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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Interrogatório


Nãu. Nãu foi assim. Pára. Nãu. Quê? Pára. Pára di guiá minhas palavra. Nãu. Eu nãu dissi issu. Nãu. Nãu foi issu. Eu tinha ditu qui foi eli qui tinha batidu na porta di casa. An?! Issu. Assim mesmu.
Eu tava venu televisãu. O quê? Faz alguma diferença? Faz? Sei lá... Novela, filme, (...) talvez. Porra, eu num lembru. É. Dessi jeitu.
Pára di falá, porra !!!
Cansei. Cansei. Nãu queru mais falá nada hoji. Nãu. Pára. Disliga essi gravadô merda...

(...)

U quê? Du começu?
Eu tava sentadu nu sofá da minha casa quanu a campainha tocô. Era quais oitu da noiti, sei dissu purque minha vizinha gostosa ainda nãu tinha passadu na rua gritanu cu maridu dela.
Ah, tá bom. Us fatu. Us fatu. Tá. Eu nãu sei mais u qui cês qué qui eu fali. Eu já não confessei?
Fui eu. Fui eu.
Eu matei. Fui eu qui matei.
Nãu.
Foi assim: era quais oitu da noiti i meu pai chegô im casa. Tava bêbadu.
U cheiru.
Ah, cê sabi qui alguém tá bêbadu quanu...
Ô merda. Eu convivia cu cara, porra. Quandu si convivi cum alguém eu achu qui dá pra sabê quanu a pessoa tá ou nãu di porri.
Tá. U cheru. A camisa aberta. Ele tava falanu imboladu e tamém tava gritanu.
Sim. Me deu raiva sim.
Nãu. Já falei procês qui u motivu nãu foi essi.
Mas cês qué sabê comu foi ou qual foi u motivu?
Sei lá. Achu qui uma coisa levou à outra.
U fatu é qui eu não lembru di tudu. Até a parti do telefonema eu lembru.
Eu tava veno televisão i a porra du velhu cruzanu na minha frenti. I eu cu saquinhu já na lua.
Intãu eli veiu i mudô di canal. Nãu. Nãu foi purissu. Eli fazia issu todu dia.
Mas aí ele começô a vomitá.
Na sala porra. Ondi é qui a genti tava?
Depois? Aí eu pensei qui eli ia agí cu mínimu di decência e ia levantá e limpá aquela merda qui tinha feitu e qui duranti uns cincu ou dez minutu cuntinuô fazeno.
Nãu. Num limpô.
Então eu levantei da sala e fui pru meu quartu. Mas a porra du cheru du vômitu du velhu tava mi perseguindu. I u filhu da puta continuava gritanu. Já falei qui eli desdi quintrô não parava di gritá, né?
Foi aí qui eu peguei meu telefoni i liguei pra Sônia. An? A minha namorada.
Aí apagô tudu. Num lembru mais de nada.

(...)

É. A campainha tocanu. Era u vizinhu du ladu perguntanu u purquê da gritaria.
U qui eu respondi? Ora essa, mandei eli tomá no oio do cu i continuei picanu u corpu.
Já dissi qui não lembru. Acho que foi cu pedaçu di pau queu arranquei da cama.
U sangui na minha boca? É. Foi na hora da raiva.
Cê acha mesmo que é fácil matá um home à paulada? Já tentô?
U filhu da puta nãu morria, entãu eu fui ficanu cu raiva, cu raiva e comecei a mordê, a mordê, a mordê...
É. Dissu eu lembru. U gostu di sangui na boca. Mistura di azedu, álcu i doci.
Gostei.
Faria.
Igualzinhu. Tudu di novu.
Possu í agora?
U quê? Di novu? Qui mais cê qué sabê, porra?
(Publicado originalmente em "A divina tragicomédia humana" de Mauro Marcel)

