sexta-feira, 21 de julho de 2017

Cabelo e rock - Fábio Sant' Anna e Mauro Marcel


Resultado de imagem para bob cuspO rock mudou de estilo, influenciou estilos, foi influenciado por outros tantos, porém alguns estereótipos permanecem e seguem fortes ao longo dos anos. Um dos mais fortes é do roqueiro com cabelo comprido.
O cabeludão está presente em toda a cultura rock a partir dos anos 60, sobreviveu aos 70, verdadeiras orgias capilares aconteceram nos palcos dos 80 e até mesmo os 90 com Nirvana e companhia grunge ou o século XXI com Strokes e outros tantos sobreviventes de várias décadas que continuam tocando e fazendo as cabeças, chacoalhando as madeixas e balançando as tranças.
Rastafáris como Bob Marley, bagunçados como outro Bob, o Dylan. Cabelos de boneca Barbie como de Sebastian Bach (Skid Row).
Havia uma época em que seria uma verdadeira heresia uma banda de heavy metal subir ao palco com os cabelos cortados. Jogar o cabelo para a frente e descer o braço na guitarra e sentir o público fazer o mesmo com a chamada “air guitar”, a famosa guitarra imaginária que todo headbanger (e não headbanger) já tocou.
Foi o Metálica uma das primeiras grandes bandas metaleiras a ter seus integrantes com cabeças depiladas.
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Mas se me permitem uma opinião, devo dizer que com as bandas envelhecendo não é raro encontrar roqueiros calvos, a velhice chega para todos e o que fica pelo caminho é a lembrança das madeixas que foram. Inclusive pra você que agora lê e vê seus cabelos crescerem sentindo-se poderoso por ser um contestador, um verdadeiro roqueiro.
Mas muito shampoo e intensa briga com os pais depois, será que você já se questionou a respeito do motivo que levou o primeiro roqueiro a ter seu cabelo crescido?
É daquelas coisas que se perdem no tempo, mas que engrandecem os motivos que levam um menino da periferia a esperar outro emprego e não aquele que o recusou por ter cabelo comprido. Aliás, durante algum tempo no Brasil, grandes madeixas foram sinônimo de marginalidade. Mais precisamente no período militar (1964 - 1985).
Entretanto é esta a história que explica o cabelo comprido balançando de Janis Joplin, Jim Morrison, Bono Vox (dos anos 80), Europe, Iron Maiden, Queen, The Who, Sepultura, Motorhead, muitos, muitos, quase todos, até nosso Paulo Ricardo de ombreiras e olhar 43 a enlouquecer as menininhas de outrora, matriarcas de famílias de hoje.
Falando sério, um cara no palco com uma guitarra nos braços e cabelo curto quase pensamos em jazz, blues e afins, talvez um engomadinho de terno da banda de apoio do Frank Sinatra.
Resultado de imagem para europe bandEu sei, estou reproduzindo estereótipos, mas é assim que vemos o mundo, temos que questionar e foi o que os roqueiros começaram a fazer nos anos 90, 2000 e adiante. Talvez essa confissão não impressione a ninguém, mas para mim foi um choque quando o Sepultura cortou o cabelo, o Metálica, outros e outros. Eu, que nunca tive cabelo comprido, senti que o rock começava a morrer, se esfacelar com as tranças do metal.
Essa história de cabelo começou com a II Guerra Mundial. Os primeiros roqueiros eram filhos de soldados aleijados, proletários, pobres e que sofriam na pele as consequências do fim da guerra. Muitos órfãos sem a menor condição de ascender socialmente, não à toa essa é a história de John Lennon, órfão de pai, abandonado pela mãe vivendo a infância na Inglaterra do pós-guerra.
Assim como nos Estados Unidos muitos filhos de soldados cresceram sem pais ou com os pais sem braços, sem pernas e o que é pior, estes veteranos de guerra eram orgulhosos do país e de terem se aleijado, lutado e matado por ele.
Sabemos que as gerações mais jovens buscam questionar as anteriores, o cabelo comprido é a perfeita antítese do soldado dizendo “sim senhor”.
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Dizer “não senhor”, e não cortá-lo era uma maneira de se afirmar como ser pensante e questionar o Estado. Não por acaso no musical “Hair”, que retrata com muita simpatia os hippies dos anos 60, o personagem se entrega pra morte num campo de batalha, não sem antes ter seu cabelo cortado, perdendo assim sua identidade hippie – o estereótipo do roqueiro dos 60. Assim como a primeira cena do filme de Stanley Kubrick “Full Metal Jacket” em que vários jovens têm seu cabelo raspado ao chegar numa base militar. Cabelo caindo, identidade se esvaindo.
Por que o roqueiro tinha o cabelo longo nos anos 60 e 70? Outra guerra surgiu, o Vietnã levava jovens carecas às trincheiras com um rifle nas mãos, olhar infantil e sensação de medo.
O rock nesta época transcendeu a questão musical, cultural, comportamental. O cabelo comprido de um rapaz que tinha um irmão morto no Vietnã era uma questão política, esta postura se completava quando vestia o uniforme baleado em que o irmão foi morto, a mesma roupa suja de sangue e com furos de bala. Dando início a outro estereótipo roqueiro: a roupa rasgada, o desleixo com a imagem.
