sábado, 28 de fevereiro de 2026

Moçambique, looping e memória.

 Eu acredito na memória. Ou melhor: eu desconfio profundamente de quem vive sem ela.

Dito isso, posso começar — ou fingir que começo — esta crônica sobre sonâmbulos. Não os que andam pela casa de madrugada, tropeçando nos móveis e assustando a família. Falo dos outros. Dos que caminham acordados pelas ruas, mas não sabem de onde vieram. Dos que nasceram ontem, todos os dias.

No romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, a guerra civil arranca dos personagens algo mais cruel que o teto ou o pão: arranca a continuidade. Mata os mais velhos e, com eles, mata as histórias. Restam crianças vagando por estradas poeirentas, acompanhadas de cadernos queimados e memórias emprestadas. Restam corpos vivos e passados mortos.

Uma sociedade pode sobreviver sem prédios. Pode sobreviver sem estátuas. Pode até sobreviver sem governo — embora não recomendem os manuais.

Mas não sobrevive sem narrativa.

Sem antepassados, o homem se torna turista de si mesmo. Mora onde não pertence. Canta músicas que não sabe de onde vieram. Defende bandeiras cujo tecido desconhece. Adota uma cultura como quem compra um casaco na vitrine: veste, posta, descarta.

É curioso. A modernidade nos prometeu liberdade e entregou amnésia. Cortamos as raízes em nome do progresso e depois nos espantamos com a queda das árvores. Queremos frutos, mas temos alergia ao solo.

“Ah, mas tradição oprime”, dirá alguém.

Sim, às vezes oprime. Também às vezes sustenta. Depende do que se faz com ela. Memória não é altar; é espelho. Não serve para idolatrar os mortos, mas para confrontar os vivos. O problema não é lembrar. O problema é não saber o que fazer com o que se lembra.

Em Moçambique, a guerra produziu órfãos históricos. No Brasil — e em tantos outros lugares — produzimos órfãos voluntários. Não precisamos de conflito armado para esquecer. Basta um pouco de distração, algum algoritmo eficiente e uma boa dose de preguiça intelectual.

Trocam-se os clássicos por resumos, os resumos por cortes de quinze segundos, os quinze segundos por uma frase de efeito. E assim se constrói uma geração que opina sobre tudo e conhece nada. Uma geração que confunde novidade com verdade e ruído com pensamento.

Sem memória, a cultura vira fantasia. Sem passado, o presente é um eterno improviso. E improviso permanente não é criatividade — é desorientação.

Em Terra Sonâmbula, os personagens precisam literalmente ler os cadernos de um morto para entender quem são. Precisam herdar palavras para reconstruir identidade. A memória ali é sobrevivência. Aqui, parece ser incômodo.

Há quem ache bonito “romper com tudo”. Como se o novo nascesse do nada, como se a história fosse um peso morto. Mas quem não dialoga com seus mortos repete seus erros com entusiasmo juvenil. A ignorância tem a energia da juventude e a profundidade de um pires.

Sem memória coletiva, cada geração acredita ser a primeira a descobrir a injustiça, o amor, a corrupção, a esperança. Reinventamos indignações, reciclamos utopias fracassadas e chamamos isso de avanço.

É a humanidade em looping.

Talvez o verdadeiro sonambulismo não seja caminhar dormindo, mas viver sem consciência histórica. É andar por uma terra que já foi pisada por milhares e agir como se o chão fosse inédito. É falar em identidade sem nunca ter aberto um álbum de família — seja ele doméstico ou nacional.

Não saber de onde se veio é um risco. Não saber para onde se vai é uma consequência.

E assim seguimos: conectados com o mundo inteiro e desconectados dos avós. Capazes de localizar qualquer cidade no mapa digital, mas incapazes de localizar a própria origem.

A guerra de Moçambique produziu um país ferido. A nossa pressa produz um país distraído.

Entre o trauma e o descaso, o resultado é semelhante: gente andando, falando, votando, consumindo — mas sem memória.

