terça-feira, 28 de julho de 2026

A morte da memória

Outro dia precisei telefonar para minha irmã.

Peguei o celular, procurei seu nome na agenda e apertei o botão verde. Enquanto o aparelho fazia todo o trabalho, ocorreu-me uma pergunta incômoda: eu não fazia a menor ideia de qual era o número dela.

Não apenas o dela. Também não sabia o de ninguém, dos amigos mais próximos, do trabalho ou da casa onde morei. Se alguém me roubasse o telefone, eu perderia muito mais do que um aparelho. Perderia as pessoas.

Houve um tempo em que a memória era uma forma de propriedade. Carregávamos dentro da cabeça o endereço da primeira namorada, a data de aniversário dos avós, o número do RG, do CPF, do telefone de casa, da padaria, do consultório médico. Não era um esforço heroico; era simplesmente viver.

Hoje terceirizamos a lembrança.

O celular recorda por nós. A nuvem guarda por nós. O algoritmo decide o que merece ser revisto. Quando queremos recordar uma viagem, não fechamos os olhos; abrimos uma galeria de fotos. Quando tentamos lembrar uma conversa, procuramos uma mensagem antiga. Quando esquecemos uma palavra, recorremos ao buscador antes mesmo de confiar na própria cabeça.

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca dependemos tanto de máquinas para nos lembrar de quem somos.

Curiosamente, quanto mais registramos, menos recordamos.

Fotografamos o jantar para não esquecer, mas já não sabemos descrever o sabor da comida. Filmamos o espetáculo inteiro, mas esquecemos de assisti-lo. Gravamos aniversários completos e, anos depois, lembramo-nos mais do vídeo do que do abraço.

Talvez porque a memória nunca tenha sido um arquivo. Ela sempre foi uma artista.

A memória escolhe, exagera, omite, colore, inventa. Apaga dores insuportáveis e ilumina pequenos instantes que, na época, pareciam insignificantes. É justamente por ser imperfeita que ela é humana.

Os computadores armazenam dados. Nós produzimos lembranças.

Há uma diferença imensa entre saber e recordar.

Saber é localizar um documento.

Recordar é reencontrar uma parte de si.

Tenho a impressão de que estamos assistindo, silenciosamente, à morte da memória. Não porque esquecemos mais do que nossos avós, mas porque desaprendemos a exercê-la. Cada informação entregue a um dispositivo é um pequeno músculo que deixamos de movimentar.

E toda capacidade que deixa de ser usada acaba atrofiando.

Talvez um dia os historiadores descubram que esta foi a época mais documentada da humanidade. Bilhões de fotografias, mensagens, vídeos e arquivos sobreviverão aos seus donos.

Mas suspeito que também dirão algo mais triste.

Nunca se produziu tanto registro.

E nunca se cultivou tão pouca lembrança.