domingo, 13 de janeiro de 2013

As mulheres nuas de Santarém


As mulheres nuas de Santarém lutam pelo direito de permanecerem vivas e pelo direito de gozarem desta vida. Sabem que o futuro a elas pertence e que é um exercício lúdico o ato de pensar.
As mulheres nuas de Santarém pertencem a uma fina casta de pessoas jovens, despreconceituadas e cativantes.Querem tomar o poder não pela força e nem pelo voto. As mulheres nuas de Santarém sabem que o único jeito de dominar é entrando e permanecendo nas mentes de todos os jovens e velhos, homens e mulheres, bichos e gente.
As mulheres nuas de Santarém acreditam que governo e população juntos podem lutar mais pelo engrandecimento cada vez maior de sua nudez. Acreditam na artificialidade coerente das propostas dos cirurgiões plásticos, mas ojerizam os softwares que escondem os defeitos celulíticos de uma ou outra pretendente à mulher nua.Essas são chamadas por elas de falsas mulheres nuas e recebem a cada nova reunião da Liga das Mulheres Nuas de Santarém uma dose cada vez maior do puro escárnio.
As mulheres nuas de Santarém fazem doações, mas odeiam o paternalismo.
Fazem caridade, mas escondem da direita o que faz a esquerda.
Fazem amor pelo amor.
Fazem amor pelo sexo.
Fazem amor pela grana.
“As mulheres nuas de Santarém estão para o mundo como a alma está para o corpo”. Esse é o lema maior da Liga das Mulheres Nuas de Santarém.
Vão a exposições, freqüentam museus, se engajam em questões políticas, sociais e filosóficas, e estão sempre procurando alguém para ajudar.
Trocam muito de mesa.
Trocam muito de cama.
Experimentam todos os gostos do mundo e optam sempre pelo mais extremo.
Fazem verdadeiras viagens diplomáticas pregando aos quatro cantos do mundo a ideologia da Liga das Mulheres Nuas de Santarém.
Lutam pela total liberdade e por fim querem o direito pleno sobre vida e morte de qualquer ser vivo.
As mulheres nuas de Santarém querem matar as mulheres vestidas de Santarém.

Por Mauro Marcel [Publicado em "A divina tragicomédia humana"]