Há no cabelo desgrenhado e longo todo um questionamento com o sistema. O roqueiro é o cara do não.
“Era” o cara do não, algo mudou no rock (’n roll) nos anos 2000, mas isto será assunto de outro capítulo.
Embora questionar seja diferente em diferentes épocas o roqueiro começa questionando em casa: a religião dos pais, os horários dos pais. Passa a questionar o sistema educacional: o professor, os horários de aula, os livros que o professor obrigou a ler. Questiona o Estado: exército, a música, o emprego, o corpo com tatuagens impedindo-o de entrar no mercado de trabalho.
Uma das características mais marcantes do rock é a forte associação do ritmo ao protesto de maneira geral.
Desde seu início quando o rock ainda era n’roll já se podia perceber o estranhamento que causava e a maneira que os roqueiros encontravam para protestar. Muito embora no início essa subversão estivesse muito mais ligada em como os astros do rock se vestiam ou se penteavam do que com a sua música propriamente dita.
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Na América puritana na década de 1950 casar-se com a prima de 13 anos levou a carreira de Jerry Lee Lewis à decadência.
E o que dizer do pai da matéria Chuck Berry e suas peripécias com menores de idade? – (ouça Sweet little sixteen!).
Mal sabiam eles que os tempos seriam outros, onde Lou Reed, mais um roqueiro radical em atitude, se casaria com um travesti. Ou Marilyn Manson que num arrojo de contestação, dizem as más línguas, retirou uma das próprias costelas para, ainda segundo as más línguas, praticar sexo oral consigo mesmo.
Outro precursor do ritmo também foi rechaçado por tentar “sair do armário”: Little Richard. Preferiu, ao invés de assumir sua homossexualidade, entrar para a religião protestante a pedir ao outro (a) que saísse de seu corpo que não o pertencia.
Até Elvis Presley, embora tentasse, nunca se manteve tão radical. No princípio era até chamado de Elvis – The Pélvis, dado o provocante rebolado, tendo aparecido no programa de televisão focalizado apenas da cintura para cima. O que será que pensaria dos bailes funks realizados hoje nas grandes capitais do Brasil?
E retomando a questão capilar, Elvis Presley teve até que se alistar no exército e “tosar” seu topete, tudo por imposição de um empresário, o Coronel Parker. O Rock até que tentava ser contestador e radical, mas quase sempre esse freio já era acionado pelos empresários dos roqueiros, tema para mais um capítulo.
   Se você perguntar para um cabeludo de hoje porque ele deixa o cabelo comprido ele responderia: “ ora, é pra agitar”. Mas se fizéssemos essa mesma pergunta para um cabeludo dos idos 1960 ele te responderia que é um protesto que ele encontrou para ir de encontro aos soldados americanos que raspavam as cabeças e empunhavam armas na desculpa de estarem servindo a pátria e matando milhões de inocentes.
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   Os negros também encontraram na música uma forma de expor toda a contestação, sobretudo no tocante aos valores raciais.
Você já deve ter ouvido falar de um ritmo chamado Break. Pois é, os negros utilizavam vários passos curiosos ao dançarem como aquele em que se apoiam com a cabeça e giram as pernas para cima. Segundo os antropólogos da música, tal movimento também fazia uma alusão aos helicópteros que se aproximavam do Vietnã, Laos e Camboja depositando lá de cima o mortal napalm.
Sem contar os enormes cabelos black power, étnicos, maravilhosos, construidores de identidade cultural e individual dentro de uma sociedade de consumo opressiva e deprimente.
   Aqui no Brasil o rock nem sempre foi visto com bons olhos e se hoje sua tia ouve a Rita Lee ou você liga o rádio e escuta guitarra num samba, saiba que a coisa nem sempre foi tão democrática assim. 
Pra se ter uma ideia do quanto a guitarra elétrica causou barulho, a denominação MPB só apareceu para diferenciar das demais músicas que se fazia na época, ou seja, os rocks tocados pelo pessoal da Jovem Guarda. (Naquela época ninguém o conhecia por rock, era conhecido (traduzido) aqui como iêiêiê).
Talvez o episódio mais patético que tenha acontecido nesse período foi uma passeata em São Paulo de vários artistas contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira. Até Gilberto Gil estava lá.
   E você pode até discordar, mas a primeira grande canção de protesto de nossa terrinha foi sem sombra de dúvida Asa Branca interpretada por Luiz Gonzaga, um verdadeiro heavy metal que de tão popular foi motivo de uma brincadeira aprontada por Carlos Imperial, um papa na propaganda de novos ídolos dizendo que os Beatles gravariam Asa Branca no Álbum Branco.
Podem até não ter gravado, mas não seria surpresa se fizessem, afinal Rod Stewart plagiou uma canção de Jorge Ben, Sid Vicious gravou Sinatra, Ozzy Osborne teve seu próprio reality show.... É um mundo estranho, vamos tentar definir o rock, a postura rock.
