O ano de 2002 foi excepcional em minha vida. Não foi o ano que mudou tudo; sempre há algo, em diferentes momentos, que se apresenta como especial. Mas digo que foi assim porque, após quatro anos sem estudar o que se considera uma “educação formal”, iniciei minha graduação em Letras.
Eu me sentia o
maior homem do mundo. Em outro momento, falarei da época anterior à minha
primeira graduação. Faria outras duas depois dessa, além das especializações.
Cursar Letras foi um sonho de infância, o único curso que quis fazer quando
descobri que existiam universidades.
Muita água
passou por baixo da ponte, muita areia caiu da ampulheta, mas aquela primeira
faculdade foi especial.
Totalmente
presencial com campus e tudo, verdadeira velha guarda.
Eu era jovem,
inexperiente, tinha amigos de infância ainda por perto, e todos lutávamos por
ideais e uma colocação profissional.
Muita coisa
aconteceu e mudou minhas relações com meus amigos, mas falando do sentimento
que tinha à época: me sentia parte de um grupo, uma pessoa estúpida próxima a
pessoas geniais. Era o mais ignorante de todos. Aprendia, aprendia, aprendia,
aprendia muito. Escutava todas as conversas, quase não falava. Aprendia. Sim,
vou repetir: aprendia muito.
Se um livro
era indicado por qualquer um dos meus amigos, eu corria a à biblioteca para ler,
elas ainda existiam. A leitura puxava outros autores e, assim, consegui ler, não
vou dizer tudo, mas li muito Dostoiévski, Machado de Assis, Luís Fernando
Veríssimo, Millôr Fernandes, Eça de Queirós, Balzac, Dickens, muitos mais e
livros cultuados como A Revolução dos Bichos, Admirável mundo novo, 1984,
Em Busca do Tempo Perdido, As vinhas da ira, Esperando Godot. Aos
poucos, fui me tornando a pessoa que sou, à medida que buscava ler mais e mais.
Não me
envergonho em dizer que invejava meus amigos. Era uma inveja das coisas boas.
Nunca pensei que não merecessem o que tinham; eu apenas queria ter também. Um
deles sabia inglês e foi morar na Europa. Outro sabia se comunicar
grandiosamente e foi trabalhar como vendedor em uma loja de artigos musicais,
fez carreira. Um terceiro tinha dons de liderança e organizou, junto ao
Movimento Negro, representado por uma entidade não governamental, um cursinho
comunitário voltado para afrodescendentes e pessoas carentes sem condições de
pagar por um cursinho pré-vestibular.
O caso é que
esse cursinho chegou tarde para mim, que era mais do que carente. Eu já havia
iniciado minha graduação em uma universidade particular e, como era fã dos meus
amigos, aceitei dar voluntariamente aula no cursinho comunitário. A minha ideia
era dividir um pouco do que eu estava aprendendo, ajudar as pessoas a conseguir
o que eu não tive – uma graduação em universidade pública – e ganhar
experiência como professor, o que me ajudaria quando, enfim, começasse a dar
aulas para ganhar a vida.
O eu de hoje
veria com estranheza o fato de meu amigo, dirigente do cursinho comunitário
para pessoas negras e carentes, não ser nem negro nem carente. Era japonês e
conseguiria pagar pelo cursinho se quisesse.
Não queria.
Depois de
tantos anos, relembro tudo com nostalgia. Tinha muito da inocência da máxima:
aos vinte, todo mundo é comunista porque tem coração; aos trinta, só é
comunista quem não tem cérebro. Aos trinta, eu já não era comunista. Nunca me
declarei como tal, mas era aquilo: de tanto ler, tudo o que nos cercava — e o
que me cercava eram os escritores de esquerda —, eu nem sabia que era possível
ler outra coisa.
O peixe não
sabe que está na água. Eu era um peixe num aquário de livros vermelhos. (Não me
refiro à grande literatura citada parágrafos acima, me refiro a textos políticos
e acadêmicos que chegavam a mim).
E foi assim
que tomei contato com o Partido dos Trabalhadores.
Eu, que fui
trabalhador de fábrica por mais de sete anos, me inseri no universo da política
partidária ainda na época da fábrica, mas longe dela, em um cursinho para
afrodescendentes e pobres.
