oceano a ser navegado por outro corpo.
Aguentou a dor sem reclamar e reclamando. Doeu, mas estava definitivamente em seu seio a cicatriz voluntária que faria dela não um ser feliz, talvez um pouco mais realizado. Não saberia explicar e nem eu tão pouco pensar sobre o que fizera. Estava satisfeita com o desenho, e plena de alegria foi
pra casa aproveitar o restante da noite dormindo.
Por incrível que pareça não deu muita importância ao sucedido, foi para o trabalho, quando voltou pra casa lembrou-se da tatuagem e verificou o seio, a tatuagem se encontrava na perna. Não pensou ainda no assunto e após um banho, alguns telefonemas, um filme na TV, foi dormir. Ao acordar sentiu um formigamento nas costas, a tatuagem estava lá.
Percebeu então, como numa epifania, o que se sucedia em seu corpo: tinha uma tatuagem viva. Era um desenho que escolhia o lugar onde acordaria.
Estava hoje em suas costas, mas acordou no dia seguinte em seu braço canhoto.
Foi em frente ao espelho que viu o golfinho dar um pulo e se alojar entre seus seios, bem no meio do peito. Teve medo, mas sem nada entender continuou sem entender nada. Nua estava e assim começou a dançar pela casa. Ligou a música no máximo e num transe solitário e sensual passou a seguir
alguns passos regidos pelo seu instinto de mulher puramente fêmea.
Mexia-se cambaleando, parecia cair num jogar e mover de braços, mas não era isso, quando sentia mover-se para um lado era para o outro que ia e foi isso e vice-versa até que começou a brilhar em seu peito, algo parecido com uma luz, uma estrela, um cálice, um golfinho.
O animal saltou e passou a fazer parte daquela sensual dança. Virava e vibrava como que alado. Saltava para fora e para dentro de seu corpo.
Mergulhava e sorria como um verdadeiro habitante dos mares. Aquele momento durou muitos anos e apenas alguns segundos, um século talvez. Nenhum dos dois se cansava do balé que os tornavam únicos e apartados.
Eram formas de vida ainda não catalogadas, formas que precisavam um do outro para continuar existindo.
Acordou, não sabia dizer por quanto tempo dormiu, mas ao despertar procurou nos seios, nas pernas, braços, costas, mãos, pés e nada. Nada.
Achou que não o havia procurado bem e tornou a mexer e esmiuçar o próprio corpo em busca do desenho e novamente nada.
O pensamento de que tudo fora um sonho passara por sua cabeça, mas a percepção de realidade ainda se encontrava intacta em si, sabia que vivera tudo, lembrava-se do cheiro, do calor, os mergulhos. Lembrava-se da primeira vez que a tatuagem se movera, da segunda e de cada curva visitada
por sua cicatriz. Não seria com facilidade que entregaria sua experiência mais maravilhosa e realizadora ao campo do abstrato. Vivera algo concreto e real. Surpreendentemente real.
Foi ao tatuador e lá expôs o sucedido, não teve os créditos deste e pediu uma nova tatuagem, um novo desenho, o mesmo; outro. Queria sentir tudo novamente, a mesma intensidade, a mesma sensação, o mesmo poder e volúpia. Tudo com a mesma força e mística.
O tatuador se assustou com toda aquela história e recusou-se fazer um novo desenho. Sem coragem de procurar outro desenhista rumou para casa e foi ainda no caminho que sentiu algo bater de maneira estranha em seu peito, um quê de força e dor que reconheceu no mesmo instante.
Correu desesperadamente para casa com a dor aumentando, entrou sentindo algo tomar conta de si e controlar seus movimentos, arrancou todas as roupas e nua percebeu um emaranhado de golfinhos a nadar por todo seu corpo e tomá-la de assalto, fazendo dela seu oceano.
Foi então que sentiu um poder maior subir por sua espinha, tomar conta de seu coração, pulmão, ventre, útero e pressioná-la de dentro para fora fazendo cada vez mais força, cada vez mais força, cada vez mais força, até que num grito ela explodiu e seus pedaços se espalharam por todo o infinito transformando-a
num novo e rico oceano.
