quinta-feira, 10 de junho de 2021

Homeschooling, ou sobre os sonhos que não são meus, ou o porquê de você deixar de respeitar minha opinião embora muito embasada em argumentos e dados empíricos.

 


            Você já pensou em como as escolas surgiram?

Não a escola do seu bairro construída no início dos anos 1980 pouco antes ou depois, ou a dos grandes centros na primeira metade do século XX.

Não quando, mas como?

              Em torno de qual ideia se estrutura o conceito de escola num Brasil de Paulo Freire e Anísio Teixeira?

E não cito os teóricos como posicionamento ideológico, mas para dizer que antes dos mesmos já havia quem pensasse um lugar onde as crianças ficam o dia todo distantes do seio familiar e próximas a outras influências: Estado, Mercado, esportes, religiões, grupos, paixões, ideias preconcebidas, ideias, etc. etc.   

              Ensinar não é algo novo e ensinar em casa muito menos. Um agricultor tinha muitos filhos porque muitas pessoas significava muita mão de obra na lavoura.

O ensino doméstico nasceu com a própria ideia de estabelecer-se em determinado lugar e plantar e colher e plantar novamente e colher novamente com mais ou menos ajuda, com mais e menos sucesso...

Agora, depois de escrito e relendo fico pensando que antes já havia a ideia de ensinar a caçar, a coletar, a preparar o alimento retirando as impurezas, e antes a ideia de construir ferramentas das mais primitivas às ainda primitivas porém mais elaboradas, a cuidar do fogo, manejá-lo e não deixar o acampamento incendiar-se.

              Um João de barro pai não ensina ao João de barro filho como construir uma casa, o instinto de preservação está em seus genes, por instinto um passarinho voa, por instinto um camaleão se protege, por instinto uma leoa caça uma gazela na savana e cruza e procria, sem aquilo que chamamos de comunicação complexa.

O que quero dizer é que há sim um nível de passagem de bastão de seres que não nós na natureza, seres que não conseguem enviar um homem para a Lua e nem pensar em como colonizar outros planetas.

              A diferença entre uma barata e um homem é que para o inseto tudo é presente, um eterno e contínuo agora, enquanto que para nós, para você que lê o que escrevo, há também um passado carregando sua consciência de remorsos ou nostalgia, e um futuro carregando sua mente de ansiedade ou sonhos.

              Os seres humanos precisam de escola porque tem passado, presente, futuro e porque se afastou da vida simples dos instintos.

Eis os motivos de haver escola: é muita coisa para administrar.

Difícil essa vida, é mais fácil ser bactéria que não planeja, não se frustra, não decepciona os pais ao escolher a profissão errada, não decepciona a si mesmo escolhendo o caminho tortuoso das drogas, não sente vergonha quando faz cocô na roupa ao passar mal na sala de aula da quinta série (acho que fui muito específico). Não aprende e não modifica por livre arbítrio a própria realidade.

Neste momento percebo que me distancio do que me trouxe ao texto, mas vou fundo pelo caminho que me direcionei, se conseguir, retorno, se não, deixo a cargo do leitor seguir, ou não, comigo até a última linha.  

Pois bem, ao falar de educação é preciso diferenciar bem o que é escola do que seja ensino. Ensinar e aprender são processos ininterruptos que devem nos acompanhar por toda a vida.

Uma pessoa que não aprende, sabemos como chamar.

Também sabemos como chamar uma pessoa que se recusa a ensinar o que sabe.

A escola, em minha humilde opinião tem que ser pensada em separado do ensinar e aprender, principalmente num século XXI de acesso instantâneo a vídeos com tutoriais, aulas com professores amadores que não são professores, são curiosos sobre determinado assunto, mas que ensinam também e faz parte da universalização do acesso ao conhecimento tão sonhado por pessoas ilustradas de distintas épocas da humanidade.



E quero que discordem de mim. Mas também que alguém concorde. Repito o que para mim nem é tão polêmico: a escola deve ser pensada em separado do processo ensino/aprendizagem.

Longe de romantizar o debate, é sabido que o Estado (todos eles) utilizam o dinheiro dos impostos para gerar benefícios para a população (ou deveria), a educação escolar é um serviço que é um benefício que deve gerar outros como professores, pessoas mais conscientes que poluem menos, mão de obra qualificada, pensadores, construtores, policiais, exército, artistas, médicos...

Em períodos de guerra a escola serviu para disciplinar (há ideias difíceis de morrer e pessoas que ainda creem que na escola sempre é tempo de guerra, um lugar de extrema disciplina, “o professor bom é aquele que consegue controlar a sala” e tome blá blá blá...).

Jurei para mim em nome de vários santos que não escreveria mais crônicas tão longas, ou ensaios, ou o que for este texto até o final, mas é que sou professor há quase vinte anos e apaixonado pelo assunto. Lembro de como imaginava a escola que trabalharia enquanto cursava letras: sonhava com os estudantes lendo os clássicos da literatura, todos libertos dos grilhões da obediência cega, e nunca me flagrei imaginando uma aula em que perguntava o que eles desejavam ser, fazer, sonhar...

Sempre mais importante na escola dos meus sonhos o meu grandiosos sonho, corretíssimo e asséptico  e, bem diminuto quase um detalhe, os desejos dos alunos.

Quem eram eles para saber o que era melhor para si?

E demorou para mudar, mas mudou. (em mim ao menos)

Se uma época é mais industrial, é legítimo formar mão de obra para a indústria. Se é uma escola inserida numa comunidade agrária também é legítimo formar pessoas que se ocupem das atividades campesinas, o que não impede alguém do campo em sonhar viver do ramo fabril e vice versa.

Alguém aí pensou em equidade? Isso mesmo. Acho que estamos na mesma página, se não, tudo bem, ainda estou aprendendo.  

É legítimo aos pais influenciarem nas decisões de vida dos filhos e os filhos desobedecerem aos pais. A vida é dinâmica e não adianta escrever roteiros e buscar segui-los, talvez sirva para uma meia dúzia de pessoas, mas na escola do início do século XXI a complexidade, os debates, o aprender, o ensinar, tudo é muito mais complexo que no fim do século XX. E muitos professores estavam e ainda estão por lá ensinando em 2021 como se ensinava em 1995 e isto é um dos maiores tabus da educação, entre os diversos que existem.

