Opinião, conto, fotografia, poesia, vídeos, humor, crítica e, principalmente, mas não unicamente, crônicas. Autor: Mauro Marcel - escritor, poeta, historiador, professor, psicopedagogo e fã de trivialidades...
domingo, 20 de janeiro de 2013
sábado, 19 de janeiro de 2013
Drops Rock 6 - Mentiras do Rock
Mas há mentiras no que dissemos também, cabe a cada um descobrir, pesquisar, duvidar.
O excesso de fé atrasa qualquer ser humano.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Drops Rock 7 - Bandas Novas - Movimento cultural
Estou falando do rock como movimento cultural, assim como Romantismo, Modernismo, Impressionismo. Ainda há quem escreve livros românticos, mas o Romantismo (movimento) acabou. Então o Rock, como movimento, para mim começa com o início dos Beatles e termina com o tiro na cabeça de Kurt.
O rock já existia nos anos 50 e antes disso com outros nomes, mas a formação de um ambiente prolífico tem no ano acima citado uma boa data, data em que o estilo musical tratado não é apenas entretenimento, mas movimento cultural.
Acreditar que uma banda hoje é o mesmo que seria nos 60, 70 ou 80 é o mesmo que comparar Manoel Carlos com José de Alencar. Ambos são românticos, ambos escrevem novela, mas apenas Alencar é Romântico.
Ótimo tema pra discutir em mesas de bar (ou no meio acadêmico)...
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Portas abertas
num piscar de
olhos
um sorriso
as celas
e cruzar
olhares,
te vejo
abrindo as portas
abrindo e
estendendo as mãos
e sem
entender
te vejo
cruzar
e cruzar e
cruzar
o grande mar
então te vejo
abrir janelas
o armário,
potes, latas,
pacotes e
mais pacotes
te vejo
cruzar e descruzar as pernas
costura um
rasgo num velho vestido
acaricia uma
peça íntima
e pensa em
mim
em mais, em
pi, em si.
Há mais
alguém.
Então te vejo
reabrir os olhos
o quarto, as
pernas
um ai, um
mais e mais:
cruza os
dedos, as mãos,
os braços
e neste mesmo
olhar o silêncio se abre
e abre novas
perspectivas.
Um rasgo aberto no peito.
No leito exposto um rasgo.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Personagem famosíssimo nas altas e baixas rodas.
Criado pelo meu grande amigo e parceiro de trabalho Fábio Santos Sant'Anna...
O acesso para o blog dele está no link da postagem abaixo:
Ia fazer uma resenha sobre os 50 tons, mas acho que a charge ao lado é melhor que qualquer texto que eu poderia fazer sobre o tema.
Interrogatório
Eu tava venu televisãu. O
quê? Faz alguma diferença? Faz? Sei lá... Novela, filme, (...) talvez. Porra,
eu num lembru. É. Dessi jeitu.
Pára di falá, porra !!!
Cansei. Cansei. Nãu queru
mais falá nada hoji. Nãu. Pára. Disliga essi gravadô merda...
(...)
U quê? Du começu?
Eu tava sentadu nu sofá da
minha casa quanu a campainha tocô. Era quais oitu da noiti, sei dissu purque
minha vizinha gostosa ainda nãu tinha passadu na rua gritanu cu maridu dela.
Ah, tá bom. Us fatu. Us
fatu. Tá. Eu nãu sei mais u qui cês qué qui eu fali. Eu já não confessei?
Fui eu. Fui eu.
Eu matei. Fui eu qui
matei.
Nãu.
Foi assim: era quais oitu
da noiti i meu pai chegô im casa. Tava bêbadu.
U cheiru.
Ah, cê sabi qui alguém tá
bêbadu quanu...
Ô merda. Eu convivia cu
cara, porra. Quandu si convivi cum alguém eu achu qui dá pra sabê quanu a
pessoa tá ou nãu di porri.
