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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Maria X da Silva, foi estupro, não foi?

1 ano de idade: Nasce na favela Maria X da Silva.
2 anos de idade: Seu pai agride sua mãe e sai de casa.
3 anos de idade: Seu pai volta pra casa, agride sua mãe e sai novamente de casa.
4 anos de idade: Um menino da rua mostra seu peruzinho para Maria X da Silva.
5 anos de idade: Sua mãe a matricula no colégio municipal de educação infantil.
6 anos de idade: Maria X da Silva ganha seu primeiro celular.
6 anos de idade: Maria X da Silva quebra o celular, apanha da mãe e ganha outro celular quinze dias depois.
7 anos de idade: Maria X da Silva é vista tomando banho pelada pelo namorado de sua mãe.
8 anos de idade: Maria X da Silva chega bêbada em casa vinda da escola. A mãe dá uma bronca misturada a risos e a faz ir dormir mais cedo.
8 anos de idade: repete de ano na escola
9 anos de idade: incentivada pelas filhas do vizinho começa brincadeiras sacanas com os menininhos da rua.
10 anos de idade: chega em casa bêbada pela segunda vez, às três da madrugada, acorda em meio ao vômito. Sua mãe nada faz além de mandar que a moça limpe a sujeira.
11 anos de idade: perde a virgindade.
12 anos de idade: engravida do seu terceiro namorado de dezoito anos que se recusa a assumir a paternidade do filho, pois Maria X da Silva “é uma vagabunda que que dá pra todo mundo e não será ele a assumir a bucha”.
13 anos de idade: Maria X da Silva passa as noites dos fins de semana no baile funk da rua de baixo.
13 anos de idade: Maria X da Silva larga a escola.
14 anos de idade: Maria X da Silva grava vídeos com as amigas provocando os meninos no Facebook.
14 anos de idade: Maria X da Silva começa a namorar um jogador de futebol que rompe o namoro ao saber que ela dá pra quem ela quiser.
15 anos de idade: Maria X da Silva dá uma linda festa pra sua filhinha e sai depois pra comemorar o sucesso comemoração, volta cinco dias depois. Sua mãe não se espanta.
16 anos de idade: Maria X da Silva posta uma foto segurando um rifle de seu amigo traficante.
16 anos de idade: Maria X da Silva posta uma foto provocante no Facebook com a legenda: Subir morro pra dar pra vagabundo.
16 anos de idade: Maria X da Silva entra numa festa e começa a beber e beber e beber.
16 anos de idade: Apaga após tanta bebida.
16 anos de idade: Maria X da Silva acorda com vários homens sobre ela.
16 anos de idade: Maria X da Silva pede que parem.
16 anos de idade: Maria X da Silva é fotografada e gravada durante uma orgia da qual participa inconsciente e bêbada. Tem suas fotos e vídeos divulgados na favela.
16 anos de idade: Maria X da Silva chega em casa e só quer se esquecer daquela noite horrível. No dia seguinte sua mãe lhe mostra o vídeo e lhe dá uma tremenda surra.
16 anos de idade: a menina começa a ser apontada na favela por todos os que viram o vídeo que parece estar no celular de todos as pessoas do mundo.
16 anos de idade: Maria X da Silva vai à delegacia fazer uma denúncia de estupro e o delegado pergunta se ela era acostumada a participar de orgias.
16 anos de idade: Maria X da Silva alega ter sido estuprada por 33 homens e há os que dizem que ela pediu para que isso acontecesse.
16 anos de idade: Maria X da Silva não percebe que já fora estuprada aos onze anos de idade porque segundo a lei brasileira o sexo com menor de quatorze anos é estupro mesmo com consentimento.