O caso é que vivemos numa época em que as informações não são obtidas apenas pelos antigos e (dizem alguns) ultrapassados canais oficiais. A informação e o conhecimento vêm de todas as partes numa enxurrada descontrolada, e é papel, hoje, da escola ensinar a selecionar o que é relevante do que não é, assim como a colaborar nessa nevasca de informação: tudo misturado: textos, imagens, infográficos, memes, vídeos, podcasts, aplicativos, redes sociais e o que mais surgir e surge.

Dentro disso, é importante saber que aprender é também entender o que merece nossa atenção. Ao longo do dia milhares de pessoas vão lutar para obter sua, vão querer te vender serviços, mercadorias e ideias.

Porque escrevo este texto, por exemplo. Quais as minhas intenções? Talvez eu queira convencer de alguma coisa não tão boa, mas como saber?

Neste imbróglio é importante pensar que a sociedade enfrenta desafios diferentes dos da mesma população de há quinze anos e enfrentará novos em cinco, dez, vinte; os problemas se renovam antes de serem resolvidos e se avolumam.

A escola de hoje precisa se comprometer com a formação do socioemocional muito mais do que a aquisição de meros conhecimentos enciclopédicos. Sempre haverá um aparelho eletrônico por perto para buscar a capital da Austrália que não é Sidney, a raiz quadrada de um número negativo que não existe ou o que for, a fórmula de bhaskara, a lista de verbos irregulares. E se não houver um aparelho por perto para buscar a informação? Faça o mesmo de quando quer escrever e não encontra a caneta. Admirável mundo novo, muito a aprender, muito a ensinar.

O homeschooling, termo em inglês que significa em tradução livre “ensino doméstico”, deve ser uma opção não apenas para o período escolar, mas para toda a vida. A internet nos aproxima do conhecimento. Ponto. Não há o que discutir. Mas também nos aproxima das maiores bizarrices e imbecilidades inventadas pelo homem.



              Aprender na escola significa, agora em plena década de vinte do vigésimo primeiro século, se relacionar com outros indivíduos e superar desafios de maneira saudável e equilibrada e isto não se aprende longe das pessoas. O ser humano se faz humano no convívio e convivência se aprende e se pratica. De frente para o computador? Um tanto. Porém muito mais no olhar, compartilhando espaços e rotinas com pessoas de diferentes faixas etárias e culturas. A internet otimiza isso, mas nunca substituirá a prática: conviver com as frustrações, por exemplo, se abrir para o novo. São habilidades que a escola tem que desenvolver nos estudantes desde crianças até a adolescência, para que o adulto acrescente vida à própria vida, qualidade aos próprios sonhos, realizações para seus ideais e autonomia aos próprios passos.

                                                                    Mauro Marcel


Link para consulta: BNCC - Base Nacional Comum Curricular


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Não é bolha, é labirinto

 

A deusa Atena permitiu que o filho de Cnossos fosse morto e uma guerra irrompeu provocada pelo desejo de vingança. A cidade estado de Atenas protegida pela deusa da sabedoria foi derrotada, Creta, liderada pelo rei Minos exigiu que os atenienses enviassem anualmente quatorze jovens, sete casais como tributos.

Estes eram postos num labirinto e ao perder-se entre suas curvas e caminhos, sem saída, não conseguiam retornar e morriam devorados pelo minotauro que aguardava, entediado e faminto, sua refeição anual.

Era impossível a fuga até surgir o jovem Teseu e, como herói mitológico, servir de modelo até hoje escapando de forma engenhosa e simples do labirinto que, na certa, o mataria.

Borges no maravilhoso poema “Labirinto” diz que a vida é este lugar onde “nunca há porta”, pois “já estamos dentro”.

Somos postos no labirinto dando voltas, dando voltas, sem escape como castigo à deusa da sabedoria e inteligência. Presos no labirinto como castigo à Atena. À deusa da sabedoria, inteligência e do senso de justiça.

Genial o Borges ao dizer que não há portas, sem perceber já estamos dentro e genial o mito, que como bom mito encerra sabedoria, inteligência e senso de justiça.  

Pois bem, fiz a introdução e se o leitor quiser reler em algum momento esta crônica, dispense os primeiros parágrafos e comece pelo próximo, é legítimo de minha parte crer que nem todos conheçam a história do minotauro e menos ainda o espetacular poema de Borges. Próxima linha, por favor...

Muitos apontam como motivo da superficialidade de nossa época o excesso de internet aliado à escassez de livros. Alegam que nunca se leu tão pouco, nunca os debates foram tão superficiais e nunca “antes na história deste país” as pessoas se entregaram a tantas paixões vazias: sexo, drogas e sei lá que música completa a frase hoje ou no dia que você tiver contato com este texto. Prefiro o clássico: sexo, drogas e rock’n roll.

Me chama a atenção no mito o fato de serem jovens os entregues em holocausto, fico pensando, interpretando, confabulando aqui com os meus botões e imaginando que tudo não passa de uma grande lição para os púberes: ao atingir determinada idade, cuidado ao entrar no labirinto, você se perderá e em algum momento encontrará o monstro.

Borges diz que o labirinto é a vida em si, podemos e vamos nos perder e virar ração de minotauro.

Mas quando surge o Teseu o mito se transfigura, ganha um porém (lembrando que tudo dito antes do porém não tem muita importância, tudo antes do porém é apenas introdução, prefácio, preâmbulo), porque Teseu é o herói e como tal nos serve de modelo.

Há a possibilidade de escapar, há um jeito de obter a eternidade, a vida pode ter sentido, não precisamos ser os jovens que nem nome possuem, são apenas os jovens que são jogados para morrer no labirinto, diferentemente do filho de Egeu, o grande Teseu que tem, além da história do labirinto, uma outra que envolve um navio que vale a pena contar em outra crônica. Anotem e me lembrem mais tarde, quem sabe eu não fale algo a respeito, ou isso ou vocês podem assistir àquele seriado horroroso da Disney, o Wandavision. (Desculpe: seriado maravilhoso e cheio de conteúdo e significado que não quer apenas que você mantenha o olho pregado na tela à espera do próximo outro próximo episódio).