Tá. U cheru. A camisa
aberta. Ele tava falanu imboladu e tamém tava gritanu.
Sim. Me deu raiva sim.
Nãu. Já falei procês qui u
motivu nãu foi essi.
Mas cês qué sabê comu foi
ou qual foi u motivu?
Sei lá. Achu qui uma coisa
levou à outra.
U fatu é qui eu não lembru
di tudu. Até a parti do telefonema eu lembru.
Eu tava veno televisão i a
porra du velhu cruzanu na minha frenti. I eu cu saquinhu já na lua.
Intãu eli veiu i mudô di
canal. Nãu. Nãu foi purissu. Eli fazia issu todu dia.
Mas aí ele começô a
vomitá.
Na sala porra. Ondi é qui
a genti tava?
Depois? Aí eu pensei qui
eli ia agí cu mínimu di decência e ia levantá e limpá aquela merda qui tinha
feitu e qui duranti uns cincu ou dez minutu cuntinuô fazeno.
Nãu. Num limpô.
Então eu levantei da sala
e fui pru meu quartu. Mas a porra du cheru du vômitu du velhu tava mi
perseguindu. I u filhu da puta continuava gritanu. Já falei qui eli desdi
quintrô não parava di gritá, né?
Foi aí qui eu peguei meu
telefoni i liguei pra Sônia. An? A minha namorada.
Aí apagô tudu. Num lembru
mais de nada.
(...)
É. A campainha tocanu. Era
u vizinhu du ladu perguntanu u purquê da gritaria.
U qui eu respondi? Ora
essa, mandei eli tomá no oio do cu i continuei picanu u corpu.
Já dissi qui não lembru.
Acho que foi cu pedaçu di pau queu arranquei da cama.
U sangui na minha boca? É.
Foi na hora da raiva.
Cê acha mesmo que é fácil
matá um home à paulada? Já tentô?
U filhu da puta nãu
morria, entãu eu fui ficanu cu raiva, cu raiva e comecei a mordê, a mordê, a mordê...
É. Dissu eu lembru. U
gostu di sangui na boca. Mistura di azedu, álcu i doci.
Gostei.
Faria.
Igualzinhu. Tudu di novu.
Possu í agora?
U quê? Di novu? Qui mais
cê qué sabê, porra?
(Publicado originalmente em "A divina tragicomédia humana" de Mauro Marcel)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Avestruz, Nelson Motta e estômago
Fazia muito tempo que não acompanhava ficção na TV, as opções são fraquíssimas e não adianta tentar valorizar o produto nacional quando o fadado produto se limita a novelas mal escritas, mal produzidas, atores que me matam de vergonha alheia.
É preciso muito boa vontade pra ignorar tantos defeitos.
Sou do tempo de novelas antiquadas, todos se sentavam ao redor do aparelho e a TV era PB, o que significava preto e branco, mas a imagem era cinza. Era muito bom assistir televisão naquela época, não tínhamos Full HD, mas tínhamos Dias Gomes escrevendo Pagador de promessas, Roque Santeiro, O bem amado e seus etc.
Não me permito ataques de saudosismo, mas voltei ao youtube, (nós agora temos este mecanismo maravilhoso que por si acaba com qualquer ataque passadista), fui até o youtube pra comprovar que a TV da minha infância era péssima também e me frustrei, ou antes, comprovei o que já sabia instintivamente: a TV vem piorando com o passar dos anos e olha que já criticavam o baixo nível das programações desde há muito, desde o início.
Como posso ficar feliz assistindo o que quer que esteja passando hoje no horário "nobre" sendo que havia Beto Rockfeller, Pecado Capital, Vale tudo na TV PB de antigamente.
Quem quiser que compare, está tudo muito ruim e o ruim é considerado de nível elevadíssimo, pois não vejo ninguém reclamando, mudando de canal, ou mesmo fazendo o absurdo de desligar a TV.
Há tantos recursos hoje: DVD, CD, vídeo game, cinemas, teatro, TV a cabo, nem lembrava que havia novelas.