Ter uma postura contestadora criou o eterno slogan do rock: “sexo, drogas e rock’n roll”. Lema que é mais forte em certos roqueiros que em outros, uns mais pra drogas, outros sexo, alguns nem rock. Como no caso de nosso tupiniquim Cazuza, que declarou estar numa banda de rock por acaso. Na realidade Cazuza é um exemplo puramente brasileiro de outro slogan do rock: “viva rápido e morra jovem”. Com muito sexo, muitas drogas e pouquíssimo rock. De fato, algumas canções de Cazuza são Bossa Nova, românticas, o roqueiro Cazuza gravou até Cartola - ícone máximo do samba carioca. Estava e ainda está muito à frente de seu tempo.
A contestação como marca do rock está presente em todos os anos 60, 70, 80, 90, talvez se arrefeça agora com a onda do politicamente correto.
Afinal, entre lendas e verdades, a onda de absurdos que ocorreram em palcos é vasta: Jim Morrison se masturbando, Ozzy Osborne mastigando um morcego, John Lennon pedindo que o público dos lugares mais baratos aplaudissem e o de lugares mais caros chacoalhassem as joias, o Kiss pisando em pintinhos de galinha, Renato Russo instigando um quebra-quebra no meio de um show, Amy Winehouse agredindo um fã, Marcelo D2 fumando maconha a público aberto; isso e o que se passava em hotéis, aeroportos, ônibus, aviões, turnês interrompidas, até assassinatos cometidos (há o famosíssimo caso do Sid Vicious do Sex Pistols), ou sofridos (Marvin Gaye morto pelo próprio pai) .
A lista pode crescer muito mais se esticarmos o comportamento roqueiro à sua vida. Pois são famosas as orgias organizadas pelo Led Zeppelin após os shows, no filme produzido pelo Kiss “Detroit Rock City” a própria banda faz questão de ressaltar o caráter sexual da vida roqueira ao mostrar um fã invadindo os bastidores e perceber que seus integrantes participam de orgias antes e após os shows, há uma história curiosa sobre Os mutantes, a pioneira banda roqueira tupiniquim, numa das loucas atitudes roqueiras deram LSD para um cachorro que vivia solto na vizinhança, roubaram uma estátua de um cemitério. Caetano Veloso pelado na capa do disco “Jóia”.
Durante muito tempo o rock esteve ligado ao comportamento desregrado e os músicos, produtores e empresários faziam questão de reafirmar este estilo de vida, pois é o que vendia mais e gerando lucros, pouco importava se o próprio músico servisse de lenha para a fogueira pop.
Nesta bagunça do que seja ou não contestação o próprio Bob Dylan, o primeiro grande contestador do rock começou a contestar o próprio rock, desenvolvendo uma música com letras religiosas, buscando uma solução metafísica para o caos roqueiro, não à toa Dylan tenha desaparecido por um bom tempo da mídia, na realidade seu retorno pede mais questionamentos, veio para o Brasil em 2010 e 2012 com show custando até mil reais o ingresso. Mas essa é outra contestação. Dylan fez mais pelo rock, sem fazer rock, do que qualquer outro roqueiro de carteirinha jamais fez.
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Foi Renato Russo que não permitiu que sua Legião Urbana se apresentasse no festival Holywood Rock, por se sentir por demais hipócrita em cantar o que cantava com um maço de cigarros Holywood estampado nas suas costas no palco. O mesmo Renato Russo que cantou uma canção do Menudo num momento de descontração no acústico para...  a MTV. Vá saber o que seja contestação hoje em dia. Pelo menos ele não há nenhuma imagem sua pedindo a benção para nenhum integrante da máfia do dendê. Isto sim atitude imperdoável.
O fato é que surgiu por volta dos anos 70 um novo conceito para classificar os roqueiros. Havia os de verdade e, segundo alguns xiitas do rock, havia os traidores do movimento.
Esses traidores seriam os que tinham suas músicas executadas nas rádios, vendiam milhões de cópias de discos, tocavam em festivais patrocinados por grandes companhias de cigarro e bebida, no Brasil os traidores do movimento eram conhecidos por participarem dos programas de TV da rede Globo.
O simples fato de uma banda mudar o seu estilo musical poderia ser considerado por fãs, que encaravam o rock como uma arma de contestação, uma forma de traição. Havia uma camisa de força que prendia os músicos, o público pedia muito mais aos roqueiros que apenas rock. Tanto que bandas com musicalidade punk como Os titãs, Ultraje a rigor e outras tantas, não eram consideradas punks por punks, assim como ícones internacionais do movimento como Ramones e Sex pistols, consideradas por demais pop para o que fosse, ou o que é um punk.
Afinal, o que é um punk?
Talvez um cara sem dinheiro para comprar o shampoo que o riquinho comprava. Não ganhava os mesmos brinquedos dos pais, se é que ganhava algum. Desta maneira podemos ver que está tudo conectado: a música do menino da periferia seria, nos anos 70, a música punk, pois com apenas três acordes na guitarra saíam músicas atrás de músicas, ao contrário das complexas canções metaleiras.
O que isso tem a ver com cabelo, contestação, rock, trair o movimento, titãs e iê iê iê? Tudo. Talvez até com o rap, pois se o jovem da periferia dos anos 70 não tinha dinheiro para aprender a tocar, por isso músicas simples, o jovem negro dos 80 não tinha dinheiro nem para instrumentos musicais, isso explica o rap se apoiando em seu principal instrumento: a voz. Se formos mais longe isso explicaria até o funk carioca que assombra as mamães de família protetoras da virgindade das filhinhas.