E voltando ao que dizia (escrevia), Teseu escapou do labirinto, mas antes matou o minotauro. E como realizou tal façanha?

Ao chegar em Cnossos, caiu de amores por Ariadne, a filha de Minos, e ela por ele. A moça ensinou-o como escapar, dando ao seu grande amor um novelo lã que deveria desenovelar mostrando por onde passou, assim conseguindo a fuga. Alerta de metáforas com muita sabedoria dos gregos à vista: aprender a olhar os próprios passos, ver a sua própria história e perceber que sem se dar conta dos próprios caminhos, tomar conhecimento dos lugares por onde se caminha dificilmente conseguirá escapar do labirinto (precisamos desenovelar o novelo para saber por onde caminhamos) e não é tudo.

De nada adianta fugir e ter um monstro assombrando a sua cidade, enfim, a sua vida. Teseu entrou no labirinto armado com um novelo de lã e uma espada e matou o minotauro.

Estando no labirinto que é a própria vida, onde somos lançados sem que ninguém peça a nossa opinião é fácil cair na velha conversa de que somos vítimas das situações, jogados como os sete casais da história. Mas não vou encerrar por aqui a metáfora, vou pular para o universo que dá título a este texto: a superficialidade de nosso mundo contemporâneo não é fruto de uma bolha construída pelas redes sociais, isso porque não há bolhas nas redes sociais, não há bolhas ideológicas, não há e repito com todas as letras que me permitem escrever: não há bolhas nas redes sociais. Meu estilo é pleonástico, vou repetir: não há bolhas nas redes sociais! Agora com um ponto de exclamação pra mostrar que estou sendo enfático.

Comparo as redes sociais ao labirinto construído com o objetivo de entreter, divertir, esvaziar o discurso dos jovens transformando-os em simples mercado consumidor, ou seja, uma vingança contra Atena a deusa da sabedoria, inteligência, do senso de justiça e das artes...

Há nesse labirinto o encontro com a morte, mas não se formos como Teseu e entrarmos armados com a lã e a espada.

Ao adentrar no universo virtual podemos muito bem continuar a mortificar a nós mesmos e assassinar o juízo de valores dos mais jovens, mas também podemos ser os Teseus e com um pouco de orientação, caminhar olhando para o que aprendeu com as próprias experiências e ter a coragem de enfrentar a fera. Matá-la. Voltar para o seu grande amor e dizer que a internet não é feita de bolhas, mas de labirintos e podemos sair dela muito maiores que quando entramos.

Tratar a internet como um universo de bolhas é ignorar que por ela navegamos, como Bartolomeu Dias jogado contra os rochedos do Cabo das Tormentas, assim como o navegador atacado por tempestades e temendo pela vida temos, mesmo sem saber, possibilidades de escapar (sim, possibilidades com s, no plural). Assim como o navegante português encontrou a saída, Teseu matou o minotauro e você não explode como uma bolha de ar ou de sabão, daquelas sopradas por um palhaço de praça à espera de algum trocado.

Podemos retornar como Teseus e sermos as Ariadnes de alguém, assim como Bartolomeu Dias retornou e ensinou o caminho da passagem pelo sul da África aos portugueses. Não só podemos como faz parte de nossa obrigação, não como o cara que saiu da caverna porque a internet não é caverna, é possível aprender muita coisa com ela, assim como no labirinto do minotauro e no oceano Atlântico do século XV.

É possível retornar vitoriosos como Teseus ao fim de cada mergulho no labirinto virtual e sim, é mais que possível ser a Ariadne de muita gente.

                                                                     Mauro Marcel

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Revolution 9, Scorsese e Guernica

Eu gosto da experiência cinematográfica em todos os seus aspectos: leio críticas antes e após assistir aos filmes, vejo filmes cabeça, de ação, terror trash, gore, comédias besteiróis, cinema cult europeu, cinema bollywoodiano, coisa nova, coisa velha, indicados ao Óscar, injustiçados pela Academia e por aí vou. Desde muito jovem, sempre em grande quantidade.

                Uma vez houve que assisti a três filmes em sequência no cinema, pasmem, não recomendo nenhum dos três. Talvez escreva sobre esta experiência em outra crônica. Por hoje me atenho ao que me trouxe à pena, saindo da introdução dos dois primeiros parágrafos em que deixo muito claro que sou um conhecedor do que vou falar e que não aceito réplicas, pois quero minha crônica um tanto quanto axiomática. Apenas um pouquinho evidente me bastando por mim, humildemente é o que desejo.

                Pois bem, amo os filmes ruins. Adoro-os.

Os excelentes, os grandes clássicos são fáceis, são evidentes assim como meus axiomas.

Sempre entro pelos clássicos de Scorsese sabendo que terei das experiências cinematográficas o que há de melhor. E tome Taxi driver, Os bons companheiros, Casino, Touro indomável, Irlandês e o oscarizado Os infiltrados. Mas quero ver degustar com o mesmo apetite um New York New York de um toxicômano Scorsese e um desengonçado e ridículo de Niro.

                Vamos de Hitchcock, Coppola, Spielberg, Truffaut, Antonioni, etc. etc. etc. Com alguns deslizes dos gênios. (Quem nunca fez aquela cagada? Com a melhor das intenções, mas uma bela e grandiosa cagada.)

                Assim é a arte, assim a arte é. Nem toda pintura de Picasso é Guernica, nem apenas de Chega de saudade é feito João Gilberto. Quem dera toda banda fosse Beatles e tudo em Beatles fosse Álbum Branco e que no Álbum Branco não houvesse a horrorosa, odienta e salafrária Revolution 9. (Pra ser sincero em Beatles eu gosto de tudo até da revolução número 9, mas quis deixar claro meu ponto, portanto, mantenho: Revolution 9 sucks...)

                Vamos falar então do direito que todos têm de falar mal do que é ruim a partir do seu ponto de vista.

                Óbvio, não? Nenhum pouco.

                Experimenta falar algumas verdades sobre determinadas obras de arte, filme, música, gênero musical, artistas... chato. Chaaaaato...

Assim com o aaaaaaa esticado ao infinito. Seguido de reticências que é pra ser bem emblemático.