Não lembrava até ouvir falar que haveria uma minissérie na globo baseada num livro do Nelson Mota, que não é conhecido por sua literatura, mas que, por ser tão sólido crítico musical, me levou a assistir o produto global feito com sua obra: "O canto da sereia".
Se Nelson Motta for tão bom crítico de TV como é musical provavelmente deve estar com a cabeça enterrada na areia como um avestruz de pernas muito longas e esquisitas. O canto da sereia só não foi uma série pior porque foi de tiro curto, apenas quatro episódios. Mas quanta ruindade em apenas quatro momentos.
Mas não é daquele ruim bom de assistir, às vezes uma produção é tão ruim que dá gosto de ver, a produção sabe o que está fazendo e não têm medo de parecer ridículos, porque é assim que tem que ser. O que não é o caso da Íris Valverde com sotaque baiano, um elo perdido entre Ivete Sangalo e Cláudia Leite.
O Marcos Palmeira como detetive particular sonhando com a protagonista e sua melhor amiga na cama agarrando-o, numa cena que causou ereções na platéia, mas que não tinha nenhuma função à narrativa, assim como o fato de haver uma caso de amor entre Sereia e sua produtora, ou o detetive Gustavão (Marcos Palmeira) transar com a produtora logo após ela se declarar lésbica: deve ter sido pra tirar a prova pra si mesma. Ou pra atender a cláusula que exigia que em cada episódio apareceria certo tempo de nudez, tanto da protagonista, quanto de qualquer mulher que aparecesse ao redor da Sereia.
Chegaram ao cúmulo de mostrar a Mãe de Santo transando com o ex-namorado da Sereia, que transou com o marido da mãe de santo, quase uma suruba, mas sem gosto, sem enredo, sem sexo, sem nexo.
A coragem da produção está no fato de a protagonista levar um tiro logo no primeiro episódio, raro uma história em flashback pelas paragens brasileiras, mas o que se segue é tão ruim que não dá nem vontade de descobrir quem matou, se assisti aos quatro dias foi pela esperança de que algo aconteceria e pelo mesmo motivo que todo marmanjo assistiu, ver a Íris Valverde pelada, dupla frustração. Essas atrizes de hoje têm de aprender a ficar peladas em novelas com a Vera Fischer, a Isadora ribeiro, até a mel Lisboa.

E nada acontece. Quem mata a Sereia é o gay da história (todo enredo global tem que ter um gay - nada contra, mas cotas têm limite, mesmo o gay tendo sido feito pelo competentíssimo João Miguel de filmes maravilhosos como "Estômago" e "Cinema, aspirinas e urubus").
O auge da ineficácia da construção do enredo foi o fato do marqueteiro do Governador da Bahia, que era o mesmo da cantora (esqueci de mencionar que ela era cantora), o marqueteiro foi assassinado e o crime fica em suspenso, possibilidades se abrem e são abandonadas.
E pouco importa se no livro foi assim, a mídia é outra, outras necessidades se abrem, por isso ninguém me chame de pedante quando eu falar que não gosto de novela, odeio Rede Globo e não perco meu tempo com TV aberta.
Se você não entendeu o que eu descrevi acima, não se preocupe, não me dei ao luxo de revisar o texto, assim como os produtores desta bomba narrativa não se deram ao trabalho de fazer uma produção com um mínimo de qualidade estética. São capazes de fazer algo ainda hoje, me lembro da adaptação do "Dom Casmurro" feito há alguns anos, primoroso. Se bem que esse não assisti, ainda bem que existe youtube: pra eu assistir ao Dom Casmurro após tê-lo perdido, assim como trechos das novelas que citei acima, filmes do mundo inteiro, curtas metragens, até filmecos produzidos por mim. Tudo competindo com o Canto da Sereia, que está lá com certeza, on line, quiçá para sempre.