(do livro: A divina tragicomédia humana de Mauro Marcel)
domingo, 30 de dezembro de 2012
O T do tatu
O t está no começo e quase no fim do
tatu. É metade do tatu. È quase o tatu todo.
O t do tatu está no começo de tudo,
mas não está no início das coisas. O t do tatu é incognoscível e está em tudo o
que é dilacerante.
O t do tatu está em todo trato, em
todo pacto. É o começo do tango, é o começo do tapa.
É o fim do tricot de minha avó.
Não desfaz nenhum nó, pois está também
no que é bruto e onde há Cristo.
Vejo o t do tatu em todo mártir. Em
todo trote.
Como posso compreender o tatu sem chegar
nos segredos do t? Sabendo que o t do tatu está nos mistérios. Sabendo que o t
do tatu é metade do tatu e toma o tatu inteiro.
O t do tatu não está no mundo, mas
está no início da terra.
O t do tatu não está no fim das
coisas, está no meio dos postes.
O t do tatu é estático.
È grandiloqüente.
È quente.
Está no meio do que atravesso.
Está no texto.
Não está no verso.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Ditadura, matemática e recordações

Era
fim de ditadura, ou era o início de outra? Mas não tínhamos noção disso naquele
ano, naqueles anos, era 1985, 1986, 1987 e a ditadura não existia. Não existia
dentro da escola.
Vinte anos depois a lembrança me traz
à cabeça recordações de professores ditadores que não discutiam o sentido
vocabular, ou histórico, talvez filosófico da palavra ditadura. Meu sonho era o
de ser um professor naquele tempo, ao menos era.
Hoje não tenho mais sonhos e nem sou
um professor igual àqueles: que insultavam, batiam, castigavam. Professores
donos de um saber enciclopédico que tinham como única função manter os alunos
em silêncio e escrevendo muito no caderno. Escrevendo o que diziam ser
importantes sem nunca dizer o porquê de tal importância. Uma matemática
obsoleta, uma geografia bizarra, uma história mais bizarra ainda, nem as aulas
de língua portuguesa se salvavam trazendo uma literatura descompromissada com o
texto e mais próxima da falsa aula de história.
Havia no meu tempo de escola falsas
aulas, falsos professores, alunos alienados. Isso tudo ainda há.
Mas hoje, conhecendo o sistema
educacional por dentro, percebi que não há e nunca houve falsos professores,
falsas aulas ou alunos alienados.
O que há e sempre houve foi o ser humano
em determinado contexto histórico-social, o que há são intenções sendo
desenvolvidas, sonhos sendo iniciados, revoluções pessoais interagindo. A
educação é uma fase da vida de alguns, uma missão para outros, salvação para
muitos, desejos de outros tantos.
Tenho esperança de que a educação
continue este organismo vivo que é: pessoas construindo e desconstruindo,
“afinado e desafinando”.
Pois tive uma educação da pior
qualidade no meu tempo, mas quando reencontro um dos professores daquela época
só vem a minha cabeça ótimas recordações. Quando me olho em meu interior
percebo reflexos daquele tempo e vejo que a escola sempre será boa, mesmo
quando ruim.
Imaginem como será quando ela for boa
de verdade.
Era ela - conto de Mauro Marcel
Era ela.
O sonho dela, o sono dela, o riso cada
vez mais riso e nítido o riso dela.
O tráfego era ela. O caminho era ela.
O desejo por uma nova solução, a solução dela. A infância dela.
Todos queriam um beijo e a boca
pertencia a ela.
Um pensamento não pensado, uma estrela
a iluminar o caminho dela. Tudo ela.
E foi ela e ele. No princípio ele por
ela. Ela por ele. Um par perfeito, um dueto invejado, plagiado, amantes,
sorrisos e abraços. O braço dele nela e o braço dela nele.
Eram eles. Os sonhos deles. Deles o
sono. O riso grandioso, grandioso riso deles.
E cada vez mais ele que ela e ela
cansando dele. O medo de perdê-lo. O medo de não tê-lo sem saber que a ele já
não tinha.
O dia dela?
O dia dele?
A mãe dela? O pai dele.