Quer dizer que eu não posso falar que não gostei de Bacurau? Sim. Este é o motivo desta crônica. Reivindicar o meu direito constitucional, humano, cinefilico, sim, o meu direito de cinéfilo de falar mal de um filme que achei um monte de baboseira em cima de um monte de baboseira. Para dizer pouco. Para não aprofundar, porque “em minha singela, humilde e axiomática opinião” o filme não vale o aprofundamento.  

                Veja só, não tenho nada contra o longa. O que me deixa um tanto quanto agressivo das ideias não é o filme em si, mas a rede de proteção ao redor da película impedindo qualquer um de criticá-la por razões políticas, ideológicas, sei lá, o inferno.

E já que falei vou esticar o que disse do Bacurau a Parasita, Pantera negra, toda a saga Star Wars a partir do terceiro e horroroso filme chamado O retorno de Jedi.

                Uau. Deu até uma desopilada no fígado.

                Repetindo incorrendo no perigo de ser repetitivo: não vejo grandes problemas nesses filmes, mas me cansa gente defendendo filme “porque sim”.

                Meninos. Meninas. Todo mundo tem direito de gostar e desgostar da obra de arte que quiser e criticar sem entender é tão errado quanto elogiar sem ter achado mérito algum para tal, apenas porque determinado grupo, crítico, famosinho de nicho (chamo assim, me recuso a escrever influencer). Apenas porque um famosinho de nicho disse que é bom, que é ruim. Que é isso. Aquilo. Outras coisas mais.

                Conheci tanta gente que só diz gostar de algo para estar perto das pessoas, eu fui assim com o heavy metal por muito tempo, tanto que acabei por gostar legitimamente. Gosto até hoje e muito mais que na adolescência. Mas sei de pessoas que não suportam cerveja amarga, cinema europeu, filme de arte, Ted talks, literatura alemã, verdadeira filosofia... mas quer parecer cult, cool, legalzinho descolado. Escrevi sobre isso há alguns anos: o hipster babaca.

                É difícil estar sozinho e às vezes posicionar-se a favor de algo que um grupo defende é uma forma legítima que as pessoas encontram para fazer amigos. Mas há um momento na vida de todo mundo em que se faz necessário crescer, viver cercado por menos pessoas e mais próximo de si mesmo: os próprios valores, construídos ao longo de uma vida de aprendizado, acertos e erros. Gostos peculiares ou não.

Reconhecendo a história que cada um construiu e que permite a si o direito de gostar ou não do que for. Empatia enfim. Empatia consigo próprio.

Nada demais. Não uma ideia muito nova: o Moço que morreu na cruz já dizia isso, mas vamos chamar de empatia então, mesmo consigo mesmo, a empatia inversa. Há aquela em que você se põe no lugar do outro e uma que também não é nova, a que você se põe no lugar de você mesmo, ouvindo suas próprias dores, valores, desejos e se permitindo falar o que pensa, o que sente, o que sabe, o que não sabe sobre arte, filme, música, a rebimboca da parafuseta e até sobre a ideologia política do amiguinho.

Momento de parar de mentir para si mesmo e dizer o que você realmente achou de Bacurau.

                                                                Mauro Marcel

terça-feira, 1 de junho de 2021

Redação nota 1000

            


              Há muitos anos trabalho com estudantes da Rede Estadual de São Paulo, quase sempre com alunos do Ensino Médio e quando os vejo se aproximando do fim deste ciclo, em muitos percebo a preocupação com os resultados que obterão no Exame Nacional do Ensino Médio – o ENEM.

Como sou professor de língua portuguesa, a redação se torna constante tema de aulas e conversas e muito escuto sobre a tal nota mil que “alguém conseguiu, foi um amigo do amigo de um amigo”, ou mesmo “um canal que vi na internet e dá dicas muito boas, você precisa conhecer, professor”.

            Sempre estar aberto a todas as fontes de informação já é uma dica, inclusive de quem passou pela experiência do ENEM e conseguiu a nota máxima, mas como opinião pessoal, ao me debruçar sobre os números, os constantes resultados do exame, ano após ano devo alertar ao vestibulando que é muito mais fácil escorregar e tirar zero que conseguir a nota máxima.

Portanto, mais do que buscar a perfeição, e ela tem que ser buscada, o estudante deve exercitar a leitura, a reescrita e a busca por repertório cultural.

Alunos da Rede Estadual Paulista conquistaram notas superiores a 950, mesmo em meio à pandemia. Estão de parabéns. Conquistar estas notas não são fruto do acaso, mas do resultado de um trabalho contínuo, fruto de muito esforço e dedicação.

Eis algumas dicas que ajudarão a melhorar a sua nota na redação do ENEM:

 

·         O ENEM pede o texto dissertativo argumentativo. É importante aprender a estrutura: tese, argumentos, proposta de intervenção;

·         Leia redações dos anos anteriores que conseguiram a nota máxima. Reescreva-as, percebendo o tamanho do texto em uma folha de caderno. O mais importante não é o tamanho, mas o conteúdo, é importante entender que a redação deverá ser um texto de fôlego e com certa profundidade, isto não se dá em meia dúzia de linhas;

·         Ao ler a proposta, busque compreender objetivamente o que se pede. Muita atenção: a proposta não é apenas o seu título, mas todos os textos motivadores preparados para o seu desenvolvimento;

·         Se posicione claramente frente ao tema, não fuja do assunto;

·         Use conectivos entre os períodos e interconectando os parágrafos (porém, contudo, desta forma, deste modo, assim, entretanto, no entanto, são alguns exemplos);

·         Os argumentos têm que sustentar a sua opinião (a sua tese), portanto devem servir de suporte para convencer o leitor de que a sua opinião é válida. Exemplos da vida pessoal nunca são uma boa ideia, dê preferência a pesquisas, escritores, autoridades ligadas ao assunto, exemplos de causa e consequência;

·         Muita leitura é importante neste ponto. Ter um repertório cultural que ajude a argumentar independentemente do tema é muito mais válido que decorar citações e tentar encaixá-las transformando seu texto numa espécie de colcha de retalhos. Funcionou com alguém uma vez? Pode ser. Funciona na maioria das vezes, não mesmo;

·         Um dos critérios de avaliação da redação do ENEM é a proposta de intervenção. Evite ser vago, busque objetividade na proposta, assim como em todo o texto, mas neste ponto procure explicar como, quem, o quê, de que forma a sua intervenção se desenvolveria se aplicada ao problema levantado no exame;

·         Ler bastante e bons livros ajuda não apenas a adquirir repertório, mas também a evitar escrever as palavras incorretamente. Os erros ortográficos retiram muitos pontos. Ler os clássicos da literatura também colaboram com isso.