Sem querer parecer mais pedante, deixa eu voltar para o meu Philip Roth. Não sabe quem é? Joga no google.
Ah tá... Por que escrevi esse texto? Pra que não tenha sido um simples exercício de futilidade assistir a tamanha porcaria. Pelo menos isso...
Por Mauro Marcel
Por Mauro Marcel
domingo, 13 de janeiro de 2013
As mulheres nuas de Santarém
As mulheres nuas de Santarém lutam
pelo direito de permanecerem vivas e pelo direito de gozarem desta vida. Sabem
que o futuro a elas pertence e que é um exercício lúdico o ato de pensar.
As mulheres nuas de Santarém acreditam
que governo e população juntos podem lutar mais pelo engrandecimento cada vez
maior de sua nudez. Acreditam na artificialidade coerente das propostas dos
cirurgiões plásticos, mas ojerizam os softwares que escondem os defeitos
celulíticos de uma ou outra pretendente à mulher nua.Essas são chamadas por
elas de falsas mulheres nuas e recebem a cada nova reunião da Liga das Mulheres
Nuas de Santarém uma dose cada vez maior do puro escárnio.
As mulheres nuas de Santarém fazem
doações, mas odeiam o paternalismo.
Fazem amor pelo amor.
Fazem amor pelo sexo.
Fazem amor pela grana.
“As mulheres nuas de Santarém estão
para o mundo como a alma está para o corpo”. Esse é o lema maior da Liga das
Mulheres Nuas de Santarém.
Trocam muito de mesa.
Trocam muito de cama.
Experimentam todos os gostos do mundo
e optam sempre pelo mais extremo.
Fazem verdadeiras viagens diplomáticas
pregando aos quatro cantos do mundo a ideologia da Liga das Mulheres Nuas de
Santarém.
Lutam pela total liberdade e por fim querem
o direito pleno sobre vida e morte de qualquer ser vivo.
As mulheres nuas de Santarém querem
matar as mulheres vestidas de Santarém.
Por Mauro Marcel [Publicado em "A divina tragicomédia humana"]
Por Mauro Marcel [Publicado em "A divina tragicomédia humana"]
sábado, 12 de janeiro de 2013
O cômodo mais cômodo
Entrou com a revista embaixo do braço,
reparou em todos os detalhes: o chuveiro, a saboneteira, o espelho, o creme
dental close up, os azulejos brancos e alvos, o forte cheiro de pinho oriundo
do desinfetante que sua mulher utilizava para limpar aquele ambiente, reparou
na pequena e pudica janela e no papel higiênico Primavera. Ah sim! Havia papel higiênico,
então o cenário estava formado: tinha verdadeira ojeriza em fazer aquilo e
depois sair gritando pela casa pa-pel-hi-giê-ni-co!!! E ali seria pior porque
não havia mais ninguém em casa, sua esposa só chegaria no outro dia, ou seja,
teria de sair casa afora com a bunda suja atrás do sagrado instrumento de
limpeza.
Mas já que havia tudo o que podia
esperar de um banheiro reparou naquilo que não reparara ainda: a privada. Olhou
com um pouco de sarcasmo e ironia; eu diria até que com um certo ar de superioridade
racial: “um algo feito tão simplesmente para...”
Deixa pra lá.
Abaixou as calças, virou e sentou.
Abriu a revista numa página qualquer e
começou a atender ao chamado fisiológico.
Não sei se leu, mas quando terminou
foi com nojo que olhou para baixo, cuspiu, abaixou a tampa do assento, higienizou-se,
deu a descarga preparou-se para tentar sair do banheiro após, é óbvio, levantar
a roupa.
Digo tentar porque quando foi abrir a
porta não conseguiu. Forçou a maçaneta, deu murros, gritou socorros, é, gritou
socorros, pontapés, mais murros, socorros, socorros e nada.
Não acreditou. Estava preso dentro do
próprio banheiro.
Sabe aquelas coisas que só acontecem
com os outros? Estava acontecendo com ele.