Sonâmbulos.

E o problema do sonâmbulo não é que ele anda. É que ele não sabe para onde.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Silêncio, camisa pingando e senso crítico.

 Conheci o silêncio quando ele ainda não precisava ser agendado.

Sim, houve um tempo em que o silêncio não era retiro espiritual pago em doze vezes. Ele morava na sala depois do jantar, sentado na cadeira vazia do avô. Atravessava a rua deserta às três da tarde. Dormia no quintal, debaixo do varal, entre uma camisa pingando e outra.

O mundo transformou-se numa feira permanente — e ninguém desmonta as barracas.

O barulho não se resume a som: é uma neblina elétrica. Uma camada de pó fino que se deposita sobre o cérebro e o impede de respirar. As cidades vibram como transformadores prestes a explodir. 

Em São Paulo, por exemplo, o silêncio jaz atropelado e ninguém registrou boletim de ocorrência.

A buzina virou vírgula, a notificação, ponto final. O grito um argumento.

O silêncio, coitado, acusado de improdutivo. 

Num mundo que transforma a respiração em performance, calar-se é um ato subversivo. 

Ficar sozinho sem música ou tela, sem ruído de fundo é como atravessar um deserto sem garrafa d’água: cedo ou tarde você encontra a própria sede.

E talvez seja isso que tememos.

O silêncio é um espelho de corpo inteiro. Não usa filtro. Não suaviza imperfeições. Ele amplia. Você senta numa cadeira sem celular e, de repente, começa a ouvir coisas que estavam soterradas: a culpa antiga, o medo que é prudência, o ressentimento batizado de senso crítico.

O mundo está barulhento porque o silêncio denuncia! (e escrevo esta frase com o sinal ortográfico mais barulhento que existe: o ponto de exclamação!!!)

Antigamente — lá vou eu de novo — as bibliotecas eram catedrais laicas. Lembro dos corredores da Biblioteca Monteiro Lobato, onde o silêncio tinha cheiro de papel envelhecido. Cheiro de livro manuseado. Não era vazio; era concentração condensada. Cada pessoa naquele lugar segurava uma lâmpada acesa dentro da própria cabeça, e o pacto era simples: não soprar a chama do outro.

Hoje a chama precisa virar show pirotécnico. Pensar não basta; é preciso transmitir ao vivo o pensamento ainda cru,  imaturo, indecente.

Vivemos numa época em que até o luto tem trilha sonora e legenda. Até a indignação vem com efeitos especiais. O barulho virou anestesia coletiva. Se o mundo cala por dois minutos, alguém entra em pânico e liga qualquer coisa — uma playlist, uma live, um escândalo.

O silêncio virou sinônimo de fracasso social. Quem se recolhe é estranho. Quem não opina é suspeito. Quem não reage é conivente. A histeria como estatuto de virtude. As pessoas gritam e se assutando com o próprio grito, o que as faz gritar novamente e se assustar novamente...

Onde estão os lugares de silêncio?

Talvez tenham sido convertidos em estacionamentos. Talvez estejam escondidos entre as páginas de um livro fechado. Talvez existam apenas na coragem de desligar o aparelho e suportar o próprio eco.

Porque o silêncio não é ausência de som. É presença de si.

E isso dói.

Dói perceber que não somos tão interessantes quanto nossa persona digital. Dói descobrir que nossas convicções fazem mais barulho do que sentido. Dói admitir que precisamos de ruído constante para não encarar a mediocridade de certos sonhos.

O silêncio é uma sala escura onde a verdade acende a luz sem pedir licença.

Por isso o evitamos.

O mundo está barulhento porque fizemos do barulho um escudo que nos protege da introspecção, da responsabilidade, da necessidade de amadurecer. Ele transforma qualquer reflexão profunda numa distração rasa.

Talvez os últimos lugares de silêncio não estejam geograficamente localizados. Não são mosteiros nem montanhas. São decisões. A decisão de não comentar. De não reagir. De não preencher cada intervalo com alguma coisa.