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Roupas rasgadas só se transformam em estilo porque o dinheiro é curto na casa de um menino da Freguesia do Ó. A necessidade é a mãe da invenção, é claro que um menino rico do centro olhou para a roupa do ferrado da periferia e achou bacana, e quis pra ele também.
Até foi ao show de música punk da banda do menino da periferia, até comprou a fita k7 da banda, até leu o fanzine distribuído na porta e até montou uma banda para ele também, e com o apoio dos pais comprou instrumentos legais, aprendeu a tocar com um professor de música, foi aos shows das bandas punks internacionais que visitaram o Brasil, gravou um LP e foi à rádio de um amigo do pai que pagou pra música do filho tocar.
Fez sucesso. Vendeu milhares, talvez milhões de discos. Começou a ser conhecido como o poeta de uma geração, mas nunca mencionou que se não fosse aquela ferrada banda punk, suja e pobre e com mínimos recursos da periferia, jamais sua história teria acontecido.
Com o rap é a mesma coisa, assim como os hippies.
Entender a história do rock e o próprio rock é entender que tudo faz parte da história da cultura humana e dentro de tal história, tudo faz parte de um mecanismo que é interessante entender. Porque ser roqueiro, ao contrário do que o senso comum quer fazer seus pais pensarem, é ser um intelectual. Desde Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison que é assim.
E você lendo este livro só reforça essa afirmação. Nunca vi um pagodeiro indo a um pagode com um livro nas mãos, nem um cantor sertanejo indicar uma boa leitura para o fim de semana, mesmo sendo chamado de sertanejo universitário.
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Ou mesmo essa conversa de defesa apaixonada ao movimento, parece coisa de futebol, amor ao time do coração. Pode ser, o roqueiro veste a camisa da banda assim como o torcedor veste a do time, com a diferença de que o torcedor perde feio em se tratando de qualidade de espetáculo, raramente um apaixonado por certa banda volta infeliz de um show como o torcedor do Corinthians voltando infeliz das semifinais da libertadores.
Porém o rock está muito além de apenas paixão e revolta vazia. Ele tem em sua história a tentativa de soluções de problemas, busca reivindicar soluções, alterar rumos e não estou falando aqui do Rock’n Rio “Por um mundo melhor”, nem de qualquer outro festivalzinho temático, estou falando de quebras de preconceitos reais, luta por um fim a guerras como a do Vietnã.
É isso mesmo meu querido leitor roqueiro escutador de “Restart”, esses meninos embora empunhem guitarras e gritem como doidos, estão mais para boy bands que para roqueiros de verdade. O verdadeiro roqueiro tem de ter uma postura, tem de contestar algo, alguém, mesmo a si próprio.
E você meu outro querido leitor escutador de Jefferson Airplane, deixa os meninos pensarem que foram eles (o Restart) que inventaram o cabelo comprido, a roupa colorida, a rebeldia sem causa, ou o bom mocismo idiota. Há muito mais rebeldia hoje em um download ilegal que no acendimento de um baseado. Foi Zeca Pagodinho quem apoiou a venda de CDs piratas, seus próprios discos.
Zeca Pagodinho postura rock? Acho que já estou forçando a amizade. Para o próximo capítulo, por favor. O tema será justamente este: Postura rock.

 (Do projeto "Manual do rock para as novas e velhas gerações" de Fábio Sant'Anna e Mauro Marcel)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Origens do rock'n roll - Fábio Sant 'Anna e Mauro Marcel

Resultado de imagem para elvis presleyHá mais ou menos três décadas alguém ouviu um vinil com um coelho desenhado na capa que continha vários rocks em versões remixadas. Tais mixes tocaram exaustivamente nas FMs, nos bailes de formatura, nas vitrolas existentes e até em elevadores.
Para esse alguém o rock surgiu ali.
Há mais tempo ainda, algumas crianças dançavam aos finais de semana uns sons que pareciam músicas de filmes de cowboy. O disco tinha uma capa amarela com cinco rapazes vestidos de terno intitulado Os Incríveis.
Para aquelas crianças o rock surgiu ali.
Certa feita, um programa no dial da FM apresentou um especial de ano novo dos Beatles. No momento que tocou Twist and Shout um casal vizinho quebrava o pau e panelas que voavam.
Para alguns vizinhos do casal, que ouviam a música e assistiam às cenas, o rock também tinha seu início ali.
Cada qual carrega a sua versão para o início do rock em suas vidas. E mesmo para a História e para os historiadores não seria diferente.
Talvez você já tenha ouvido falar que o rock surgiu com um gordinho chamado Bill Halley cantando Rock Around the Clock, ou mesmo que o ritmo teve sua origem com os negros norte-americanos destilando suas dores no Blues. Ou ainda nasceu ao som dos violões acelerados da música country. Desse liquidificador musical admitimos que todos colaboraram com o nascimento da criança.
Mas alguma coisa soa bem familiar aos ouvidos no som de In the Mood – música de uma Big Band originária da década de 1940 comandada por Glenn Miller – (se você nunca ouviu falar desse sujeito, pergunte ao seu pai ou avô).
Pois bem: o que tem a ver o Jazz de Glenn Miller com nossa análise? O ritmo, o compasso, as estripulias dos metais – (metais aqui são os pistons, as cornetas, saxofones, etc.) – e a dança bem semelhante ao que seria Rock’n roll.