O dinheiro dele separado do dinheiro
dela. A família dele no natal deles e a dela numa eventual celebração sem ela.
Cada vez menos eles. Ela esquecia-se
dos sonhos. Os sonhos dela. Ele ignorando o que vinha daquela boca, o beijo
dela, os risos, a voz suave e rouca, de seu coração os sonhos que antes tinha
“os sonhos que ora eram ela e ele, dela e dele”.
E foi ela pela rua. E foi o trânsito.
Foi a curva. Foi o carro. Foi bolsa de um lado. Foi ela de outro. Foram graves
feridas e foi muito triste a morte dela.
O sonho dela?
Onde está ele?
O riso dela: parca lembrança no
passado dele.
(Conto vencedor do Concurso Palavra em Prisma - 2009)
Publicado no livro do concurso e a ser publicado no livro Cabeça do objeto e outras pedradas.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Verdade, medo e fraude.
Palavra! É tudo mais uma crônica
telúrica. Chamem os meninos do campo de futebol, eu decidi contar as verdades
que ninguém conta. Tirem as moças do salão de beleza, “Não há muita beleza num
salão de beleza”. Voltem todos do meio do caminho. Alguém decidiu contar toda a
verdade e toda a verdade será dita.
Se alguém estiver no meio de uma
travessia a nado, vá lá e interrompa. Se alguém estiver no momento mais feliz
de sua vida, por favor, deixe-o terminar. Ninguém tem o direito de interromper
essas coisas. Outras tantas podem esperar. É tudo uma questão de saber
administrar.
Vou falar toda a verdade, toda ela.
Sem meia conversa ou citações obscuras. Impeçam-me. Calem-me. A alguém devo
prejudicar contando tudo o que vou contar. É muita coisa em jogo. O medo pode tomar
conta da população, outros tantos tsunamis podem invadir praias em ilhas do
Pacífico e matar turistas, sei lá, quem sabe um avião caia, mais um caindo e
matando. A verdade pode matar a tantos e a mentira salva, mata e continua.
Durante todo o processo civilizatório a única questão que permaneceu foi a
questão da verdade. Será tudo verdade? Onde estará a verdade?
Pois agora estou solto. Não acredito
mais num novo tempo, nem em fadas, nem em anjos, Meu Deus, eu não acredito nem em Deus. Onde ficaremos se
eu estiver certo? Nada existe. Tudo é uma fraude, um grande engodo. Se eu
estiver certo todos morreremos e iremos para lugar nenhum, não seremos julgados
por ninguém e estaremos perdidos para sempre, ou estaremos vivos nos corações
de outros homens e mulheres através do dióxido de carbono que lançamos na
atmosfera durante o curto período de tempo que estivemos aqui.
Pois agora estou solto. Calem minha
boca. Aniquilem-me. Não deixem que eu diga que as lendas são falácias, que a
democracia é um sofisma e que a arte é única ação humana digna de nota. A
expressão é o ponto onde o ser humano pode ser algo mais que lixo. A boa arte.
A arte dos que criam. Não a arte fake dos pirotécnicos da mídia. Está tudo
aqui. Agora que estou solto.
Alguém chamou a tudo isto de
pessimismo, eu não chamo, eu não classifico, eu não estou nem aí pra nada. A
vida não tem final feliz, o amor é um engodo, a dor é o que nos une, a morte é
a única certeza e o suicídio a única questão filosófica. Os poetas erraram, os
filósofos também. Que bom que as pessoas dignas de admiração morreram. Outros
tantos morrerão. Eu morrerei. Daqui a algum tempo não estarei mais aqui, não
estaremos mais em lugar nenhum. Estaremos em todos os lugares, sendo servidos
nas mesas de botecos em formato xadrez, maçãs em nossas bocas.
Estou solto. Estou livre. Estou
errado. Estou certo. Sou o pulmão que dá ar ao mundo. Não sou nada além de um
moribundo. Tomara Deus estar errado. Rezo do fundo do meu coração para que meu
coração me engane. Para que exista tudo o que não existe no mundo. Em algum
lugar, em outra vida, de outro jeito, num outro olhar, numa outra chance na
Terra ou em outro planeta qualquer.