Um dos
professores do cursinho comunitário era filiado ao partido e reunia, em sua
casa, a maior biblioteca particular com a qual eu já tivera contato. Hoje,
depois de velho, vejo com estranheza e desconfiança um adulto quarentão cercado
de adolescentes. Mas, naquele tempo, ainda jovem, eu o admirava e via nele um
tutor. Ele era professor, e eu estava estudando para ser professor.
E funcionou.
Aprendi a dar
aulas sendo professor de cursinho, experiência que me ajudou muito depois que
assumi minhas turmas em uma escola pública estadual. Não teria conseguido sem o
serviço voluntário que me predispus a fazer.
Foi então que
chegou até mim um livreto com o estatuto do Partido dos Trabalhadores.
Apaixonei-me pela ideia. Até aquele momento, eu pensava no PT como uma
experiência sindical. Havia lido muito sobre a figura de Lula e as greves do
ABC, mas, ao entrar em contato com aquele livreto, percebi que se tratava de
uma organização preparada para acolher pessoas e muito bem-organizada. Havia a
previsão de grupos de estudo, grupos de minorias e decisões tomadas em
assembleias. Nenhum candidato iria a um pleito sem antes ser aprovado em prévias
realizadas após assembleias, por exemplo.
Estava tudo
lá.
Não havia, aos
meus olhos, indícios de corrupção. Era um partido com um estrito código de
ética. Qualquer indício de irregularidade deveria ser investigado; os
responsáveis, punidos, expulsos e denunciados. Era o ano da eleição vitoriosa
de Lula, e lembro bem da primeira reunião de que participei após minha
filiação, reunião de organização da futura campanha.
Um dos
companheiros falou sobre financiamento e disse que começariam a pagar os
filiados e a contratar pessoas para panfletar. Um dos presentes se revoltou,
argumentando que aquilo não era bom. Lembro-me da discussão como se fosse hoje:
— Nós nunca
pagamos. É errado.
— Mas agora
temos dinheiro, podemos pagar.
— Isso é
errado.
— Vai ter o
dinheiro do fundo de campanha. Vamos pra cima e, desta vez, vamos ganhar a
eleição.
E ganharam.
O resto é
história.
Sem perceber,
eu acabava de presenciar o fim do Partido dos Trabalhadores como o conhecíamos.
Pagar para
panfletar significava que o PT — um partido diferente, que tinha em seus
quadros figuras históricas e só filiava por indicação — começava a mudar. Pagar
para fazer campanha, em termos superficiais, significava dizer que, no mínimo,
era um partido igual aos outros. No fundo, se mostrou pior.
O partido
ideológico deixava de ser ideológico para seus filiados mais humildes. Digo
isso porque sei hoje, após mais de vinte anos, que talvez nunca tenha sido
puramente ideológico para aqueles que compunham sua cúpula: pessoas que fumavam
charutos cubanos, passavam férias na Europa, bebiam cerveja importada e andavam
de carro do ano — às vezes alugado em nome do partido, para não dar muito na
cara —, até que, em determinado momento, perderam toda a vergonha e a decência.
Falo porque vi e quem estava comigo viu também.
Minhas
críticas nem tinham chegado tão longe. Em uma conversa com o professor amigo
que me motivara a filiação, comecei a criticar o governo. Sequer tocara no
assunto corrupção; questionava apenas o rumo que as coisas estavam tomando.
Podia criticar. Estava no estatuto.
O amigo disse
que eu não podia criticar porque precisávamos mostrar unidade.
Mais tarde, ao
elaborar uma crítica mais forte e usar uma expressão de que já não me lembro,
fui alertado de que havia sido ‘politicamente incorreto’. Foi a primeira vez
que me acusaram de sê-lo. Não seria a última.
Um caldo de
moralismo e perseguição de ideias começou a se espalhar pelo debate político de
então. Lula venceu. Eu me tornara professor. Cada um dos meus amigos seguiu seu
caminho, e eu tinha minhas turmas. Continuava sendo alertado pelo meu, agora
colega professor, de que precisava tomar cuidado com o debate.
— Não podemos
enfraquecer a luta.
Que luta?
A minha?
De quem?