Resultado de imagem para bill haleyE podemos atrasar o relógio de Bill Halley mais algumas décadas e chegarmos aos anos de 1920 com o Charleston e o Foxtrote. Se quiser fazer um teste é fácil: basta pegar uma filmagem do pessoal dançando esses sons, tirar o áudio original e colocar um Rock do Elvis. Assista e terá o resultado.
E por falar em Elvis, não poderíamos deixar de falar em Chuck Berry.
Sim, Chuck Berry, um rapaz negro, músico excepcional que compôs uma música autobiográfica denominada Johny B. Goode. Canção que conta a história de um jovem semianalfabeto com um único talento: tocar guitarra. E as pessoas vinham de todos os lugares para ouvi-lo. Chuck Berry deu uma grande coisa ao rock, o grito. Cantar rock não basta, tem que haver o grito, a postura, o jovem Chuck nos ensinou gritando “vai Johny vai vai vai” (go Johny go go go).
Mas foi Elvis o primeiro ícone roqueiro. Foi ele, cantor excepcional, quem misturou a voz negra à figura do homem branco unindo os Estados Unidos racistas em torno de uma imagem rebolativa.  A pélvis de Elvis foi proibida de ser mostrada na TV, eram os anos 50, a segunda guerra tinha acabado há pouco e os jovens se inspiravam enquanto as meninas transpiravam.
Os rapazes o invejavam ao redor de todo o mundo.
Todo menino levantava a gola das camisas, comprava uma jaqueta de couro, levantava o topete e não queria que ninguém pisasse em seus novos sapatos de camurça.
Resultado de imagem para chuck berryPara Erasmo Carlos o rock começou quando veio parar em suas mãos alguns discos de Elvis, para o jovem Paul McCartney ouvir “Heartbreack hotel” fez despertar em sua mente possibilidades nunca imaginadas “era como se ele cantasse das profundezas do inferno”. Isso fez um verdadeiro milk shake na mente de Paul, George, John, Ringo, Mick, Keith e muito mais.
O rock ainda era ‘n roll até o início dos anos 60, o termo vinha de uma gíria inventada por um DJ americano, nunca ouvi uma tradução digna, seria algo como “botar pra quebrar”, ao dançar, o rock’n roll nasceu como um estilo dançante, ousado, abusado, na pélvis de Elvis quase erótico.
O rock “and roll” é o grito do Chuck na pélvis de Elvis. Entendeu?
Tem uma cena exemplar no filme “Grease”, em que há uma festa em plenos anos 50, assista e perceberá qual o clima que predominava num recinto pleno de pedras rolando, aí traduza rock’n roll do seu jeito.
Na segunda metade dos anos 60 veio a invasão britânica aos Estados Unidos liderada por Beatles e Rolling Stones; depois hippies, contracultura, LSD, Woodstock e muito mais.
Resultado de imagem para jerry lee lewisO rock perdeu o sobrenome ‘n roll transformando-se num caleidoscópio chamado simplesmente de rock, longe dos primeiros acordes do Bill Haley ou Chuck Berry, e mesmo o Elvis do hotel do coração partido. Falar de rock não é apenas falar de música, é necessário ir além de estilos, modas passageiras, falsos ícones, pseudoverdades, gostos pessoais.
O rock se construiu através de canções, cantores, músicos, produtores, arranjos, instrumentos, invenções, capas de discos, atitudes, sexo, drogas, loucuras, festivais, mídia e mais, mais e mais.
Deste caleidoscópio trataremos nos capítulos que seguem, sem nos preocuparmos com a história. O pontapé foi dado pelos caras do hotel, do relógio e das grandes bolas de fogo, mas não precisamos seguir uma linha histórica para entender nosso assunto. Nossa proposta é bem leve e solta.
Mas quero deixar meu leitor um pouquinho mais nervoso comigo, sim, não vou te poupar, escolheu este livro e quero que vá até o final, mas não farei grandes esforços para deixá-lo com ele aberto, a não ser o fato de dizer que você é a sua razão, assim como o público e não a música é a razão do rock.
O rock teve sim um início, mas teve um fim? Claro que não, diriam os mais afoitos, ainda existe rock sendo feito, há música pipocando por toda parte. Mas não é o que pensa este velho (não tão velho) roqueiro. E não é aquele papo tão velho quanto o rock de que o rock morreu. Ainda existem tropicalistas soltos por aí, mas não vejo ninguém chamando MPB de tropicalismo. Nem chamando Luis Fernando Veríssimo de escritor modernista porque ele usa linguagem coloquial em seus textos.
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Ainda há rock sendo feito, ainda há pélvis, ainda há gritos, mas existe uma palavra alemã “zeitgeist” que explica bem o que quero dizer. Significa “espírito do tempo”, algo como modo de pensar, agir, falar, momento histórico, seres humanos, tudo o que envolve uma época.
E o rock que falamos aqui não é o rock que é feito por aí, muito embora exista muita música boa sendo feita. O rock enquanto música está vivo, enquanto movimento cultural está morto, não está enterrado porque a música ocupa os espaços, está em todos os lugares, e cá para nós, a música é muito boa, mas a música é só uma parte do zeitgeist.