·         Escrever não é um ato puramente intelectual, é quase uma atividade braçal, você precisa escrever, escrever, escrever e escrever. Estudar muito e ir além. Ofereça seus textos para que outras pessoas leiam: seu professor, família, colegas de turma, num blog, por exemplo. Perceba que a preocupação com o ponto de vista dos leitores o auxiliarão a buscar melhorias. Crie uma rede de leitores, lendo você também as redações dos seus amigos, debatam os temas e os pontos de vista uns dos outros. Escrevendo tanto, no momento da prova oficial o seu texto será apenas mais um dos tantos que já escreveu. Será muito mais tranquilo, não totalmente simples, porém você saberá no fundo do coração que fez o bom trabalho e que sua nota será o resultado de um processo que começou com leitura, apropriação do gênero, escritas, reescrita, além é claro, muito aprendizado.

                                                                          Mauro Marcel

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Eu sou a lenda - Se você viu o filme não conhece nada do livro

        

Odeio essa gente, tipo você, eu e todo mundo que assiste a um filme inspirado em livro e saímos do cinema com o discurso pronto: “Ain… o livro é tão melhor…

É claro que o livro é melhor, como pode um filme ter tanta entrega de tempo de vida do espectador como o livro?

Geralmente o livro é um compromisso de dias, não raro meses. Alguns de impossível adaptação, como “Cem anos de solidão” ou “O grande sertão veredas”, ou ainda “O ensaio sobre a cegueira” (embora haja tentativas, frustradas tentativas), outros de recorte que desconstroem toda a obra,como “A hora da estrela”, um filme até que bom, mas que ignora o principal personagem: o narrador Rodrigo S.M.

Mas não vim aqui pra lamentar este ou aquele livro que virou filme, são linguagens diferentes, geralmente algum pequeno aspecto da obra original é privilegiado e até porque eu tenho comigo que alguns filmes se equiparam ou superam suas versões escritas.

Não acredita? Pois bem: “O poderoso chefão”, “2001, uma odisséia no espaço”, “O iluminado”, “O cemitério maldito”, entre outros tantos e sim você não precisa concordar.

Mas chamar o filme com o Will Smith de “Eu sou lenda”, a obra do genial Richard Matheson, nomeá-lo com o nome de seu conto mais popular é estupidificar quem assiste, quem assiste, porque quem apenas leu jamais se deixará estupidificar por tamanha ignomínia…

Tinha o sonho de utilizar estupidificar e ignomínia no mesmo parágrafo, me senti tão importante agora. Tanto que utilizei estupidificar duas vezes no mesmo parágrafo e duas vezes.

Agora vejam, o livro trata de um homem isolado, o último ser humano do planeta cercado por vampiros. Nele se respeita toda a mitologia vampiresca: alho, estaca, luz do sol, cruzes; não que seja obrigatório para que tenha qualidade, digo que há a qualidade apesar de respeitarem tal mitologia… tudo numa tentativa pseudocientífica, mas intrigante, apontando para o debate sobre humanidade e sim, empatia. “E se ao descobrir que todos os seres se transformaram em monstros e todos os monstros começam a caçá-lo, quem afinal é o monstro? Você?”

Esvaziado, o filme não constrói uma narrativa excelente como nas versões cinematográficas de “A hora da estrela” supracitada, ou “Apocalipse now” ainda não mencionado, mas exemplo espetacular de como é possível construir uma nova obra prima a partir de uma outra obra prima. Se não sabe, “Apocalipse now” de Francis Ford Coppola  é a versão para as telonas de “O coração das trevas” de Joseph Conrad, ambos geniais. Sinal de que é possível, quando se quer e se tem talento, além de não ceder à pressão de estúdios, sim é possível transformar um livro genial em um filme também genial.

Como curiosidade li há pouco tempo este livro do filme que há muito assisti. Não senti a menor vontade de rever o filme. E como o filme foi ruim, na época não senti vontade alguma de ler o livro. Não que seja um pré-requisito de um filme extraído do livro, levar o expectador à leitura da obra original. Mas seria um leve indício de sucesso. Will Smith e companhia mandaram muito mal. 

                                                                        Mauro Marcel

Laranja mecânica: um filme impossível.

Fã de música clássica, Alex tem uma liderança natural, é carismático. Mas você conhece essa história, foi um filme do Kubrick muito popular em seu tempo, que muita gente diz bem, e para o bem da verdade preciso dizer que poucos assistiram e dos que viram, quem pensou sobre?

Depois de cometer um assassinato Alex é preso, depois de outra morte é levado para o “Tratamento Ludovico” que visa, não a sua reabilitação, mas o esvaziamento dos presídios, já que na Londres apresentada por Anthony Burgess a criminalidade é tão desenfreada que não deixa outra alternativa para o poder constituído senão alterar a mente dos presos com uma solução drástica: “Retirar a liberdade de escolha dos criminosos, causando um trauma tal que ao simples desejo do mal, sensações horríveis vêm ao corpo como enjoos, dores, tonturas, inutilizando assim qualquer possibilidade de maldade”.

Então temos um problema: se para a sociedade tudo bem, para o indivíduo eis a questão a se desenvolver: “O ser humano ainda é um ser humano se não tem a possibilidade de escolha entre o bem e o mal?” Ou seja: se você, querido leitor de Laranja Mecânica”, não pode escolher e for simplesmente programado para realizar um comportamento pré-determinado, que mérito há na bondade que faz?

Há na obra, inclusive, a personagem de um padre que levanta o questionamento, o mais grave, talvez, de todo o romance.

“Laranja mecânica” é duro, implacável, uma narrativa que deve ser lida como livro, com a sua linguagem estranha, sua maldade atroz. E é um filme impossível porque os assassinatos, os estupros, enfim, as maldades realizadas por Alex acontecem quando o jovem conta com seus treze anos de idade. Na literatura é possível mostrar uma criança em pleno delírio púbere realizando as maiores barbaridades e não incorrendo em crime contra o Estatuto da Criança e do Adolescente ou o que for a lei que proteja as crianças mundo afora. 