Não se desesperou. Não perderia o
controle. Era só esperar por sua esposa – a Lúcia - ela então chegaria e
abriria a porta por fora. Pensou no ridículo da cena, porém, devido às
circunstâncias, não havia outro modo.
Sentou na privada e sentado esperou,
esperou, esperou. Dormiu. Não sonhou. Acordou. Não sabia quanto tempo se
passara, mas viu pela janela que anoitecera. Estava há mais de oito horas no
banheiro.
Ninguém em casa ainda. Novamente
tentou arrombar a porta. Murros. Chutes. Pontapés. Joelhadas. “Ai”. Pedidos de
socorro. “Socorro, socorro, socorro!” Tirem-me daqui!
E nada.
Não. Não perderia o controle.
Ressentou e começou a ler a revista. Desta vez pelo começo.
Página 5, página 6, página 10, página
15, página 25, página 60, página 61, página 62, página 100; mas será
possível!?!?!
O dia lá fora já amanhecia e ninguém para
tirá-lo dali.
Não. Não perderia o controle. Tirou a
roupa e começou a tomar banho, um banho lento e calmo, daquele de noiva em
véspera de núpcias, não esqueceu de limpar nada, entre os dedos dos pés, atrás
das orelhas, cada dobra, cada centímetro quadrado de seu corpo, não esqueceu
nenhuma parte, secou-se. Olhou-se no espelho e deu uma leve risada: “Preso no
banheiro, quem acreditaria?”
Sentou na privada e voltou a ler a
revista, página 5, página 6, página 10, página 20, página 30. 35. 60.100.
Página 5; página 10; 20; 30; 60; 90;
100;...
Página 5, página 6, 7, 8, 9, 10, 11,
12, ..., 100.
Página 5...
Escutou um barulho. Alguém chegara em
casa. Bateu na porta, socorro, socorro. Ouviu uma voz, sim era sua esposa que
chegara.
- Lúcia! Lúcia!
Ela o atendeu:
-Oi! O que ’cê quer Régis?
-Me tira daqui!
-O quê?
-Eu ‘tô preso no banheiro.
-‘Cê ta brincando.
-Eu pareço estar brincando, droga?
-Como você foi ficar preso aí?
-E eu vou saber?
-Espera que eu já abro.
Lúcia então forçou a porta, deu murros.
Pontapés. Joelhadas. “Ai!” Marretadas. E nada da porta abrir.
-Vai buscar ajuda Lúcia!
-Mas quem?
-Eu vou lá saber? Chame o vizinho,
algum parente, a polícia, os bombeiros, a defesa civil, mas pelamordedeus me
tira daqui!
Então ela saiu desgarrada como trem
bala e de fato chamou: o vizinho, não, os vizinhos, toda a família, parentes,
até aquele primo do interior que nunca aparece, a polícia, os bombeiros, a
defesa civil, o exército, o pentágono, a NASA, e a cada nova tentativa um
fracasso.
Chegou a imprensa. E nas primeiras
páginas dos jornais do dia seguinte estampado estava o drama do homem preso no
banheiro há mais de sessenta horas, noventa horas, cento e vinte, duzentas
horas, trezentas...
E tentaram de tudo para tirá-lo: britadeira,
túnel subterrâneo, dinamite, nitroglicerina, serra elétrica. Mas nada, nada
quebrava a resistência daquele banheiro que parecia mais um abrigo antinuclear.
E Régis lá , lendo e relendo a
revista, tomando banho, lavando a cueca no lavatório, escovando os dentes, fazendo
freqüentemente seu pipizinho, seu cocozinho, barbeando-se a cada duas horas e
com a mesma lâmina. E desesperando-se a cada novo fracasso de seus salvadores.
A rede globo até passou uma mini
câmera pela janelinha e deu com exclusividade uma entrevista com o pobre homem
que descreveu seu drama de proscrito em seu próprio privativo.