O rock é a única música que se vivia, se comia, se cheirava, se transava, se morria.
Resultado de imagem para jive bunnyDesculpa novamente, hoje em dia o funk carioca faz o papel que o rock fazia muito melhor que o rock. Deixa eu arrumar a frase, ela ficou meio torta, mas não me arrependo de tê-la escrito: o funk carioca exerce o papel de sexo e drogas que pertencia ao rock. O problema é que o funk é tão primário que não nos serve como música, mas haverá um capítulo sobre o funk, se quiser vá direto a ele, eu recomendo que siga nosso roteiro.  Ou faça do seu jeito, como os roqueiros faziam (e fazem).
O rock, como todo movimento cultural, teve um marco inicial, que definimos como o grito do Chuck e a pélvis rebolativa do Elvis. Ponho como marco final do rock um evento mais estático no tempo: o suicídio de Kurt Cobain. Nada seria igual a partir dali.
Mas este é o meu marco, escolha o seu. Alguns marcos possíveis e impossíveis que já ouvi:
O rock acabou quando:
-John Boham morreu;
-Os Beatles acabaram;
-Elvis foi para o exército;
-John Lennon foi assassinado;
-Renato Russo morreu de aids;
-Inventaram o rock’n rio por um mundo melhor;
-Alguém teve a infeliz ideia de misturar rock com rap;
-Surgiu a MTV;
-Alguém cantou “Anarchy in the UK;
-O Metallica cortou o cabelo;
-O Blitz berrava “você não soube me amar”
-Michael Jackson, Madonna e Tina Turner foram aclamados como ídolos rock nos anos 1980;
-A Legião Urbana cantou Menudo;
-A primeira distorção foi feita;
-Um negro foi assassinado na frente das câmeras no festival de Altamont durante a apresentação dos Rolling Stones;
-Surgiu o Axé;
-Surgiu a expressão pop rock.
Resultado de imagem para gang 90            Brincadeiras à parte, todos os pontos acima citados podem ser considerados o fim de algo ou o início de outra coisa. Como a Blitz cantando “você não soube me amar”. Música que infernizou as rádios nos anos 1980, ainda hoje toca vez ou outra, considerada a decadência da juventude brasileira, mas que representa na verdade o início da popularização do rock no Brasil. Graças à Blitz surgiram Barão Vermelho, Cazuza, Titãs, Ira!, Engenheiros do Hawaii, João penca e seus miquinhos amestrados, Paralamas do Sucesso, Gang 90, Camisa de Vênus, e muito mais. Mas também graças à Blitz surgiram, Kid Abelha, Mamonas assassinas, PO Box, Virguloids e muito menos.
            Deixemos pra você as conclusões, tiramos as nossas. Vamos para o próximo capítulo.

 (Texto introdutório do projeto "Manual do rock para as novas e velhas gerações" de Fábio Sant'Anna e Mauro Marcel)

O Barroco

Resultado de imagem para davi e golias caravaggioAs aulas de história nunca foram tão importantes para entender um movimento literário quanto neste momento. Vou tentar resumir:
A Igreja Católica toda poderosa do período medieval vinha perdendo poder ao longo de séculos de intenso processo científico e racionalizador conhecido como Renascimento, esta visão de mundo trouxe novas perspectivas (não à toa uma das grandes marcas das pinturas desse período ser a profundidade visual, isto é, o fundo não é mais chapado, claramente notado na Mona Lisa de Da Vinci), estas perspectivas tiveram muito a ver com o fato de a igreja proibir o lucro e controlar as pesquisas científicas (vale lembrar que foi no seio da Igreja Católica que surgiram as universidades como as compreendemos hoje).
Em suma, o Renascimento modernizava as relações humanas e cobrava o preço ao catolicismo: ou a Igreja mudava ou perdia poder. Aconteceu ambos.
No século XVI houve a consolidação das conquistas científicas, culturais, sociais e humanas do Renascimento e a tentativa do poder estabelecido, na figura da Igreja Católica, de controlar as pessoas – corpos e mentes, com o fim de continuar mantendo-se no controle.
O conflito entre esta visão racional de homem renascentista com a reacionária da igreja forma o caldo de cultura traduzido em um sentimento desesperador de inadequação ao mundo.
Este homem que sabe que a terra não é plana ou achatada, mas que não sabe como se portar ante esta nova informação porque se continuar confirmando a ciência será condenado ao inferno.
Se não o inferno espiritual o real, pois a Inquisição perseguia os que repetissem tais heresias, como o fato de o Sol ser o centro do sistema solar, a Terra girar em torno dele, nosso minúsculo planeta ser apenas um entre tantos outros astros, a própria impressão da Bíblia numa tentativa involuntária de tentar popularizar a leitura – sim, o livro, no formato como o concebemos, foi impresso por Gutenberg em 1455 inaugurando um novo momento na história humana. Enfim, o inferno na fogueira era bem real aos que se opunham aos caminhos da igreja.
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Assim, é compreensível um pensamento exterior e outro interior, como o fato de as pessoas terem de se comportar de maneira a serem aceitas pela sociedade que as vigiava tendo de reprimir seus desejos mais recônditos. Não como ocorre hoje em que convivemos muito bem com nossas neuras: dentro da igreja crentes de nossa fé pela manhã e nos embriagando com drogas lícitas e ilícitas ao cair da tarde.
