quinta-feira, 10 de junho de 2021

Homeschooling, ou sobre os sonhos que não são meus, ou o porquê de você deixar de respeitar minha opinião embora muito embasada em argumentos e dados empíricos.

 


            Você já pensou em como as escolas surgiram?

Não a escola do seu bairro construída no início dos anos 1980 pouco antes ou depois, ou a dos grandes centros na primeira metade do século XX.

Não quando, mas como?

              Em torno de qual ideia se estrutura o conceito de escola num Brasil de Paulo Freire e Anísio Teixeira?

E não cito os teóricos como posicionamento ideológico, mas para dizer que antes dos mesmos já havia quem pensasse um lugar onde as crianças ficam o dia todo distantes do seio familiar e próximas a outras influências: Estado, Mercado, esportes, religiões, grupos, paixões, ideias preconcebidas, ideias, etc. etc.   

              Ensinar não é algo novo e ensinar em casa muito menos. Um agricultor tinha muitos filhos porque muitas pessoas significava muita mão de obra na lavoura.

O ensino doméstico nasceu com a própria ideia de estabelecer-se em determinado lugar e plantar e colher e plantar novamente e colher novamente com mais ou menos ajuda, com mais e menos sucesso...

Agora, depois de escrito e relendo fico pensando que antes já havia a ideia de ensinar a caçar, a coletar, a preparar o alimento retirando as impurezas, e antes a ideia de construir ferramentas das mais primitivas às ainda primitivas porém mais elaboradas, a cuidar do fogo, manejá-lo e não deixar o acampamento incendiar-se.

              Um João de barro pai não ensina ao João de barro filho como construir uma casa, o instinto de preservação está em seus genes, por instinto um passarinho voa, por instinto um camaleão se protege, por instinto uma leoa caça uma gazela na savana e cruza e procria, sem aquilo que chamamos de comunicação complexa.

O que quero dizer é que há sim um nível de passagem de bastão de seres que não nós na natureza, seres que não conseguem enviar um homem para a Lua e nem pensar em como colonizar outros planetas.

              A diferença entre uma barata e um homem é que para o inseto tudo é presente, um eterno e contínuo agora, enquanto que para nós, para você que lê o que escrevo, há também um passado carregando sua consciência de remorsos ou nostalgia, e um futuro carregando sua mente de ansiedade ou sonhos.

              Os seres humanos precisam de escola porque tem passado, presente, futuro e porque se afastou da vida simples dos instintos.

Eis os motivos de haver escola: é muita coisa para administrar.

Difícil essa vida, é mais fácil ser bactéria que não planeja, não se frustra, não decepciona os pais ao escolher a profissão errada, não decepciona a si mesmo escolhendo o caminho tortuoso das drogas, não sente vergonha quando faz cocô na roupa ao passar mal na sala de aula da quinta série (acho que fui muito específico). Não aprende e não modifica por livre arbítrio a própria realidade.

Neste momento percebo que me distancio do que me trouxe ao texto, mas vou fundo pelo caminho que me direcionei, se conseguir, retorno, se não, deixo a cargo do leitor seguir, ou não, comigo até a última linha.  

Pois bem, ao falar de educação é preciso diferenciar bem o que é escola do que seja ensino. Ensinar e aprender são processos ininterruptos que devem nos acompanhar por toda a vida.

Uma pessoa que não aprende, sabemos como chamar.

Também sabemos como chamar uma pessoa que se recusa a ensinar o que sabe.

A escola, em minha humilde opinião tem que ser pensada em separado do ensinar e aprender, principalmente num século XXI de acesso instantâneo a vídeos com tutoriais, aulas com professores amadores que não são professores, são curiosos sobre determinado assunto, mas que ensinam também e faz parte da universalização do acesso ao conhecimento tão sonhado por pessoas ilustradas de distintas épocas da humanidade.



E quero que discordem de mim. Mas também que alguém concorde. Repito o que para mim nem é tão polêmico: a escola deve ser pensada em separado do processo ensino/aprendizagem.

Longe de romantizar o debate, é sabido que o Estado (todos eles) utilizam o dinheiro dos impostos para gerar benefícios para a população (ou deveria), a educação escolar é um serviço que é um benefício que deve gerar outros como professores, pessoas mais conscientes que poluem menos, mão de obra qualificada, pensadores, construtores, policiais, exército, artistas, médicos...

Em períodos de guerra a escola serviu para disciplinar (há ideias difíceis de morrer e pessoas que ainda creem que na escola sempre é tempo de guerra, um lugar de extrema disciplina, “o professor bom é aquele que consegue controlar a sala” e tome blá blá blá...).