16 anos de idade: Maria X da Silva relê o que acaba de escrever e procura algum parágrafo neste texto em que não ocorra algum abuso a sua condição de criança, mulher, pessoa humana. Maria X da Silva ainda tem esperança.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Avestruz, Nelson Motta e estômago


    Fazia muito tempo que não acompanhava ficção na TV, as opções são fraquíssimas e não adianta tentar valorizar o produto nacional quando o fadado produto se limita a novelas mal escritas, mal produzidas, atores que me matam de vergonha alheia.
É preciso muito boa vontade pra ignorar tantos defeitos.








     Sou do tempo de novelas antiquadas, todos se sentavam ao redor do aparelho e a TV era PB, o que significava preto e branco, mas a imagem era cinza. Era muito bom assistir televisão naquela época, não tínhamos Full HD, mas tínhamos Dias Gomes escrevendo Pagador de promessas, Roque Santeiro, O bem amado e seus etc.

     Não me permito ataques de saudosismo, mas voltei ao youtube, (nós agora temos este mecanismo maravilhoso que por si acaba com qualquer ataque passadista), fui até o youtube pra comprovar que a TV da minha infância era péssima também e me frustrei, ou antes, comprovei o que já sabia instintivamente: a TV vem piorando com o passar dos anos e olha que já criticavam o baixo nível das programações desde há muito, desde o início.

     Como posso ficar feliz assistindo o que quer que esteja passando hoje no horário "nobre"  sendo que havia Beto Rockfeller, Pecado Capital, Vale tudo na TV PB de antigamente.

     Quem quiser que compare, está tudo muito ruim e o ruim é considerado de nível elevadíssimo, pois não vejo ninguém reclamando, mudando de canal, ou mesmo fazendo o absurdo de desligar a TV. 
     Há tantos recursos hoje: DVD, CD, vídeo game, cinemas, teatro, TV a cabo, nem lembrava que havia novelas.
     Não lembrava até ouvir falar que haveria uma minissérie na globo baseada num livro do Nelson Mota, que não é conhecido por sua literatura, mas que, por ser tão sólido crítico musical, me levou a assistir o produto global feito com sua obra: "O canto da sereia".
          Se Nelson Motta for tão bom crítico de TV como é musical provavelmente deve estar com a cabeça enterrada na areia como um avestruz de pernas muito longas e esquisitas. O canto da sereia só não foi uma série pior porque foi de tiro curto, apenas quatro episódios. Mas quanta ruindade em apenas quatro momentos.

     Mas não é daquele ruim bom de assistir, às vezes uma produção é tão ruim que dá gosto de ver, a produção sabe o que está fazendo e não têm medo de parecer ridículos, porque é assim que tem que ser. O que não é o caso da Íris Valverde com sotaque baiano, um elo perdido entre Ivete Sangalo e Cláudia Leite. 

     O Marcos Palmeira como detetive particular sonhando com a protagonista e sua melhor amiga na cama agarrando-o, numa cena que causou ereções na platéia, mas que não tinha nenhuma função à narrativa, assim como o fato de haver uma caso de amor entre Sereia e sua produtora, ou o detetive Gustavão (Marcos Palmeira) transar com a produtora logo após ela se declarar lésbica: deve ter sido pra tirar a prova pra si mesma. Ou pra atender a cláusula que exigia que em cada episódio apareceria certo tempo de nudez, tanto da protagonista, quanto de qualquer mulher que aparecesse ao redor da Sereia.
     Chegaram ao cúmulo de mostrar a Mãe de Santo transando com o ex-namorado da Sereia, que transou com o marido da mãe de santo, quase uma suruba, mas sem gosto, sem enredo, sem sexo, sem nexo.
     A coragem da produção está no fato de a protagonista levar um tiro logo no primeiro episódio, raro uma história em flashback pelas paragens brasileiras, mas o que se segue é tão ruim que não dá nem vontade de descobrir quem matou, se assisti aos quatro dias foi pela esperança de que algo aconteceria e pelo mesmo motivo que todo marmanjo assistiu, ver a Íris Valverde pelada, dupla frustração. Essas atrizes de hoje têm de aprender a ficar peladas em novelas com a Vera Fischer, a Isadora ribeiro, até a mel Lisboa. 