O homem do barroco acreditava mesmo no inferno e nutria do fundo do coração a sensação de que perdia seu tempo tentando fugir deste destino, enquanto uma esperança ainda o alcançava, orações eram feitas, a vaidade, a luxúria, a gula, tudo o que atrapalhava o caminho à redenção era condenado numa tentativa de buscar o paraíso. E quanto mais próximo disto mais ciente do quão difícil, porque para aceitar as palavras da bíblia tinha que renegar a realidade que o cercava: inventos, descobertas, ciência.
Imaginem buscar o paraíso bíblico no Brasil de 1600, um lugar cheio de pessoas andando peladas de um lado a outro, buscar catequizá-las é um caminho, mas não pensem vocês que os padres jesuítas que vinham ao território brasileiro com esta função eram santos. Nem eles nem os demais degredados que ajudaram a formar nosso povo brasileiro. A mistura entre índios (tenho de chamar de indígena hoje porque tem muita gente chata por aí), pois bem, a mistura entre indígenas e portugueses não ocorreu sem nenhum remorso. E é por aí que temos que entender o barroco, como um grande remorso.
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Pérolas Baroques
Os artistas dessa época retratam este sentimento de forma a transparecer essa ressaca moral, tipo quando nos divertimos muito à noite e passamos do ponto. Na manhã seguinte bate aquela bad. Ou seja, o barroco foi o século da bad.
Encare isto de forma bem objetiva. Você já deve ter se perguntado de onde veio o gosto por retratar tanta imagem de sofrimento, como o Cristo Crucificado. Não me ocorre a mente de forma espontânea uma escultura, quadro, afresco renascentista com a imagem de Jesus sangrando na cruz. Este gosto pelos aspectos mórbidos da Bíblia veio com o barroco.
Ocorreu no século XVI a cisão da Igreja, ou antes, a consciência de que o importante não era a igreja, mas a fé. E que uma obra sem fé não é válida. É preciso ler a bíblia, acreditar em Jesus Cristo. Crenças de uma nova religião, a Protestante, formada pelos insatisfeitos com o Status Quo católico. Afinal, era necessária uma religião mais moderna, adaptada ao novo momento, que exigia aceitação do lucro e não cobrasse por indulgências, métodos mais amenos de alcançar o paraíso, alternativas, enfim, perspectivas. Esses pensamentos formam até hoje a base da maioria das religiões evangélicas.
Basta notar como o sucesso financeiro é celebrado dentro e fora destes templos: a fila de automóveis na porta da igreja, mesmo a distância entre o templo e a casa do fiel ser de dois ou três quarteirões, todos indo ao culto com a melhor roupa: terno, gravata, cabelo feito, barba asseada, a imponência do Templo de Salomão em São Paulo, por outro lado o valor dado dentro da cultura católica ao sofredor, que ganha status de santo conforme se aproxima mais e mais sofrimento, as penitências, cruzar a passarela de Aparecida de joelhos, levar uma cruz a Juazeiro do Norte aos pés do padinho Padre Cícero. O próprio ato eucarístico representando em cada missa os momentos finais de Jesus.
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Nenhum julgamento de valor, apenas observação da realidade.
Nas igrejas católicas as imagens sangram: São Sebastião atingido por flechas, Jesus com pregos nas palmas das mãos, o Martírio da Virgem Maria. Vou além. O Barroco é a Igreja Católica relembrando que a vida é curta e Deus é justo. Sendo Deus justo e as pessoas pecadoras o fim é o inferno e as imagens mostram claramente várias formas de sofrimento, porque o foco aqui não é em Davi apedrejando Golias, o que já seria uma imagem forte, seguindo na leitura do livro bíblico de Samuel descobrimos que após acertar a pedra em sua cabeça, Davi toma de uma espada e degola o gigante: o quadro barroco mostra a cabeça de Golias nas mãos de Davi. Também a de João Batista entregue numa bandeja a pedido de Salomé. Imagens atingidas por espadas no coração como a da Virgem Maria.
A mudança temática e de cores é palpável.
Coitados os que se afastem da Igreja, eis o Barroco anunciando a que veio.
Eu tive formação católica e lembro-me bem do medo que sentia ao me aproximar de certas estátuas sempre cobertas de muito sangue.
Lembro-me que fomos uma vez, eu com minha família, a uma igreja maior e nela havia uma estátua de Cristo, um corpo num caixão de vidro. Assemelhava-se mesmo a um corpo real o que atrapalhou meu sono por semanas. Acho que era essa a experiência desejada ao compor estátuas e quadros tão mórbidos.
Resultado de imagem para conflito barrocoMas voltando ao homem dos seiscentos: ele não escolhia entre um caminho e outro. Queria todas as glórias do céu, porque jamais duvidou da existência de Deus (isso é coisa de três séculos à frente), e quer também os benefícios da carne. Daí os professores de História, Arte e Literatura do mundo inteiro definirem o Barroco como a arte do conflito: carne/espírito, bem/mal, céu/inferno, claro/escuro, pecar/perdoar, Palmeiras/Corinthians...
E o homem do Barroco não escolhe. Daí o conflito.
