Estudar História é um exercício de desilusão. A gente começa acreditando que vai encontrar heróis e termina encontrando escombros. Estudar etimologia, então, é quase um ato de crueldade intelectual: as palavras denunciam aquilo que a política tenta maquiar.
“Favela” não nasceu poética. Não foi invenção lírica de sambista nem metáfora de resistência urbana. O termo vem da Guerra de Canudos, quando soldados, ao retornarem do massacre, ocuparam um morro no Rio de Janeiro e o batizaram com o nome do morro baiano coberto pela planta favela. Ou seja: a palavra já nasce ferida. Surge do improviso, da ausência de Estado, do resto que sobra depois da guerra. Favela é, etimologicamente, moradia improvisada. Improviso que virou política pública permanente.
E como toda palavra que começa provisória, acabou se tornando definitiva — mas só para os pobres.
Há quem romantize. Há quem veja na precariedade uma estética, uma potência cultural, uma espécie de autenticidade bruta. Como se o esgoto a céu aberto fosse um manifesto artístico. Como se a laje sem reboco fosse uma escolha arquitetônica. A miséria ganhou filtros conceituais. Virou pauta acadêmica, virou documentário premiado, virou cenário exótico para estrangeiro fotografar do alto, preferencialmente depois de visitar o Cristo Redentor.
Mas ninguém deveria ser feliz por morar numa favela. Pode ser feliz apesar dela. Apesar do barranco que desliza. Apesar do ônibus que não sobe. Apesar da escola que falta. Apesar da polícia que entra atirando e do Estado que entra prometendo. Felicidade não pode ser confundida com resignação.
Aceitar a favela como destino é aceitar a precariedade como projeto de país. É admitir que existe uma geografia oficial e outra tolerada. É normalizar o improviso como política habitacional. É dizer, com elegância sociológica, que há vidas que podem continuar sendo provisórias.
Urbanização não é maquiagem. Não é pintar muro e instalar Wi-Fi para produzir manchete. Urbanização é moradia digna, é saneamento, é rua asfaltada, é endereço que chega correspondência sem pedir favor. É transformar o improviso em estrutura. É substituir a gambiarra por planejamento. É fazer com que a palavra “favela” volte a ser apenas botânica — e não social.
Talvez seja pessimista dizer isso. Talvez soe duro afirmar que celebrar a favela como identidade permanente é celebrar o fracasso coletivo. Mas a História ensina — e a etimologia confirma — que as palavras carregam cicatrizes. E “favela” carrega a cicatriz do abandono.
Estudar História faz bem porque impede a anestesia. Estudar etimologia faz melhor ainda: mostra que o que hoje parece natural começou como emergência. E emergência que dura mais de um século deixa de ser acidente. Vira escolha.
E ninguém deveria aceitar como escolha aquilo que nasceu como improviso.
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