E fui
observando que havia cada vez menos trabalhadores nas decisões dos
trabalhadores.
Quando Lula se
autodeclarou candidato à reeleição, perguntei se não haveria prévias.
— Como assim,
prévias? Lula é nosso líder.
Quatro anos
depois, ele indicou Dilma Rousseff como sua candidata, sem prévias,
unilateralmente. Eu havia lido o estatuto. Estava lá: a indicação de candidatos
a cargos deveria passar pelo crivo das assembleias. A escolha unilateral, a meu
ver, era uma decisão equivocada, para dizer o mínimo. Feria o estatuto. Havia a
questão de que dois terços do diretório nacional poderiam indicar o candidato
sem a necessidade de prévias para o cargo de presidente da República, mas todos
sabiam que não era uma indicação do diretório nacional, mas do líder máximo do
partido.
E foi assim
que o PT foi se transformando no que é hoje: um partido que não conversa com as
pessoas. Sem assembleias, sem debates.
E sem debates
dificilmente surgem novas lideranças. Como, de fato, não surgiram.
Desde a ágora
grega, as pessoas se reúnem em espaços públicos para decidir o que há de melhor
e de pior entre as escolhas. Ideias surgem, pessoas surgem.
O debate afina
e desafina as pessoas, como nunca disse Guimarães Rosa.
E sabe quem
propõe debate? Acho que vocês sabem.
É
impressionante que, após a inserção de mais disciplinas de humanas no currículo
escolar, o nível do debate entre os jovens tenha ido ao chão.
Não é o
principal motivo, mas é um dos que aponto: quando todos se sentam ao redor de
uma mesa para concordar entre si, ninguém aprende nada. Ninguém melhora,
ninguém evolui.
E pasmem! É
exatamente o oposto do que era proposto — ou é, nem sei mais, faz tempo que não
leio nada ligado ao Partido dos Trabalhadores —, exatamente o oposto do que
propõe o estatuto. O material que li era um convite ao debate, à inclusão a
todos. Debater pressupõe o embate de ideias diferentes.
Quando entrava
nos debates dos grupos de que participava, era execrado por questionar ideias
tidas como dogmas; quando apontava esse pensamento dogmático, diziam que eu
precisava ter cuidado com a minha forma de pensar.
Pois bem, sou
professor de Língua Portuguesa e, portanto, também ensino redação. Do meu
“local de fala” digo que não é possível redigir um texto de qualidade sem se
abrir a novas ideias, sem o embate, sem questionamentos.
Existem
lugares onde o debate não é fomentado, ambientes pouco democráticos, pautados
pela obediência. Jamais imaginei que seria tão oprimido por levantar
divergências em universidades, núcleos de debates políticos, companhias de
teatro e fóruns de internet.
Fui difamado e
ofendido dentro da Universidade Federal de São Paulo pelo simples fato de não
concordar com algumas ideias de colegas de turma — e nem eram ideias políticas.
Eu era um ex-trabalhador de chão de fábrica agora professor e tinha de ouvir de
um menino de 20 anos de idade que nunca tinha comprado o próprio papel
higiênico, o que ansiava a classe trabalhadora. Segundo pessoas assim, eu não
sei o que quero; quem sabe são eles.
Aprendi com
meus amigos o quão gostoso é um debate em que todo mundo levanta a voz e sai
depois pra tomar uma cerveja, ou bebe ainda durante a prosa. Em uma greve na
universidade houve mesmo agressão a “dissidentes”.
E olha que nem
estou falando de corrupção, que se tornou endêmica e de impossível defesa.
Seria assunto para outra crônica, já escrita por milhares de pessoas.
Estou dando
voltas em meu texto, como é comum ao meu estilo, para dizer algo simples: hoje,
há debate em todo lugar, mas não nos núcleos de debate do Partido dos
Trabalhadores. Não com ideias diferentes, antagonicamente diferentes.
Vão dizer que
estou mentindo, que estou sendo raso, incompleto, impreciso, direitista,
fascista, preconceituoso, aliado da direita, traidor, pobre de direita. Quando,
na verdade, o que faço, com a maior humildade do mundo, é questionar. Posso
estar errado, me mostrem onde estou. Debatam comigo, debatam minhas ideias, não
me chamem de fascista apenas por questionar o que se apresenta como alternativa
única. Ensinem-me o que não sei, mas valorizem a minha história, porque não foi
lendo gibi do Recruta Zero que cheguei até aqui.