Fica, não no meio do caminho, mas com ambos. E tendo ambos perde o melhor dos dois mundos: não se satisfaz totalmente nos prazeres da carne e não recebe as graças do Sagrado.
O nome Barroco não vem da palavra barro, tem sua etimologia numa pedra de nome baroque que tem um formato impreciso, deformado; ao mesmo tempo bela e feia. Com uma natureza impossível de se adaptar, mas ainda assim uma pérola. É feia, mas é linda. Contraditória, totalmente barroca.
Num momento tão voltado à religiosidade, natural um dos maiores escritores ser justamente um padre, o Padre Antônio Vieira. Típico homem de seu tempo expulso de todo lugar que habitava por sua verve crítica. Dono de sermões geniais que valem a pena serem lidos.
Recomendo mesmo sem nenhum apelo a religiosidade do leitor. Padre Vieira escreve de forma a convencer, doutrinar, ensinar. E se muitas notas zero aparecem nas redações do ENEM, e se muitos professores também não sabem ensinar a seus alunos a batida estrutura de um texto de convencimento é porque escritores como Vieira são relegados aos espaços obscuros do conteúdo escolar. Leia ao menos o sermão da Sexagésima! Esplendoroso.
O Vieira vem de uma linha de textos barrocos conhecida como conceptista que grosso modo significa pegar um conceito e explicá-lo, deixando claro a todos até que não haja dúvidas. A outra linha predominante é chamada de gongorismo ou cultismo, que também grosso modo significa encher o texto de uma linguagem acessória, formal, labiríntica, repleta de inversões, rebuscada a ponto de todo o conteúdo poder se resumir a um verso, não raro menos. Seria como o aluno que não sabe o conteúdo, mas precisa escrever trinta linhas.
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O maior expoente do gongorismo brasileiro é um poeta conhecido como o Boca do Inferno – Gregório de Matos. Isso porque escrevia e falava mal de tudo e todos. Notável como muito deste poeta chegou até os dias de hoje num país em que os livros eram proibidos e a leitura quase que vista como um mal a ser extirpado.
Neste contexto, muito do que se atribui ao Boca do Inferno pode nem ter sido escrito por ele, visto que seus textos eram espalhados pelos bares e igrejas que frequentava, aqueles com mais frequência que estes.
Gregório de Matos é um típico escritor politicamente incorreto para os dias de hoje. Mostra muito da alma do povo brasileiro. A inveja que sentia ao ver mulatos em cargos de comando e ele, “branco” e de “família”, tendo de viver quase na miséria. O ódio pela cidade da Bahia, o desprezo pelos cônegos e freiras claramente hipócritas, a sensualidade reprimida, o retrato de um período com a propriedade de quem sabia perceber com acuidade e tinha os atributos artísticos para escrever bem e falar mal.
Resultado de imagem para papa antigoSempre que ensinei o Barroco na escola a aula beirava um curso de catecismo, visto que muitos dos meus alunos, apesar de se dizerem religiosos, quer dizer, pertencerem a uma religião, conheciam e conhecem bem pouco das doutrinas de suas crenças.
Como o fato de porque não ser católico cremar os mortos, a diferença entre o batismo para um evangélico e um católico, o que é o sexo para cada uma dessas religiões, no que acredita um judeu (visto a maioria dos brasileiros serem cristãos), qual o papel do Papa atualmente e qual a diferença deste papel para o exercido secularmente?
Estudar o Barroco é um momento privilegiado para isto. Mas acredito que se apegar aos textos é sempre mais importante.
Gosto de um poema religioso em que Gregório de Matos tenta enganar a Deus dizendo que em Sua palavra está dito que o Reino dos Céus se perderá por um único pecador. Portanto perdoá-lo é salvar o Reino dos Céus. Escrito de forma gongórica, é claro, e excelente.
PEQUEI, SENHOR....
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinquido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido:
que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada,
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha a vossa glória.
Gregório de Matos

No mais é uma viagem no tempo a um período que deixou marcas indeléveis em nosso inconsciente coletivo e que continuam vivas nas igrejas barrocas ou não, em toda cultura ocidental.
Também em filmes que indico a assistirem, cito estes dois “A paixão de Cristo”  claramente barroco, com sua ênfase nos aspectos mais sangrentos e dolorosos da morte de Jesus e “Seven, os sete crimes capitais” que conta a história de um serial killer que se arvora a juiz e carrasco daqueles que em sua ótica vivem com o objetivo de satisfazerem seus desejos e paixões vistas como nocivas à sociedade. Narrativas que não explicam o movimento, mas que deixam clara sua influência ou ênfase.
Resultado de imagem para ouro pretoRecomendo também uma viagem pelos sites dos melhores museus do mundo. Você se surpreenderá com a quantidade de obra barroca retratando o que parece ser um verdadeiro festival de decapitações de santos bíblicos, impossível ver a Bíblia com os mesmos olhos.

Também uma visita ás cidades históricas mineiras: Ouro preto, mariana, Diamantina. Lá o Barroco é temperado ouro e com muitas esculturas do escultor Aleijadinho. Neste caso um barroco um pouco atrasado já que outra estética se avizinhava no 1700.  Fartos do excesso de sangue e sofrimento os poetas do século XVIII pediam flores.