Mas isso exige uma coragem que o nosso tempo não ensina.

O mundo grita porque tem medo de sussurrar.

E nós, como crianças que não suportam o escuro, mantemos todas as luzes acesas — não para enxergar melhor, mas para não ver o que realmente importa.

Circuito fechado de intimidades limitadas - Mauro Marcel

 Capacete ainda morno de suor alheio, calcinha rendada esquecida no box, cueca de elástico frouxo, meia com cheiro confessional, escova de dentes mastigada até o talo, fio dental com restos de jantar, palito de unha, toalha úmida embolorada no gancho, desodorante roll-on fazendo turismo de axila em axila, lâmina de barbear com pele estrangeira, sabonete gasto com impressões digitais indecifráveis, esponja de banho saturada de intimidades microscópicas, bucha vegetal em decomposição filosófica, chinelo moldado ao formato exclusivo do pé, palmilha ortopédica personalizada, protetor bucal com arcada registrada, aparelho dentário removível, prótese dentária repousando em copo suspeito, colírio pingado em conjuntivas democráticas, lente de contato boiando em solução duvidosa, óculos de grau calibrados para miopias particulares, cotonete reincidente, alicate de unha com vestígios, pinça de sobrancelha conspiratória, batom mordido, gloss compartilhado, base oxidada, corretivo estratégico, pincel seboso, esponja de maquiagem úmida de segredos dérmicos, creme antiacne, pomada para micose, remédio controlado, cartela pela metade, exame clínico dobrado na bolsa, histórico médico confidencial, receita psiquiátrica, absorvente íntimo, coletor menstrual, fralda geriátrica, preservativo no bolso errado, vibrador silenciado na gaveta, pilhas gastas, manual escondido, pijama amarrotado, travesseiro com mapa de baba seca, cobertor com cheiro de insônia, copo de uso contínuo com marca de batom persistente, garrafa térmica com saliva reciclada, marmita requentada, talher lambido, protetor labial rachado, toalha de rosto comunitária por descuido, escova de cabelo carregada de fios, elástico arrebentado, aparelho auditivo, molde de ouvido, fone intra-auricular engordurado, aparelho CPAP noturno, máscara de dormir impregnada de sonhos, senha do celular anotada em papel amassado, cartão do banco plastificado, token de segurança, biometria digital, reconhecimento facial, diário com cadeado frágil, carta nunca enviada, foto íntima arquivada, pen drive rotulado “trabalho”, pen drive real, anotações de terapia, print constrangedor, conversa arquivada, rascunho de demissão, rascunho de amor, aliança empenada, contrato pré-nupcial, testamento improvisado, segredo de família, dívida oculta, trauma de infância, apelido humilhante, apelido carinhoso, fantasia guardada, fantasia descartada, silêncio espesso, silêncio comprado, silêncio cúmplice — tudo exposto, tudo antes privativo, tudo misturado e vazio, sem luto, sem indecisão, tudo finito, tudo coisa a desvendar e desvendada em hábitos que não podemos sustentar, tudo reduzido a objeto circulante, etiqueta arrancada, manual ignorado, fronteira apagada, corpo em comodato, intimidade em consignação, segredo em liquidação, desejo em vitrine, vergonha em estoque, nojo em promoção, identidade terceirizada, individualidade reciclável, afeto higienizado, memória compartilhável, senha replicável, pele permutável, saliva socializada, medo diluído, trauma comentado, gaveta arrombada, diário fotocopiado, travesseiro coletivo, consciência de uso comum — tudo tão disponível que já não pertence, tudo tão tocado que já não toca, tudo tão aberto que já não é nosso, circuito fechado de empréstimos impossíveis, devoluções impraticáveis, perdas sem protocolo, devoluções sem recibo, e no fim apenas isso: um amontoado de intimidades transformadas em coisa alguma.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Leia os clássicos!