E foram meses de tentativa de tirar o
“toillete man” do banheiro. Até que a imprensa deixou o caso de lado, os
bombeiros, a polícia, a defesa civil, a NASA e pentágono desistiram, a mulher
se cansou de passar comida pela janela e, exausta, passou a papelada do
divórcio.
Sozinho, sem amigos, sem esposa, e
preso no banheiro, Régis pensou em suicídio, mas a lâmina estava tão cega de
tantas barbeadas que nem o pulso conseguiu cortar.
Até que um dia, na altura da página 23,
a porta sem mais nem menos se abre. Simples como num passe de mágica, abre
sozinha, sem bombas, socos ou pontapés.
O homem sorri. Levanta-se da privada.
Livre enfim, não podia acreditar.
Revê cada coisa como da vez que
entrou: o espelho, o chuveiro, a saboneteira, o creme dental close up, tudo
como se estivesse se despedindo de uma fase ruim da vida.
Espreguiçou-se e tomou o rumo da
saída. Mas ao chegar ao batente, antes de transpor-se para fora, bateu a porta
e trancou-se novamente no banheiro, sentou e retomou a leitura na página vinte
e três. A página com uma matéria muito elucidativa sobre a vida em sociedade e
suas conseqüências na personalidade do homem moderno.
(Publicado originalmente em "A divina tragicomédia humana" de Mauro Marcel)
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O labirinto dos teus lábios
quando olho
teus lábios
teus lábios
labirinto
labirinto
teus lábios
quando olho
quando minha
língua
toca teus
lábios
perdido me
apavoro
se teus
lábios
meus olhos
tocam
percebo o
frio da vida
o frio da
morte
o frio de
estar
nu
estar em tu
perdido na
imensidão
do labirinto
dos teus lábios
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Gordura, wireless e Drummond
Não
há porque engordurar o texto.”
É uma forma que um professor meu de
há muito dizia quando se enchia linguiça, assim como estou fazendo agora, ele
dizia que estava engordurando o texto, era necessário um regime, cortes, hoje
uma lipoaspiração gramatical, algo assim.
Mas não é sobre isso que quero
falar, talvez até corte o que escrevi neste início porque “escrever é retirar
palavras”, Drummond assaltando minha mente. Quero falar do governo do estado de
São Paulo, da Folha de São Paulo, do Estado de São Paulo, da Fox News, etc etc
etc...
Nos Estados Unidos a imprensa é
partidária e isso faz parte do jogo, todos sabemos que a Fox é um canal ligado
ao partido republicano e não espere dele algum elogio ou apoio a opiniões
democratas.
A
Fox é o que é e está livre pra ser assim, inclusive há parentes dos Bush
controlando-a. A vida lá é assim, não que eu elogie Democratas, são todos
sujeiras da mesma bunda, Republicanos, Independentes ou Democratas. A questão é que lá as informações são
partidárias e sabemos disso, todos sabem disso e assim buscam outra emissora que
eles chamam de “liberal” ou o que for.
A própria Fox tem programas voltados
para liberais, lá é a casa dos Simpsons, do Family Guy e diversos programas que
têm a liberdade institucional de criticar a própria Fox. Isso se chama
liberdade de imprensa e é bom quando praticada com liberdade...
Sim, a liberdade de imprensa tem que
ser praticada com liberdade, senão ficamos dando voltas em torno de opiniões
bizarras, debates eleitorais engessados, espaço publicitário gratuito para
Tiriricas, Enéas, Soninhas de bicicleta.
Não estou falando de podar a
participação de quem quer que seja no processo eleitoral, acredito que as
eleições tanto aqui no Brasil como em qualquer outro lugar do mundo é um
processo imbecil e malfadado.
A
vitória numa eleição não é do melhor candidato, mas do mais votado, por vezes
do que tem a máquina pública nas mãos. Mas é o povo participando.
Podemos
dizer que é o povo participando sabendo que há manipuladores da opinião pública
rodando jornais, imprimindo livros, transmitindo novelas com valores da classe dominante?
