domingo, 1 de março de 2026

Banco imobiliário, aluguel e crise conjugal

 Eu desconfio da felicidade. Principalmente daquela que vem com filtro Valencia e legenda motivacional.

Ser feliz nas redes sociais é igual ser rico no jogo de tabuleiro Banco Imobiliário. Impressiona na mesa da sala, provoca inveja nos primos, gera discussões acaloradas — mas, no fim da noite, todo mundo volta para casa de ônibus.

No jogo, você compra a Avenida Paulista, ergue hotel na Rua Augusta, cobra aluguel com a crueldade de um magnata do século XIX. Empilha notas coloridas com a segurança de quem domina o mundo. Sente-se um Rockefeller de papel-cartão.

Até que alguém esbarra na mesa. As peças voam. O banco se mistura aos imóveis. O império desaba em quinze segundos.

Nas redes é parecido.

Você compra viagens parceladas, ergue relacionamentos com varanda gourmet, posta pratos que jamais repetirá na terça-feira seguinte. Constrói um condomínio fechado de sorrisos. Cobra likes como quem cobra aluguel: “curtiu, amigo? compartilha, primo? comenta, ex-colega do ensino médio?”

E como no tabuleiro, tudo parece sólido enquanto dura a partida.

A diferença é que no Banco Imobiliário todos sabem que é ficção. Ninguém sai da sala achando que realmente possuiu a Avenida Rebouças. Já nas redes, há quem acredite na própria propaganda. O personagem engole o ator.

Vivemos uma era curiosa: nunca foi tão fácil parecer feliz. Basta enquadrar o sofrimento fora da moldura. A ansiedade não entra no story. O boleto não participa do reels. A crise conjugal não ganha trilha sonora otimista.

Ser feliz online exige planejamento estratégico. É preciso manter coerência estética, narrativa de superação, coerência ideológica (até a próxima tendência). É praticamente uma pós-graduação em marketing pessoal.

E dá trabalho.

No tabuleiro, ao menos, há regras claras: caiu na casa errada, paga. Faliu, sai do jogo. Simples, direto, quase honesto. Nas redes, a falência emocional é maquiada com frases de efeito. “Gratidão por tudo.” Tudo o quê, exatamente? Não sabemos. Mas a fonte cursiva ajuda.

Há também o fenômeno do magnata precoce. Aquele que, aos vinte e poucos anos, já “venceu”. Venceu o quê? Não se sabe. Mas venceu sorrindo, de preferência com um pôr do sol ao fundo. No jogo de tabuleiro, esse perfil seria o primo que aprende as regras antes dos outros e compra tudo na primeira rodada. Ganha rápido. Perde amigos mais rápido ainda.

A grande ironia é que, tanto no jogo quanto nas redes, o dinheiro é de mentirinha. No primeiro, as notas são impressas. No segundo, o capital é aprovação. Curtidas são a nova moeda. Seguidores, ações em alta. Cancelamentos, crises na bolsa.

Mas ninguém paga o supermercado com engajamento.

Talvez o problema não seja brincar de ser rico no Banco Imobiliário digital. O problema é esquecer que é brincadeira. Confundir performance com existência. Transformar a vitrine em sala de estar.

No fundo, todos sabemos que a vida real acontece fora do tabuleiro. É onde a pia acumula louça, o chefe acumula demandas e o espelho acumula olheiras. Não há hotel cinco estrelas na Rua da Ansiedade. Não há carta “Sorte ou Revés” que resolva o cansaço de uma terça-feira chuvosa.

E ainda assim, seguimos jogando.

Postando cafés que esfriam enquanto buscamos o melhor ângulo. Registrando abraços antes de senti-los. Editando risadas. Ajustando saturação da alegria.

Talvez a felicidade verdadeira seja menos fotogênica. Ela não rende tantos likes. Não tem trilha sonora épica. Às vezes é só silêncio confortável, conversa sem plateia, domingo sem prova social.

Mas isso não viraliza.

No fim, como no jogo, alguém sempre fecha a caixa, guarda as notas coloridas e apaga a luz da sala. A diferença é que, no mundo virtual, poucos admitem que a partida acabou.

E assim seguimos: milionários de mentirinha, magnatas de Wi-Fi instável, felizes até segunda ordem.

Até que alguém esbarre na mesa.