É o que os
professores fazem: estudam, aprendem e, por aprender, ensinam.
Nunca parei de
estudar e, por conseguinte, tornei-me o homem que admiro. Nem sei mais por onde
andam alguns dos personagens do início desta crônica. Outros, trouxe comigo
pela vida, e tenho muito orgulho disso.
Acontece que,
ao longo da minha história, fui mudando e me aprimorando, mas continuei com o
mesmo ideal da juventude: o ideal de justiça social. Política, para mim, tem a
ver com tornar a vida das pessoas melhor, aliar-se a boas ideias e combater
comportamentos prejudiciais. Tem a ver com ler o mundo nos livros, escutá-lo
nas canções, assisti-lo nas telas, comparar, mudar e transformá-lo para melhor.
Mas,
francamente, como defender um partido dos trabalhadores composto por pessoas
que nunca tiveram um dia de trabalho na vida, sem um único registro em
carteira?
Recorri ao meu
partido e, depois de algum tempo, já não me identificava com ele. Não era mais
dos trabalhadores. E tudo bem. Só não digam que estou errado em procurar os
meus pares: trabalhadores das fábricas, como eu fui; gente que acorda às quatro
da manhã, pega o ônibus lotado e, na hora do almoço, vai comer e descobre que a
marmita azedou. Este é um local de fala legítimo e deve ser valorizado.
Temos então o PEUBPPQCSGPSPP. O partido dos estudantes
universitários bancados pelos pais, que criticam seus genitores por suas
posições políticas, prova de que não há diálogo também em casa. (Estou
exagerando, mas vá lá, só um aforismo, permitam-me!)
O próprio PT
sofreu seus cismas, dando origem aos caricatos PCO, PSTU e Psol.
Pelo visto,
não fui apenas eu que não fui acolhido.
Mano Brown
disse que o PT se afastou da base. À minha maneira, digo a mesma coisa. E
culpar Bolsonaro ou o papa pelos próprios erros não construirá um país melhor.
É preciso
coerência.
(Oi, Rui
Pimenta, como você está?)
É preciso
modernizar. Não recorrer a velhos expedientes. Ninguém mais acredita que o fim
do capitalismo seja a solução para o fim da pobreza. É possível declarar isso
em palestras, escrever em livros, falar a respeito e defender esse ponto de
vista em debates.
Ainda há
pessoas defendendo o fim do capital, a queda do sistema, o colapso da antiga
ordem. E sabe por quê? Porque é bonito. Porque é fácil de entender. Porque fala
ao coração. Porque empolga.
Em um livro,
em um filme ou em uma canção, falar mal do livre mercado é lindo. Serve como
slogan. Mas é inegável, a meu ver, que os benefícios materiais que conquistamos
vieram da ampliação do livre mercado. Quanto mais livre, melhor. Só não enxerga
quem não quer, quem não consegue ver ou quem ganha alguma coisa com isso.
Tanto que
milhões de pessoas se arriscam todos os anos ao fugir de países de economias
planificadas, buscando um futuro melhor em países com economias de livre
mercado, como os Estados Unidos e a Austrália. Não há fuga de cérebros pra Cuba
e Coreia do Norte.
Os movimentos
sindicais foram e são essenciais para o mundo. Sem eles, ainda haveria crianças
limpando chaminés, agarradas pelos pés; jornadas de trabalho de mais de doze
horas diárias, sem fins de semana, sem férias. Mas convenhamos: o sonho de um
jovem do meu tempo não era derrubar o capital. Era conseguir um emprego na
Ford, na Scania, em algum laboratório farmacêutico famoso. E sabe por quê?
Porque, quando temos um bom emprego, a vida melhora.
Quando temos
um bom emprego, compramos mais. Buscamos um bairro melhor para viver ou
reformamos a casa em que moramos. Podemos pagar aluguel em um lugar mais caro,
comprar doces, um carro, contratar serviços, viajar. Um emprego melhor nos
permite guardar dinheiro e, depois de algum tempo, investir e gerar empregos
proporcionando a outras pessoas o mesmo que nos foi proporcionado.
