Há muito tempo parei de postar qualquer coisa nas redes sociais. Muita gente imagina que foi por cansaço, falta de assunto ou desinteresse. Não. A culpa é, em boa parte, do Facebook e da sua estranha obsessão por desenterrar o passado.
Todos os dias ele me cutuca com um sorriso eletrônico: "Veja sua lembrança de sete anos atrás". Como se estivesse prestando um favor. Como se eu ainda fosse aquele sujeito que escreveu aquelas linhas, que defendia aquelas certezas, que ria daquela piada, que fotografava aquele momento acreditando que ele precisava durar para sempre.
Mas eu não sou mais aquele.
E ainda bem.
A vida, quando funciona, é justamente o contrário de um arquivo morto. É movimento. É revisão. É desapego. É descobrir que algumas convicções eram provisórias, que certos entusiasmos eram ingênuos, que algumas tristezas já não encontram lugar onde morar.
O Facebook, porém, insiste em transformar a existência numa visita guiada a um museu de mim mesmo.
As "memórias" nunca me pareceram memórias. Parecem um cemitério de pensamentos antigos. Fileiras de versões minhas que já cumpriram seu papel e deveriam descansar em paz. Não porque eu tenha vergonha delas, mas porque não preciso exumar diariamente quem deixei de ser.
Tenho o direito de esquecer um pouco.
Tenho o direito de não revisitar cada frase escrita num domingo qualquer de 2013, cada opinião dada antes de aprender mais, cada fotografia feita antes de viver outras tantas.
A memória, quando é boa, tem ritmo próprio. Ela sabe quando aparecer. Vem pelo cheiro de um café, pela música que toca sem querer, por uma rua, por um rosto encontrado ao acaso. Ela não precisa de um algoritmo para decidir o que devo sentir hoje.
Quero ser eu quem escolhe quando abrir minhas gavetas.
Quero encontrar minhas ideias antigas por curiosidade, não por notificação. Quero lembrar no meu tempo, não no tempo de uma plataforma que confunde permanência com relevância.
Talvez seja por isso que eu tenha silenciado.
Não foi falta de vontade de dizer. Foi excesso de vontade de continuar mudando sem a obrigação de prestar contas ao personagem que fui ontem.
Porque viver olhando para trás pode ser um exercício bonito, mas morar no retrovisor é um jeito elegante de deixar de seguir viagem.
E eu, sinceramente, ainda prefiro a estrada.