sábado, 12 de janeiro de 2013

O cômodo mais cômodo


Entrou com a revista embaixo do braço, reparou em todos os detalhes: o chuveiro, a saboneteira, o espelho, o creme dental close up, os azulejos brancos e alvos, o forte cheiro de pinho oriundo do desinfetante que sua mulher utilizava para limpar aquele ambiente, reparou na pequena e pudica janela e no papel higiênico Primavera. Ah sim! Havia papel higiênico, então o cenário estava formado: tinha verdadeira ojeriza em fazer aquilo e depois sair gritando pela casa pa-pel-hi-giê-ni-co!!! E ali seria pior porque não havia mais ninguém em casa, sua esposa só chegaria no outro dia, ou seja, teria de sair casa afora com a bunda suja atrás do sagrado instrumento de limpeza.
Mas já que havia tudo o que podia esperar de um banheiro reparou naquilo que não reparara ainda: a privada. Olhou com um pouco de sarcasmo e ironia; eu diria até que com um certo ar de superioridade racial: “um algo feito tão simplesmente para...”
Deixa pra lá.
Abaixou as calças, virou e sentou.
Abriu a revista numa página qualquer e começou a atender ao chamado fisiológico.
Não sei se leu, mas quando terminou foi com nojo que olhou para baixo, cuspiu, abaixou a tampa do assento, higienizou-se, deu a descarga preparou-se para tentar sair do banheiro após, é óbvio, levantar a roupa.
Digo tentar porque quando foi abrir a porta não conseguiu. Forçou a maçaneta, deu murros, gritou socorros, é, gritou socorros, pontapés, mais murros, socorros, socorros e nada.
Não acreditou. Estava preso dentro do próprio banheiro.
Sabe aquelas coisas que só acontecem com os outros? Estava acontecendo com ele.
Não se desesperou. Não perderia o controle. Era só esperar por sua esposa – a Lúcia - ela então chegaria e abriria a porta por fora. Pensou no ridículo da cena, porém, devido às circunstâncias, não havia outro modo.
Sentou na privada e sentado esperou, esperou, esperou. Dormiu. Não sonhou. Acordou. Não sabia quanto tempo se passara, mas viu pela janela que anoitecera. Estava há mais de oito horas no banheiro.
Ninguém em casa ainda. Novamente tentou arrombar a porta. Murros. Chutes. Pontapés. Joelhadas. “Ai”. Pedidos de socorro. “Socorro, socorro, socorro!” Tirem-me daqui!
E nada.
Não. Não perderia o controle. Ressentou e começou a ler a revista. Desta vez pelo começo.
Página 5, página 6, página 10, página 15, página 25, página 60, página 61, página 62, página 100; mas será possível!?!?!
 O dia lá fora já amanhecia e ninguém para tirá-lo dali.
Não. Não perderia o controle. Tirou a roupa e começou a tomar banho, um banho lento e calmo, daquele de noiva em véspera de núpcias, não esqueceu de limpar nada, entre os dedos dos pés, atrás das orelhas, cada dobra, cada centímetro quadrado de seu corpo, não esqueceu nenhuma parte, secou-se. Olhou-se no espelho e deu uma leve risada: “Preso no banheiro, quem acreditaria?”
Sentou na privada e voltou a ler a revista, página 5, página 6, página 10, página 20, página 30. 35. 60.100.
Página 5; página 10; 20; 30; 60; 90; 100;...
Página 5, página 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, ..., 100.
Página 5...
Escutou um barulho. Alguém chegara em casa. Bateu na porta, socorro, socorro. Ouviu uma voz, sim era sua esposa que chegara.
- Lúcia! Lúcia!
Ela o atendeu:
-Oi! O que ’cê quer Régis?
-Me tira daqui!
-O quê?
-Eu ‘tô preso no banheiro.
-‘Cê ta brincando.
-Eu pareço estar brincando, droga?
-Como você foi ficar preso aí?
-E eu vou saber?
-Espera que eu já abro.
Lúcia então forçou a porta, deu murros. Pontapés. Joelhadas. “Ai!” Marretadas. E nada da porta abrir.
-Vai buscar ajuda Lúcia!
-Mas quem?
-Eu vou lá saber? Chame o vizinho, algum parente, a polícia, os bombeiros, a defesa civil, mas pelamordedeus me tira daqui!
Então ela saiu desgarrada como trem bala e de fato chamou: o vizinho, não, os vizinhos, toda a família, parentes, até aquele primo do interior que nunca aparece, a polícia, os bombeiros, a defesa civil, o exército, o pentágono, a NASA, e a cada nova tentativa um fracasso.
Chegou a imprensa. E nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte estampado estava o drama do homem preso no banheiro há mais de sessenta horas, noventa horas, cento e vinte, duzentas horas, trezentas...
E tentaram de tudo para tirá-lo: britadeira, túnel subterrâneo, dinamite, nitroglicerina, serra elétrica. Mas nada, nada quebrava a resistência daquele banheiro que parecia mais um abrigo antinuclear.
E Régis lá , lendo e relendo a revista, tomando banho, lavando a cueca no lavatório, escovando os dentes, fazendo freqüentemente seu pipizinho, seu cocozinho, barbeando-se a cada duas horas e com a mesma lâmina. E desesperando-se a cada novo fracasso de seus salvadores.
A rede globo até passou uma mini câmera pela janelinha e deu com exclusividade uma entrevista com o pobre homem que descreveu seu drama de proscrito em seu próprio privativo.
E foram meses de tentativa de tirar o “toillete man” do banheiro. Até que a imprensa deixou o caso de lado, os bombeiros, a polícia, a defesa civil, a NASA e pentágono desistiram, a mulher se cansou de passar comida pela janela e, exausta, passou a papelada do divórcio.
Sozinho, sem amigos, sem esposa, e preso no banheiro, Régis pensou em suicídio, mas a lâmina estava tão cega de tantas barbeadas que nem o pulso conseguiu cortar.
Até que um dia, na altura da página 23, a porta sem mais nem menos se abre. Simples como num passe de mágica, abre sozinha, sem bombas, socos ou pontapés.
O homem sorri. Levanta-se da privada. Livre enfim, não podia acreditar.
Revê cada coisa como da vez que entrou: o espelho, o chuveiro, a saboneteira, o creme dental close up, tudo como se estivesse se despedindo de uma fase ruim da vida.
Espreguiçou-se e tomou o rumo da saída. Mas ao chegar ao batente, antes de transpor-se para fora, bateu a porta e trancou-se novamente no banheiro, sentou e retomou a leitura na página vinte e três. A página com uma matéria muito elucidativa sobre a vida em sociedade e suas conseqüências na personalidade do homem moderno.
(Publicado originalmente em "A divina tragicomédia humana" de Mauro Marcel)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O labirinto dos teus lábios


quando olho teus lábios
teus lábios labirinto
labirinto
teus lábios
quando olho

quando minha língua
toca teus lábios
perdido me apavoro

se teus lábios
meus olhos tocam
percebo o frio da vida
o frio da morte

o frio de estar
nu
estar em tu

perdido na imensidão
do labirinto dos teus lábios

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Gordura, wireless e Drummond