Se você foi um dos poucos que assistiu ao filme, leia o livro, impossível deixar de comentar que muito daquela Londres distópica já era real na época, em Londres e hoje se configura mais que pura realidade nas grandes cidades do mundo, no Brasil inclusive, com um pequeno porém: nossa realidade é muito pior que a do jovem Alex. Falta alguém levantar-se e criar, outros defender e alguém aplicar o Tratamento Ludovico. 

Como você se posicionará?

Mauro Marcel

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Éramos seis, livro pra ler bem lido...

Acabei de ler o livro “Éramos seis” de Maria José Dupré. Devo admitir que nunca me interessei pela obra e admito ainda que não sei o motivo da minha falta de interesse. Minto. Minto muito. Descaradamente. O desinteresse veio de o livro ter sido encenado em formato novelesco e pela segunda divisão das emissoras de TV, o SBT, que em se tratando de novela, talvez figure, hoje, na terceira divisão, a série C dos folhetins. 

Pois bem, li o novelão de Maria José Dupré de uma única sentada (para quem não conhece o termo: de uma única lida, de uma vez só, do início ao fim sem parar, acho que deu pra entender…) 

“Éramos seis” um livro grandioso, fabuloso, espetacular e digno da perenidade da obra, ao menos dos que frequentam bibliotecas, salas de leitura, clubes de livro, etc. etc. etc.

A narrativa em primeira pessoa de uma mãe apresentando sua família: marido e quatro filhos. Com ela, os seis da história. Sim, você sabe contar, mas importante a forma como um a um as personagens vão tomando a cena, as suas personalidades, seu envolvimento com a dinâmica familiar: o pai distante (redundantemente patriarcal - seja lá o que isso queira dizer - vá ler pra entender), o filho mais velho (típico filho mais velho - vá lá no livro, está tudo escrito e muito bem escrito por sinal), o filho meio esquecido, que todos sabem que terá um grande futuro (será?), a filhinha querida e a ovelha negra, ou o ovelha negra, seria mais adequado.

São Paulo do início do século XX retratada: a rua Angélica, a praça da República, a avenida Paulista, o Brás, a Sé… as revoluções que sacudiram a cidade e o Brasil, a mudança de costumes, os hábitos das famílias de classe média baixa, indo cada vez mais pra baixo enquanto São Paulo se desenvolve, cresce e prospera. Cada vez mais pra cima.

Não consegui evitar a comparação desta típica família paulistana com outra de outro livro, com outras agruras, da mesma época, a de Fabiano, do romance desmontável de Graciliano Ramos “Vidas secas”. 

E por que não seria? Marido, esposa, filhos, animais de estimação e um meio específico. Em ambos, a morte de um membro da família é fator desencadeador de traumas: em um dos livros o trauma é maior. Em qual deles? Leia pra saber.
Excelente leitura. 

Por que mentir que não chorei ao fim? 

Chorei muito.

Chorei sim.


Mauro Marcel


domingo, 24 de março de 2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

Não foi naufrágio


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Não foi naufrágio
ou a partida
o meio
o tédio
o enjoo da viagem
o começo, a despedida...

a ida

nem foi naufrágio
o passo
o porto

foi tão perto
foi tão certo
foi o gosto

agosto o gosto do seu gosto

e foi tão frágil.
Foi tão denso
tão intenso.

Foi seu doce em meu começo
O seu verso em meu reverso
Foi veloz e foi tão lento

Foi a calma deste barco contra o vento
Foi o vento.

terça-feira, 12 de março de 2019

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dez livros que você não vai ler, mas deveria. (Escute o podcast clicando no link)

https://anchor.fm/mauro-marcel/episodes/Dez-livros-que-voc-no-vai-ler--mas-deveria-e37ik2/a-aahmrg

Resultado de imagem para a cabeça do objeto livro                O problema das listas não são os livros que entram, mas os que ficam fora. E este é o lugar comum dos lugares comuns de quando se elaboram listas não importando o conteúdo. Eis as premiações de cinema e música: Oscar, Golden Globe, Gramy, Emmy e tantos mais.
                Mas esta será uma lista com um tipo específico de conhecimento humano, o próprio conhecimento arquivado em texto, lombada, sinais gráficos conhecidos como letras, acentos, sinais, tudo muito bem organizado em bibliotecas que hoje passam pela maior crise da história das bibliotecas. Infelizmente.
                Nunca se leu tão pouco e nunca se leu tanto. E não raro passamos a vida como cegos, tateando o mundo visível sem nos ater ao invisível dos livros saltando aos olhos, linha após linha, parágrafo por parágrafo. Pois bem. Há os livros que deveriam ser lidos por todos e não são lidos por ninguém. E esta generalização é pelo impacto, mas muito pela realidade que os fatos impõem.
                Quantas pessoas você conhece que já leram os dez livros desta lista? Quantas pessoas você conhece que leem?
                E se você é do meio acadêmico, meu caro, estou falando de vida real: ônibus lotado, trem atrasado, trânsito congestionado, almoço em vinte minutos, sexo mecânico, amor enlatado.
                Eis os dez livros que você não vai ler, mas deveria.

  Os Sertões, de Euclides da Cunha
Resultado de imagem para os sertões                Há muitos livros de formação e exaltação de povos, o nosso é este. Muito mais de formação que exaltação é um livro que descreve pormenorizadamente o Brasil profundo, abandonado, o que nas palavras do autor “seres humanos deixados para trás”.
                Por que você deveria ler este livro?
                Se você está lendo este texto, provavelmente é um brasileiro, e se você é habitante do sertão ou do litoral (como são chamados os que habitam as metrópoles segundo o livro) tem a obrigatoriedade moral de entender como se dão os processos de manipulação, opressão e pauperização de uma, assim chamada, nação.
                Em tempos, o Nordeste brasileiro era a região mais rica do Brasil e o Sul/Sudeste região de abandono. Como se deu a reviravolta é muito explicado pela forma como se trataram os seres humanos pobres daquela região.
                Por que você não vai ler este livro?
                Por um motivo muito simples: é um texto enorme. Algumas edições contam com mais de oitocentas páginas. Dividido em três livros: O homem, A terra e A luta, muitos dos que dizem tê-lo lido apenas leram a terceira parte narrando os eventos da campanha militar que massacrou o povoado de Canudos, na Bahia.
                A falta de tempo será o grande discurso que permeará as desculpas da falta de leitura dos clássicos. Mas sempre há espaço para aquela conferida no Facebook.