 Conheci muitos jovens inteligentes que sabem tudo sobre o algoritmo do momento e nada sobre o homem. Sabem editar vídeos em quinze segundos, mas não suportam uma página inteira de um romance do século XIX. Têm opinião sobre geopolítica porque viram um corte de trinta segundos, mas jamais sentaram para ouvir, em silêncio, um morto que escreveu há duzentos anos. E é por isso que, se me fosse permitido dar apenas um conselho — um único, seco, impopular, antipático — eu diria: leiam os clássicos.

Sim, eu sei. Parece coisa de velho ranzinza que começa frase com “no meu tempo”. Talvez eu seja esse velho. Mas há uma diferença entre o saudosismo e a constatação amarga: tudo o que é permanente se transforma em clássico. E tudo o que é provisório apodrece antes de terminar a estação.

O jovem de hoje — e não o culpo inteiramente — foi convencido de que vive o auge da humanidade. Acredita que a história começou com a internet e que o mundo nunca foi tão complexo quanto agora. Se tivesse lido Guerra e Paz entenderia que a complexidade humana já era indecifrável quando Napoleão ainda respirava. Se tivesse atravessado Os Irmãos Karamázov perceberia que as crises de fé, de moral e de sentido não nasceram no Twitter. Se abrisse Dom Casmurro descobriria que a dúvida corrói mais que a traição — e que o narrador nunca é inocente, sobretudo quando parece sincero demais.

Mas não. Preferimos o comentário sobre o comentário do comentário. Preferimos a reação à reação. A vida virou rodapé de si mesma.

Outro dia ouvi um adolescente dizer que não vê sentido em ler coisa “antiga”. Antiga. Como se o amor tivesse sido atualizado na versão 3.0. Como se a inveja tivesse recebido patch de segurança. Como se a morte tivesse deixado de funcionar. Bastaria ler Hamlet para entender que a indecisão já matou mais do que qualquer espada. Bastaria folhear A Ilíada para perceber que a ira continua sendo o motor secreto das guerras — pessoais e coletivas.

O clássico não é clássico porque é velho. É clássico porque continua verdadeiro quando tudo ao redor envelhece. Ele resiste às modas, às hashtags, às teorias pedagógicas da estação. Ele atravessa regimes, revoluções, reformas curriculares e planos nacionais de educação. Ele fica. O resto é espuma.

E aqui vai a parte pessimista que ninguém gosta de ouvir: perder tempo com o provisório é matar a vida um pouquinho todo dia. Não de forma dramática, não com sirenes ou tragédias gregas. É uma morte silenciosa, por distração. Você troca uma hora de Crime e Castigo por uma hora de vídeos aleatórios. Parece pouco. Mas faça isso por cinco anos. Depois me diga o que sobrou.

Não se trata de elitismo. Não é uma defesa esnobe de estantes empoeiradas. É uma questão de densidade existencial. O clássico ensina a sofrer melhor, a amar com menos ingenuidade, a desconfiar de si mesmo. Ele não oferece atalhos. Ele exige esforço. E é justamente por isso que forma.

Eu aprendi mais sobre o Brasil lendo Os Sertões do que em qualquer debate apressado. Entendi mais sobre miséria humana em Vidas Secas do que em relatórios estatísticos. Descobri mais sobre hipocrisia familiar em Vestido de Noiva do que em tratados de sociologia.

Tudo está neles. A política, a vaidade, o ressentimento, a esperança, o fracasso, a redenção possível — e, sobretudo, a consciência de que o homem não melhora na mesma velocidade em que melhora a tecnologia.

O jovem que não lê os clássicos acredita que está inventando a roda emocional todos os dias. O que lê descobre que pisa no mesmo chão de gerações inteiras. Isso não o torna mais feliz. Talvez o torne até mais melancólico. Mas o torna menos ingênuo — e a ingenuidade, no mundo adulto, custa caro.