Jurei para mim em nome de vários santos que não escreveria mais crônicas tão longas, ou ensaios, ou o que for este texto até o final, mas é que sou professor há quase vinte anos e apaixonado pelo assunto. Lembro de como imaginava a escola que trabalharia enquanto cursava letras: sonhava com os estudantes lendo os clássicos da literatura, todos libertos dos grilhões da obediência cega, e nunca me flagrei imaginando uma aula em que perguntava o que eles desejavam ser, fazer, sonhar...

Sempre mais importante na escola dos meus sonhos o meu grandiosos sonho, corretíssimo e asséptico  e, bem diminuto quase um detalhe, os desejos dos alunos.

Quem eram eles para saber o que era melhor para si?

E demorou para mudar, mas mudou. (em mim ao menos)

Se uma época é mais industrial, é legítimo formar mão de obra para a indústria. Se é uma escola inserida numa comunidade agrária também é legítimo formar pessoas que se ocupem das atividades campesinas, o que não impede alguém do campo em sonhar viver do ramo fabril e vice versa.

Alguém aí pensou em equidade? Isso mesmo. Acho que estamos na mesma página, se não, tudo bem, ainda estou aprendendo.  

É legítimo aos pais influenciarem nas decisões de vida dos filhos e os filhos desobedecerem aos pais. A vida é dinâmica e não adianta escrever roteiros e buscar segui-los, talvez sirva para uma meia dúzia de pessoas, mas na escola do início do século XXI a complexidade, os debates, o aprender, o ensinar, tudo é muito mais complexo que no fim do século XX. E muitos professores estavam e ainda estão por lá ensinando em 2021 como se ensinava em 1995 e isto é um dos maiores tabus da educação, entre os diversos que existem.

O caso é que vivemos numa época em que as informações não são obtidas apenas pelos antigos e (dizem alguns) ultrapassados canais oficiais. A informação e o conhecimento vêm de todas as partes numa enxurrada descontrolada, e é papel, hoje, da escola ensinar a selecionar o que é relevante do que não é, assim como a colaborar nessa nevasca de informação: tudo misturado: textos, imagens, infográficos, memes, vídeos, podcasts, aplicativos, redes sociais e o que mais surgir e surge.

Dentro disso, é importante saber que aprender é também entender o que merece nossa atenção. Ao longo do dia milhares de pessoas vão lutar para obter sua, vão querer te vender serviços, mercadorias e ideias.

Porque escrevo este texto, por exemplo. Quais as minhas intenções? Talvez eu queira convencer de alguma coisa não tão boa, mas como saber?

Neste imbróglio é importante pensar que a sociedade enfrenta desafios diferentes dos da mesma população de há quinze anos e enfrentará novos em cinco, dez, vinte; os problemas se renovam antes de serem resolvidos e se avolumam.

A escola de hoje precisa se comprometer com a formação do socioemocional muito mais do que a aquisição de meros conhecimentos enciclopédicos. Sempre haverá um aparelho eletrônico por perto para buscar a capital da Austrália que não é Sidney, a raiz quadrada de um número negativo que não existe ou o que for, a fórmula de bhaskara, a lista de verbos irregulares. E se não houver um aparelho por perto para buscar a informação? Faça o mesmo de quando quer escrever e não encontra a caneta. Admirável mundo novo, muito a aprender, muito a ensinar.

O homeschooling, termo em inglês que significa em tradução livre “ensino doméstico”, deve ser uma opção não apenas para o período escolar, mas para toda a vida. A internet nos aproxima do conhecimento. Ponto. Não há o que discutir. Mas também nos aproxima das maiores bizarrices e imbecilidades inventadas pelo homem.



              Aprender na escola significa, agora em plena década de vinte do vigésimo primeiro século, se relacionar com outros indivíduos e superar desafios de maneira saudável e equilibrada e isto não se aprende longe das pessoas. O ser humano se faz humano no convívio e convivência se aprende e se pratica. De frente para o computador? Um tanto. Porém muito mais no olhar, compartilhando espaços e rotinas com pessoas de diferentes faixas etárias e culturas. A internet otimiza isso, mas nunca substituirá a prática: conviver com as frustrações, por exemplo, se abrir para o novo. São habilidades que a escola tem que desenvolver nos estudantes desde crianças até a adolescência, para que o adulto acrescente vida à própria vida, qualidade aos próprios sonhos, realizações para seus ideais e autonomia aos próprios passos.

                                                                    Mauro Marcel


Link para consulta: BNCC - Base Nacional Comum Curricular


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