Falei classe? Escrevi. E escrevo quantas vezes forem necessárias.
Se você tem um açougue e vende mil
quilos carne para o João, você tem no João o seu maior cliente e não vai deixar
que nada aconteça a ele. Se o João perder o emprego, for preso, tiver problemas
sérios de saúde, você perderá mil vezes vinte reais que é o preço do quilo da
carne. De uma só vez você perde vinte mil reais e, provavelmente, terá que
diminuir sua margem de lucro, demitir, fechar a filial do outro lado da cidade,
viajar menos, essas coisas de quem tem menos dinheiro.
O Governo do Estado de São Paulo compra
para cada escola do estado um exemplar do Jornal Folha de São Paulo e outro do
Estado de São Paulo, são 15.027 estabelecimentos de Ensino Fundamental,
12.539 unidades Pré-escolares e 5.923 escolas de Nível Médio, cada um
recebendo um jornal de cada.
Imagine que cada exemplar
custe cinquenta reais por mês. Então é cinquenta vezes mais de trinta mil. Este
é, mais ou menos, o que o governo dá em dinheiro para os maiores veículos de
opinião pública do estado.
Será
que recebendo tanta grana, alguém se atreveria a falar mal de Mário Covas, José
Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e Cia limitada?
Os
jornais estão falindo ao redor do mundo inteiro, enfrentando crises pela baixa
tiragem, falta de anunciantes. A internet mudou a forma de comunicação entre
cidadão e notícia, se uma notícia do Jornal Nacional já está velha, imagine a
do jornal impresso do dia seguinte!
É
muito interessante o caso de que os jornais chegam às escolas inclusive aos
sábados e domingos, dias em que a maioria das escolas se encontra fechada e sem
ninguém para ler as notícias velhas de sexta e quinta. Estas mesmas escolas não
tem um acesso de qualidade à internet, na realidade não tem acesso algum.
Seria
muito mais proveitoso disponibilizar acesso sem fio a internet de alta
velocidade, que atenderia às exigências de formação do indivíduo enquanto cidadão,
acesso à informação livre da internet (espaço que não ficaria limitado às
páginas da Folha ou do Estado), utilização de sites com conteúdo voltado para o
saber e a infinidade do conhecimento humano acumulado através dos séculos. Não
um jornal antiquado, ultrapassado e com informação dirigida para não perder o
dinheiro de seu maior cliente.
Sem
falar que esta rede wireless poderia se estender pela vizinhança e servir para
populações carentes sem acesso.
Até
parece que os governantes nos querem ignorantes e desinformados!!!!
Será?
É
claro que isso não resolveria os problemas do mundo, nem os de São Paulo, mas,
ao menos, eu pararia de pagar (através de meus impostos) uma assinatura de um
jornal que não é notícia, é panfleto eleitoral, máquina de lavagem cerebral,
qualquer coisa que não informação.
O
jornal impresso morreu. Ponto. Apenas sobrevivem as empresas que recorrem a
mecanismos como os acima citados pra continuar vendendo papel ultrapassado.
Se
mora na cidade Tiradentes no extremo leste da capital paulista, não. Você
recebe informação via Jornal Nacional, Facebook e novela. Quando há algum
jornal perto de você ele não noticia críticas ao governo porque está atrelado a
este por laços financeiros, sua própria sobrevivência depende do Estado.
Nunca
haverá escândalos envolvendo o governador, se houver será parcial, se não houver
jeito morrerão abraçados, para que outro veículo apoie outro imperador e assim
vai, porque assim foi, e assim é.
Até
o dia de nossa primavera, que não será árabe, e nem precisa ser em setembro, e
que não será televisionada e nem sairá no jornal do dia seguinte...
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
A divina tragicomédia humana
O que fazer
depois das leituras obrigatórias?
Depois de
discutir filosofia e escutar todas as músicas?