           
Quero falar de jornais e opinião. Também de governos. Quero falar de mecanismos de controle da opinião pública. Mas não serei prolixo, muita calma, temos que ser atentos pra não nos perder em divagações inúteis. “
Não há porque engordurar o texto.”
            É uma forma que um professor meu de há muito dizia quando se enchia linguiça, assim como estou fazendo agora, ele dizia que estava engordurando o texto, era necessário um regime, cortes, hoje uma lipoaspiração gramatical, algo assim.
            Mas não é sobre isso que quero falar, talvez até corte o que escrevi neste início porque “escrever é retirar palavras”, Drummond assaltando minha mente. Quero falar do governo do estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, do Estado de São Paulo, da Fox News, etc etc etc...
            Nos Estados Unidos a imprensa é partidária e isso faz parte do jogo, todos sabemos que a Fox é um canal ligado ao partido republicano e não espere dele algum elogio ou apoio a opiniões democratas.
A Fox é o que é e está livre pra ser assim, inclusive há parentes dos Bush controlando-a. A vida lá é assim, não que eu elogie Democratas, são todos sujeiras da mesma bunda, Republicanos, Independentes ou Democratas.  A questão é que lá as informações são partidárias e sabemos disso, todos sabem disso e assim buscam outra emissora que eles chamam de “liberal” ou o que for.
            A própria Fox tem programas voltados para liberais, lá é a casa dos Simpsons, do Family Guy e diversos programas que têm a liberdade institucional de criticar a própria Fox. Isso se chama liberdade de imprensa e é bom quando praticada com liberdade...
            Sim, a liberdade de imprensa tem que ser praticada com liberdade, senão ficamos dando voltas em torno de opiniões bizarras, debates eleitorais engessados, espaço publicitário gratuito para Tiriricas, Enéas, Soninhas de bicicleta.
            Não estou falando de podar a participação de quem quer que seja no processo eleitoral, acredito que as eleições tanto aqui no Brasil como em qualquer outro lugar do mundo é um processo imbecil e malfadado.
A vitória numa eleição não é do melhor candidato, mas do mais votado, por vezes do que tem a máquina pública nas mãos. Mas é o povo participando.
Podemos dizer que é o povo participando sabendo que há manipuladores da opinião pública rodando jornais, imprimindo livros, transmitindo novelas com valores da classe dominante? Falei classe? Escrevi. E escrevo quantas vezes forem necessárias.
            Se você tem um açougue e vende mil quilos carne para o João, você tem no João o seu maior cliente e não vai deixar que nada aconteça a ele. Se o João perder o emprego, for preso, tiver problemas sérios de saúde, você perderá mil vezes vinte reais que é o preço do quilo da carne. De uma só vez você perde vinte mil reais e, provavelmente, terá que diminuir sua margem de lucro, demitir, fechar a filial do outro lado da cidade, viajar menos, essas coisas de quem tem menos dinheiro.
            O Governo do Estado de São Paulo compra para cada escola do estado um exemplar do Jornal Folha de São Paulo e outro do Estado de São Paulo, são 15.027 estabelecimentos de Ensino Fundamental, 12.539 unidades Pré-escolares e 5.923 escolas de Nível Médio, cada um recebendo um jornal de cada.
Imagine que cada exemplar custe cinquenta reais por mês. Então é cinquenta vezes mais de trinta mil. Este é, mais ou menos, o que o governo dá em dinheiro para os maiores veículos de opinião pública do estado.
            Será que recebendo tanta grana, alguém se atreveria a falar mal de Mário Covas, José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e Cia limitada?
            Os jornais estão falindo ao redor do mundo inteiro, enfrentando crises pela baixa tiragem, falta de anunciantes. A internet mudou a forma de comunicação entre cidadão e notícia, se uma notícia do Jornal Nacional já está velha, imagine a do jornal impresso do dia seguinte!
            É muito interessante o caso de que os jornais chegam às escolas inclusive aos sábados e domingos, dias em que a maioria das escolas se encontra fechada e sem ninguém para ler as notícias velhas de sexta e quinta. Estas mesmas escolas não tem um acesso de qualidade à internet, na realidade não tem acesso algum.
            Seria muito mais proveitoso disponibilizar acesso sem fio a internet de alta velocidade, que atenderia às exigências de formação do indivíduo enquanto cidadão, acesso à informação livre da internet (espaço que não ficaria limitado às páginas da Folha ou do Estado), utilização de sites com conteúdo voltado para o saber e a infinidade do conhecimento humano acumulado através dos séculos. Não um jornal antiquado, ultrapassado e com informação dirigida para não perder o dinheiro de seu maior cliente.
            Sem falar que esta rede wireless poderia se estender pela vizinhança e servir para populações carentes sem acesso.
            Até parece que os governantes nos querem ignorantes e desinformados!!!!
            Será?
            É claro que isso não resolveria os problemas do mundo, nem os de São Paulo, mas, ao menos, eu pararia de pagar (através de meus impostos) uma assinatura de um jornal que não é notícia, é panfleto eleitoral, máquina de lavagem cerebral, qualquer coisa que não informação.
            O jornal impresso morreu. Ponto. Apenas sobrevivem as empresas que recorrem a mecanismos como os acima citados pra continuar vendendo papel ultrapassado.
            A imprensa nunca será livre, sempre atenderá a interesses republicanos, democratas, tucanos, petistas, xiitas, hutus, o que for. Mas se há algo que modificou o nosso modo de conviver com a informação é a capacidade que temos hoje de recebê-la de diversos pontos diferentes e daí julgar no que queremos, ou não, acreditar. Se você mora no Jardim Europa em São Paulo e estuda no Colégio Santa Cruz, você pode fazer isso.
            Se mora na cidade Tiradentes no extremo leste da capital paulista, não. Você recebe informação via Jornal Nacional, Facebook e novela. Quando há algum jornal perto de você ele não noticia críticas ao governo porque está atrelado a este por laços financeiros, sua própria sobrevivência depende do Estado.
            Nunca haverá escândalos envolvendo o governador, se houver será parcial, se não houver jeito morrerão abraçados, para que outro veículo apoie outro imperador e assim vai, porque assim foi, e assim é.
            Até o dia de nossa primavera, que não será árabe, e nem precisa ser em setembro, e que não será televisionada e nem sairá no jornal do dia seguinte...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A divina tragicomédia humana