A parca
industrialização brasileira nos deu um pequeno vislumbre disso no fim dos anos
1990 e início dos anos 2000, em um contexto favorecido pelos efeitos do Plano
Real e pelo boom das commodities.
É por isso que
os tiozinhos votam em Bolsonaro e as tiazinhas se dizem de direita. São pessoas
que viveram numa época em que as escolas ainda tinham certa organização e
autoridade e que relacionam essas características à prosperidade. Colocam tudo
no mesmo balaio porque assim é mais fácil entender e explicar o mundo.
A isso se
somam a utilização maciça da internet e das redes sociais, além da influência
das igrejas evangélicas, pentecostais ou não.
O Brasil do PT
ainda discute em diretórios acadêmicos sem convidar para o debate a menina de
vestido longo, trança nos cabelos e Bíblia na bolsa. E deixa esses espaços tão
pichados e sujos que acaba afastando a menina das tais más companhias que seu
pai apontara: maconheiros, identitários etc.
Todos têm o
direito de ser como são, mas muitos desses ambientes parecem não fazer a mínima
questão de agregar diferentes formas de pensar.
E sabe onde
essa menina vai socializar? Na igreja, sob a orientação do pastor. Às vezes, um
cara bem-educado; na maioria das vezes, um total idiota, tão ou mais idiota
quanto o maconheiro do diretório acadêmico.
Acontece que o
sujeito do diretório não reconhece o prestígio social do pastor, e o pastor não
reconhece o prestígio social do presidente maconheiro do diretório. E sabe o
que acontece? Vinte anos depois, temos milhares de pastores com dezenas de
milhares de seguidores, igrejas surgindo, desaparecendo, unindo-se e elegendo
pessoas novas. Igrejas formando, pasmem, politicamente as pessoas.
E temos o
diretório no mesmo lugar. Assim como o Partido dos Trabalhadores, permanece
tomado pela pauta identitária, pauta na qual, a meu ver, nem mesmo seus líderes
históricos acreditam. Defendem-na porque se apegam a ela como bastião de força
e poder. Defendem-na porque não há ali trabalhadores, há muita juventude e
idealismo adolescente direcionados à própria identidade.
Não venham me
dizer que Lula acredita que uma pessoa trans e uma mulher sejam a mesma coisa.
Ele vai dizer que sim. Vocês sabem, eu sei, todos sabem que ele pensa que não.
E isso vale para esse e tantos outros temas.
Porque Lula é
como nós, brasileiros: conservador.
Mas, como todo
brasileiro, também gosta de dinheiro e poder. Você também, leitor brasileiro.
Todos nesta terra tupiniquim gostam de ter um vereador amigo, conhecer o dono
de uma fábrica, uma pessoa poderosa, encontrar alguém que tenha uma lancha e
que nos leve para navegar em Ilhabela.
Já levou? Não.
Mas o que importa é conhecer, ter influência, ficar próximo ao poder.
Criticamos
Janja, mas somos iguais a ela. Quem de nós, tendo um cartão corporativo com
saldo infinito, se hospedaria num albergue em nome da saúde do erário público?
Talvez um ou
outro. Eu, quem sabe. Mas, com sinceridade: nenhum luxozinho? Em nenhum
momento? Tanto poder e não poder utilizar?
Enfim, estou
me estendendo demais. Sei que não serei lido por nenhum militante de esquerda;
quiçá nem pelos de direita. Talvez nem pelos meus amigos. Com certeza, não
serei lido pelo professor que foi meu tutor no início da docência.
Ele foi um
grande norte para mim quando comecei a trabalhar com o saber. Segui suas
orientações e me tornei um grande professor. Melhor que ele, ouso dizer sem
nenhuma humildade. Tenho muito orgulho da história que construí na educação. E
sobre essa história não quero escrever apenas uma crônica. Talvez um livro.
Em outro
momento.
Ao PT, resta
mais do que voltar à base, como disse Brown. É preciso seguir urgentemente o
próprio estatuto, a cartilha de filiação que li em julho de 2002.
Se quiserem, e
estiverem sem acesso à Internet, ainda tenho uma cópia. Como souvenir. Sou um
saudosista.
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