Resultado de imagem para no coração das trevas O coração das trevas, de Joseph Conrad
                Impactante. “O coração das trevas" é um livro que chegou ao grande público através do filme "Apocalipse now" de Francis Ford Coppola. Mas não é por isso que você tem que lê-lo.
Na África durante a colonização, (diferente do filme que se passa no Vietnã) o autor apresenta um dos personagens adentrando o continente através de um rio e à medida que avança neste rio metafórico vai se deparando com o que há de mais torpe no interior do ser humano.
Por que você deveria ler este livro?
O coração das trevas é no fim o coração de nós mesmos. Desta forma perdemos um pouco a fé na humanidade, mas aprendemos muito mais sobre a natureza humana.  Assim nunca mais você se surpreenderá com as notícias das maldades apresentadas nos jornais de direcionamento popular.
Por que você não vai ler este livro?
As escolas brasileiras ainda não descobriram a importância de se ensinar a literatura universal e também pelo fato de o filme ter sido adaptado para o cinema de forma tão genial que ofusca um pouco do interesse pelo livro, o que na minha opinião deveria ser o contrário.
Muita gente se encanta pelo livro após o filme e o abandona poucas páginas depois. Uma pena.

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3º Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust
                Uma viagem pelo subconsciente do autor, que não raro se confunde com o seu personagem protagonista. Em busca do tempo perdido é a própria história do tempo e de como este se relativiza. Lê-lo é descobrir a vida na vida da vida. Quanto tempo contido dentro de cada segundo. A existência assim, de qualquer pessoa, de qualquer ser, seria eterna.
                Por que você deveria ler este livro?
                No século XXI fomos acostumados aos filmes de Holywood, que nos capam as reflexões empurrando ação após ação. Desta forma todas as narrativas que assistimos, lemos ou escutamos estão repletas de perseguições em alta velocidade, explosões, efeitos sonoros e visuais e não paramos pra pensar que o tempo da reflexão é o tempo humano. O nosso tempo.
                Por que você não vai ler este livro?
                Porque você vai se perder ao longo da narrativa, buscando uma história pra seguir e ao final da vigésima página vai se dar conta de que o livro é isso do começo ao fim e que não acaba nele. Existem outros seis, no total de sete volumes de uma história simples repleta de digressões. Muito pouco interessante para a geração Millenium – pra não chamar de geração ejaculação precoce.

Resultado de imagem para dom quixote4º Dom Quixote, de Cervantes
                Um livro eterno. Dom Quixote é mais vivo do que qualquer um de nós que temos data de nascimento, RG, CPF e no futuro atestado de óbito. Sua figura é eterna e estará eternamente no imaginário popular, ele e seus companheiros Sancho Pança e o cavalo Rocinante.
                Um leitor voraz de histórias de cavalaria enlouquece e galopando um pangaré, luta contra a realidade, dura realidade imposta pelo mundo. E não é tão simples assim. Há tantas camadas de leitura deste livro que talvez um dia escreva um texto apenas sobre algumas destas interpretações.
                Porque você deveria ler este livro?
                Porque é um texto sobre sonhos impossíveis, imaginação, busca, amizade, crença no espírito humano, crença na ética e moral do indivíduo. Dom Quixote, por exemplo, não enxerga a prostituta no prostíbulo, o que há ali é uma donzela linda, uma estalagem elegante, o ser humano em potência. O olho do observador Quixote é, talvez, o legado mais eloquente de Cervantes.
                Por que você não vai ler este livro?
                Dom Quixote é aquele livro tão lugar comum, mas tão lugar comum nas listas de melhores livros da literatura mundial que sempre acabamos por deixá-lo pra depois. Isso quando não nos satisfazemos na leitura de adaptações infanto juvenis no período escolar, algumas montagens teatrais horrorosas, outras nem tanto, cinema, paródias. No fim, o texto acaba ficando soterrado nesse grande entulho pós contemporâneo.

5º A revolta de Atlas, de Ayn Rand
Resultado de imagem para a revolta de atlas                Livro fundamental para entender o século XXI, assusta o modo como o colapso da sociedade ocidental é visto com décadas de antecedência. O que na época era especulação acontece aos nossos olhos cotidianamente.
                Numa distopia bem provável as maiores mentes do planeta se recusam a trabalhar, são o Atlas do título em português, os que sustentam o mundo. Sem estas cabeças o mundo se colapsa.
                Por que ler este livro?
                As maiores mentes se recusando a trabalhar é apenas um mote que em si já renderia muito assunto, mas os motivos que os levam a tomar essa atitude e perceber como personagens, os dois protagonistas especificamente, lutam para não desistir. Eis algo grandioso. Merece muito ser lido por todos.
                Por que você não vai ler este livro?
                Por alguns motivos básicos. Seu professor de esquerda vai dizer pra você que é uma obra de doutrinação direitista, o livro por vezes é muito teórico, quando por exemplo de um capítulo de mais de cinquenta páginas sobre a importância do dinheiro. E a falta de ação, sempre ela, afasta os leitores, quase eles todos.
                Ok, devo admitir. É um livro bem chato, tão chato quanto a medida de sua relevância.

Resultado de imagem para freud a interpretação dos sonhos6º A interpretação dos sonhos, de Freud
                Desde quando vivíamos em cavernas e começamos a compartilhar nossos sonhos criamos crenças, sistemas religiosos e até explicações artísticas e filosóficas para o significado seu significado. Tudo para dar relevância ao que entendíamos como parte do mistério. Estar do outro lado da vida, um pouco morto todo dia.
                Mas aí chegou Freud e mudou tudo.
                Por que você deveria ler este livro?
                Um sonho pode ser a extensão de um pensamento iniciado quando acordado, (estar acordado é chamado por Freud de estado de vigília), um sonho pode ser uma lembrança, uma resposta do organismo a uma recepção direta de nossos sentidos, como sonhar que está nu quando a coberta descobre nosso corpo. Ou pode tudo ser muito mais que isso. O que não pode ser é diálogo com espíritos, conversas telepáticas e outras crenças que trouxemos conosco desde as cavernas e enfrentamos graças às pesquisas do pai da psicanálise.
                Por que você não vai ler este livro?
                Em geral este tipo de livro é lido apenas por estudantes de psicologia, algo escrito no próprio prefácio da obra, mas devido a sua relevância, ora, todo mundo dorme; é um assunto que deveria interessar a todos.
                Mas estamos muito mais preocupados em sonhar com um número, jogar na mega sena e torcer pra que seja uma intervenção divina.