Sei que é um conselho impopular. Sei que serei acusado de ultrapassado, conservador, antiquado, talvez até ressentido. Aceito o rótulo com serenidade. Prefiro ser antigo com profundidade do que moderno com vazio.

Porque no fim — e este é o ponto que dói — a vida passa. E quando ela passar, não será o vídeo viral que fará companhia à sua memória. Serão as frases que resistiram ao tempo. Serão as vozes dos mortos que, paradoxalmente, estavam mais vivas do que os vivos apressados.

Leia os clássicos.

O resto é intervalo comercial.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Laranja mecânica, Ulysses e Francis Ford Copolla

 Há uma pergunta que paira nos cafés cult e nas timelines inflamadas: por que a arte de hoje parece tão domesticada? Tão higienizada? Tão… inofensiva?

Talvez porque o artista contemporâneo tenha aprendido a pedir licença antes de criar.

Houve um tempo em que a arte era um risco. Quando Madame Bovary levou Gustave Flaubert aos tribunais. Quando Ulysses fez de James Joyce sinônimo de obscenidade. Quando Laranja Mecânica transformou Stanley Kubrick em ameaça moral. A censura vinha de fora — do Estado, da Igreja, da moral pública. E, paradoxalmente, isso fortalecia a obra. O artista criava apesar da interdição, não por causa dela.

Hoje está dentro dentro do ateliê. Não usa farda nem carimbo oficial. Usa algoritmo e edital. Usa o medo difuso de desagradar. 

O artista começa a obra imaginando o tribunal virtual, a manchete distorcida, o boicote organizado. E então lima as arestas. Amacia o verbo. Corta a cena. Dilui o conflito. A criação nasce já negociada.

Quando esta besta quadrada se preocupa com quem pode se ofender,  deixa de tensionar o mundo para administrar susceptibilidades. Troca a angústia pela aprovação. E a arte, que deveria ser ferida aberta, vira comunicado institucional.

O resultado é um cinema que parece feito por comitê. Roteiros que não erram — e por isso mesmo não acertam. Personagens que representam causas antes de representar contradições humanas. Filmes que parecem cartilhas ilustradas, cuidadosamente equilibradas para não desagradar patrocinador, plataforma ou público segmentado.

O risco deixou de ser parte do processo e passou a ser simples inconveniência.  A ousadia virou passivo reputacional. A provocação um problema de marketing.

A arte grande sempre foi incômoda porque expunha o que preferimos esconder. Não perguntava se podia entrar; arrombava a porta. 

Quando Nelson Rodrigues colocou a hipocrisia da família brasileira no palco, ele não abriu enquete no foyer para saber se a plateia se sentia representada. Ele expôs. E quem se reconheceu que tratasse de engolir seco. Quando Plínio Marcos fez cafetões e miseráveis falarem a língua que realmente falavam, não chamou consultor de imagem para aparar palavrão. Quando Lars von Trier lançou Antichrist, não anexou manual de instruções emocionais. Quando Francis Ford Coppola afundou na selva moral de Apocalypse Now, não pediu que a guerra fosse compreendida sob a ótica do conforto doméstico.

Quando Clarice Lispector escreveu o desconforto feminino sem maquiagem, não se preocupou se seria “didática”. Quando Charles Bukowski transformou o fracasso em literatura, não frequentou oficina de boas maneiras. Quando Pablo Picasso pintou Guernica, não tentou equilibrar os lados para parecer sensato — escolheu a deformação, o grito, o incômodo.

Nenhum deles produziu conteúdo. Produziram conflito.

A arte não nasceu para ser simpática. Nasceu para ser necessária. O problema é que hoje o artista parece mais preocupado em ser aceito no coquetel do que em ser lembrado na História. Prefere o aplauso imediato ao escândalo duradouro. Quer trending topic, não quer tribunal. Quer aprovação, não quer tensão.

E assim vamos fabricando obras que não ofendem ninguém — e, por isso mesmo, não marcam ninguém. Filmes cuidadosamente calibrados para não ferir suscetibilidades, peças que parecem relatórios, romances que soam como campanhas institucionais. Tudo muito responsável. Tudo muito consciente. Tudo muito esquecível.

