São Paulo descobriu o Carnaval como quem descobre um espelho novo — e passa a se admirar numa imagem que não reconhece, mas insiste em amar.
Durante décadas repetimos, com um certo provincianismo, que aqui não havia Carnaval. Havia trânsito. Concreto. Pressa. Havia uma ética quase protestante do trabalho que transformava fevereiro num mês um pouco mais quente, inundado e igualmente produtivo. O samba, diziam, morava em outro CEP. São Paulo era o seu túmulo, e ainda é.
O curioso é que agora as pessoas sambam por cima desta cova.
E a imagem é triste.
Não me entendam mal: não é a alegria que me incomoda. É o patrocínio da alegria com hora e data marcada. Blocos gigantescos financiados por indústrias do entretenimento, bebidas, aplicativos, artistas que pousam como messias elétricos sobre trios importados de uma baianidade pasteurizada. Um pastiche estranho. Uma fantasia comprada em doze vezes sem juros. São Paulo brincando de ser o que nunca foi — e talvez nem precise ser.
Há algo de profundamente paulistano nessa tentativa de imitar o espontâneo. Organizamos a desordem. Regulamentamos o improviso. Transformamos a catarse em planilha. O bloco vira evento. O evento um produto. O produto engajamento.
A multidão vira público-alvo.
Sou de uma época — e não faz tanto tempo assim — em que Carnaval era coisa de alienado. “Gente burra mesmo”, dizíamos, com a arrogância juvenil de quem acredita que ler duas páginas de Marx nos tornava superiores ao batuque da esquina. Havia um certo orgulho em não gostar. Em ficar em casa. Em assistir ao noticiário com ar de quem compreende a decadência do mundo.
Hoje, ironicamente, vejo intelectuais improvisados sobre trios elétricos patrocinados, discursando entre um gole e outro, transformando a festa em palanque líquido. Existe um termo antigo entre os socialistas históricos para essa fauna: “esquerda festiva”. Aqueles que fazem da política uma senha para circular em festas, beber e animar as multidões. Em São Paulo, "a festiva" e alienada parece ter encontrado seu habitat natural: o bloco com abadá conceitual.
Mas talvez, e apenas talvez, eu esteja sendo injusto.
Talvez toda festa carregue em si uma tentativa de esquecer — e esquecer seja uma forma legítima de sobrevivência. A cidade que trabalha até morrer agora tenta morrer dançando. O problema é que a dança soa ensaiada demais.
Olho as avenidas tomadas por uma alegria ruidosa e penso se nos perdemos ou quiçá nos encontramos. Quem sabe sempre tenhamos sido isso: uma cidade envergonhada de si, querendo ser outra. Um corpo de concreto tentando gingar. Um cemitério tentando florescer.
Há algo de profundamente solitário naquela euforia coletiva. Milhões de pessoas juntas, cada uma filmando a própria alegria para provar que ela existiu. A fantasia é compartilhada; a experiência é individual. O bloco é enorme; o sujeito é minúsculo.
No fundo, muito no fundo, o samba continua enterrado.
E com a música alta, há também um silêncio curioso — imposto pelo Unidos do Moralismo Burguês às avessas — que vigia e constrange qualquer voz dissonante. Não se pode mais chamar o Carnaval pelo que ele é: um delírio coletivo com data marcada, uma catarse programada num país que ainda não resolveu o básico e transforma a própria precariedade em espetáculo exportável.
Questionar virou heresia. Apontar o exagero um pecado social.
E assim seguimos, celebrando com fervor aquilo que, no fundo, é apenas a nossa dificuldade crônica de encarar a própria feiúra sem glitter.
Anexo à crônica:
Etmologia da palavra "folião"
A palavra folião vem de folia, que por sua vez tem origem no francês antigo folie, derivado de fol, que significava “louco”, “insensato”.
O francês folie vem do latim vulgar follia, relacionado a follis, palavra latina que significava “fole” (o instrumento que sopra ar) e, por extensão metafórica, algo “vazio”, “inchado de ar”. Daí surgiu a associação com alguém “cheio de vento na cabeça” — ou seja, tolo, insensato.
O percurso etimológico é mais ou menos assim:
follis (latim: fole, saco de ar) → ideia de vazio / cabeça cheia de ar → fol (francês antigo: louco) → folie (loucura) → folia (português: festa ruidosa, alegria exagerada) → folião (aquele que participa da folia)
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