O que fazer depois das leituras obrigatórias?
Depois de discutir filosofia e escutar todas as músicas?
 
Foi às festas
Compareceu às reuniões sociais
Alegrou-se ao pôr-do-sol
E embebedou-se de todas as formas de felicidade.

O que você faz depois que o paraíso resulta inútil?

Quando não há mais lugares inéditos
Pessoas inéditas
Poemas e poetas.
           
Quando os navios naufragam sem partir
E não precisa mais voltar ou se iludir.

O que fazer quando o amor não é mais Amor?
Sua cidade não é a mesma?
Sua casa não é a mesma,
Você não é o mesmo.

O que você faz quando todos os lados da cama são o mesmo lado
E todas as camas a mesma cama.
O que fazer depois que a calma e a pressa resultam inúteis?

Como agir quando os ídolos se quebram,
Os mitos descobrem-se mitos,
E não há religião alguma em que confiar?

O que você faz quando a ciência não abre mais horizontes?
Quando a arte não os abre mais.

Quando tudo é ópio ou dor,
Quando nem se é espinho nem flor.
Quando é tempo de pedras, musgo, atrofiação.

O que você faz depois de tudo isso?

Depois de olhar no espelho e descobrir outra pessoa.
De ir ao jardim e não ver flores.
Ler seus poemas e não ver poesia.
Encarar sua vida e não ver vida.

Depois de pular e não encontrar o teto.
Procurar e não ter ninguém por perto.
Fazer o errado sabendo o que é certo.
Depois de ir torto num caminho reto.

Todas as janelas estão fechadas
E não há portas por onde passar.
Você procura a claustrofobia, mas ela o abandonou.
Você jogou e perdeu
Perdeu, mas jogou.
 
O que fazer depois do desespero?
Da esperança – que é o desespero sem nenhuma esperança.
O que você faz depois do parto?
Depois de estar farto de falsas lembranças.