Talvez a diferença esteja aí: antes, o artista corria o risco de ser proibido. Hoje, corre o risco de ser cancelado — e treme. E quando a mão treme a obra nasce tímida.

A grande arte sempre foi um pouco indecente. A arte excessivamente preocupada em ser correta termina apenas correta. E correção nunca foi sinônimo de grandeza.

Etimologia, favela e improviso

 Estudar História é um exercício de desilusão. A gente começa acreditando que vai encontrar heróis e termina encontrando escombros. Estudar etimologia, então, é quase um ato de crueldade intelectual: as palavras denunciam aquilo que a política tenta maquiar.

“Favela” não nasceu poética. Não foi invenção lírica de sambista nem metáfora de resistência urbana. O termo vem da Guerra de Canudos, quando soldados, ao retornarem do massacre, ocuparam um morro no Rio de Janeiro e o batizaram com o nome do morro baiano coberto pela planta favela. Ou seja: a palavra já nasce ferida. Surge do improviso, da ausência de Estado, do resto que sobra depois da guerra. Favela é, etimologicamente, moradia improvisada. Improviso que virou política pública permanente.

E como toda palavra que começa provisória, acabou se tornando definitiva — mas só para os pobres.

Há quem romantize. Há quem veja na precariedade uma estética, uma potência cultural, uma espécie de autenticidade bruta. Como se o esgoto a céu aberto fosse um manifesto artístico. Como se a laje sem reboco fosse uma escolha arquitetônica. A miséria ganhou filtros conceituais. Virou pauta acadêmica, virou documentário premiado, virou cenário exótico para estrangeiro fotografar do alto, preferencialmente depois de visitar o Cristo Redentor.

Mas ninguém deveria ser feliz por morar numa favela. Pode ser feliz apesar dela. Apesar do barranco que desliza. Apesar do ônibus que não sobe. Apesar da escola que falta. Apesar da polícia que entra atirando e do Estado que entra prometendo. Felicidade não pode ser confundida com resignação.

Aceitar a favela como destino é aceitar a precariedade como projeto de país. É admitir que existe uma geografia oficial e outra tolerada. É normalizar o improviso como política habitacional. É dizer, com elegância sociológica, que há vidas que podem continuar sendo provisórias.

Urbanização não é maquiagem. Não é pintar muro e instalar Wi-Fi para produzir manchete. Urbanização é moradia digna, é saneamento, é rua asfaltada, é endereço que chega correspondência sem pedir favor. É transformar o improviso em estrutura. É substituir a gambiarra por planejamento. É fazer com que a palavra “favela” volte a ser apenas botânica — e não social.

Talvez seja pessimista dizer isso. Talvez soe duro afirmar que celebrar a favela como identidade permanente é celebrar o fracasso coletivo. Mas a História ensina — e a etimologia confirma — que as palavras carregam cicatrizes. E “favela” carrega a cicatriz do abandono.

Estudar História faz bem porque impede a anestesia. Estudar etimologia faz melhor ainda: mostra que o que hoje parece natural começou como emergência. E emergência que dura mais de um século deixa de ser acidente. Vira escolha.

E ninguém deveria aceitar como escolha aquilo que nasceu como improviso.

Mauro Marcel explica o Parnasianismo.


 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Carnaval, São Paulo e moralismo burguês

 São Paulo descobriu o Carnaval como quem descobre um espelho novo — e passa a se admirar numa imagem que não reconhece, mas insiste em amar.

Durante décadas repetimos, com um certo provincianismo, que aqui não havia Carnaval. Havia trânsito. Concreto. Pressa. Havia uma ética quase protestante do trabalho que transformava fevereiro num mês  um pouco mais quente, inundado e igualmente produtivo. O samba, diziam, morava em outro CEP. São Paulo era o seu túmulo, e ainda é.