7º A origem das espécies, de Charles Darwin
Resultado de imagem para darwin a origem das espécies                Somos o resultado de um processo ininterrupto de adaptações ao meio. Somos a resposta do universo a uma pergunta que nunca saberemos qual.
                Darwin não nos disse de onde viemos, mas explicou como chegamos até aqui a partir de certo ponto do caminho.
                Por que deveríamos ler este livro?
                Devemos saber as respostas. Devemos fazer as perguntas. Não devemos temer as respostas. Não devemos calar as perguntas.
                Se você pensa que aquela imagem de hominídeos em fila até o homo sapiens é tudo o que Darwin tem a dizer, meu caro, você está completamente enganado.
                Porque você não vai ler este livro?
                Por incrível que pareça é de leitura fácil e não tão extenso, se contar o barulho que faz desde a ocasião de seu lançamento. Embora seja uma teoria comprovada, com sólidas bases científicas, ainda há os que se recusam a acreditar, agindo como o avestruz da fábula que nem existe, pois, avestruzes não agem como os avestruzes da fábula e nem há fábulas sobre avestruzes.

Resultado de imagem para livro hamlet8º Hamlet, de Shakespeare
                Shakespeare é o que há de melhor para ser lido no mundo desde que foi escrito. E nem foi escrito para ser lido, mas para os palcos. Hamlet é simplesmente o melhor texto do melhor escritor de todos os tempos.
                Por que você deveria ler este livro?
                Mesmo assistindo às peças, e temos de as assistir sempre, não podemos nos furtar de nos debruçar sobre os textos, se possível no original e nos embasbacar, deixar nossa boca abrir de admiração ao longo de cada cena, cada ato, cada frase entrando no pensamento popular.
                O enredo de Hamlet é famoso: a vingança devido ao assassinato do pai. A dúvida de Hamlet também é famosa: “to be or not to be”. Por que então não ler Shakespeare?
                Por que você não vai ler este livro?
                É a maior peça de Shakespeare em extensão, o que não quer dizer muita coisa, ainda é uma peça, portanto um teto curto. Mas não há uma cultura em nossa sociedade brasileira na leitura de textos dramáticos. Há pessoas que não sabem nem o caminho para o teatro mais próximo. No  Brasil, pobre de nós, não lemos nem o Nelson Rodrigues.

9º A Bíblia Sagrada
Resultado de imagem para a bíblia sagrada                O que todo  inteligentinho (parafraseando o Pondé) o que todo inteligentinho faz pra se afirmar como inteligentinho numa pseudo vida adulta é se definir como um ateu. Isto sem nunca ter passado pelo livro mais vendido do mundo. Ler a Bíblia, hoje em dia, parece que leva seu leitor a um universo de obscurantismo e senso comum. Muito errado pensar assim
                Por que você deveria ler este livro?
                É antes de qualquer coisa um livro histórico. Também o livro que mais influencia decisões no mundo. É citado, parafraseado, e se você já assistiu ao Porta dos fundos sabe que o texto bíblico é até vilipendiado.
                Conhecer a Bíblia pela boca do pastor, do padre ou de uma paródia não é mais necessário desde Gutemberg, o inventor do livro como o conhecemos. Não à toa o primeiro livro impresso por ele foi a Bíblia. E de lá pra cá é sim o livro mais consumido no mundo.
                Por que você não vai ler este livro?
                Você reparou que eu assinalei livro comprado e consumido, mas não escrevi que era o livro mais lido do mundo.
                Sei que serei polêmico agora, mas não me furtarei a isto. Ler a Bíblia sendo o pastor, ou o padre, ok. Sei que é uma leitura pop entre os religiosos, profissionais da fé, por assim dizer.
                Mas o povo popular médio, apenas se atém a trechos, os assim chamados versículos. Seria excelente uma cultura de leitura e estudo da Bíblia do seu começo ao seu fim. Da Gênesis ao Apocalipse.
                Infelizmente é um livro mais idolatrado que lido.
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10º A Odisseia, de Homero
                A Odisseia é o livro que narra o retorno de Ulisses a Ítaca depois da guerra de Tróia.
                Após desafiar os deuses, mostrando-se um mal-agradecido, é punido e tem que passar por muitas e péssimas, não poucas e boas até retornar pra sua família.
                E não é o que fazemos todo dia quando saímos de casa para o trabalho?
                Esposa, filhos em casa, um monstro a cada meia hora. Seduções que nos tentam a ficar por ali e dizer adeus o cotidiano. No fim, voltamos e mais um dia nos espera amanhã.
                Há milhões de interpretações para cada passagem desta epopeia que merece ser lida por todos em todas as épocas.
                Por que você deveria ler este livro?
                É simplesmente o livro fundador da literatura ocidental. Um dos pilares da cultura do ocidente. Um gigante literário apenas acompanhado por sua irmã epopeia a Ilíada, com o enredo da guerra de Tróia com o herói na figura de Aquiles.
                Por que você não vai ler este livro?
                Aí já tem um monte de desculpa clássica: é difícil, é longo, é lento, é em versos, não entendo, é antigo.
                Mas saiba que assim como todos os livros desta lista, os personagens desta obra estão mais vivos que muitos seres humanos que conheci na minha vida. E estarão respirando ainda cem anos após a morte de pessoas que você e eu conhecemos. Cem anos e muito mais.

                Acabo de me lembrar de outro livro: O cem anos de solidão, do Garcia Marques. Mas deixa pra encaixá-lo em outra lista, num outro momento.
                Por ora, estes são os dez livros que você não vai ler, mas deveria.