Depois de beber os artificiais
Provar dos corantes, no seu paladar os acidulantes
Esvaziar os instantes.
Decorar sua casa com duendes,
Bruxos, pirâmides.
Queimar velas, incensos,
Untar-se com unguentos,
Beber água benta.
E ainda ser o mesmo
Depois de descobrir as mentiras das verdades
As verdades nas mentiras
E de desistir de entender o mundo nessas condições.
Depois de ver discos voadores falsificados
O Walt Disney congelado
Tocar em sangue alheio coagulado
Ouvir tiros no quarto ao lado
Um filho abortado
Ser abduzido
E logo após esquecido
Ser lembrado.
O que você faz depois de cessarem os abraços?
Romperem-se os laços
Secarem os lagos,
E naufragarem os barcos?

Você leu Goethe
E entre Fausto e Mefistófeles se viu neste.

Em Shakespeare foi Iago.
Em Jó o Diabo.

Suas asas estão mortas para a vida
Como voará agora?
Com os dentes espalhados já não pode morder
Seu dedo amputado já não acusa.

¿O coração ainda pulsa?

O que fazer depois de beijar viúvas?
Constituir família
Educar os filhos
Resumir-se
Prostituir-se.

Agora que sabe ser
O resumo do resumo do resumo de uma frase.

O que fazer depois daquele porre?
Sempre estará vivo?
Um dia morre?

Vê a chuva cair
O avião passar
O filme entreter
 
E ainda é você.

Acreditando em anjos
Entrevistando espíritos
E sem casa só quer onde encostar.

Depois de dormir...
Sonha?
Acorda?
Desperta.

E ainda é o mesmo.
Morrendo pelas ruas em um dia chuvoso
Marcando o tempo no pulso.

No seu coração bate o mundo
Aos olhos: tudo.

O que fazer agora que sabe e é impossível esquecer?
Agora que conhece a verdade e ela não o libertou.

Busca um sentido
Um amigo
Num peito aberto em flor.

Procura um mundo em tudo
E em tudo o encontro com a dor.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Um mundo como o nosso


Foi num mundo como o nosso
Com pessoas como as nossas
De hábitos como os nossos
De vícios e jeitos como os nossos

Que certa feita conseguiram dar a determinados animais
A consciência da morte.

Em pouco tempo estes animais construíram totens e fundaram uma religião.

É que a primeira coisa que o ser faz
Quando descobre que vai morrer
É matar a morte.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A cicatriz