Tudo está do jeito que deveria estar e
ainda há meios de ser feliz. Basta que você não leia esta crônica. Basta que
vire seu olhar, basta passar despercebido porque eu não escrevi estas verdades
pra ninguém, escrevi pra mim, pois como diria Cyril Connoly: “Melhor escrever
para si e não ter público, que escrever para o público e não ter a si.”
Método
Tinha palavras, tinha sonhos, tinha até poesia.
Milagres feitos, ceias plenas de luxo.
De sobra tinha o vento a meu serviço,
as chuvas, a lua, o raiar da luz, o cair da noite,
Tínhamos o vento, o jeito certo, a hora vaga.
A lei – que não é justa
As guerras – que não acabam
O livro – que não é lido
Tínhamos tudo, muito,
quase nada.
Era um sonho sem fim, dentro de uma alma encantada.
Éramos parvos desolados, em uma comédia - mais nada.
Éramos parvos desolados, em uma comédia - mais nada.
Era tu e o luxo.
Era eu e o fluxo.
Éramos passos, éramos estradas.
Vitrines opacas na hora do sono.
Um fim? Onde está?
O que será? Onde estamos?
Era o beijo roubado, o caco de vidro cortante,
Um transeunte – o que era
Um infante o que sou.
Mulher morta - poema de Mauro Marcel
mulher morta
mexa meu
mundo
mude minha
marca
mulher morta
me mata
mostre
móveis, monstros, mestres
mostre mais (miasma
maldito)
mísero mítico
mostre-me
muros
montes,
montanhas
mostre
manhas, medos, morcegos
mostre-me
mesmo
mulher morta
mulher morta
mantra
maldito
mito
mulher morta
minto
meu mundo
mesquinho – mixo
meu mundo
marcado – maçante
malcriado
malcriado
melindre
minha música
me molhe
minguando
martela meu
músculo
meça meu medo
mulher morta
mulher morta
mulher morta
mantra
maldito
mito
mulher morta
minto
meu mundo
mesquinho – mixo
meu mundo
marcado – maçante
malcriado
medusa
mecê me
mostrou minha massa
mecê marulhou
mágoa máxima
meu mundo
mudou:
motivado,
movido, marcado
mostre-me:
mundos,
mudos, mouros, magos, mirra, missas.
miseráveis
mentirosos
miseráveis
medianos
mostre-me
mais
mulher morta
mulher morta
mantra
maldito
mito
mulher morta
minto
meu mundo
mesquinho – mixo
meu mundo
marcado – maçante
malcriado
mudado
mereço morrer
mutilado?
mereço morrer
monofásico?
misture meus
medos
mecê migrará
mais mil monstros
moverá mil
míseros mortos
metrópoles
minguarão:
moçambique,
macedônia, malásia, maranhão
meu mal
margeia matutos
masturbação,
menstruação – mucos
morto – meio
médio
minto
megatons
martirizam meninos
maxilares
mortificam meninas
minas morrem
manos minam
mapas movem
mulher morta
mulher morta
mantra
maldito
mito
mulher morta
minto
meu mundo
mesquinho – mixo
meu mundo
marcado – maçante
malcriado
monitore
monarcas monocórdios
mongolóides
molejam migalhas
milito
mimeticamente matrizes
meu mundo
morre
meu mundo
mata
meu mundo –
manicômio
matrimônio
-mostre!
-mire!
-mexa!
-mate!
monarcas
matizam massas
momísticos
monarcas mandam
mamelucas
malsoam manés
mulher
mandrake
mulher manca
mulher moça
mulher
mal-humorada
mulher
maligna
matraca
mulher
megalocéfala
me mata
mulher morta
– me mata
mulher morta
mantra maldito
mito
mulher morta
minto
meu mundo
mesquinho – mixo
meu mundo
marcado – maçante
malcriado
marrento,
macilento
manuscreva
minha marca
minimize
milhões
monte mansões
mecê me
mostrou meus monstros
moveu meus
marcos
morro morte
minha
minha morte
mulher morta
meia morte
marte – minto
morro mesmo
mulher morta
mulher mantra
mulher mestra
mulher mito.
Mauro
Marcel
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