     E nada acontece. Quem mata a Sereia é o gay da história (todo enredo global tem que ter um gay - nada contra, mas cotas têm limite, mesmo o gay tendo sido feito pelo competentíssimo João Miguel de filmes maravilhosos como "Estômago"  e "Cinema, aspirinas e urubus"). 

     O auge da ineficácia da construção do enredo foi o fato do marqueteiro do Governador da Bahia, que era o mesmo da cantora (esqueci de mencionar que ela era cantora), o marqueteiro foi assassinado e o crime fica em suspenso, possibilidades se abrem e são abandonadas.
     E pouco importa se no livro foi assim, a mídia é outra, outras necessidades se abrem, por isso ninguém me chame de pedante quando eu falar que  não gosto de novela, odeio Rede Globo e não perco meu tempo com TV aberta.
     Se você não entendeu o que eu descrevi acima, não se preocupe, não me dei ao luxo de revisar o texto, assim como os produtores desta bomba narrativa não se deram ao trabalho de fazer uma produção com um mínimo de qualidade estética. São capazes de fazer algo ainda hoje, me lembro da adaptação do "Dom Casmurro" feito há alguns anos, primoroso. Se bem que esse não assisti, ainda bem que existe youtube: pra eu assistir ao Dom Casmurro após tê-lo perdido, assim como trechos das novelas que citei acima, filmes do mundo inteiro, curtas metragens, até filmecos produzidos por mim. Tudo competindo com o Canto da Sereia, que está lá com certeza, on line, quiçá para sempre.
     Sem querer parecer mais pedante, deixa eu voltar para o meu Philip Roth. Não sabe quem é? Joga no google.
     Ah tá... Por que escrevi esse texto? Pra que não tenha sido um simples exercício de futilidade assistir a tamanha porcaria. Pelo menos isso...

Por Mauro Marcel
     

sábado, 29 de dezembro de 2012

Era ela - conto de Mauro Marcel


Era ela.
O sonho dela, o sono dela, o riso cada vez mais riso e nítido o riso dela.
          O tráfego era ela. O caminho era ela. O desejo por uma nova solução, a solução dela. A infância dela.
          Todos queriam um beijo e a boca pertencia a ela.
          Um pensamento não pensado, uma estrela a iluminar o caminho dela. Tudo ela.
          E foi ela e ele. No princípio ele por ela. Ela por ele. Um par perfeito, um dueto invejado, plagiado, amantes, sorrisos e abraços. O braço dele nela e o braço dela nele.
          Eram eles. Os sonhos deles. Deles o sono. O riso grandioso, grandioso riso deles.
          E cada vez mais ele que ela e ela cansando dele. O medo de perdê-lo. O medo de não tê-lo sem saber que a ele já não tinha.
image          Já não era nem ela nem ele.
          O dia dela?
          O dia dele?
          A mãe dela? O pai dele.
          O dinheiro dele separado do dinheiro dela. A família dele no natal deles e a dela numa eventual celebração sem ela.
          Cada vez menos eles. Ela esquecia-se dos sonhos. Os sonhos dela. Ele ignorando o que vinha daquela boca, o beijo dela, os risos, a voz suave e rouca, de seu coração os sonhos que antes tinha “os sonhos que ora eram ela e ele, dela e dele”.
          E foi ela pela rua. E foi o trânsito. Foi a curva. Foi o carro. Foi bolsa de um lado. Foi ela de outro. Foram graves feridas e foi muito triste a morte dela.
          O sonho dela?
          Onde está ele?
          O riso dela: parca lembrança no passado dele. 


(Conto vencedor do Concurso Palavra em Prisma - 2009)
Publicado no livro do concurso e a ser publicado no livro Cabeça do objeto e outras pedradas.