          Ela subiu a escada pouco confiante, pediu para olhar algumas figuras assim que chegou, um pouco insegura escolheu o desenho de um golfinho e não sem segurança escolheu o lugar do corpo onde ficaria cravada aquela marca de sua juventude, de sua personalidade: a sua tatuagem.
          Dor, medo, preconceito, insegurança.
         Nada a impediria. Tinha em si a segurança dos generais, a coragem dos capitães e a convicção que só ela possuía.
         Seria um golfinho e seria no seio. No direito. Somente ela e quem ela escolhesse poderia ver ou tocar seu desenho, sua imagem, sua tatuagem.
          Ser surpreendente: olhos de recato, coração aos pulos, prenhe de vontade e volúpia, um oceano a ser navegado por outro corpo.
         Aguentou a dor sem reclamar e reclamando. Doeu, mas estava definitivamente em seu seio a cicatriz voluntária que faria dela não um ser  feliz, talvez um pouco mais realizado. Não saberia explicar e nem eu tão pouco pensar sobre o que fizera. Estava satisfeita com o desenho, e plena de alegria foi
pra casa aproveitar o restante da noite dormindo.
         Acordou, sorriu para o teto e passou a mão pelo corpo. Não sentiu no seio dor alguma, não sentiu no lugar a tatuagem, de fato o golfinho sumiu do seio  e após algumas investigações  foi descoberto em sua perna esquerda.
          Por incrível que pareça não deu muita importância ao sucedido, foi para o trabalho, quando voltou pra casa lembrou-se da tatuagem e verificou o seio, a tatuagem se encontrava na perna. Não pensou ainda  no assunto e após um banho, alguns telefonemas, um filme na TV, foi dormir. Ao acordar sentiu um formigamento nas costas, a tatuagem estava lá.
         Percebeu então, como numa epifania, o que se sucedia em seu corpo: tinha uma tatuagem viva. Era um desenho que escolhia o lugar onde acordaria.
          Estava hoje em suas costas, mas acordou no dia seguinte em seu braço canhoto.
          Acordou em sua nuca certa feita,  estampado em seu rosto numa quinta-feira, neste dia faltou ao trabalho, não teria como explicar um golfinho na face, preferiu o recolhimento e sozinha em casa ocorreu algo sublime e mágico, a tatuagem moveu-se à luz de seus olhos.
          Foi em frente ao espelho que viu o golfinho dar um pulo e se alojar entre seus seios, bem no meio do peito. Teve medo, mas sem nada entender continuou sem entender nada. Nua estava e assim começou a dançar pela casa. Ligou a música no máximo e num transe solitário e sensual passou a seguir
alguns passos regidos pelo seu instinto de mulher puramente fêmea.
         Mexia-se cambaleando, parecia cair num jogar e mover de braços, mas não era isso, quando sentia mover-se para um lado era para o outro que ia e foi isso e vice-versa até que começou a brilhar em seu peito, algo parecido com uma luz, uma estrela, um cálice, um golfinho.
         O animal saltou e passou a fazer parte daquela sensual dança. Virava e vibrava como que alado. Saltava para fora e para dentro de seu corpo.
         Mergulhava e sorria como um verdadeiro habitante dos mares. Aquele momento durou muitos anos e apenas alguns segundos, um século talvez. Nenhum dos dois se cansava do balé que os tornavam únicos e apartados.
         Eram  formas de vida ainda não catalogadas, formas que precisavam um do outro para continuar existindo.
          Acordou, não sabia dizer por quanto tempo dormiu, mas ao despertar procurou nos seios, nas pernas, braços, costas, mãos, pés e nada. Nada.
          Achou que não o havia procurado bem e tornou a mexer e esmiuçar o próprio corpo em busca do desenho e novamente nada.
          O pensamento de que tudo fora um sonho passara por sua cabeça, mas a percepção de realidade ainda se encontrava intacta em si, sabia que vivera tudo, lembrava-se do cheiro, do calor, os mergulhos. Lembrava-se da primeira vez que a tatuagem se movera, da segunda e de cada curva visitada
por sua cicatriz. Não seria com facilidade que entregaria sua experiência mais maravilhosa e realizadora ao campo do abstrato. Vivera algo concreto e real. Surpreendentemente real.
          Foi ao tatuador e lá expôs o sucedido, não teve os créditos deste e pediu uma nova tatuagem, um novo desenho, o mesmo; outro. Queria sentir tudo novamente, a mesma intensidade, a mesma sensação, o mesmo poder e volúpia. Tudo com a mesma força e mística.
          O tatuador se assustou com toda aquela história e recusou-se fazer um novo desenho. Sem coragem de procurar outro desenhista rumou para casa e foi ainda no caminho que sentiu algo bater de maneira estranha em seu peito, um quê de força e dor que reconheceu no mesmo instante.
          Correu desesperadamente para casa com a dor aumentando, entrou sentindo algo tomar conta de si e controlar seus movimentos, arrancou todas as roupas e nua percebeu um emaranhado de golfinhos a nadar por todo seu corpo e tomá-la de assalto, fazendo dela seu oceano.
          Era infinita a dor que sentia, seu corpo povoado por centenas, milhares, milhões de tatuagens, bilhões. Variadas formas de vida marinha: golfinhos, tubarões, baleias, peixes simples, ornamentais, peixes-espinhos lhe furavam o corpo, cavalos marinhos cavalgam-na, um maremoto formou-se em seu baixo ventre, uma tormenta matou dois surfistas que buscavam domar as ondas de seus seios, em suas sobrancelhas oito barcos naufragados, em seus olhos um arquipélago inexplorado, em seu sexo todo um ecossistema revelador da criação do universo. Sereias hipnotizavam marinheiros nas curvas de suas nádegas, um suicida se atirava em uma das baías de seu braço, um náufrago numa jangada alcançava as portas de seu coração. Caminhava por seu cérebro o primeiro dos golfinhos: origem daquela história, navegava feliz por todo o corpo: dos cabelos à raiz dos pés, dos dedos das mãos ao gosto de sua língua.
          Foi então que sentiu um poder maior subir por sua espinha, tomar conta de seu coração, pulmão, ventre, útero e pressioná-la de dentro para fora fazendo cada vez mais força, cada vez mais força, cada vez mais força, até que num grito ela explodiu e seus pedaços se espalharam por todo o infinito transformando-a
num novo e rico oceano. 
(do livro: A divina tragicomédia humana de  Mauro Marcel)