Foi às festas
Compareceu às
reuniões sociais
Alegrou-se ao
pôr-do-sol
E
embebedou-se de todas as formas de felicidade.
O que você
faz depois que o paraíso resulta inútil?
Quando não há
mais lugares inéditos
Pessoas
inéditas
Poemas e
poetas.
Quando os
navios naufragam sem partir
E não precisa
mais voltar ou se iludir.
O que fazer
quando o amor não é mais Amor?
Sua cidade
não é a mesma?
Sua casa não
é a mesma,
Você não é o
mesmo.
O que você
faz quando todos os lados da cama são o mesmo lado
E todas as
camas a mesma cama.
O que fazer
depois que a calma e a pressa resultam inúteis?
Como agir
quando os ídolos se quebram,
Os mitos
descobrem-se mitos,
E não há
religião alguma em que confiar?
Quando a arte
não os abre mais.
Quando tudo é
ópio ou dor,
Quando nem se
é espinho nem flor.
Quando é
tempo de pedras, musgo, atrofiação.
O que você
faz depois de tudo isso?
Depois de
olhar no espelho e descobrir outra pessoa.
De ir ao
jardim e não ver flores.
Ler seus
poemas e não ver poesia.
Encarar sua
vida e não ver vida.
Depois de
pular e não encontrar o teto.
Procurar e
não ter ninguém por perto.
Fazer o
errado sabendo o que é certo.
Depois de ir
torto num caminho reto.
Todas as
janelas estão fechadas
E não há
portas por onde passar.
Você procura
a claustrofobia, mas ela o abandonou.
Você jogou e
perdeu
Perdeu, mas
jogou.
O que fazer
depois do desespero?
Da esperança
– que é o desespero sem nenhuma esperança.
O que você
faz depois do parto?
Depois de
estar farto de falsas lembranças.
Depois de
beber os artificiais
Provar dos
corantes, no seu paladar os acidulantes
Esvaziar os
instantes.
Decorar sua
casa com duendes,
Bruxos,
pirâmides.
Queimar
velas, incensos,
Untar-se com
unguentos,
Beber água
benta.
E ainda ser o
mesmo
Depois de
descobrir as mentiras das verdades
As verdades
nas mentiras
E de desistir
de entender o mundo nessas condições.
Depois de ver
discos voadores falsificados
O Walt Disney
congelado
Tocar em
sangue alheio coagulado
Ouvir tiros
no quarto ao lado
Um filho
abortado
Ser abduzido
E logo após
esquecido
Ser lembrado.
O que você
faz depois de cessarem os abraços?
Romperem-se
os laços
Secarem os
lagos,
E naufragarem
os barcos?
Você leu
Goethe
E entre
Fausto e Mefistófeles se viu neste.
Em
Shakespeare foi Iago.
Em Jó o
Diabo.
Suas asas
estão mortas para a vida
Como voará
agora?
Com os dentes
espalhados já não pode morder
Seu dedo
amputado já não acusa.
¿O coração
ainda pulsa?
O que fazer
depois de beijar viúvas?
Constituir
família
Educar os
filhos
Resumir-se
Prostituir-se.
Agora que
sabe ser
O resumo do
resumo do resumo de uma frase.
O que fazer
depois daquele porre?
Sempre estará
vivo?
Um dia morre?
Vê a chuva
cair
O avião
passar
O filme
entreter
E ainda é
você.
Acreditando
em anjos
Entrevistando
espíritos
E sem casa só
quer onde encostar.
Depois de
dormir...
Sonha?
Acorda?
Desperta.
E ainda é o
mesmo.
Morrendo
pelas ruas em um dia chuvoso
Marcando o
tempo no pulso.
No seu
coração bate o mundo
Aos olhos:
tudo.
O que fazer
agora que sabe e é impossível esquecer?
Busca um
sentido
Um amigo
Num peito
aberto em flor.
Procura um
mundo em tudo
E em tudo o
encontro com a dor.
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