O curioso é que agora as pessoas sambam por cima desta cova.

E a imagem é triste.

Não me entendam mal: não é a alegria que me incomoda. É o patrocínio da alegria com hora e data marcada. Blocos gigantescos financiados por indústrias do entretenimento, bebidas, aplicativos, artistas que pousam como messias elétricos sobre trios importados de uma baianidade pasteurizada. Um pastiche estranho. Uma fantasia comprada em doze vezes sem juros. São Paulo brincando de ser o que nunca foi — e talvez nem precise ser.

Há algo de profundamente paulistano nessa tentativa de imitar o espontâneo. Organizamos a desordem. Regulamentamos o improviso. Transformamos a catarse em planilha. O bloco vira evento. O evento um produto. O produto engajamento.

A multidão vira público-alvo.

Sou de uma época — e não faz tanto tempo assim — em que Carnaval era coisa de alienado. “Gente burra mesmo”, dizíamos, com a arrogância juvenil de quem acredita que ler duas páginas de Marx nos tornava superiores ao batuque da esquina. Havia um certo orgulho em não gostar. Em ficar em casa. Em assistir ao noticiário com ar de quem compreende a decadência do mundo.

Hoje, ironicamente, vejo intelectuais improvisados sobre trios elétricos patrocinados, discursando entre um gole e outro, transformando a festa em palanque líquido. Existe um termo antigo entre os socialistas históricos para essa fauna: “esquerda festiva”. Aqueles que fazem da política uma senha para circular em festas, beber e animar as multidões. Em São Paulo, "a festiva" e alienada parece ter encontrado seu habitat natural: o bloco com abadá conceitual.

Mas talvez, e apenas talvez, eu esteja sendo injusto. 

Talvez toda festa carregue em si uma tentativa de esquecer — e esquecer seja uma forma legítima de sobrevivência. A cidade que trabalha até morrer agora tenta morrer dançando. O problema é que a dança soa ensaiada demais.

Olho as avenidas tomadas por uma alegria ruidosa e penso se nos perdemos ou quiçá nos encontramos. Quem sabe sempre tenhamos sido isso: uma cidade envergonhada de si, querendo ser outra. Um corpo de concreto tentando gingar. Um cemitério tentando florescer.

Há algo de profundamente solitário naquela euforia coletiva. Milhões de pessoas juntas, cada uma filmando a própria alegria para provar que ela existiu. A fantasia é compartilhada; a experiência é individual. O bloco é enorme; o sujeito é minúsculo.

No fundo, muito no fundo, o samba continua enterrado.

E com a música alta, há também um silêncio curioso — imposto pelo Unidos do Moralismo Burguês às avessas — que vigia e constrange qualquer voz dissonante. Não se pode mais chamar o Carnaval pelo que ele é: um delírio coletivo com data marcada, uma catarse programada num país que ainda não resolveu o básico e transforma a própria precariedade em espetáculo exportável. 

Questionar virou heresia. Apontar o exagero um pecado social. 

E assim seguimos, celebrando com fervor aquilo que, no fundo, é apenas a nossa dificuldade crônica de encarar a própria feiúra sem glitter.



Anexo à crônica:
Etmologia da palavra "folião"

A palavra folião vem de folia, que por sua vez tem origem no francês antigo folie, derivado de fol, que significava “louco”, “insensato”.

O francês folie vem do latim vulgar follia, relacionado a follis, palavra latina que significava “fole” (o instrumento que sopra ar) e, por extensão metafórica, algo “vazio”, “inchado de ar”. Daí surgiu a associação com alguém “cheio de vento na cabeça” — ou seja, tolo, insensato.

O percurso etimológico é mais ou menos assim:

follis (latim: fole, saco de ar) → ideia de vazio / cabeça cheia de ar → fol (francês antigo: louco) → folie (loucura) → folia (português: festa ruidosa, alegria exagerada) → folião (aquele que participa da folia)

Aula com o tema: Geração canguru.